3 ALTERIDADE E IDENTIDADE
3.1 ALTERIDADE E IDENTIDADE: ASPECTOS GERAIS
A franco-canadense Janet M. Peterson, professora e pesquisadora do Departamento de Estudos Franceses da Universidade de Toronto, na entrevista intitulada ―Pensando o conceito de alteridade hoje‖, afirma que ―alteridade e identidade são inseparáveis‖ (PETERSON, 2007b, p. 16), pois estão associadas a um processo de transformação da subjetividade dos indivíduos, que se inicia com o confronto entre diferença e alteridade. Essa diferença, por sua vez, pode se estabelecer pelo surgimento de outras identidades através da própria alteridade, do encontro com o Outro, com ―aquele estranho‖, ou pela ausência deste, visto que a não presença nos mantém como inacabados, ―na espera de nós mesmos‖ (LANDOWSKI, 2012, p. 12). Esse binarismo Eu/Outro revela que a diferença, em termos de identificação/identidade, pode ser tanto construída negativamente como positivamente. Sendo assim, quando se trata da exclusão ou marginalização daqueles que são identificados como ―Outros‖, estrangeiros, estranhos, no caso, em questão de gênero, raça, etnia, entre outros, constitui-se quase sempre de um olhar negativo sobre tais sujeitos. Ao contrário disso, a diferença pode ser vista de um modo mais positivo, como se revelasse a diversidade, a hibridez, considerada, por conseguinte, enriquecedora ao se tratar de movimentos sociais que tentam resgatar as identidades sexuais, femininas, negras...
Hall (2014), no ensaio ―Quem precisa de identidade?‖, afirma que o jogo da diferença em um processo de identificação/identidade obedece sempre à regra do mais que um, pois, para se dar continuidade ao processo da construção da identidade, é preciso requerer sempre aquilo que é deixado de fora, ou seja, o exterior que a constitui: o Outro. Nesse caso, o que nomeamos binarismo entre Eu/Outro se expressa por uma via de instabilidade, de desequilíbrio, o que Jacques Derrida (1973) informa ser necessário entre esses dois poderes. Segundo Hall (2014), no entanto, devido ao lugar do Outro, as identidades nunca podem ser ajustadas, idênticas, visto que esse Outro, muitas vezes, constrói e desconstrói modos de pensar, de ser, de existir, de acordo com os sistemas e contextos culturais, econômicos, políticos e sociais que estabelecem relação com a vida cotidiana, assim determinando um caráter de subordinação e dominação. Essa autoridade de tais sistemas induz o indivíduo a concordar por causa da concordância dos Outros. Por isso, entendemos que o sentimento de identidade, necessariamente, passa pela intermediação de uma alteridade a ser construída. Esta é, pois, a ponte, a travessia, que conduz à figuração da identidade.
Alteridade e identidade possuem conceitos amplos, fluidos e estão relacionadas a um movimento contínuo em que o sujeito assume papéis cambiáveis, cuja complexidade da vida moderna o faz assumir diferentes identidades, que, muitas vezes, encontram-se em conflitos. Ao estabelecer o foco nos estudos sobre a questão da identidade, Kathryn Woodward (2014) assinala que as identidades não assumem o caráter de rigidez, de inflexibilidade, porque estão sempre à mercê de contextos culturais, que possuem o controle e as expectativas de como quer que o Outro seja. Por outro lado, o indivíduo sempre mantém as seguintes indagações sobre sua própria identidade: ―Quem sou eu?‖, ―O que eu poderia ser?‖, ―Quem eu quero ser?‖. Tais perguntas estão relacionadas aos significados produzidos pelas representações, os quais dão sentido a nossa experiência e àquilo que somos como, por exemplo, os discursos midiáticos, que são um tipo de representação que constrói lugares a partir dos quais os sujeitos podem não só se posicionar, como também falar. Assim, tais representações, alinhadas a um processo cultural, estabelecem relações simbólicas e também sociais às quais o indivíduo é induzido a se submeter. Sobre o assunto, Woodward (2014, p. 19) salienta que ―A cultura molda as identidades a dar sentido à experiência e ao tornar possível optar, entre as várias identidades possíveis, por um modo específico de subjetividade‖. O Outro cultural é sempre visto como um problema, porque coloca em xeque nossa própria identidade. Esse Outro nos traz conflitos, confrontos e, inevitavelmente, é multiplicado em uma sociedade cada vez mais difusa e descentrada. Assim, o Outro se expressa sob as mais variadas formas de existir, redimensionando ainda mais seu caráter de multiplicidade, o que o faz assumir muitos Outros, sob a representação de gênero, cor, sexualidade, raça, nacionalidade, corpo, entre outros. O Outro toma uma dimensão que ocupa tudo ou quase tudo que está a nossa volta, pois:
[...] a alteridade diz respeito à nossa realidade vivida em todas as suas dimensões: pessoal, literária, institucional, política e ética. Com efeito, trata-se de uma problemática fundamental, incontornável em nossa vida e em nossa sociedade: a alteridade afeta a todos nós, sejamos imigrantes ou não, diferentes ou Outros com relação ao que se denomina o grupo de referência (PETERSON, 2007a, p. 13).
A partir das considerações apresentadas, podemos inferir que a alteridade tal como a identidade possui um caráter híbrido, plural, sem se encaixar em esquemas teóricos explicativos e definidos, pois as relações alteritárias que nos são constitutivas se estabelecem em uma via múltipla de amplas abordagens, fazendo com que a existência do indivíduo esteja em uma contínua interlocução entre o ―eu‖ e o Outro, pois é na relação com a alteridade que o ―eu‖ se constitui pelo resto da vida. Contudo, devido a essa hibridez que possui e à sua constante
mutabilidade, as identidades sociais, naturalmente oriundas da relação Eu/Outro, são construídas dentro desse processo de multiplicidade; por isso, possuem uma estabilidade duvidosa, que chega a ser instável. Afinal, a identidade é movimento e, segundo o ensaísta Tomaz Tadeu da Silva (2014), é interessante observar que muitas têm sido as metáforas utilizadas para denominar os movimentos que constituem a identidade. Quase todas elas recorrem à ideia de movimento, tais como: nomadismo, diáspora, cruzamento de fronteiras, entre outros. O ensaísta, portanto, exemplifica essa ideia de movimento dentro do processo identitário, com a seguinte citação:
A figura do flaneur, descrita por Baudelaire e retomada por Benjamim, é constantemente citada como exemplar de identidade móvel. Embora de forma indireta, as metáforas da hibridização, da miscigenação, do sincretismo e do travestismo também aludem a alguma espécie de mobilidade entre os diferentes territórios da identidade (SILVA, 2014, p. 86).
O caráter de mobilidade dos diferentes territórios da identidade teve seu processo de aceleração nos anos 60, principalmente a partir de 1968, quando os jovens e os grupos estudantis desafiaram, no Ocidente, o establishment e toda sua hierarquização, surgindo daí novos movimentos sociais e grupos identitários na luta pelos direitos de raça e etnia, de gênero e da política lésbica, da política do HIV e da AIDS. Esse caráter móvel de que a identidade é constituída tem, para muitos autores, como metáfora central, ―a viagem‖, porque ela induz o viajante a se sentir estrangeiro, o que o faz permanecer por um período determinado, temporário, como o Outro. Nesse aspecto de a viagem representar a metáfora do movimento no âmbito do caráter identitário, Silva (2014, p. 88) acrescenta: ―Na viagem, podemos experimentar, ainda que de forma limitada, as delícias — e as inseguranças — da instabilidade e da precariedade da identidade‖.
Essa ideia de ―viagem‖, utilizada para metaforizar o caráter fluido, móvel e instável das identidades, foi também um recurso ao qual Louro (2015) recorreu para retratar ideias de deslocamento, trânsito, desterro, em relação às identidades surgidas na pós-modernidade. Desse modo, ela nos traz a imagem do sujeito cambiante, fragmentado, dividido, que se lança em uma viagem ao longo de sua vida, ―na qual o que importa é o andar e não o chegar. Não há lugar de chegar, não há destino pré-fixado, o que interessa é o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto‖ (LOURO, 2015, p. 13). O dinamismo presente na ideia de ―viagem‖ surge como um alicerce para uma compreensão menos acentuada e conceitual das questões identitárias; porém, de uma forma mais provocadora e desestabilizadora de novas concepções.
A autora propõe reflexões e possíveis entendimentos que contribuam para a construção de traços que abarquem as diversidades de discursos dessas questões identitárias.
Landowski (2012), ao afirmar que o Outro é a figura de nós mesmos, pressupõe que o sujeito tem necessidade de um ―ele‖ que é dos Outros para alcançar a forma de sua própria identidade, que não se limita apenas às reflexões de como o ―eu‖ se define em relação à imagem que o Outro faz de mim mesmo. Na verdade, as noções de identidade não se restringem, necessariamente, a uma concepção ―simples e unívoca‖ (LANDOWSKI, 2012, p. 10) da interioridade do sujeito. Ao contrário, os processos identitários são abrangentes, complexos e até mesmo conflituosos, uma vez que surgem pela rede múltipla da alteridade. O sujeito, em um enfrentamento sociocultural diante de seus (des)semelhantes, como o estrangeiro, o marginal, o excluído, o transviado, o imigrante, entre outros, busca, pelo paradoxo da identificação ou da diferença, a relação transitiva com Outrem na constituição de uma identidade através do reconhecimento de uma alteridade.
3.2 O DRAGÃO ESPATIFADO: IDENTIDADES FRAGMENTADAS ENTRE A BUSCA