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5 Formação da Fundação Educacional de Barretos como um campo de poder

5.1 Caracterização do campo externo da Fundação Educacional de Barretos

5.1.1 Algumas características do campo macro-social

Procuramos na obra de Ianni, particularmente no livro sobre as teorias de globalização (1996) os elementos teóricos iniciais que, a nosso ver, se constituíram nos “dispositivos” da formação do campo universitário brasileiro e, mais especificamente, do campo formado pelas fundações municipais de ensino superior no interior do estado de S. Paulo. Trata-se de uma contextualização mais ampla, ocidental e eurocentrada que, segundo o autor, se constitui na propagação de certas lógicas ou padrões específicos e cuja elucidação poderá contribuir para o desvendamento de nosso objeto investigado. Através da leitura de Ianni, deparamo-nos com a conjugação de duas interpretações distintas a respeito da constituição e da propagação do sistema capitalista em formação. Trata-se das formulações do francês Fernand Braudel e do austríaco Immanuel Wallerstein 2.

Ambas formulações tratam da globalização por aproximações diferenciadas mas , em seu conjunto, mostram a complementaridade na formação dos “dispositivos” que evidenciam um padrão de comportamento de interligação entre a realidade macro-social do capitalismo em formação e o comportamento de uma série de variáveis diretamente relacionadas à constituição dos diferentes campos micro-sociais, objetos desta investigação.

De Braudel, conforme Ianni (1996, p.30) procuramos focalizar o olhar espacial, de “longa duração” que nos possibilita observar as diferentes “globalizações como a repetição de padrões semelhantes, mais especificamente em relação às características de funcionamento das estruturas por ele nomeadas como “economias-mundo”. Esta perspectiva nos esclarece a reincidência de processos, naquilo que o autor considera como “porções do mundo” entendidas como “a economia de uma porção do nosso planeta somente, desde que forme um todo econômico, [...] ‘um mundo em si e para si’ “ (BRAUDEL apud IANNI, 1996, p.27). Ou seja, a constituição do capitalismo atual, em sua forma globalizada, reproduz em um

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Fernand Braudel, cujas obras utilizadas por Ianni se referem a: O Mediterrâneo e o Mundo Mundo

Mediterrâneo na É poça de Filipe II, 2vols. sem indicação do tradutor, Martins Fontes, Lisboa.1984, além dos Escritos Sobre a História, tradução de J. Guineburg e T. C. Sileira da Mota, Ed. Perspectiva, S. Paulo, 1978. O

texto de Ianni se refere mais diretamente à sua publicação específica sobre globalização, A Dinâmica do

Capitalismo,tradução de Carlos da Veiga Ferreira, 2ª. ed. Editorial Teorema, Lisboa, 1986.A principal

característica de sua obra, foi a introdução do “olhar de longa distância” na análise da constituição do capitalismo.

Immanuel Wallerstein, cuja obra de referência utilizada por Ianni se refere a El moderno Sistema Mundial (La Agricultura capitalista y los Orígenes de la Economia-Mundo Europea em el Siglo XVI) tradução de A. Resignes, Siglo Vientiuno editores, México, 1979.Além das publicações El Moderno Sistema Mundial (II. El Mercantilismo y la Consolidación de la Economia-Mundo Europea 1600-1750) tradução de P. L. Mañez, Siglo Vientiuno editores, México, 1984 e The Modern World-System III. Academic Press. N. York, 1989.

movimento de “distenção” geográfica, tal qual outras estruturas sociais, alguns “traços característicos” semelhantes, no caso, de uma realidade européia para a constituição de uma realidade brasileira própria. Segundo Braudel, assim como tem ocorrido em outras “porções do mundo”, a globalização de um determinado espaço acontece por irradiação a partir de um pólo ou centro criativo e dominador que pode ser imaginado como o surgimento e a sucessão de círculos causados a partir da queda de uma pedra na água. A partir deste processo, as economias-mundo se dividem em zonas sucessivas, e de reprodução da matriz original, geograficamente distintas e marcadas como o espaço central de criação de padrões econômico-político-culturais e sociais, e os espaços intermediários e periféricos de reprodução destas referências da região central original.

Desta análise consideramos importante nos ater ao movimento histórico e geográfico tendencial de estruturação do capitalismo, seguindo um padrão externo/interno que se inicia com o fato de termos sido uma colônia de exploração, e a formação de uma cadeia de “matrizes” intermediárias, do litoral em direção ao interior. Para a realidade interiorana de S. Paulo, significa observar a propagação de tendências que seguem um itinerário a partir da realidade da capital, passando pelas cidades maiores e mais próximas, em direção à reprodução dessas condições, nas menores. Esse padrão se reproduz também por sua vez, para dentro do universo micro-social tanto na cidade como na FEB, à medida que, tanto a formulação do modelo de organização acadêmico quanto os seus controles públicos, terem como matrizes realidades externas, da cidade e da região. Faz parte da constituição do

habitus local, a tendência em se buscar, quando não, sobre-valorizar, modelos externos, nem

sempre adequados às características e aos objetivos locais. Escolhemos este padrão de estruturação como sendo o primeiro “dispositivo” para a compreensão desse campo de poder em específico. Retornaremos a ele mais adiante.

De Wallerstein (apud IANNI, 1996, p.31), interessa-nos focalizar uma característica política específica da expansão capitalista e da globalização em particular.pois malgrado a necessidade de diferenciação das autonomias políticas locais, mantém-se os laços de dominação, mesmo que se autorize uma diversificação da organização local, como mecanismo de continuidade do sistema macro-social como um todo. “O capitalismo tem sido capaz de florescer (nestes quinhentos anos) precisamente porque a economia-mundo continha dentro dos seus limites não um, mas múltiplos sistemas políticos” (WALLERSTEIN apud IANNI, 1996, p.29). A existência e, principalmente, a continuidade da exploração capitalista não prescinde de uma dominação política direta e única, a introjeção e a reprodução de seus fundamentos em forma de capitais culturais e econômicos, oferecem condições suficientes

para a continuidade do sistema como um todo. A existência de autonomia local se torna, pela existência de outros mecanismos paralelos de subordinação, uma ferramenta que revela a peculiaridade “de aparente fraqueza, se transformar no segredo de sua fortaleza”.

Podemos verificar a ação deste “dispositivo” político, por exemplo, na lógica de constituição da FEB que, desde o seu início, seguiu um modelo acadêmico implantado de “fora para dentro” , no caso, conforme o de outras instituições “particulares” da capital (em especial da Faculdade de Engenharia do Mackenzie), análogo ao processo descrito por Wallerstein, em seu primeiro momento de dependência externa. Traço este que perdura como uma linha de força fundamental da FEB, pelo fato de ser uma instituição brasileira fazendo parte da constituição e da expansão do campo científico como um todo e, ao mesmo tempo, ser fruto de duas reformas universitárias, a de 1968, e a de 1996.

As teorias de Braudel e Wallerstein podem contribuir para evidenciar um sentido processual do fluxo dos capitais (culturais, econômicos e políticos principalmente) constituintes na formação desse espaço social em um campo de poder específico. Dispositivos que funcionam de forma tendencial, no sentido de ser complementado pela articulação das forças dos agentes e suas estratégias locais.

Como segundo dispositivo, escolhemos a formação processual do campo universitário brasileiro, localizando-o como o elo entre a dinâmica proposta pela expansão do capitalismo globalizado e a formação e diversificação desse campo, resultando no movimento de criação das fundações municipais no interior do estado de S. Paulo.