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Alfredo Volpi: Cores nostras, encrenca deles

No documento PARTE I - ESTRUTURA DOS DIREITOS AUTORAIS E DO (páginas 103-107)

PARTE II - NOVO PANORAMA DA QUESTÃO SUCESSÓRIA EM DIREITOS

Capítulo 3: Morte e vida em Direitos Autorais: a sucessão como ela é

3.4 Alfredo Volpi: Cores nostras, encrenca deles

Foi na cidade de Lucca que nasceu o mais brasileiro dos artistas italianos. Alfredo Volpi (1896-1988) emigrou com os pais para São Paulo, com apenas um ano de idade. Instalou-se com a família no bairro do Cambuci, um dos bairros mais antigos da cidade. Carregava em si a vocação de ser artista e desde criança levava jeito com as cores. Um pouco mais crescido, já trabalhava como pintor, mas não de telas. Pelo menos não de telas convencionais.

214 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (15ª Câmara Cível). Apelação Cível nº

0124178.72.2007.8.19.0001. Apelante: Ricardo Strang. Apelada: Access Editora Ltda. Relator: Des. Ricardo Rodrigues Cardozo. Rio de Janeiro, 28 de maio de 2013.

É que ele ganhava a vida como pintor de friso, um eufemismo para parede. Uma palavra que hoje parece causar certo constrangimento, já que a família tentou banir passagem da sua biografia. Parede ou friso, Volpi se distinguia pelo talento e era contratado com freqüência pela alta sociedade de São Paulo, cidade onde ajudou a fundar o Sindicato de Artistas Plásticos, em 1936. Nos anos de 1940, o artista colaborou como ceramista, junto com Mário Zanini, para a Osirarte, empresa de azulejaria de Paulo Rossi Osir215.

Ainda em 1940, ganhou um concurso promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com obras que tinham como base os monumentos das cidades de São Miguel e Embu. Após apaixonar-se pela arte colonial, começa a pintar temas populares e religiosos. Com a marcha do tempo, sua poética216 se torna mais simples. A primeira exposição individual acontece em 1944, na Galeria Itá, na mesma época em que participou da coletiva organizada por Guignard em Minas Gerais. Na década seguinte viajou para a Paris, participou das três primeiras Bienais Internacionais de São Paulo, pintou afrescos para a Capela da Nossa Senhora de Fátima em Brasília, dividiu o prêmio de Melhor Pintor Nacional com Di Cavalcanti, na II Bienal de São Paulo, em 1953, e foi definido pelo crítico de arte Mário Pedrosa como um verdadeiro mestre brasileiro.

Suas séries mais conhecidas são aquelas em que usa bandeiras e mastros para trabalhar cores e formas. Fazia e desfazia combinações e inventava. Não como inventam os cientistas que perseguem com rigidez inabalável a verdade que os olhos não veem; era antes um aventureiro sem bússola que precisava inventar o próprio modo de orientação. Viveu até os 92 anos de idade, consagrado, com fama e reconhecimento.

Se sua vida foi longa, as brigas que passaram a rodear o seu nome após a sua morte podem perdurar por igual tempo. Enquanto para muitos a arte é um elemento que ajuda a dar significado à vida, a impressão que fica em alguns outros casos é de que a morte do artista é sinônimo de lucratividade.

215 ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE ARTE E CULTURA BRASILEIRAS. São Paulo: Itaú

Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao435011/osirarte>. Acesso em: 28 de Mai. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

216 Utiliza-se aqui o termo poética no sentido de estilo, linguagem - aquilo que torna o artista único -, e

A repórter Luciana Pareja Norbiato, da Revista Select - publicação especializada em arte - faz uma boa reflexão sobre o dilema que paira sobre os herdeiros de artistas do porte de Volpi:

Ao se falar em herança, a ideia que surge é de fortuna. No caso de o legado ser a obra de um artista, a benesse material dos direitos autorais e da venda de obras nunca vem só: caminha de mãos dadas com uma quantidade inimaginável de complexidades, começando por manter conservado e acessível ao público o universo artístico do parente. Aos vivos fica a escolha de agir como guardiões de um precioso patrimônio criativo ou visar lucro com a exploração nem sempre moderada do espólio. Entre um e outro há nuances e questões que falam sobre o estado da arte e a forma como sua história é (des)tratada no Brasil217.

Uma curiosidade deste caso é que, de acordo com Pedro Mastrobuono, o artista ainda recebe os Direitos Autorais que lhe são devidos no seu próprio CPF. Isso porque o inventário ainda não teria se encerrado, devido ao fato de Eugênia Maria Volpi Pinto, filha de Alfredo, ter deixado de fora da lista 47 obras, repassando-as em benefício próprio. Destrepassando-as, apenrepassando-as 9 foram recuperadrepassando-as218.

A diferença financeira proveniente da sonegação em inventário das 38 obras afetou diretamente Djanira Maria da Conceição Volpi, irmã de Eugênia e também herdeira. Um levantamento feito pelo jornal Folha de São Paulo, em reportagem de 2012, mostra o tamanho da desigualdade na hora da partilha. Enquanto Eugênia ainda era a inventariante do espólio do pai, se apropriou, a título de Direitos Autorais, desde 2004, do valor de aproximadamente 260 mil reais, ao mesmo tempo que Djanira vivia com menos de mil reais por mês219.

Além das duas, Volpi teve outros dois filhos: Alfredo Charles Volpi e Paulo José Roberto Volpi. O primeiro, falecido em 2000, viveu sob grande penúria e pouco ou quase nada viu do dinheiro das obras do pai. Já Paulo Roberto está desaparecido.

217 NORBIATO, L. P. Pobres herdeiros ricos. In: Revista Select. Disponível em:

<https://www.select.art.br/pobres-herdeiros-ricos/>. Acesso em 28 set. 2017.

218 NORBIATO, L. P. Pobres herdeiros ricos...

219 CYPRIANO, F. Filha de Volpi vive com menos de R$ 1.000 por mês. In: Folha de S. Paulo.

Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/45531-filha-de-volpi-vive-com-menos-de-r-1000-por-mes.shtml>. Acesso em 28 set. 2017.

Como é comum nesses casos, as batalhas jurídicas entre os herdeiros acabam atingindo outras áreas e com Volpi não foi diferente. Em 2009, o Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro realizou, entre 29 de abril e 5 de julho, a mostra Volpi – As Dimensões da Cor, mas foi proibido de incluir as imagens das obras no catálogo da exposição. De acordo com a curadora Vanda Klabin, responsável pela mostra, a família pediu o valor total de 150 mil reais para que o uso das imagens das 61 obras que compunham a exposição fosse liberado, quantia que estaria muito acima do valor de mercado220.

Só houve melhora nas negociações envolvendo o trabalho de Alfredo Volpi quando o Instituto Volpi foi criado, em 2011221. Eugênia foi destituída de seu posto de inventariante e o Instituto se tornou representante legal do espólio do artista. O diretor jurídico Pedro Mastrobuono, alega que Volpi havia deixado uma autorização por escrito, tendo Eugênia como testemunha, para que Marco Antonio Mastrobuono (falecido em 2016), colecionador de arte e pai de Pedro, fosse responsável pela catalogação da sua obra222.

Os valores abusivos antes cobrados foram então reajustados para poderem condizer com a realidade do mercado. A instituição tem planos para cuidar da catalogação de outros artistas, em um grande esforço de cuidado com a memória e de garantir maior segurança também aos compradores e colecionadores. Entre os já anunciados estão Aldo Bonadei, Yolanda Mohalyi, Farnase de Andrade, Ottone Zorlini e Flávio de Carvalho.

A consultora de arte e pesquisadora Denise Mattar, que já foi responsável pela curadoria de instituições como Museu da Casa Brasileira e do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro e São Paulo, afirma que a solução está na reforma da lei que defende que os direitos do artista falecido fiquem em mãos dos familiares por 70 anos. “São praticamente três gerações. Vinte anos são suficientes, senão o número de herdeiros cresce exponencialmente e fica difícil negociar”223.

220 KLABIN, V. O caso Volpi. In: Revista DASartes. Disponível em:

<http://dasartes.com/materias/o-caso-volpi/>. Acesso em: 28 set. 2017.

221 NORBIATO, L. P. Pobres herdeiros ricos...

222 CYPRIANO, F. Filha de Volpi...

No documento PARTE I - ESTRUTURA DOS DIREITOS AUTORAIS E DO (páginas 103-107)