3 ALTERIDADE E IDENTIDADE
3.5 A AIDS COMO ALTERIDADE/IDENTIDADE NOS CONTOS DE CAIO
Caio F. Abreu, em entrevista a José Castello para o jornal O Estado de São Paulo, em 09 de dezembro de 1995, aproximadamente dois meses antes de sua morte, foi indagado como era escrever sobre a AIDS sendo soropositivo. O escritor responde:
A ideia da contaminação já aparece em meus livros, indiretamente, desde 1983. Não me vejo, porém, como um Hervé Guibert brasileiro, até porque acho que ele lidava com a morte como algo muito mórbido, obsessivo. A Aids não deve ser supervalorizada, ela é uma coisa tão medonha quanto o Chirac explodindo bombas atômicas no Pacífico. A Aids é só um dado a mais da loucura contemporânea (ABREU, 1995h, p. D4).
Segundo Marcelo Secron Bessa (2002), ainda que o autor gaúcho tenha adotado uma postura sutil na maior parte de sua obra, ao abordar o tema AIDS, foi um dos pioneiros no assunto. Já à época em que foi escrita a novela ―Pela noite‖, inicialmente publicada em Triângulo das águas, em 1983, e em um segundo momento, em Estranhos estrangeiros, livro póstumo, de 1996, há presença de todo o universo homoafetivo, até mesmo na epígrafe, que é um trecho de Fragmentos de um discurso amoroso, de Barthes40.
O leitor percebe que há, nessa novela, um evidente jogo de sedução entre Pérsio e Santiago que evolui além do desejo sexual, quando ―o que vai acontecendo, o que importa e o que vai começando a importar nos dois é o conhecimento do ser humano que existe por trás das máscaras de cada um‖ (ABREU, 1996a, p. 9). Ocorre o clímax final quando ambos se permitem se acariciar com uma liberdade maior, agora, sem o jogo sedutor de antes ―— Quero ficar com você. Provaram um do outro no colo da manhã. E viram que isso era bom‖ (ABREU, 1996a, p. 154).
40 ―Mas também, às vezes, a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me
atribuo?), penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir, é noite do sem-proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a
oscuras: eu estou lá, sentado, simples e calmamente no negro interior do amor‖ (BARTHES apud ABREU, 1996a,
Na novela ―Pela noite‖, o autor trata a relação homoerótica com uma intensidade nunca vista anteriormente. Santiago namorou uma garota de sua cidade interiorana ―Passo da Guanxuma‖ por seis anos, e também um rapaz, por dez anos, quando se mudou para São Paulo. Por isso, ele era bem resolvido com sua sexualidade e vivenciava o sentimento homoerótico sem dor, sem culpa, sem tormentos, muito diferente de Pérsio, que revela ter uma identidade insegura, chegando a ser, de fato, reprimido e preconceituoso, atitudes que vêm à tona quando ficou nervoso fazendo cena de ciúme de Santiago, e aos berros repugna a presença de Carlinhos, que questionou se eles tinham um ―caso‖: ―— Não disse? Veado é foda. No restaurante chegou cheio de salamaleques [...]. No gueto perdeu logo o respeito, já veio invadindo [...] querendo saber se é caso. Pelo amor de Deus, caso, mais um pouco e ia falar em entendido. Que nojo‖ (ABREU, 1996a, p. 127).
No texto, há referência à doença, revelada por Pérsio, contudo, ―não há pessoas moribundas nem infectadas pelo HIV, ou seja, a presença da AIDS é nula (BESSA, 2002, p. 109). Segundo Bessa (2002), esse é, provavelmente, um dos primeiros textos da Literatura Brasileira a tematizar o homoerotismo de maneira mais intensa e a mencionar, pela metáfora, a doença: ―Você me reconhece. E por me reconhecer tem medo? A peste de que nos acusam‖ (ABREU, 1996a, p. 93, grifo nosso).
A existência da identidade homossexual das personagens Pérsio e Santiago, bem como de outros que integram as histórias de Caio F. Abreu em Os dragões não conhecem o paraíso e Ovelhas negras, apresentados pelo narrador sem um nome, sem um ―rosto‖, está relacionada ao conceito de identidade pós-moderna de Baumam (2005), que, em seu desdobramento, nomeia de ―subclasse‖ pessoas ou membros de qualquer categoria ―arbitrariamente excluídas da lista oficial dos considerados adequados e admissíveis‖, como é o caso dos homossexuais, aidéticos, transexuais, mendigos, viciados e ex-viciados, entre outros. A ―identidade de subclasse‖ é definida como ―a ausência de identidade, a abolição ou negação da individualidade, do ‗rosto‘ — esse objeto do dever ético e da preocupação moral‖ (BAUMAN, 2005, p. 46). Segundo o autor, a exclusão do sujeito se dá no espaço social em que as identidades são escolhidas, buscadas, construídas livremente:
[...] mesmo as pessoas a quem se negou o direito de adotar a identidade de sua escolha (situação universalmente abominada e temida) ainda não pousaram nas regiões inferiores da hierarquia de poder. Há um espaço ainda mais abjeto — um espaço abaixo do fundo. Nele caem (ou melhor, são empurradas) as pessoas que têm negado direito de reivindicar uma identidade distinta da classificação atribuída e imposta. Pessoas cuja súplica não será aceita e cujos protestos não serão ouvidos, ainda que pleiteiem a anulação do veredicto. São
as pessoas recentemente denominadas de ―subclasse‖: exiladas nas profundezas além dos limites da sociedade (BAUMAN, 2005, p. 45, grifo do autor).
A identidade dos que são excluídos e marginalizados representa o fruto de uma verdade imposta, aliada a proibições de muitas espécies e vindas de vários segmentos da sociedade. As personagens de Abreu nos contos em estudo se identificam neste universo dos outsiders, porquanto representam as ―identidades de subclasse‖, que não possuem um perfil definido como regem os paradigmas da normatividade social. Assim, nesse contexto, as personagens de Abreu — homossexuais e aidéticos — enquadram-se nessa perspectiva identitária da subclasse, pois fazem parte de um grupo minoritário de identidades sexuais excluídas, anuladas do circuito das instituições civis por não possuírem um rosto definido pelos princípios éticos e morais.
Bessa (2002), ao analisar outros escritores além de Abreu, infectados pelo HIV naquela época e que produziram obras sobre o tema AIDS, como o mineiro Herbert Daniel, autor do prestigiado livro Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos, afirma que são muito poucos os textos sobre o tema que podem ser considerados literários como os do escritor gaúcho. Os do mineiro, em sua maioria, eram relatos documentais e depoimentos considerados também muito significativos para o contexto da época; todavia, o ensaísta e pesquisador diz ter encontrado, na obra do autor mineiro, ―pouquíssimas coisas de literário‖ (BESSA, 2002, p. 102), ao contrário do farto material literário que identificou na obra de Abreu, quando este escreveu sobre a epidemia. O próprio autor se sentia à margem por não tratar em sua obra de temas ―dignos, literários‖. Um tema como a AIDS, por exemplo, visto pela sociedade e pela mídia como polêmico, negativo, associado ao fatídico engodo da morte, tal qual o verso de Fernando Pessoa (1990, p. 113) — um dos seus poetas favoritos —, ao expressar o destino da vida: ―A única conclusão é morrer‖, descreve um sem-número de imagens negativas e pessimistas, que vão além das fronteiras do discurso sobre a doença.
O texto literário de Abreu, na abordagem da epidemia, tem a estrutura da narrativa aliada à elipse, embora a doença seja facilmente identificada pelas metáforas e pela simbologia de que o autor se utiliza para caracterizá-la. Caso contrário, a sigla a tornaria cotidiana, comum, sem o sentido trágico, discriminatório e emblemático que a permeia. Dessa forma, acabaria por isentá-la de suas metáforas, como enseja o discurso de Sontag (2007), pois, ao contrário, seria vista apenas como mais uma enfermidade, sem ser identificada pelo seu estigma condenatório. Essa doença, ironicamente, pode vir a transformar e a regenerar a sua vítima, ao condicioná-la a uma identidade obsessiva pelo desejo de viver, pela coragem da
travessia das fronteiras da sobrevivência, que foi o que ocorreu com Caio F., e é o que será abordado mais adiante, no item 4.2. Quanto à metaforização da doença, Abreu (1995h), na entrevista concedida a José Castello, intitulada ―Caio Fernando Abreu remedia o destino‖, no jornal O Estado de São Paulo, afirma achar curioso que ela já apareça como metáfora, em obras como A peste, de Albert Camus (2017), ou Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe (2014), e explica que esses livros já trabalham com as metáforas da epidemia, bem como com a ideia de contaminação do homem contemporâneo.
Para muitos escritores, a literatura emerge da experiência que é ficcionalizada e se torna um ―grande trunfo da verdadeira narração‖ (BENJAMIN, 1996, p. 205). No grande boom da AIDS, nos anos 80 e 90, surgiram, assim como Caio, escritores que, contaminados pela doença, narraram a experiência em um misto de realidade e ficção, como é o caso de Jean-Claude Bernadet (1996), cineasta e escritor, nascido na Bélgica e naturalizado brasileiro. Escreveu A doença como experiência, em que descreve os primeiros meses após ter o diagnóstico positivo do vírus. Em sua ficção, ele retrata o receio das pessoas ao mencionar a sigla AIDS na década de 1990, inclusive dentro dos próprios hospitais, como se pode verificar no seguinte trecho:
Fui internado nesse hospital classe A pela primeira e última vez, a senhora que me transmite a informação não é das mais amáveis. Ela não fala em doença, muito menos em AIDS, ela diz, O seu problema. Não respondo O meu problema é a senhora, receio piorar a situação. Tento forçá-la a pronunciar a palavra, digo, Qual é o meu problema?, ela responde, O senhor sabe, a sua doença. Ela não pronuncia. Ela acrescenta, generosa, Mas o convênio está disposto a colaborar com o Estado, que tem recursos escassos (BERNADET, 1996, 18-19).
Mesmo com toda restrição e temor em pronunciar a sigla AIDS, a síndrome passa a ser um leitmotiv da escrita dos anos 90, principalmente por ter-se transformado na doença fatal, incurável e condenatória. Dessa forma, a nova face temática da escrita literária se torna um modo de registrar, pela ficção, a face obscura da ―epidemia do mal‖, que matava dezenas de pessoas por dia nos primeiros anos de seu surgimento. A AIDS se torna, desse modo, uma face da vida para muitos e é representada por artistas, intelectuais e escritores soropositivos nos anos 80 e 90, pelo viés da criação, compondo uma identidade que é ordenada pelo destino, como resume o verso que contextualizamos aqui com os ecos de um intertexto drummondiano: ―Chegou um tempo em que a [AIDS] é uma ordem‖. Dentro do contexto desse verso, as obras literárias de Abreu, desde a novela ―Pela noite‖, trazem o homoerostimo redimensionado, cujo tema passa a ganhar fôlego agregado à temática da AIDS nos contos de Os dragões não conhecem o paraíso, considerado por Castello (1999) o seu melhor livro. A identidade, portanto, de muitas de suas personagens, como
a ―mulher‖, personagem do conto ―Sapatinhos vermelhos‖, e o ―filho‖, personagem do conto ―Linda, uma história horrível‖, são frutos de uma sociedade que está associada à AIDS, e, consequentemente, ao sentimento de exclusão e incerteza, pois essas personagens estão fadados à imprevisibilidade da vida, à vulnerabilidade da existência humana. Assim, a AIDS, como uma identidade condenatória, punitiva, ―sem saída‖ e rejeitada, aparece nesses dois contos como algo inevitável. A AIDS, como alteridade, não camufla a identidade da doença, pois ―ela põe pra fora quem o que a pessoa é‖ (WEEKS, 1990, p. 138).
Em ―Sapatinhos vermelhos‖, a personagem feminina tinha nomes como Adelina (para o amante) e Gilda, entre outros, para os demais. Vivia sempre trocando sua identidade para garantir o anonimato, pois era uma quarentona noturna com pretensões de seduzir homens para o sexo. Ironicamente, na noite de sexta-feira da paixão, com seus sapatos vermelhos e sensuais, ―Gilda‖, uma de suas identidades, foi à boate seduzir os homens e os levar para a cama, três de uma só vez. Impossível aqui não perceber a relação intertextual que o narrador faz com a personagem sedutora e erótica do filme norte-americano de 1946, Gilda, protagonizado por Rita Hayworth; todavia, a Gilda de 1946 não seria sucumbida pela AIDS como esta dos sapatos vermelhos:
Que tirasse tudo, menos os sapatos. Os três imploraram no quarto em desordem. [...]. Tirou tudo, jogando para os lados. Menos as meias de seda negra, com costura atrás e os sapatos vermelhos. Nua, jogou-se na cama de chenile rosa, as pernas abertas. Eles a cercaram lentos, jogando as zorbas sobre o crepe negro (ABREU, 2012c, p. 76).
O prazer e o sexo desmesurados eram, naquele momento, contudo, um risco, que, muitas vezes, as pessoas ignoravam por desconhecimento e informação. Os sapatos vermelhos, símbolo da sedução e do despudor daquela mulher, foram guardados após uma noite de puro sexo, em um ―papel de seda azul clarinho‖ (ABREU, 2012c, p. 79), antes que ela cedesse à tentação novamente e se metamorfoseasse em ―Gilda‖. Após o sexo a três, ela ―não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas [...], lambuzada do leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita. [...]‖ (ABREU, 2012c, p. 78). Com todo esse cenário, era inevitável que acontecesse o pior, a presença da AIDS naquele corpo feminino: ―[...] e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê‖ (ABREU, 2012c, p. 79)‖.
A identidade da personagem, a qual, inconscientemente, rejeita a ideia de estar contaminada pelo HIV, integra-se a um grupo que está sujeito à contaminação pelos ―excessos‖ do sexo e da irresponsabilidade diante do risco, quando calçava os sapatos vermelhos e cedia ao intenso desejo libidinal e à fantasia do sexo com parceiros que desconhecia. Sontag (2007)
esclarece que a contaminação não é aleatória, pois cada infectado pelo vírus sabe por que e como o contraiu. A resposta ―sem saída‖ por causa de suas orgias noturnas veio quando a personagem foi ao médico, e o diagnóstico, naturalmente, não a surpreendeu, apesar de que, em seu íntimo, sempre fugira desse momento, pois a AIDS era um choque de identidade. Nesse conto, ao mostrar uma mulher ninfomaníaca e possivelmente soropositiva, o narrador não estaria dando-lhe uma conotação de mulher insaciável sexualmente ou doente? Em um primeiro momento, sim, porém sabemos que as mulheres no boom da epidemia, segundo Camargo (1994), em seus estudos sobre a AIDS e a sociedade contemporânea, não foram as responsáveis pela repercussão alarmante do caso nem foram expostas ao julgamento moral como foram os homossexuais masculinos. Portanto, podemos afirmar que o conto contribui para desmistificar a ideia de grupos de identidades monolíticas, de comportamento estável, uniforme. Nesse caso, a inserção da mulher como uma possível portadora do vírus HIV modifica o cenário da opinião popular.
No segundo conto, ―Linda, uma história horrível‖, já mencionado e analisado no item 3.2.3 deste capítulo, é, segundo o autor, ―a primeira ficção brasileira sobre Aids‖ (ABREU, 1995h, p. D4). Procuraremos não só acrescentar mais informações sobre o conto, como também analisá-lo, tendo a AIDS como viés central na relação de alteridade e identidade.
A narrativa retrata o protagonista — o ―filho‖ que visita a mãe solitária e doente — e ele, por sua vez, também um quarentão solitário como a protagonista de ―Sapatinhos vermelhos‖, traz em si as marcas do vírus tatuadas pelo corpo. Quando se olha no espelho da sala e vê refletida a imagem de um estranho, de um Outro diferente daquele que, antes, não possuía as manchas rosadas pelo corpo como no sarcoma de Kaposi. Contudo, vem à tona sua identidade de aidético, quando surge ―a descoberta de ser um ‗deles‘‖ (BESSA, 1997, p. 104). Nesse contexto, o autor afirma que ―essa nova personagem, o ‗aidético‘, também tem um passado, uma história, uma psicologia e, ainda, uma face e um corpo. Ser portador do vírus ou ser doente de AIDS implica deixar de ser quem é para ser um ‗aidético‘, para ter um corpo, uma face, uma história definidos‖ (BESSA, 1997, p. 109).
Além da mãe doente, na casa, havia uma cadela, ―Linda‖, a única a quem o narrador dá um nome. Não obstante, ela também estava doente, à beira da morte, como o filho e a mãe. A semelhança entre as três personagens era que estavam prestes a morrer. Tinham, pois, a morte como a alteridade de suas vidas. Os adjetivos ímpares ―Linda‖ e ―horrível‖ soam disformes e, aos poucos, no texto, o narrador vai revelando a ironia da morte. A cadela doente também possuía manchas rosadas pelo corpo como as dele. Condenados os três à morte, a mãe e a cadela, pelo tempo e a velhice; o filho, pela punição da escolha de sua identidade sexual, que era considerada divergente, antinatural e que o levou à contaminação pelo vírus HIV.
Abreu, como já mencionado no item 2.3.4, desde os anos 80, iniciou sua saga em tematizar a AIDS e a homossexualidade em seus contos de maneira estigmatizada, clandestina, indo desde ―Pela noite‖ até ―Depois de agosto‖, narrativa com que Caio se despede da vida, da literatura e da AIDS. Entre a primeira e a última narrativas sobre os dois temas — visto que, naquela época, um tema era sinônimo do outro — outras, também muito significativas, surgiram, como ―Linda, uma história horrível‖, ―Os sapatinhos vermelhos‖, ―Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira de Sanga‖, ―Dama da noite‖, que pertencem à obra Os dragões não conhecem o paraíso. ―Noites de Santa Tereza‖, ―Anotações sobre um amor urbano‖ e ―Sob o céu de Saigon‖ pertencem a Ovelhas negras; ―Pela noite‖ pertence ao livro Triângulo das águas e Estranhos estrangeiros, além do romance Onde andará Dulce Veiga?, em que a homossexualidade do protagonista e a descoberta da AIDS são motivo de uma frenética busca interior e um encontro com seus conflitos íntimos. Contudo, nessa travessia da vida e da obra, em que o autor vivencia a fase antes e pós-AIDS sob a trilogia ―vida=AIDS=morte‖, ele passa por diferentes etapas na construção de uma nova identidade: a de soropositivo. Tal face de Caio se identificava, em um primeiro momento, com sentimentos como culpa, medo, pânico e revolta. As constantes censuras da sociedade por aqueles que faziam parte do grupo de risco, como homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas injetáveis, despertavam o sentimento de culpa nessas vítimas do HIV. A contaminação era vista como sinônimo de perversão sexual ou perigo constante de transmissão.
Sontag (2007), sobre o assunto, assim se expressa:
Uma doença infecciosa cuja principal forma de transmissão é sexual necessariamente expõe mais ao perigo aqueles que são sexualmente mais ativos — e torna-se fácil encará-la como um castigo dirigido àquela atividade. Isso se aplica à sífilis, e mais ainda à AIDS, pois não apenas a promiscuidade é considerada perigosa, mas também uma determinada ―prática‖ sexual tida como antinatural (SONTAG, 2007, p. 98).
A partir das considerações apresentadas, observamos que a experiência com a doença se torna uma dor e, ao mesmo tempo, uma fonte de energia, em que o escritor se alimenta, abastece seu ser e ainda encontra a vontade de lutar pela sobrevivência, como ilustram as palavras de Lopes (2002, p. 254): ―A experiência revela e oculta, tem espaços de luz e de sombras‖. Alinhavada à literatura de Caio F., a AIDS dá a esse autor outra imagem, diferente daquela marginalizada pela mídia. A experiência com essa síndrome permeia trajetórias enveredadas na luz e nas sombras. Apesar de se tratar de um tema ―baixo astral‖, pesado, foi o que o lançou na mídia e o tornou conhecido, conforme as seguintes palavras de Bessa (2002):
Ironicamente foi um dos temas ―pesadíssimos‖ de seus textos, a AIDS, que, pulando de sua literatura para sua vida, retirou-o de certa forma, da margem, colocou-o em uma catapulta e lançou-o ao polo extremo, em que se situa a mídia. Após a descoberta de sua soropositividade e a sua declaração pública, em meados de 1994 (BESSA, 2002, p. 107).
Considerando que, desde a década de 1980, a literatura de Abreu tem como tema premonitório a AIDS, o diagnóstico de sua soropositividade só vem em agosto de 1994. A doença passa, portanto, a fazer parte de sua vida como um risco, como outra possibilidade de vida que, até então, ele não conhecera, apenas imaginara em suas ficções. Conforme Caio, a AIDS não era somente uma doença que afetava o sistema imunológico, mas também uma epidemia do pânico, da intolerância, do preconceito, da rejeição, ou seja, além da destruição do corpo, havia a deterioração psicológica, que era a causa maior dos males dessa síndrome. Na crônica ―A mais justa das saias‖, publicada no jornal O Estado de São Paulo, em 1987, e, posteriormente, em Pequenas epifanias41 (ABREU, 2006b), o autor discorre sobre a AIDS psicológica, que ele afirma ser a manifestação mais grave que poderia haver desse vírus, o qual estava matando a sociedade, aos poucos, pelo medo, horror e preconceito aos homossexuais:
Heteros ou homos (?) a médio prazo iremos todos enlouquecer, se passarmos a ver no outro uma possibilidade de morte. Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus — a aids psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido à distância. E da mente? Porque uma vez instalado lá, o HTLV3 não vai acabar com as suas defesas imunológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se. Sem isso, não tem graça viver, concorda? (ABREU, 2006b, p. 44).
Nessa crônica, Abreu (2006b) descreve quando foi a primeira vez que ficou sabendo da