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Alexander Fraser Tytler (Lorde Woodhouslee) (1747-1814)

IX TRADUÇÃO TEORIA E PRÁTICA

6. Alexander Fraser Tytler (Lorde Woodhouslee) (1747-1814)

A primeira obra em inglês totalmente dedicada à análise da arte da tradução foi o livro do advogado escocês Alexan- der Fraser Tytler. Seu Essay on the Principies ofTranslation foi publicado anonimamente em 1790. O autor anônimo da introdução que faz parte da edição Everyman comenta: "Es- te ensaio é uma dissertação típica da arte clássica da tradução poética, e de estilo literário, do modo como o século XVIII a entendia."69

Tytler começa com três princípios, suas "leis" de tradução. I. A tradução deve dar uma transcrição completa da obra original.

II. O estilo e a maneira de escrever devem ter o mesmo caráter do original.

III. A tradução deve parecer como se tivesse sido escri- ta originalmente naquela língua™.

Essas considerações gerais não podem ser contestadas por tradutores do século XVIII nem por tradutores do sécu- lo XX.

Encontramos idéias mais interessantes no decorrer do argumentp de Tytler. No começo do Capítulo III, ele pergunta se "o tradutor deve ou não contribuir com as idéias do origi- nal; com o que possa conferir maior força ou ser mais ilus- trativo: ou tirar dessas idéias o que as pode enfraquecer de- vido à redundância"71. Sua resposta é sim, mas com "muita cautela", assim concordando com Dryden (p. 24) e contras- tando com o conselho de Roscommon, que já vimos:

O vosso autor será sempre o melhor conselheiro: descei, quando ele descer; e quando ele se elevar, elevai-vos72.

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Acredita Tytler:

Entendo ser o dever de um tradutor de poesia nunca di- minuir o seu original. Ele deve manter uma perpétua disputa com o gênio; deve acompanhá-lo em seus vôos mais altos, se puder, além do seu autor; e quando perceber, a qualquer mo- mento, uma diminuição em suas forças, quando vir uma asa se curvar, deve erguê-lo em suas próprias asas73.

Para apoiar esse ponto de vista, cita M. Delille, o tradu- tor francês das Geórgicas de Virgílio: "É às vezes necessá- rio ser superior ao seu original, porque o tradutor é inferior a ele."74 Também cita Thomas Franklin, poeta e professor de grego na Universidade de Cambridge:

A menos que, como uma amante, o autor possa aquecer, Como saborear seus encantos e suas falhas esquecer? Como encontrar sua modesta beleza latente?

Como traçar cada terno aspecto da mente?

Como suavizar cada mácula, e toda graça aprimorar E, ele, com a dignidade do amor tratar?75

Tytler dá exemplos de acréscimos e omissões apropriados. Uma "bela idéia" pode ser acrescentada: "Nesta tradução... fica evidente que há uma frase muito mais bela acrescenta- da por Bourne... que melhora maravilhosamente o pensa- mento original."76 Qualquer referência que faz alusões leve- mente eróticas deve ser omitida: "Sua tradução (a de Pope) da Ilíada omitiu completamente, com muita propriedade, o elogio à cintura da ama." Dryden deveria ter omitido o "vul- gar e nauseante" e "vomita uma golfada"77. Mas Pope nova- mente eleva Homero num dos momentos em que este cai. Quando Homero choca por ter "introduzido imagens baixas e referências pueris", esses defeitos são "cobertos ou tira- dos"78 por Pope.

A TRADUÇÃO E A ÉPOCA AUOUSTAN 39

Embora permita acréscimos e repetições, Tytler critica alterações. Dá a entender que Dryden levou a tradução para a paráfrase: "Faltava um espírito judicioso de crítica."79 Também critica a liberalidade do tradutor francês d'Ablan- court. Não é certo sacrificar "o sentido ou a forma do origi- nal, se estes puderem ser preservados sistematicamente com pureza de expressão e com uma espontaneidade elegante ou uma graça superior ao texto"80. As versões de d'Ablancourt são admiráveis, "contanto que não as comparemos com os originais"81.

Tytler adota uma posição igualmente conservadora na modernização de referências na obra traduzida. Ironiza a po- sição de Guthrie (ver p. 24) e Denham (ver p. 21), que pre- feriam a modernização de referências, usando exemplos das traduções que fez Echard de Plauto. Echard cria um Lord Chief Justice of Athens (Meritíssimo Juiz Supremo de Atenas), que fala "I will send him to Bridewell" (Eu o mandarei a Bridewell [um presídio em Londres]). Gregos e romanos usam palavrões ingleses contemporâneos, '"Fore George; Blood and 'ounds; Gadzookers; 'Sbuddikins; By the Lord Harry"82. Refere-se à Bíblia que ainda não fora publicada, à pólvora que ainda não fora inventada, e à Batalha de Haia, que só aconteceria em 1692.

Em outras áreas, Tytler concorda com as idéias da épo- ca Augustan. Como Dryden (ver p. 24) e Roscommon (ver p. 32), ele admite que deve haver uma ligação forte entre o tra- dutor e o original: "tem de adotar a alma do seu próprio autor, que deve falar mediante os seus próprios órgãos"83. A idéia da equilibrada luta de capacidades pode também ser vista na seguinte citação: "Só aquele que tiver um gênio semelhante ao do autor original estará perfeitamente habilitado a ser um tradutor."84 Em geral, os melhores escritores são "aqueles que escreveram obras originais da mesma espécie das que tradu-

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conhecidos. A tradução de Hamlet feita por Voltaire não faz justiça a Shakespeare, e a tradução de Don Quixote feita pelo romancista Tobias Smollett parece pior do que a de Motteux. Outro ponto no qual Tytler repete Dryden é o fato de que cada língua tem suas próprias características. O inglês não tem a brevidade do latim; não pode lançar mão das in- versões do latim e do grego; e, embora a elipse possa ocor- rer, "não pode ter tanta elipse quanto no latim"86. Essas ca- racterísticas conduzem Tytler a uma sub-regra: "Essa imitação tem de ser sempre regulada pelo gênio do original e não pelo gênio da tradução."87