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O MITO DO PRIMITIVO E A ESTÉTICA DA EVASÃO

I CAPÍTULO

EXEMPLO DE CLASSIFICAÇÃO DAS CATEGORIAS DA ARTE

1.7 O MITO DO PRIMITIVO E A ESTÉTICA DA EVASÃO

As relações culturais na Alemanha e na França, no século XVIII, refletem posturas intelectuais diversas. Na Alemanha, predominou o conceito de Kultur, refletindo uma postura intelectual contrária à industrialização, à urbanização, ao liberalismo político e às inovações artísticas, vistas como variáveis da degeneração da cultura tradicional, apresentando posição claramente “antiprogressista”.

Na França, predominou o conceito de Zivilisation, visto como uma cultura mais refinada, com idéias do racionalismo e do ceticismo, ligadas à concepção do progresso, da urbanização, da industrialização das grandes cidades, de uma comunidade erudita, culta e sofisticada.

Segundo Elias (1989), a dualidade entre esses conceitos é um reflexo da formação da classe dirigente dos dois países, a partir da formação de uma intelligentsia burguesa alemã em contraste com uma intelligentsia burguesa francesa.

A Kultur alemã, reunida em pequenas e numerosas capitais, é focada na oralidade da pequena burguesia, em contraste com a nobreza campesina, sem expressão política e exercícios intelectuais puramente mentais. Seu forte sentimento nacionalista gerou idéias conservadoras e racistas que tiveram seu ápice no Nazismo.

A Zivilisation partiu da intelligentsia burguesa francesa reunida na capital, Paris - a cidade luz - considerada na época o centro cultural mundial, em torno de uma sociedade centralizada, organizada, unificada, tendo como principal elemento de formação o texto escrito. Sua jovem burguesia, detentora de uma sólida formação cultural, apresentava uma postura política marcante, envolvida na administração pública, e na aceitação da classe cortesã. Essa burguesia realizou uma revolução que respeitou os costumes regionais, permitiu à França um rápido desenvolvimento no mundo das idéias e um maior predomínio das artes (ELIAS, 1989)3.

Essa dualidade na formação cultural dos dois países, estabeleceu caminhos diferentes para sua produção artística. Na Alemanha surgiuram à época, em pequenos vilarejos, comunidades de artistas, que migravam temporariamente dos grandes centros. Este fenômeno ganhou novas dimensões durante o século XIX.

Em torno da [...] década de 1890, especialmente em Worpswede, uma aldeia habitada basicamente por camponeses, agricultores e cortadores de trufa. [...] a maioria do grupo [de artistas] pintava temas camponeses e de paisagem, influenciados em parte pela obra de Courbet4 e dos pintores franceses de Barbizon (PERRY, 1998, p. 36).

Esses grupos de artistas jovens refugiavam-se em pequenos vilarejos como forma de observar in loco a vida camponesa, rude e afastada do glamour da metrópole. Buscavam, nessa forma de representação, possibilidades de captar a essência do “primitivo”, uma vida feita em um outro tempo, um retorno ao passado, sem a perda das vantagens do presente, um jovem primitivismo nascente.

3 Um resumo dessas diferentes concepções de cultura pode ser visto na tabela elaborada por Kuper (2002) (ver

tabela III no anexo I).

4 GUSTAVE COURBET (1819-1877) Nasceu em Ornans, França, em 10 de junho de 1819. Não gostava de

livros e seu único interesse estava no desenho e na pintura. A partir de 1844, fez exposições constantes no salão de Paris. Os críticos reagiram a seu favor e seu nome tornou-se público. Suas obras foram bastante influenciadas pelos pintores franceses, espanhóis e alemães da época do realismo no século XVII, tornando-se um dos principais pintores realistas (PROENÇA, 2003, p. 133).

Alguns artistas participantes dessas comunidades obtiveram reconhecimento, entre eles, uma mulher, Paula Modersohn-Becker (1876-1907), natural de Dresden, uma das poucas a serem reconhecidas como artista no período. Seu nome tornou-se público por ocasião de sua exposição em Paris no início do século XX (ver figuras 01 e 02).

Figura 01 - Paula Modersohn-Becker “Mulher do Asilo de Pobres no jardim" 1906, óleo s/tela, 96 X 80 cm. Bremem.

Figura 02 - Paula Modershon-Becker “Mãe ajoelhada com filho” 1907, óleo s/tela, 113 X 74 cm. Nationalgalerie, Berlim.

As imagens de Modershon-Becker são geralmente figuras femininas, representadas de forma bruta, primitiva, natural, com alguns traços eróticos, lembrando as figuras monolíticas da pré-história. As mulheres retratadas por essa artista são matrizes, a personificação do arquétipo da grande mãe.

Enquanto na Alemanha os grupos de artistas se organizavam em pequenos vilarejos, na França, em meados do século XIX, o golpe de Estado de Luís Napoleão restabeleceu o império em 1852, provocando o grito dos intelectuais, entre os quais, destacamos a participação de Baudelaire (1821-1867), que foi um dos mais contundentes críticos à sua dominação. Estruturava-se a rejeição aos moldes sociais burgueses, refletidos nas transformações artísticas e na concepção de uma “fuga da civilização” empreendida por alguns artistas e escritores do período. Essa idéia de fuga nasceu como um posicionamento ideológico e transformou-se em atitude concreta.

Essa prática pode ser identificada na viagem de Rimbaud à África; de Gauguin para Arles e para o Taiti; de Van Gogh para Arles; de Matisse para a Tunísia; de Kandinsky para o Norte da África; de Nolde para os mares do sul e para o Japão; de Pechsthein para as Ilhas

Palau, China e Índia; bem como a opção suicida de Kirchner e Van Gogh. Segundo Micheli, “a poética da evasão transformar-se-á com certa freqüência em prática da evasão. [...] tornar- se selvagens: eis, portanto, uma das maneiras para evadir-se de uma sociedade que se tornou insuportável” (MICHELLI, 1991, p. 41).

Na França, assim como na Alemanha, comunidades rurais ou pequenos vilarejos foram locais de reuniões temporárias de grupos de artistas em fins do século XIX, todos em busca de formas primitivas de vida como tema para sua arte.

No final do século XIX, uma variedade de pressupostos e preconceitos culturais contribuiu para os discursos sobre o “primitivo”. Para a maioria do público burguês dessa época a palavra significava povos de culturas atrasados e incivilizados. Numa época em que os franceses, como os britânicos e os alemães, estendiam suas conquistas coloniais na África e nos mares do sul e criaram museus etnográficos e várias formas de estudo antropológico institucionalizado, os artefatos dos povos colonizados eram vistos amplamente como prova de sua natureza incivilizada “bárbara”, de sua falta de “progresso” cultural. Essa visão era reforçada pela crescente popularidade das teorias pseudodarwinistas da evolução cultural. (PERRY, 1998, p. 05).

Um exemplo concreto desse movimento foi a comunidade formada na região da Bretanha, França, em meados da década de 1880, especialmente na aldeia de Pont-Aven, estabelecida como uma comunidade de artistas de procedências diversas que migravam para essa região em busca de um custo de vida mais barato e inspiração na vida rural.

O distanciar-se fisicamente dos grandes centros civilizados era um retorno ao outro, um encontro com as origens.

[...] O “ir embora” para províncias rurais distantes – ou para as supostas margens da civilização – passou a ser visto como um aspecto crucial do vanguardismo do final do século XIX. Mas o ato verdadeiro de “ir embora”, de encontrar uma “cultura primitiva”, costumava ser combinado com a produção da obra num estilo “primitivo”, embora esta não decorresse necessariamente daquele. Ambos os aspectos da produção artística eram com freqüência, identificados como prova de “originalidade.” (PERRY, 1998, p. 05).

Vincent Van Gogh foi um dos artistas que sonhava em criar uma comunidade na região de Arles, no interior da França, para onde convidou vários artistas amigos. No entanto, apenas Gauguin aceitou seu convite, por um breve período de tempo, devido à difícil convivência entre ambos.

O movimento de fuga da civilização, do qual fazem parte as comunidades de artistas tem suas raízes nas primeiras experiências dos paisagistas holandeses no século XVII, ao elevarem a paisagem a um gênero de pintura, embora esta tenha tido um papel secundário na História da Arte até o século XVIII. No século XIX, a paisagem é alçada a uma das

protagonistas da representação pictórica. Nesse momento, os artistas ainda estavam ligados ao universo pictórico figurativo, mas livres do mercado de encomendas dos retratos, batalhas e feitos históricos. Novas representações das figuras humanas também foram, pouco a pouco, surgindo na arte até se consolidar em uma nova estética moderna.

Diversos movimentos de vanguarda foram impulsionados pela rápida transformação social, econômica e tecnológica. A criação da fotografia pelo francês Jacques Mande Daguerre, por meio do Daguerreótipo5, apresentado em 1839 na Câmara de Ciência da França, e pelo Inglês William Herry Fox Talbot, que apresentou um processo de gravação semelhante para a imagem na Inglaterra no mesmo ano, foi um marco que revolucionou a concepção artística dominante. Esses inventos revolucionaram a produção de imagens, modificando definitivamente a relação dos artistas com sua práxis e apontando novos caminhos a serem trilhados pela Arte.

Na pintura, um dos movimentos artísticos precursores da idéia de inovação artística foi o Romantismo, situado entre a segunda metade do século XVIII e meados do século XIX, como um prenúncio às grandes transformações que se estabeleceram a partir do Impressionismo.

Os românticos buscavam formas de representação ligadas à natureza emocional do artista, expressa por meio da arte. As obras românticas apresentam uma inquietação com o mundo exterior, a busca pelo outro, o exagero dos sentimentos, certo fatalismo permanente, figuras humanas tristes, melancólicas. Essas imagens simbolizam a admiração pela liberdade, pela vida natural, pelo amor e pelas posturas sociais idealizadas e o apreço pela tecnologia da máquina a vapor (Ver figuras 03 e 04).

Outros movimentos, como o Realismo e o Neoclassicismo, foram contemporâneos do Romantismo, e seus embates conceituais parecem configurar um terreno fértil para o surgimento da arte impressionista e a estruturação das vanguardas artísticas. Com o Impressionismo, já em fins do século XIX, o Estilo Neoclássico, dominante na Europa e instituído como oficial em alguns países de passado colonial, como é o caso do Brasil, perdeu espaço para as inovações formais e para a explosão da luz na pintura.

5 Imagem produzida pelo processo positivo criado pelo francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851). No

daguerreótipo, a imagem era formada sobre uma fina camada de prata polida, aplicada sobre uma placa de cobre e sensibilizada em vapor de iodo. Divulgado em 1839, esse processo teve, na Europa, utilização praticamente restrita à década de 1840 e meados da década de 1850. Aqui, no Brasil, continuou sendo empregado até o início da década de 1870, enquanto nos Estados Unidos - onde a daguerreotipia conheceu popularidade maior até do que em seu país de origem - continuou sendo muito popular até a década de 1890.

Figura 03 – Francisco Goya. Saturno devorando um dos seus filhos, óleo em gesso transferido para tela, 1820/1823, Museu del Prado – Madri.

Figura 04 - William Turner. Chuva, vapor e velocidade, óleo s/tela, 90.8 x 121.9 cm; National Gallery, Londres ·.

O Impressionismo pode ser considerado uma verdadeira revolução nos círculos artísticos. Os artistas, usando telas de pequenas dimensões - em cavaletes, ao ar livre - descobriram a fugacidade da luz sobre os objetos e os corpos, associando as artes visuais à ótica. Trabalhando com pinceladas rápidas, cores sobrepostas e massas espessas de tinta, os artistas impressionistas chegaram a representar o mesmo tema de formas diversas, quando pintado em horários diferentes do dia, como é o caso da série de trabalhos que Monet fez sobre a Catedral de Rouen. Em 1874, o grupo de pintores impressionistas organizou a primeira exposição coletiva no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar, à margem do salão oficial. A atuação do grupo se estendeu até 1886, quando da realização da última exposição em conjunto. Os artistas impressionistas deixaram suas marcas na história da arte ocidental, tornando-se mestres. Alguns deles produziram incessantemente até a morte.

Nesse período, alguns artistas iniciaram sua formação como impressionistas, mas logo encontraram formas particulares de representação. Receberam, então, a denominação de pós- impressionistas, termo criado pelo pintor e crítico de arte inglês Roger Fry (1866-1934). Destacamos, entre eles, Paul Cézanne (1839-1906), Vincent Van Gogh (1853-1890), Paul Gauguin (1848-1903) e Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). Esses artistas, entre outros,

encontraram formas particulares de lidar com sua produção artística, inovando na feitura de seus trabalhos, construindo outras possibilidades além da proposta impressionista.

Circulava na Europa, nesse período, uma forte tendência à revitalização das idéias do filósofo suíço Jean Jacques Rousseau sobre a natureza do homem. Suas idéias, revisitadas pelos intelectuais e artistas, permitiram a emergência de outras formas de expressão até então consideradas periféricas.