PARTE II - NOVO PANORAMA DA QUESTÃO SUCESSÓRIA EM DIREITOS
Capítulo 3: Morte e vida em Direitos Autorais: a sucessão como ela é
3.3 Poesia interditada: a voz sufocada de Cecília Meireles
Cecília Meireles (1901-1964) é considerada por muitos como a maior voz feminina da nossa poesia. Nascida no Rio de Janeiro, sua vida é marcada por tristes episódios. A começar pela ausência do pai que morreu antes mesmo dela nascer e pelo falecimento da mãe quando ela tinha apenas 3 anos de idade. Depois, teve que lidar ainda com a morte trágica do primeiro marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias, com quem havia se casado em 1922. Fernando cometeu suicídio em 1935, por conta de um forte quadro de depressão.
Cecília foi de tudo um pouco. Ensaísta, cronista, tradutora, pintora, educadora, autora de livros infantis e folclorista. Destacava-se em todas essas áreas, mas foi com a poesia que ganhou notoriedade. Entre o primeiro livro de poemas, Espectros (1919) e o último, Solombra (1963), muita coisa aconteceu.
207 FRANCO, L. Herdeiros de Lygia Clark exigem fim de mostra no Rio. In: Folha de S. Paulo.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1556465-herdeiros-de-lygia-clark-exigem-fim-de-mostra-no-rio.shtml>. Acesso em 28 mai. 2018.
Ganhou prêmios literários importantes e organizou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.
Além do italiano, alemão, inglês, francês e espanhol, teve obras traduzidas para línguas muito distantes da própria, como hindi, urdu e húngaro. Apaixonada por música, elemento quase sempre presente nas estruturas de seus poemas, que foram musicados por Camargo Guarnieri, Lamartine Babo, Ênio Freitas e Fagner (com quem as três herdeiras travaram uma briga em torno dos direitos da canção Canteiros, que continha trechos de um poema dela)208.
Em seu livro mais famoso, Romanceiro da Inconfidência, publicado originalmente em 1953, Cecília narra a história de Minas Gerais e da Inconfidência Mineira, centralizada na figura de Joaquim José da Silva Xavier, que também atende pela alcunha de Tiradentes. Durante o percurso narrativo, vemos o sofrimento dos negros escravizados e da luta por liberdade. É desse livro um dos versos mais conhecidos da autora: “Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta,/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda”209.
“Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela”210, também escreveu. No entanto, sua voz ficou por um tempo aprisionada. E não foi pela morte, pelo fim da existência. Sua voz foi sufocada pela própria família, que por alguns anos havia impedido novas reedições de seus livros, enquanto decidiam quem ficava com o quê e com quanto.
Tudo começou com o falecimento de Maria Mathilde, uma das três filhas e herdeiras de Cecília, em 2007 (as outras duas são Maria Fernanda e Maria Elvira, já falecida). Antes de morrer, Mathilde deixou em testamento que os direitos que cabiam a ela sobre a obra da mãe deveriam ser passados para Ricardo Strang, seu sobrinho e filho de Maria Elvira. O fato de Mathilde ter favorecido o sobrinho ao invés de seus filhos - Alexandre Teixeira, Fátima Dias e Fernanda Dias - levantou suspeitas. Fátima e Fernanda ingressaram em juízo questionando a autenticidade
208 GLOBAL EDITORA. Cecília Meireles. Disponível em:
<http://globaleditora.com.br/autores/biografia/?id=4124-cecilia-meireles>. Acesso em 15 set. 2017.
209 MEIRELES, C. Obra poética. São Paulo: Nova Aguilar, 1977, p. 89.
do testamento que garante a Ricardo o controle de dois terços dos Direitos Autorais, enquanto Alexandre, que é advogado e agente literário, ficou do lado do primo.
Foi nesse clima de tensão familiar que, em 2011, a Global Editora anunciou em coletiva de imprensa que um acordo havia sido firmado com Ricardo Strang para a reedição de toda obra de Cecília Meireles, o que aumentou a animosidade entre os familiares.
“Infelizmente, um assunto pessoal e familiar prejudica a publicação da obra. Mas não posso fazer nada. Sou atriz e nem eu mesma posso recitar os versos da minha mãe, o que é triste”, disse Maria Fernanda sobre a situação em reportagem da Revista ISTOÉ211. O intuito da briga, segundo a única filha viva, era o de defender o direito das sobrinhas que tinham ficado de fora da partilha. “Tudo o que a gente não gostaria que acontecesse, ou seja, colocar o nome da minha avó nesse tipo de exposição, está ocorrendo. É uma questão delicada. Lamento que outros parentes estejam fazendo isso”, lamentou Ricardo na mesma ocasião212. As sobrinhas tinham seus próprios planos para as obras da tia e já vinham negociando por conta própria uma reedição com a editora Globo.
Curiosamente, Alexandre também é agente literário de Manuel Bandeira e protagonizou uma querela com a Editora Aprazível. Em Olho da Rua, livro de fotografias de José Medeiros, havia uma foto de Bandeira em conversa com o também escritor Orígenes Lessa. Foi o bastante para que Alexandre tentasse impedir a circulação do livro em 2010. “Bastava pagar R$ 1.500 pelos direitos de 3 mil exemplares, e não seria nada, o livro teve patrocínio da Lei Rouanet, seria vendido a R$ 170. As editoras não podem passar por cima”, justificou em interessante matéria da Revista Época, que trazia o sugestivo título: Profissão: herdeiro213.
211 ALECRIM, M. A confusão na família de Cecília Meireles: uma briga entre os herdeiros da poeta
impede mais uma vez o lançamento da sua obra anunciado com alarde recentemente. In: Revista
Isto É. Disponível em: <https://istoe.com.br/183103_A+CONFUSAO+NA+FAMILIA+DE+CECILIA+MEIRELES/>. Acesso em
15 jun. 2017.
212 ALECRIM, M. A confusão na família...
213 COURI, N. Profissão: herdeiro. In: Revista Época. Disponível em:
<http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI155579-15220-3,00-PROFISSAO+HERDEIRO.html>. Acesso em 27 ago. 2017.
Ricardo também tentou impedir que os poemas da avó chegassem a outro público para o qual ela tão bem escreveu: as crianças. Em 2013, Strang iniciou batalha judicial contra a editora que reproduziu o poema O Lagarto Medroso, no livro didático do ensino fundamental Na Ponta da Língua, para a 4ª série, sob acusação de violação ao artigo 5º, XXVII, da Constituição da República e os artigos 5º, VII e 29, da Lei n. 9.610/98 (LDA). Após sentença que contrariou seus interesses, houve apelação por parte de Ricardo, a qual restou não provida. Segue trecho da decisão do TJRJ:
O livro no qual o poema foi publicado é didático, destinado aos alunos do ensino da 4ª série fundamental. Observo, pelo exame da 5ª unidade do livro (fls. 38/42 dos livros apensos), que o poema está identificado e é exaustivamente explorado, guardada as limitações daquela série educacional. Portanto, contribui e não denegri (sic) em nada a imagem da poetisa214.
Enfim, em 16 novembro de 2017 chegaram às livrarias os dois volumes de Poesia Completa, box que reúne todos os poemas da escritora e jornalista. A edição traz também um caderno iconográfico com fotos e manuscritos do arquivo pessoal da artista.