MAGEM 17: Aparia e um Jivaro real.
3- AUTO-REPRESENTAÇÃO: ALTERIDADE E TENETEHARAS
3.5. A primeira viagem
3.5.3. Quarta atividade, Zahy.
O último exercício consistiu em os alunos em sala ouvirem uma narrativa oral, a História de Zahy, ou a versão Tembé-Tenetehara para a origem da lua, para depois ilustrarem em quadrinhos uma adaptação do que foi ouvido. A seguir, o roteiro bilíngue da animação, escrito por Kuzà Tembé e Ivânia Neves adaptado para a animação:
Zahy ze’eg awer
Ang maé mumeú hau hezary mume'u auwer hawe. Kwehe mehe zekwehe.
Zane ipy mehe zane muzamuzang wà heta zekwehe amo tuihaw wà. Ikatu zekwehe wakamarar pe. A’e wemiriko rehe nuwerekoz Wa’yr wà, a’e rupi uzemumik wà.
Amo ar mehe uhem zekuwehe Mair pe, upytywà zekwehe tuihaw hemiriko rehe wuhem zekwehe Zahy.
Zahy kwaharer mehe huriwate puràgete a’e no. Zahy zekwehe teko, katu ma’ e uzapo wakamarar Wanupe.
Ukamarar wanupe Zahy nupuner kwaw u’aw pà uzaihe puhe. Zahy utemarahy!
Amo ar mehe pyhaw Zahy u’aw zekwehe uzaihe puhe. Izaihe uputar katu awa u’aw haw ipuhe.
Tuehe Zekwehe Zahy u’aw izaihe puhe. Izaihe nukwaw a’e awa zahy à.
Izaihe upy’a zekwehe uzemugyta amo Kuzà hya’u ma’e iruramo. Hya’u zekwehe wereko umumuranu haw wà.
Pyhaw Zahy u’aw oho uzaihe puhe. Upy’a hya’u ze’eg hau rehe. Upu’i Zahy pe na’arihe upyhyk Zekwehe zanipaw wà uzepuez ipo upihyw Zahy rua rehe.
Pyhawate Zahy oho Zekwehe `y pe. Zahy uwexak huwa ky’a haw wà uzemumyk Zekwehe. Uzuhez Zekwehe huwa Nuze’ok Kwaw zanipaw izuwi.
Zahy uzemumik ma’e pà huwa rehe. Upaw Zekwehe ukwaw wà Zahy u’aw haw uzaihe puhe.
Upaw piàiw Zahy rehe w’à: … Hya’u ma’e à… Tuihaw wà… Izaihe à…
Mair Zekwehe no…
Omonokar zekwehe Zahy teko-haw wi wà.
Maranugar Zahy oho kwez ywak pe. Ko tary ar, Zahy zuhez wer huwa. A’e rupio àmàn ukyr pyhaw.
Kom ukyr àmàn a’e Zahy zai'o hini.
A História de Zahy
Essa história aconteceu no tempo de nossos antepassados, quando não tinha lua nenhuma no céu à noite. Quem me contou, foi minha avó.
Naquele tempo, havia um cacique que era muito bom para os Tenetehara, mas ele e sua esposa não poderiam ter filhos e por isso estavam muito tristes. O deus Mayra teve pena dos Tenetehara e resolveu ajudar o cacique e sua esposa. E quando ninguém acreditava mais, a esposa do cacique engravidou.
E então nasceu Zahy, um menino esperto, alegre e bonito que fazia muitas coisas boas. Mas depois, fez vergonha. Zahy viu uma mulher muito bonita e desejou dormir com ela. Mas não podia, a mulher era sua tia. Para os Tenetehara, Zahy não podia ficar com sua tia, era proibido. Mas Zahy teimava muito!
Uma noite, Zahy deitou com sua tia. A tia não sabia quem era aquele homem, mas gostou de deitar com ele. Todas as noites, Zahy deitava com sua tia. Mas a tia nem imaginava que o homem era Zahy. Preocupada, A tia conversou com a velha índia que lhe deu uma boa ideia.
À noite, Zahy foi deitar de novo com a tia e ela se lembrou da ideia da velha Índia. Antes de deixar Zahy deitar, ela pediu pra ele esperar e molhou a mão no jenipapo.
De manhã, Zahy foi lavar o rosto, mas a mancha do jenipapo não saiu. Zahy olhou seu rosto pintado com muita tristeza e lavou muito, mas o jenipapo não saiu.
Agora todos os Tenetehara sabiam que Zahy dormia com a tia e ficaram com raiva de Zahy. A velha índia... seu pai, o cacique... a tia e Mayra também.
Todos mandaram Zahy sair da terra. Envergonhado, Zahy obedeceu e foi embora para o céu e virou a Lua.
Até hoje, Zahy ainda lava o rosto. É por isso que chove à noite. São as lágrimas de Zahy.
IMAGEM 51: História de Zahy, por Thamiris Tembé.
fonte: acervo do autor
A escolha desta narrativa está relacionada a outros projetos desenvolvidos pelo GEDAI, com os Tembé, “Astronomia Tenetehara: pluralizando verdades”, financiado pelo Edital de Ciências Humanas do CNPq e “A história de Zahy”, financiado pelo Instituto de Artes do
Pará, cujo resultado final será a produção de uma animação da narrativa.
Na oficina com os Tembé, durante o processo de mais ou menos vinte minutos em que ouviram novamente a narrativa de Bêwàre Tembé, um dos professores da escola, a sala de aula que continha alunos desde os oito até por volta dos vinte anos, ficou atenta e em silêncio. Havia uma reverência para o solene momento de escutar uma narrativa oral.
IMAGEM 52: Bêwàre Tembé contando a narrativa.
O exercício mostrou-se o mais caprichado, a exemplo do excerto da história de Thamiris Tembé, na Imagem 51 na página anterior. Talvez porque gostassem da narrativa oral a ser adaptada, talvez porque já estivessem mais familiarizados por ser o segundo dia, mais à vontade com a narrativa gráfica. A esta altura, a sala já havia se dividido, uma parte, a mais jovem, agora se divertia apenas em fazer ilustrações soltas, sem a intenção de serem quadrinhos, e os mais velhos, em sua maioria de meninas, dedicaram-se um pouco mais e os resultados foram belas adaptações da narrativa oral.
Os trabalhos apresentados, além de apresentarem uma caracterização gráfica rica para os personagens, com detalhes de vestimenta e as pinturas corporais bem detalhadas, ainda nos mostrou uma novidade sobre a narrativa, que não foi narrada por Bêwàre.
Ao final de um dos quadrinhos, todos os autores do exercício, a exemplo da história de Thamiris na imagem 51, desenharam um beija-flor levando o cipó para que Zahy subisse aos céus e na sequência, aparecia um desenho que tanto podia ser ou a chuva caindo tanto dos céus, como a lágrima da lua no último painel, com uma desenvoltura e desinibição que não diferenciava nenhum dos fatos dos que foram representados na autobiografia do segundo e da narrativa histórica do terceiro exercícios.