2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3 SIMBOLISMO EM ORGANIZAÇÕES
2.3.3 Algumas aproximações dos estudos organizacionais e simbolismo
Baseados nos estudos de Burrel e Morgan (1979), sobre os paradigmas dos estudos organizacionais, Morgan et al (1983) propõe algumas possibilidades para os estudos sobre simbolismo nas organizações. As abordagens propostas pelos autores são divididas em quatro paradigmas, a saber: funcionalista, estruturalista, radical humanista, e radical estruturalista, que estariam amparados por diversas metáforas, conforme mostrado na figura 1.
A abordagem funcionalista e suas metáforas (orgânica, cibernética, cultural e teatral) propõem estudos sobre o simbolismo sob uma ótica essencialmente instrumental e operacional, onde os símbolos podem ser identificados e categorizados, e suas funções podem ser definidas de forma a serem manipuladas e controladas pelos representantes da organização. Nesta abordagem, sob um olhar antropológico, as organizações são vistas como miniaturas da sociedade, dotadas de estruturas sociais distintas e teriam nas suas relações simbólicas uma forma eficiente de ordenar, entender e sustentar a cultura organizacional vigente. Quando interpretado sob esta perspectiva, o simbolismo organizacional aproxima-se dos estudos voltados para a motivação, para o controle, para liderança, e para os estudos acerca da modelagem do comportamento humano, que quando disseminados de forma universalista (podendo ser aplicados a qualquer tipo de organização), minimizam a abrangência dos estudos sobre a ação simbólica dos indivíduos no seio destas mesmas organizações. Esta abordagem tende a simplificar a natureza das organizações quando aborda seus aspectos formais e estruturais, em detrimento dos seus aspectos relacionais, desprezando assim a complexidade dos padrões de atividade humana no ambiente organizacional (MORGAN et al, 1983, p. 18-22)
Aproximações dos estudos do simbolismo Orgânico Cultura Teatro Cibernética Teste Construção de sentido Prisão psíquica Instrumento de dominação Funcionalismo Interpretativo Radical humanista Jogo de linguagem Radical estruturalista
FIGURA 1 – PARADIGMAS E METÁFORAS: ALGUMAS POSSIBILIDADES DE
APROXIMAÇÃO AO ESTUDO DO SIMBOLISMO ORGANIZACIONAL. Fonte: Morgan, Frost e Pondy, 1983, p.18.
Diversos autores (AKTOUF, 1994; JONES, 1996; MORGAN at al, 1983, MORGAN, 1996) citam que a maior parte dos estudos acerca do simbolismo dividem-se entre as abordagens funcionalista e estruturalista, o que da amplo destaque aos estudos desenvolvidos sob estas duas abordagens.
A abordagem interpretativa e suas metáforas (jogo de linguagem, teste, construção de sentido, cultural e teatral), em contraposição a abordagem funcionalista, entende que todos os aspectos voltados para a cultura nas organizações são complexos e problemáticos (não sendo portanto facilmente gerenciáveis ou governáveis), e visa, como foco central, entender como as práticas sociais criam e sustentam os elementos simbólicos, criando e recriando o ambiente cultural, como uma teia de significados compartilhados pelos membros desta organização. Sob esta ótica os mesmos símbolos podem significar diferentes coisas para diferentes pessoas ou grupos, pois eles são usados para
dar sentido em diferentes formas, lugares e tempos. Desta forma o significado dos símbolos não está no conteúdo intrínseco do símbolo, mas na forma em que, mediante as relações sociais, estes símbolos foram criados (MORGAN et al, 1983, p. 22-25).
O paradigma radical humanista, utilizando-se da metáfora da prisão psíquica, entende que o ser humano criou e sustenta um mundo simbólico que possui características alienantes para os seus próprios criadores. Os teóricos que operam nesta linha de pesquisa entendem que o “homem moderno” criou uma “armadilha” para si próprio ao aderir a padrões que, determinados por uma sociedade industrial que foi criada, sobrevive e fortalece-se na necessidade da produção e do consumo, o aprisiona a um sistema social onde a busca pela identidade passa, obrigatoriamente, pela capacidade de consumir dos indivíduos desta sociedade, o que Bauman (1998; 1999) veio a designar como uma “sociedade de consumo”.
Neste contexto as organizações sociais são vistas como criadas e sustentadas por uma aproximação cega a conceitos socialmente elaborados, imperativos, externos, e independentes dos indivíduos. Quando comparado ao paradigma interpretativo o paradigma radical humanista assume uma dimensão política onde, “textos da vida social podem ser vistos como documentos políticos”. As pesquisas margeadas por este paradigma trás grandes contribuições para os estudos do simbólico nas organizações, uma vez que busca abordar as relações de poder que emanam das ações simbólicas existentes no interior destas organizações e como estas ações podem gerar mecanismos de dominação sobre os indivíduos que a ela se submetem (MORGAN et al, 1983, p. 25-28).
Por fim, a metáfora adotada pela vertente radical estruturalista é aquela que enxerga as organizações como instrumentos de dominação. O que diferencia esta abordagem das abordagens radical humanista e estruturalista é que, neste caso, a dominação é real e, não apenas fruto de construções simbólicas compartilhadas.
Dentro desta metáfora as organizações são vistas como instrumentos de dominação, manipulados e controlados por aqueles que dominam amplos seguimentos da sociedade e que tem como meta o acúmulo de poder e de capital (MORGAN et al, 1983, P. 28-30). Conforme abordado por Bourdieu (1989), as principais características dos sistemas simbólicos sob esta ótica é o da reprodução da ideologia vigente que serve para legitimar e encorajar a reprodução de práticas que só beneficiam as classes dominantes. Braverman (1977) cita ainda que este movimento ideológico, mesmo quando vestindo a roupagem dos movimentos das relações humanas, traz em seu cerne o objetivo de dissimular as relações desiguais de poder, tornando mais aprazível o local de trabalho e reduzindo a percepção dos indivíduos que se submetem às desiguais relações de poder, no seio das organizações.
Como pôde-se observar, as proposições de Morgan et al (1983) trazem diversas propostas de abordagem do aspecto simbólico nas organizações, no entanto, visando manter a linha mestra de pesquisa, proposta nesta dissertação, utilizar-se- á o paradigma interpretativo como base para as análises das representações simbólicas na organização estudada, uma vez que o objetivo final deste trabalho será o de identificar como se constroem estas representações simbólicas no cotidiano laboral dos pesquisados e, conforme demonstra Sperber (1978) em seus ensaios acerca do “simbolismo” , é de fundamental importância, a aqueles que pretendem desenvolver estudos nesta área, ater-se tanto às questões voltadas para o conhecimento cultural implícito18, quanto para o conhecimento cultural tácito19. Por suas peculiaridades, o conhecimento cultural tácito exige do pesquisador um olhar mais acurado sobre como se constroem e como se
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O autor trata por conhecimento cultural implícito aquele que, os que o possuem, são capazes de explicá-lo e conhecem suas origens. Este conhecimento é, na ótica do autor, categoricamente partilhado, pode ser aprendido de cor, e não testemunha, pois, senão os limites quantitativos da capacidade humana de aprendizagem.
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O conhecimento tácito representa o conhecimento adquirido culturalmente, que não pode ser explicitado pelo indivíduo que o possui, não podendo assim ser adquirido mediante simples registros, ele é reconstruído individualmente, testemunhando a capacidade de aprendizado específica de uma competência criativa qualitativamente determinada.
reproduzem os elementos culturais de uma determinada sociedade, principalmente pela subjetividade contida neste tipo de conhecimento.
É por acreditar que o processo de internalização de símbolos constroe-se tanto por um processo de bricolagem individual quanto de grupos sociaIs (RODRIGUES et al, 2002; LINSTED; GRAFTON-SMALL, 1990), que esta abordagem foi escolhida em detrimento das demais vertentes.
A seguir serão abordados alguns temas relativos a representações sociais nas organizações, visando mais uma vez, uma aproximação teórica com o tema ora em estudo.