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Ainda a competencia e o processo

No documento João Vieira. (páginas 137-142)

41. Tendo tratado do julgamento, principalmente da admissibilidade da revisão, vamos completar idias sobre o julgamento em gráo de revisão, não obstante já ficar conhecido que neste ponto o nosso direito actual ou vigente e aliás novo differe muito do direito europeu em geral.

É a questão da conveniencia ou inconveniencia de fundir o julgamento preliminar do recebimento do recurso de revisão com o do merito da mesma revisão.

Pode dizer-se que em todos os paizes, diz Alimena, os julgamentos estão separados; elle apenas exceptua o Japão, onde a Côrte Suprema profere dous julgamentos, um secreto na camará do concelho sobre a admissibilidade, o outro publico sobre o merito da causa.

Mas si ha essa uniformidade no caso, não ha quanto á magistratura que deve julgar do merito da causa.

Quasi todos os codigos, a maioria pelo menos, deferem a juiz ou tribunal diverso daquelle que proferiu a sentença revista; exemplo:

cod. francez, belga, etc. Outros, porém, ao contrario, não se tratando da hypothese de corrupção do juiz primitivo, conferem a este julgar de novo a causa.

Com razão, Alimena, combate esta solução que constrange o juiz a confessar que enganou-se ou deixou enganar-se.

Em Portugal, diz Alvaro Villela, expondo o respectivo direito e emittindo opinião que tem certa originalidade:

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“O juizo do rescisorio é sempre um tribunal de primeira instancia, tribunal necessariamente diverso do que proferiu a primeira condemnação, quando se tratou de algum dos casos de revisão da reforma judiciaria, e o mesmo ou differente, segundo a eleição do requerente ou o prudente aviso do tribunal do rescindente, em quaesquer outros casos de erros judiciarios (N. R. J., arts. 825 a 827, 1263, 1265;

Lei de 1896, art. 7.º).

“Vê-se aqui mais uma vez o máo resultado da infeliz ideia da lei de 1896 conservar as disposições da reforma judiciaria sobre a revisão. Ao lado do systema plausivel da attribuição facultativa do revisorio ao tribunal do primeiro julgamento ou a um tribunal differente, ficou o systema injustificavel da imposição obrigatoria de um tribunal sempre differente para certos casos de revisão em que podem deixar de dar-se motivos de opportunidade que aconselhem a deslocação do processo.

“Fôra muito melhor que o legislador desse mais um passo e generalizasse a todos os casos de revisão o systema que reservou para os casos novos creados pela lei de 1896.”1 O nosso direito é lacunoso neste ponto em que, por excepção, um outro juiz ou tribunal que não o Supremo Federal deva intervir na revisão para julgal-a de meritis.

Assim, o Decr. n. 848, art. 9, n. III, diz no § 3.º que “no caso de nullidade absoluta ou de pleno direito o réo poderá ser submettido a novo julgamento;” mas não diz, onde, como, nem em que condições.

A lei n. 221, no art. 74, § 6.º, na mesma hypothese, diz que

“si o tribunal verificar que no processo revisto não foram guardadas as fórmulas substanciaes limitar-se-ha a julgar nullo o mesmo processo.”

E “o procurador geral da Republica, neste caso, promoverá a renovação do processo no juizo competente, si o crime pertencer ao conhecimento da justiça federal, ou remetterá a sentença do tribunal ao ministerio publico do respectivo Estado, si o crime pertencer á jurisdicção local.”

1 Alvaro Villela, Obr. cit. pag. 378, n. 32.

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Isto nada adianta e esquece o caso em que a annullação prodoz o resultado desejado, completo, definitivo, por não haver processo a renovar, como agora vamos vêr.

O cod. ital. no artigo 689 e outros diz que no caso do vivo reputado morto (lei n. 221, art. 74, § 1.º, n. 5) a Côrte Suprema póde ou annullar por via extraordinaria a condemnação, ou por via ordinaria, remetter ao tribunal competente para novo julgamento.

O cod. hespanhol impõe o primeiro como alvitre unico.

O mesmo faz o cod. francez, art. 445.

Os cods. allemão, austriaco, o norueguez, assim tambem dispõem, com a condição do assentimento do ministerio publico ou da parte accusadora.1

Outra questão é a de saber a que regras deve obedecer o julgamento quando um dos condemnados já não existir.

A nossa lei n. 221 apenas diz no art. 742, § 4.º, que “quando já for fallecida a pessoa, cuja condemnação tiver de ser revista, o tribunal nomeará um curador que exerça todos os direitos do condemnado. Si pelo exame do processo reconhecer o erro ou a injustiça da condemnação, o tribunal, reformando a sentença revista, rebabilitará a memoria do condemnado.”

A lei, vê-se, deixa de lado a hypothese da pluralidade de condemnados e não diz por isso si neste caso o tribunal julga, ou manda julgar. Conforme o direito italiano, cod. do processo, art. 692, a causa corre em juizo contradictorio, nem mais nem menos, como si todos os condemnados fossem vivos, com a unica particularidade, porém, que o defunto será representado por um curador nomeado pela Côrte de

1 Alimena, Obr. cit., pag. 65, I. Garraud, Obr. cit., pag. 781; Dalloz, Repertoire, cassation, 1560 e seguintes.

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Cassação. Si se provar que o morto foi injustamente condemnado, a Côrte rebabilitará a memoria d’elle. Ao contrario, conforme o cod. allemão, norueguez, francez, com a reforma de 1895, art. 445; o condemnado morto é representado por um curador, mas não tem lugar novo julgamento ou novos debates, porque, não ha remessa do processo a outro juizo e o tribunal que julga a preliminar, julga tambem e logo de meritis e cancella a sentença injusta e rehabilita a memoria do condemnado. Outra lacuna do nosso direito se nota acerca da sentença viciada por depoimentos ou exames julgados falsos.

Nestes casos, o novo processo, quando a revisão foi admittida, está subordinado a duas condições ou resultados differentes.

Assim, si as testemunhas ou os peritos accusados de falsidade são absolvidos, a sentença primitiva se executa, sem necessidade de uma nova decisão do juiz ou tribunal que fôra chamado a julgar da admissibilidade da revisão.

Por outro lado, as testemunhas e os peritos condemnados por falsidade, não podem ser ouvidos no debate do novo processo e este principio é tão absoluto, que diz Saluto, que elles não poderão ser chamados, nem mesmo pelo poder discricionario que tem o presidente do tribunal.

Aqui surge naturalmente a questão, como resolver, si a testemunha accusada de falsidade, ou reticencia morrer antes de ser julgada e condemnada.

Carnot e Legraverend opinam que não se admitta a revisão, porque a morte da testemunha accusada extingue a acção penal e não podendo mais haver julgamento contra ella vem a faltar a condemnação, que neste caso é absolutamente necessaria.

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Entre estes dous escriptores ha desaccordo, somente pelo que respeita ao julgamento da Cassação, pois que, entretanto que um crê necessaria sómente a sentença do juiz de merito, o outro pensa que desde que é possivel uma annullação não ha condemnação irrevogavel da testemunha.

Mas. dada uma tal ordem de ideias, precisa acceitar todas as consequencias até o fim: e, logo, não é possivel acolher a segunda opinião, pois que, si a Côrte de Cassação póde annullar o primeiro julgamento e ordenar outro, é evidente a possibilidade que este seja absolutorio como aquelle foi condemnatorio.

Tal doutrina é ensinada, na Italia, por Saluto e por Canonico.

É justo, porém, que só porque, a testemunha morre depois de interposto o recurso de revisão, este deva paralysar-se, contentando-nos de exclamar que a melhor instituição tem o seu lado fraco como faz Carnot, e que é uma desgraça sem duvida para o condemuado essa morte prematura da testemunha indiciada em falso testemunho, porque o priva do beneficio da revisão?!

Nós não pensamos assim, diz Alimena, e já o mesmo Saluto reconhece que, si a Côrte de Cassação, iguorando a morte da testemunha condemnada, julgasse e rejeitasse o recurso, a revisão deveria admittir-se.

Essa já era a opinião de Legraverend.

Mas é um argumento assás grave a favor da opinião contraria.

A condemnação dama testemunha falsa não é a prova dam erro judiciario, mas é somente uma presumpção, pois que é possivel que uma testemunha seja falsa e que, ao mesmo tempo, o condemnado seja deveras criminoso.

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Ora, si para admittir-se a revisão, se reputa sufficiente a base duma presumpção, é necessario reconhecer que é igualmente sufficiente um processo preparado para ser discutido em debate publico e a fortiori uma sentença de condemnação.1

No documento João Vieira. (páginas 137-142)

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