MAGEM 17: Aparia e um Jivaro real.
2- A EXPERIÊNCIA TENETEHARA: A DANÇA DAS REALIDADES
2.1. Quem são e onde vivem os Tembé-Tenetehara
2.1.2. Aldeia e/ou vila do interior: Entrando na TIARG
Alardeada como uma das palavras mais difíceis de traduzir do mundo, dépaysement é 9
o sentimento de estar em um lugar diferente do que se está acostumado culturalmente, quando
Disponível em: http://www.megacurioso.com.br/comunicacao/39467-17-palavras-de-outros-idiomas-que-nao-
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você se sente um imigrante, pois as regras culturais a que está acostumado não são as mesmas. O enunciado que intitula este tópico marcou uma das primeiras conversas com minha orientadora, sobre o que é o pesquisador no trabalho de campo.
Além da descrição do que iria ver, eu percebi depois que esta pergunta serviria como uma espécie de balizador, para que eu controlasse qualquer expectativa espetacularizada de encontrar uma “aldeia típica”. Afinal, as imagens colocadas em circulação pela mídia, pelos livros didáticos, filmes e histórias em quadrinhos nos levam a acreditar que as sociedades indígenas autênticas devem ser paradas no tempo, com suas “boas e velhas construções de palha” ao invés das casas de alvenaria que estão presentes na Aldeia Sede.
Os Tembé-Tenetehara, sujeitos desta pesquisa, são uma etnia de aproximadamente 2100 pessoas que vivem na Terra Indígena do Alto Rio Guamá, no espaço delimitado entre os rios Gurupi ao sul e Guamá, ao norte. “A aldeia Cajueiro, no Gurupi e a aldeia Sede, no Guamá, muito em função da infraestrutura (pois nelas há escolas, postos de saúde, energia elétrica) reúnem o maior número de moradores” (NEVES; CARDOSO, 2015, p. 37).
Este povo vive um processo de resistência constante para reafirmar sua presença e individualidade. Eles fazem parte do ramo ocidental dos Tenetehara. Sua língua vem do ramo Tupi-Guarani, eles e os Guajajara do Maranhão compartilham a língua Tenetehara, apesar de cada um manter suas singularidades (NEVES; CARDOSO, 2015).
Socialmente há diversos cenários para o uso da língua Tenetehara, há algumas aldeias com falantes apenas do português, e em algumas, como na Aldeia Sede, há os falantes bilingues, que ficam também responsáveis pelo ensino da língua Tenetehara para as crianças na escola, mas também para os adultos. “Na aldeia Ka’a Pitepehar, como estratégia de resistência linguistica da liderança, há um grupo de crianças falantes apenas da língua tradicional” (NEVES; CARDOSO, 2015, p. 35). Mesmo o seu nome é marcado por uma interferência dos não índios, quando os cartórios locais no início do século XX dificultavam e até mesmo interditavam a possibilidade de se registrar nomes Tembé, alegando entre outras coisas, dificuldade para escrevê-los.
As aldeias Tembé-Tenetehara com que desenvolvemos projetos circunscrevem-se na TIARG, acrônimo para Terra Indígena Alto Rio Guamá. Demarcação criada nos anos de 1940 para mostrar à opinião pública internacional uma prova da preocupação brasileira com os povos indígenas, a despeito de ações pérfidas como a distribuição das terras dos Kaiowas para não índios, o presidente Getúlio Vargas decidiu estabelecer as reservas indígenas em áreas
onde “o contato seria mais pacífico e as frentes econômicas menos intensas” (NEVES, 2014).
IMAGEM 31: Mapa da TIARG.
Os rios Guamá e Gurupi, como se vê na Imagem 31, são elementos de importância definidora para o povo Tembé. Eles delimitam a fronteira norte e sul da TIARG e a partir deles que elementos de identidade cultural são formados, como se vê na divisão de aldeias nos grupos do norte, próximas ao Rio Guamá, de onde a Aldeia Sede e Itaputyre fazem parte, e do sul, onde se têm Tekohaw e Mangueira, por exemplo. Para Neves e Cardoso (2015, p.37):
Os dois maiores rios que estabelecem os limites da TIARG são o GURUPI (ao sul), e o Guamá (ao norte), e acabam definindo dois espaços geográficos, históricos e culturais ente os Tembé-Tenetehara, por isso existem as Aldeias do Gurupi e as Aldeias do Guamá. Segundo Sérgio Muxi, da Aldeia Tekohaw, eles também se denominam de Y’riwara, porque suas aldeias estão nas margens dos rios. Em seus processos migratórios sempre seguiram os contornos dos leitos dos rios, “Y” e Y’riwara significa povo da água.
Cada uma das 22 aldeias que compõem a TIARG tem um modelo de montagem semelhante, contando com casas próximas, geralmente numa disposição circular ou ao menos elíptica. Na área mais central, encontra-se a ramada, que serve de centro de reunião social; uma área de esportes, geralmente um campo de futebol; uma escola, um posto onde podem se hospedar os não índios que fazem algum trabalho na sociedade, como professores e agentes
de saúde. Além disso, a maior parte das aldeias já conta com igrejas cristãs.
IMAGEM 32: Mapa da Aldeia Sede.
A Imagem 32 mostra com detalhes o mapeamento das casas e construções da Aldeia Sede Tembé-Tenetehara, possível com a foto de satélite disponível pelo Google e a leitura e descrição feita por Kuzà Tembé, que escolheu um membro da família para para nomear a casa. A Aldeia Sede é a mais ao norte das aldeias que compõem a TIARG, por consequência, é a mais próxima de Belém, ficando cerca de 229,6 km da capital do estado do Pará. Do caminho vindo da cidade de Capitão Poço, deve-se usar as canoas que ficam sempre à disposição nas margens e com o auxílio de um grosso cabo de aço, atravessar o Rio Guamá para chegar à terra dos Tembé-Tenetehara.
A aldeia é formada por dois conjuntos principais de casas, a primeira, a mais antiga, se extende às margens do Rio Guamá. A mais nova, construída de forma circular, fica um pouco mais para dentro do continente tem na área central a nova ramada, que foi inaugurada com a Festa do Moqueado em novembro de 2015, numa estrutura que hospedou diversas famílias convidadas vindas de toda a TIARG, além de inúmeros visitantes não indígenas como eu e parte da equipe do GEDAI.
Perto da entrada da aldeia, pelo Rio Guamá fica a casa dos professores, onde se hospedam os profissionais de educação e saúde contratados pelo governo estadual para atenderem a sociedade Tembé-Tenetehara, o Posto de Saúde e o Pólo, onde estocam remédios. Próximo a eles fica a escola, lugar em que foi ministrada a maior parte das oficinas do projeto,
a menor parte das aulas se deram na antiga ramada.
IMAGEM 33: Fotos da escola na Aldeia Sede.
O prédio tem um andar somente, dividida em cerca de cinco salas e dois banheiros, com paredes de alvenaria e telhado de barro. Dentro, em uma das salas de aula, há algumas carteiras de plástico azul e um quadro magnético. Todas as aulas e eventos de aprendizado para os Tembé-Tenetehara em idade escolar acontece nesse espaço onde Bêwàre e Kuzà ministram suas aulas.
IMAGEM 34: Cena da Aldeia Sede Tenetehara.
Os Tembé-Tenetehara contam com mais de 350 anos de contato com os carités (homens brancos). Tal fato indubitavelmente influencia na forma como dispõem suas casas, a construção delas, alguns de seus hábitos e práticas. Como ressalta Ivânia Neves:
Antes da colonização, a maior parte das sociedades Tupi, na Amazônia, não se organizava em grandes núcleos populacionais. Era bastante comum famílias inteiras habitarem a mesma casa, feita de madeira e palha. Com a nova ordem estabelecida pelos aldeamentos, as casas passaram a se organizar em torno dos Postos Indígenas. Esta dinâmica e os diferentes projetos governamentais interferiram bastante nas edificações indígenas. (NEVES; CARDOSO, 2015, p. 17)
O que se vê na Aldeia Sede, bem como nas demais aldeias do norte da TIARG é uma disposição de casas e separação populacional influenciada por esse contato de séculos com a
Foto: autor
sociedade envolvente. Famílias mais próximas (mães, filhos e netos) moram em casas de alvenaria, apesar de, na Aldeia Sede, todos se considerarem e se tratarem pelo termo “parente”. À primeira vista, as aldeias Tembé-Tenetehara se diferem muito do que se imagina, de forma superficial e espetacularizada, ser uma sociedade indígena, onde em busca do exótico, talvez nossa imaginação crie a imagem de casas e pessoas nuas adornadas com penas, português mal conjugado e conhecimento tecnológico rudimentar.
Em algumas aldeias da TIARG, como a Aldeia Sede, onde há energia elétrica, é comum encontrar aparelhos eletrônicos como televisão e geladeira nas casas, além de aparelhos celulares. No segundo semestre de 2015, foi instalada a internet na casa de Naldo Tembé, o cacique da aldeia, com um ponto de retransmissão que intenciona distribuir sinal de internet Wi-Fi pela aldeia inteira, algo que ainda não está ocorrendo efetivamente.