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2 O PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO, SUA NATUREZA JURÍDICA, (IN)

3.4 O ALCANCE DOS ARTIGOS 471 E 473 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

artigos 471 e 473 do Código de Processo Civil. O primeiro trata da preclusão para o juiz, ou seja, o momento em que extingue o poder do juiz de decidir na lide. Existe uma divergência doutrinária quanto se trata da possibilidade de reforma de uma decisão pelo próprio órgão julgador, ou seja, de que maneira isso é possível e em quais matérias é legal a reforma da decisão pelo próprio órgão prolator.

Vejamos o que estatui o referido artigo do Código de Processo Civil:

Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas á mesma lide, salvo:

I- se, tratando-se de relação jurídica continuada, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença.

II- nos demais casos prescritos em lei(BRASIL, 2011).

Partindo do embasamento legal supramencionado e, por conseguinte tratando do alcance do referido dispositivo, Benevides (2004, não paginado) descreve:

As matérias que podem ser alegadas por intermédio de reconsideração são, tão somente, as matérias de ordem pública. O primeiro motivo da afirmação acima mencionada reside no princípio da taxatividade recursal, que não admite a criação de qualquer espécie recursal se a

mesma não for criada, por força de Lei federal. Sendo assim, possibilitar a reforma de uma decisão pelo próprio órgão julgador quando não houver previsão expressa em lei é criar um recurso não previsto no ordenamento jurídico. O segundo fundamento diz respeito à repugnância da doutrina e jurisprudência, após a reforma processual de 1994, quanto à utilização de sucedâneos recursais.

No mesmo sentido, Lemos (2011, não paginado) afirma:

O artigo 471 dispõe que 'nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide', excetuando, em seus incisos, hipóteses de redefinição do julgado. Tal dispositivo, segundo alguns doutrinadores, convalida a afirmação de existência de preclusão que atinge o órgão jurisdicional, pois, realizada a análise de alguma questão, o juiz estaria impossibilitado, via de regra, de modificá-la – com exceção das matérias de ordem pública, que podem ser decretadas ex officio, de acordo com a combinação dos artigos 267, §3º e 301, §4º do CPC –, o que afastaria o cabimento do pedido de reconsideração. Em suma: o artigo 471, caput, “insinua o veto de o juiz, de regra, retratar as decisões proferidas no curso do processo.

Para os autores acima mencionados, a doutrina dominante enfatiza que somente as questões passíveis de manifestação ex officio pelo magistrado poderiam ser reconsideradas, entretanto, para eles, essa não parece ser a melhor resposta sobre o assunto, pois se entende que não existe preclusão para o juiz, com exceção de questão decidida pelo órgão hierarquicamente superior, não a estando presente até a prolação da sentença de mérito, momento pelo qual, apenas nos casos dos incisos dos artigos 463 ou 471, ambos do CPC, poderão ser alteradas as disposições sentenciais.

Por outro lado, temos a doutrina menos radical, que entende que há possibilidades que o magistrado reveja as questões já decididas. Isso ocorre em duas hipóteses, nas questões de ordem pública e na exceção dos incisos do artigo em comento. Porém tais exceções na maioria das vezes autoriza somente uma instauração de um novo processo para rediscutir a questão já decidida. Neste sentido, Nery Júnior e Nery (2006, p. 615) descrevem:

A norma proíbe a redecisão de questão já decidida no mesmo processo, sob o fundamento da preclusão (coisa julgada formal). As questões dispositivas decididas no processo não podem ser reapreciadas pelo juiz. As de ordem pública, por não serem alcançadas pela preclusão, podem ser decididas a qualquer tempo e grau ordinário de jurisdição (não em RE ou REsp). Pela mesma razão, pode o juiz decidiras questões de ordem pública já decididas no processo. O caput do dispositivo comentado impede que o juiz, no mesmo processo, decida questões já decididas. As exceções são, na verdade, aberturas para a redecisão em outro processo.

No mesmo sentido, Ferreira (2004, não paginado) afirma:

Por uma rápida leitura dos artigos supra, parece o art. 471 deixar margem para que, no mesmo processo, o juiz reveja questão que já decidiu. Na prática, entretanto, tais exceções, na maioria das vezes, autorizam somente uma instauração de um novo processo para rediscutir a questão já decidida.

Quanto ao art. 473 do CPC, este trata da preclusão para as partes, ou seja, o momento em que extingue o poder/faculdade de a parte de realizar um ato processual. Neste caso não há divergência doutrinária a respeito do tema.

O referido artigo estatui que “é defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito se operou a preclusão” (BRASIL, 2011).

A doutrina entende que operando a preclusão não há mais possibilidade de discussão de questões já decididas.

A única maneira de rediscutir uma coisa já decidida e que já decorreu o prazo do recurso adequado são as questões de ordem pública, pois nestas não se opera a preclusão (NERY JÚNIOR; NERY, 2006).

3.5 MATÉRIAS DE ORDEM PÚBLICA

As questões de ordem pública são aquelas em que prevalece o interesse público sobre o particular e que por isso, no processo tem que ser analisado de ofício pelo magistrado, em qualquer fase ou grau de jurisdição, pois são matérias que não opera a preclusão. Lembrando que no âmbito processualista trata se das condições da ação. Neste sentido, Miranda (2003, não paginado) descreve:

As questões de ordem pública, que refletem a supremacia do interesse público sobre o interesse particular, são imperativos que devem ser reconhecidos de ofício pelo julgador para que se tenha a correta prestação jurisdicional por parte do Estado-juiz. De difícil enumeração e classificação, referidos preceitos são encontrados no controle de constitucionalidade das leis, bem como nas leis substantivas e processuais. […] No âmbito processual, destacam-se como preceitos de ordem pública os pressupostos processuais e as condições da ação, sendo que tais questões devem ser decididas pelo julgador antes do pronunciamento sobre o mérito da demanda. As disposições do art. 267, § 3º, com reforço das determinações do art. 301, § 4º, ambos do CPC, tornam controvertida a questão dos limites para que o julgador de primeiro e segundo graus, bem como para os de instância superior, se pronunciem sobre as questões de ordem pública.

No mesmo sentido, Lucon (2005, não paginado) afirma:

As assim chamadas matérias de ordem pública dizem respeito às condições da ação e aos pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido do processo. São elas, portanto, relacionadas com o amplo espectro dos requisitos de admissibilidade da tutela jurisdicional. Como é sabido e ressabido, as matérias de ordem pública podem e devem ser conhecidas ex officio pelo órgão jurisdicional, não se operando a preclusão (CPC, art. 301, § 4º e art. 303, inc. II)

A doutrina dominante, seguindo a linha de Nery Júnior e Nery (2006) e Benevides (2004) entende que as matérias de ordem pública residem na impossibilidade de preclusão, pois é do conhecimento de todos que as referidas matérias poderão ser alegadas a qualquer instante enquanto não houver o transito em julgado, independente de provocação das partes, salvo no caso da matéria não ter sido alegada nos recursos extraordinários e especiais, em razão da ausência de prequestionamento.

4 A JURISPRUDÊNCIA E A VISÃO DOS OPERADORES DE DIREITO DA

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