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X\ IV Ezra Pound Renovar!

6. Pound e Shelley

O papel central da tradução na obra de Pound pode ser visto de uma maneira ainda mais clara quando comparamos essa centralidade com as traduções e comentários sobre a tradução do poeta romântico inglês Percy Bysshe Shelley. Em contraste total com os românticos alemães, os românti- cos ingleses não deram grande importância à tradução; entre os poetas românticos ingleses principais, apenas Shelley dedicou-se à tradução. Mas, apesar de sua grande variedade de traduções do latim, grego, italiano, espanhol, alemão e francês, Shelley sempre considerou a tradução como uma atividade secundária. Em A Defence ofPoetry (1821) Shelley descreve o< dom criativo, a força da imaginação, que é a poe- sia. Porém, a tradução jamais pode capturar essa essência. É algo de segunda mão, longe da plena força da vida criativa: ... seria tão sábio jogar uma violeta em um caldeirão para que se pudesse descobrir o princípio formal de sua cor e seu per- fume, como fazer uma transfusão das criações de um poeta de uma língua para outra. A planta tem de brotar de novo de sua semente, ou não dará frutos - e isso é o ônus da maldição de Babel73.

108 TRADUÇÃO. TEORIA E PRATICA

Timothy Webb, no seu estudo das traduções de Shelley,

The Violei in the Crucible, parafraseia esse trecho:

A tentativa de transmutar poesia de uma língua para outra está inevitavelmente destinada a fracassar. A noção de que a poe- sia não pode ser transferida de uma língua para outra está inti- mamente ligada à crença de Shelley de que a poesia era essen- cialmente tão orgânica e natural como uma flor. A beleza par- ticular de uma dada flor não pode ser recriada - só pode ser imitada74.

Shelley sempre sentiu que uma tradução, por bem feita que fosse, sempre seria uma cópia inadequada do original. Es- creveu de sua própria versão de cenas do Fausto de Goethe: Sinto como é pouco perfeita a representação, inclusive com toda a licença que tomo para configurar como Goethe teria escrito em inglês, que minhas palavras fazem transmitir75. Somente uma tradução para um meio diferente poderia alcançar o sentimento do original. Das gravuras de Moritz Retzsch de uma versão inglesa de Fausto, Shelley comentou:

Que gravuras, aquelas! Nunca posso me cansar de olhá- las. Sinto que é o único tipo de tradução da qual o Fausto é suscetível76.

Em contraste com isso, quando se traduz Fausto para outra língua, coloca-se um "véu cinza" sobre ele; a tradução produz somente "uma sombra imperfeita" do original77.

Assim, a tradução é relegada a um papel de apoio no processo criativo, porém um papel que tem grande validade. A tradução disciplina a mente de Shelley, dá-lhe idéias que posteriormente poderiam ser desenvolvidas, e é uma manei- ra de manter suas capacidades criativas aquecidas enquanto

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espera um momento de inspiração poética. Impede que o poe- ta sem inspiração fique desesperado. Em 1818 escreve:

Não tendo nada melhor para fazer, em meus períodos improdutivos e de desânimo, estou empenhado agora em tra- duzir a eloqüência divina do Simpósio de Platão78.

Pouco tempo depois escreve:

Ultimamente, encontro-me totalmente incapaz de com- posição original. Assim, utilizei minhas manhãs para traduzir o Simpósio79.

Webb faz um paralelo com William Cowper, cujas tradu- ções foram o resultado de "uma mente que odiava o vácuo, con- siderando-o seu maior mal"80. O primo de Cowper, J. Johnson,

comentou que o progresso da tradução da Ilíada de Cowper foi "extraordinariamente medicinal ao seu pensamento"81.

Webb dedica grandes partes de seu livro à análise da in- fluência das traduções na sua obra original. Resume as influên- cias na seguinte maneira:

A tradução oral de Shelley de Prometheus Bound foi provavelmente um grande estímulo para a criação de Prome-

theus Unbound; o Hymn to Mercury inspirou The Witch of Atlas e partes grandes de With a Guitar, to Jane; o Convito

de Dante inspirou trechos de Epipsychidion, tanto como a tra- dução para o italiano de partes de seu próprio Prometheus; o epigrama de Asher de Platão foi importante para Adonais e

The Triumph ofLife; o Lamentfor Adonais de Bion foi a base de Adonais; a leitura e tradução de Dante de Shelley influenciou

a versificação e as idéias de The Triumph ofLife*1.

Preso à estrutura mais formal de tradução, Shelley con- seguiu domar sua volatilidade. Na sua biografia de Shelley, Thomas Jefferson Hogg escreveu:

110 TRADUÇÃO. TEORIA E PRÁTICA tem de ser amarrado fortemente a alguma coisa de uma natu- reza mais firme... sempre precisava de um apoio83.

Finalmente, a tradução é um exercício de depuração e detalhe. Citando Hogg, Webb refuta a crença tradicional de que Shelley não tomou cuidado com suas composições:

[Shelley] poucas vezes tinha se aplicado com tanta ener- gia para vencer todas as outras dificuldades de sua arte, como pacientemente labutou para penetrar os mistérios da métrica no estado em que ela existe inteira, e pode ser alcançada - em uma das línguas clássicas84.

Depois de examinar os manuscritos de Shelley, Webb constata que ele muitas vezes fazia revisões de suas traduções. Webb acredita que a maior clareza da obra posterior de Shel- ley deve-se muito à influência disciplinadora da tradução.

Assim, Pound e Shelley se encontram nos dois extremos de nosso espectro de tradutores. Para Shelley, o romântico, esperando e desejando o momento de criação extática quando o poeta domina o mundo, a tradução sempre mantém certa dis- tância da fonte criativa. Pode ser uma atividade útil ou um pas- satempo, mas nada mais que isso. Porém, para Pound, o arte- são, ou, para usar o título com que Pound se referiu a Ca- valcanti - "il miglior fabbro"85 -, a tradução é central. Parecido com o escultor ou com o entalhador, Pound talha, apara e molda, aproveitando seus longos anos de familiaridade com formas e idéias estrangeiras para construir um poema.

7. Pound, Arnold e os vitorianos,

No documento MILTON,John - Tradução - teoria e prática (páginas 111-114)