III CAPÍTULO
4.2 ARTE E TELLUS
4.2.2 ALEXANDRE FILHO E A PAISAGEM IMAGINÁRIA
Alexandre Filho apresenta-nos uma concepção de mundo onde a natureza é exuberante e divide de forma igualitária o espaço com as figuras humanas. Suas paisagens são quase surrealistas, criando figuras zoomorfas, flores, frutos e folhagens saídas do seu imaginário. Dentre os quatro artistas estudados, Alexandre apresenta-nos uma forma de pintar a natureza diferenciada, pois as suas composições apresentam linhas contorcidas e as superfícies são contornadas por linhas sinuosas. Todo o imaginário naїf de Alexandre é transposto em puro movimento. Suas telas apresentam uma natureza exuberante, muitos tons de verde, flores coloridas e espaços bem delimitados; dos seus pincéis, surgem representações incomuns de uma flora vibrante, morada de animais estranhos e moldura para figuras humanas sensuais.
Figura 59 – Alexandre Filho. s/título, acrílica s/tela, 2003, coleção particular.
Alexandre povoa seu universo imaginário de seres híbridos, lagartos malhados (Ver figura 59), peixes, anfíbios, cabras e outros animais. Figuras que se movem em espaços próprios, compondo um bestiário que parte das características regionais. Alexandre atinge o universalismo da representação visual por meio de imagens arquetípicas como os répteis, os mamíferos e os seres zoomórficos, seres que estão presentes em contos e/ou mitos antigos, associados às civilizações Ameríndias. Essas figuras passeiam livremente por uma vegetação retorcida, comum ao semi-árido do Nordeste brasileiro, terra natal do artista. Coloridas, as flores pintadas pelo artista lembram a flor do “maracujá silvestre” ou “maracujá bravo”, como nomeiam os sertanejos, considerada uma das mais belas flores da caatinga. A disposição das pétalas e sua sobreposição em camadas dá à imagem um ar de “refinado”. O cajueiro ostentando suculentos cajus, com suas castanhas, é um elemento recorrente no conjunto de sua obra.
Percebemos, nas suas composições, que as cores utilizadas reforçam o ar místico do cenário paisagístico, os matizes de azuis e vermelhos têm a função de destacar ou de fazer recuar em algumas figuras na imagem, criando elementos de tensão espacial que organizam a composição e harmonizam as relações entre as cores. Como colorista Alexandre apresenta mudanças entre a sua primeira fase na década de 1960 e 1970 com outras fases posteriores até
o período atual. Na década de 1980, o artista voltou à Paraíba. As cores tropicais da terra natal e o brilho do sol paraibano trouxeram luz para as suas composições e uma paleta nova de cores.
Figura 60 – Alexandre Filho. S/título, acrílica s/tela, 2003, coleção particular.
A natureza organizada pela mão do artista, contida em um espaço compositivo, é fogosa e abundante. Dentre os quatro artistas estudados, Alexandre é o único que pinta quadros com temática de animais ou vegetais isolados da figura humana, o que torna o seu trabalho entre o grupo estudado como o mais representativo da concepção de arte como tellus. Suas imagens parecem ganhar carga emotiva com os inúmeros galhos carregados de flores e frutos retorcidos. As flores criadas pelo artista desabrocham por meio de botões coloridos, que dão origem a uma profusão de buquês do campo, arvores imaginárias, de onde brotam diversos tipos de frutos, às vezes no mesmo galho; pinhas, romãs e, em destaque, o caju, rodeados por animais livres em meio à fartura de alimento, identificam bem o seu imaginário (Ver figura 60).
Os animais representados como figuras zoomórficas44 (Ver figura 61) estão envoltos em ramos de flores. Toda a composição é dominada pela natureza morta, expressa em um cenário de campos de cor ondulantes delineados por uma delgada linha de contorno. Alexandre parece brincar com a cor, que teima em espalhar-se sobre o segundo plano da composição. Os astros celestes estão presentes na cena. Embora a composição pareça desenvolver-se durante o dia, a lua e a estrela espreitam seus lugares no firmamento, reforçando o cenário de sonho, de idealização do mundo natural.
As figuras zoomorfas e humanas surgem na sua pintura como parte integrante da paisagem, entrelaçadas com ramos, folhas, flores, frutos e animais. As imagens geralmente são representadas em movimento; os nus femininos se enroscam em ramos contorcidos, com movimentos sensuais de um erotismo latente.45 (ver figura 62).
Figura 61 – Alexandre Filho. s/título, acrílica s/tela, 2003, coleção particular.
44 As figuras antropomórficas são muito comuns na arquitetura do Barroco Tropical, observado pelo artista
Alexandre Filho, durante sua convivência na juventude com a igreja católica. Figuras que misturam peixes, anfíbios, répteis e aves podem ser observadas em várias construções do período barroco no Brasil, como é o caso do Centro Cultural de São Francisco em João Pessoa – PB, que apresneta os golfinhos no lavabo da sacristia e os guardiões no corrimão das escadas, no muro do adro da igreja e nas máscaras da fachada.
45 Os nus de Alexandre Filho exalam sensualidade. Suas figuras de mulheres rechonchudas lembram, por
analogia, as imagens pintadas pelo artista flamengo de Peter Paul Rubens (1577-1640); as mulheres do impressionista Pierre-August Renoir (1841-1919); as mulatas do pintor Di Cavalcanti (1897-1976) ou as figuras do colombiano Antonio Botero (1932- ).
Durante a entrevista, Alexandre recusou-se a tecer comentários sobre os seus trabalhos. Mencionou apenas: “[...] eu pego uma tela e vou criando na hora... às vezes está estabelecida a imagem que eu quero, às vezes não. Ela pode mudar, chegar à tela e mudar sem problema nenhum [...]”. (FILHO, 2006). Sua produção espontânea não é descompromissada do planejamento, do esboço que antecede a pintura. Durante as visitas ao seu ateliê, para o desenvolvimento da pesquisa, acompanhamos o processo de construção de várias obras. Em algumas, o artista realizou estudos que antecederam o trabalho final. Como autodidata, ao criar suas imagens, ele utiliza como processo a espontaneidade; seguindo a intuição, cria composições elaboradas.
As mulheres criadas por Alexandre esbanjam sensualidade, deliciam-se sobre os cachos de frutos maduros, em uma verdadeira dança erótica, enquanto o seu rosto aparenta uma inocência latente. Percebe-se uma tentativa de síntese entre a sensualidade do corpo e a serenidade do espírito. Suas mulheres sensuais, com formas avolumadas, integram-se ao imaginário ancestral, remetendo a imagens arquetípicas, como as vênus neolíticas. A idealização da mulher, na arte de Alexandre Filho, tem relações inconscientes com o arquétipo da grande mãe, com o mito da mãe-terra, com a mulher como procriadora, com o feminino como princípio gerador da vida.