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Agrupamentos de enunciados mediados pela interface

5.2 A identificação dos enunciados

5.2.1 Agrupamentos de enunciados mediados pela interface

O primeiro agrupamento de enunciados a que fazemos referência neste segmento é aquele composto de itens que facultariam um certo tipo de interação reativa (PRIMO, 2000). Para Primo (2000), interações reativas são baseadas em operações determinísticas e previsíveis, uma vez que independem do contexto imediato no qual os interagentes se encontram para se efetivarem. São derivadas de modelos informacionais de tratamento dos dados, enfatizando a eficiência do canal de comunicação em transportar um estímulo de um lado a outro. Pensando em relação, Primo afirma que as interações reativas são causais, não admitindo negociação.

Assim, a cada vez que o usuário aciona botões e opções como like (“gostei”), não depende do contexto para se engajar nesse evento de interação. Tampouco o estímulo por ele gerado – um like a mais a ser contabilizado pelo sistema do site – não parece ser afetado por determinações de ordem contextual, sendo compreendido pelo sistema como um comando isento de ambiguidade (“Usuário X me diz que gostou do vídeo exibido nesta lexia”). Prevalece o esquema de subordinação causa-efeito. Acreditamos ser possível apresentar algumas ponderações a esse respeito, considerando o universo desta pesquisa e seus condicionantes.

Da perspectiva das relações entre interagentes e da circulação de agência, cumpre notar que o engajamento em eventos de interação desencadeados por mecanismos de interação reativa não pode ser considerado per si, isolado daquele quadro de relações. Assim, fenômenos como a espiral do silêncio (NOELLE- NEUMANN, [1977] 1993) ou as zonas de conforto (BAUMAN, 2016) parecem incidir sobre a apropriação dessas funcionalidades. Sim, acreditamos ser possível se apropriar de um botão like por lógicas outras que não as formalizadas pelo designer de interfaces. A relação causa-efeito se mantém, porém se instrumentaliza sob regimes de uso específicos, localizados, que pressupõem certas modalidades de circulação de agência, em que, por exemplo, o like possui efeito cumulativo – para os actantes-usuários, pode servir para dar visibilidade a uma preferência coletivamente partilhada, por exemplo. Já para para o actante-interface, é um dos ‘postos de coleta

de dados’ que permitirá metrificar a atividade daqueles usuários, repercutindo em ações como a inserção de anúncios numa lexia. Assim, os actantes podem produzir ação dentro das possibilidades inicialmente previstas na interface, contudo imbuídos de certos propósitos ou mesmo estratégias. Consideremos a Figura 22, em que se observa, indicado na notação 1, o registro de likes e dislikes em L5.

Figura 22: contagem de likes e dislikes e função de compartilhamento em L5

Fonte: Reprodução

L5 possuía, no momento do acesso registrado no print acima, 445.532 visualizações de vídeo (uma íntegra de um álbum da banda The Whitest Boy Alive) desde sua publicação em abril de 2014. O vídeo tinha 1747 likes e 43 dislikes. Essas estatísticas, para além de indicar um certo tipo de evento de interação (“Usuário X diz que gosta de vídeo na lexia L”), dizem respeito a um tipo de metrificação cujas implicações podem dizer respeito aos interesses do actante-interface (quais serão os postos de coleta de dados nesta interface? Que itens serão funcionais e atrativos o suficiente para viabilizar essa coleta?) mas também do actante-usuário (de que maneira posso me servir das funcionalidades disponíveis para me fazer visível, para me inscrever num dado campo de associações?).

Dessa maneira, constatar a prevalência da escolha pela opção like em detrimento da opção dislike nos convida a pensar nas conveniências do actante- interface (que age por nossa delegação e também pela delegação do(s) sujeito(s) institucional(is) que lhe facultam a existência e nas formas de associação levadas a termo pelos actantes-usuários. Em L5, a descrição do vídeo (um espaço textualmente orientado sobre o qual a interface possui pouca ingerência, a princípio cabendo ao usuário que posta o conteúdo) sugere um certo endereçamento para os eventos de interação e para o fluxo de agência dos usuários: “Comente qual sua ‘Faixa Favorita’ – a favorita de noHiPSTER é 04:18 - 02 – Gravity” (YOUTUBE, 2016. Tradução

nossa74). A convocação repercute nos comentários, mas pode-se supor que o acúmulo de likes também funcione como uma resposta a esse comando. L5 é apropriada para se tornar o domínio de um fandom (FISKE, 1992), isto é, um domínio cultural composto por fãs que partilham empatia e camaradagem em razão da admiração por um mesmo produto cultural.

Para Fiske, os fandoms se caracterizam pelo que chama de produtividade do fã, expressa em modos de relação para com o objeto de adoração. Neste caso, o acúmulo de likes atribuídos por admiradores se aproxima do que o autor denomina de produtividade enunciativa do fã: um jeito de produzir algum enunciado acerca da obra de preferência, como forma de afirmação de sua condição de fã. Na notação 2, a função de compartilhamento também possibilita o exercício dessa modalidade de relação com o produto cultural, uma vez que permite disseminar um vídeo em sites de redes sociais e plataformas de blog.

As inferências acerca dos eventos de interação aqui descritos se aplicam às demais lexias coletadas, e indicam uma instrumentalização contextual e orientada aos interesses dos actantes em itens que facultam interação reativa. Desse modo, há uma certa “discursividade” – entendida como opacidade – na apropriação desse ferramental, especialmente nos itens like e dislike. Assim, pode-se falar desses enunciados como instrumentos de coleta, inscrição, dotados da capacidade de criar movimento e estabelecer uma certa configuração associativa. São, ainda, índices do dinamismo que caracteriza a rede formada a partir do movimento de actantes específicos.

Do ponto de vista das relações entre enunciados, e ainda considerando o botão like como exemplo de mecanismos de interação reativa, o YouTube decreta a existência de dois horizontes axiológicos supostamente opostos, quando pareia a opção like à opção dislike (“não gostei”). A existência do botão dislike (“não gostei”) parece remodelar o universo responsivo desses usuários, que passam a considerar as possibilidades de valoração negativa, abrindo espaço para polarizações mais evidentes entre defensores e detratores (sendo esse um padrão que estimula a controvérsia em muitas lexias do YouTube).

No caso da disputa simbólica mediada pela interface em L5, o espaço potencial para a controvérsia – já que L5 coloca em evidência os gostos pessoais dos actantes

humanos – é circunscrito pela orientação fornecida na descrição. Isso cria condições para que os mecanismos de interação reativa em tela (like e dislike) também passem a integrar o aparato a que os actantes podem recorrer, no espaço dessa interface, para afirmar suas preferências – mais provavelmente, aquelas sugeridas pela valoração positiva na qual se alicerça o comentário.

Tais conclusões apontam para caminhos ora convergentes, ora distintos, dos apontados por Recuero (2014a) no exame da funcionalidade curtir no site Facebook. Convergentes por assumirem que a funcionalidade like é ambivalente, podendo variar em função de propósitos dos actantes. Distintos em razão das nuances que a ferramenta adquire nesta interface específica, como sua relação com outros discursos (a orientação fornecida por eles, como vimos) e também pelo contrapeso da funcionalidade dislike, sugerindo algo além da função primordial de preservação de faces aludida pela autora.

Essas inferências sobre os mecanismos de interação reativa não implicam em afirmar a obsolescência dessa categoria. Antes, servem para afirmar que os eventos de interação por eles desencadeados a) fazem circular agência e b) se relacionam a outros enunciados numa configuração específica de prática discursiva (tanto do ponto de vista da produção, como da circulação e do consumo). Assim, eles se relacionam de forma decisiva, ao menos na interface aqui analisada, aos eventos de interação desencadeados por mecanismos de interação mútua, definidos por Primo (2000) como capazes de facultar uma relação negociada, aberta e imprevisível entre interlocutores. São itens dessa categoria, em nosso entendimento, os vídeos, as descrições e os comentários contidos nas lexias analisadas.