3 METODOLOGIA DA PESQUISA
3.2 A PRESENTE PESQUISA
3.2.4 Algumas considerações
A pesquisa etnometodológica, segundo Minayo206 (2007 apud BRASILEIRO, 2011, p. 212), refere-se a um conjunto de estratégias de pesquisa voltadas à descrição minuciosa dos objetos que investiga, preconizando a “observação direta e a investigação detalhada dos fatos no lugar em que eles ocorrem, com a finalidade de produzir uma descrição minuciosa e detalhada dos fatos (...), das pessoas, suas relações e sua cultura.”
Ainda que a escolha dos instrumentos de coleta de dados e sua análise não sejam uma tarefa simples, acredito que as escolhas foram guiadas em relação aos propósitos da pesquisa, levando em conta suas limitações de caráter externo e tendo em vista a complexidade do fenômeno cognitivo sob investigação.
Por meio de técnicas etnográficas de observação participante e de entrevistas intensivas, é possível documentar o não documentado, isto é, desvelar os encontros e desencontros que permeiam o dia a dia da prática escolar, descrever as ações e representações dos seus atores sociais, reconstruir sua linguagem, suas formas de comunicação e os significados que são criados e recriados no cotidiano do seu fazer pedagógico (ANDRÉ, 2008, p. 34).
Ou seja, além da “simples” observação descritiva e típica do paradigma positivista, buscou-se aliar diferentes métodos, a fim de revelar os ‘porquês’ de determinadas ações que, juntamente com suas crenças, tratam os professores voluntários de forma holística e consideram vários aspectos envolvidos nas suas decisões de correção
— ou de não correção. Para tal, foi adotada uma perspectiva interpretativista, com a
206 MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento. 10ª ed. São Paulo: Hucitec, 2007.
linguagem como mediadora, e a triangulação como base (AUGUSTO-NAVARRO;
CAMPOS-GONELLA; KAWACHI-FURLAN, 2015, p. 101).
A partir do exposto, considera-se que a escolha dos instrumentos foi adequada e salienta-se que não foram utilizadas categorias de análise pré-estabelecidas — estas surgiram a partir da análise dos dados. Ademais, é importante destacar que a análise foi feita a partir do conteúdo das informações obtidas a partir dos supracitados procedimentos. No livro “Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático” (BAUER; GASKELL, 2003),temos diversos capítulos que tratam de diferentes métodos de interpretações de dados (como Análise de Discurso207, Análise Argumentativa e Análise Retórica). O capítulo referente à Análise de Conteúdo (BAUER, 2003, p. 189-217) parece ser o que mais se aproxima das intenções dessa pesquisa.
Entretanto, Bauernos diz sobre os dados para esse tipo de análise:
Há dois tipos de textos: textos que são construídos no processo de pesquisa, tais como transcrições de entrevista e protocolos de observação; e textos que já foram produzidos para outras finalidades quaisquer, como jornais ou memorandos de corporações. Os materiais clássicos da AC são textos escritos que já foram usados para algum outro propósito. Todos esses textos, contudo, podem ser manipulados para fornecer respostas as perguntas do pesquisador.
(ibidem, p.195).
Ou seja, concentra-se mais explicitamente com a análise do segundo tipo de texto. Ainda assim, menciona as vantagens desse tipo de análise para o primeiro tipo — no qual estamos aqui interessados. Ademais, Gaskell coloca:
Em termos práticos, a análise e interpretação [das entrevistas] exigem tempo e esforço e não existe aqui um método que seja o melhor. Na essência, elas implicam na imersão do próprio pesquisador no contexto do texto. No processo de ler e reler, as técnicas tradicionais empregadas, em geral com um lápis ou outros recursos simples (canetas que realcem o texto), incluem: marcar e realçar, acrescentando notas e comentários ao texto, cortar e colar, identificação da concordância no contexto de certas palavras, formas ou representação gráfica dos assuntos, fichas de anotações ou fichários de notas, e finalmente análise temática. Ao ler as transcrições, são relembrados aspectos da entrevista que vão além das palavras e o pesquisador quase que revive a entrevista. Esta é uma parte essencial do processo e é por isso que é muito
207 A não opção por essa metodologia, por exemplo, se dá pelo fato de que “Os analistas de discurso estão interessados nos textos em si mesmos, em vez de considerá-los como um meio de ‘chegar a’ alguma realidade que é pensada como existindo por detrás do discurso — seja ela social, psicológica ou material.
Este enfoque separa claramente analistas de discurso de alguns outros cientistas sociais, cujo interesse na linguagem é geralmente limitado a descobrir ‘o que realmente aconteceu’, ou qual e realmente a atitude de um indivíduo com respeito a X, Y ou Z. Ao invés de ver o discurso como um caminho para outra realidade, os analistas de discurso estão interessados no conteúdo e na organização dos textos.” (GILL, 2003, p. 247, grifos do autor).
difícil analisar entrevistas feitas por outras pessoas. (GASKELL, 2003, p. 85, grifo do autor).
Saliento, por fim, que ainda que não tenhamos utilizado códigos refinados ou uma técnica específica para a análise das transcrições (como análise conversacional ou sociolinguística interacional208) ou que não utilizemos a Análise de Conteúdo Clássica em sua descrição mais reducionista, estamos, sim, tratando do teor das falas obtidas nas entrevistas.
208 Cf. BLOMMAERT; JIE, 2010, capítulo 5, “techniques and methods”.
PARTE III
“O objetivo amplo da análise é procurar sentidos e compreensão. O que é realmente falado constitui os dados, mas a análise deve ir além da aceitação deste valor aparente.” (GASKELL, 2003, p. 85).
Esta terceira e última parte do presente trabalho encontra-se dividida em dois capítulos. O primeiro compreende a análise e interpretação dos dados obtidos com a entrevista inicial e com a entrevista final, com sessões de visionamento e instâncias de autoconfrontação, informadas pelas observações das aulas. Busco me distanciar do postulado pelo típico paradigma positivista, interessado apenas no diretamente observado, procurando me adentrar na esfera do paradigma qualitativo interpretativista, esquadrinhando, nesse caso, “descrições etnográficas baseadas na observação, descrição e entrevistas com professores.” (JOHNSON, 2009, p. 9). Desta forma, o interesse é ir além da mera descrição e observação, e buscar revelar o que está adjacente: “o que pensam, sabem e fazem; o porquê de ensinarem de determinada maneira; os aspectos envolvidos nas decisões sobre o que e como ensinar.” (AUGUSTO-NAVARRO;
CAMPOS-GONELLA; KAWACHI-FURLAN, 2015, p. 101). No capítulo final abarco as considerações finais e (in)conclusões, incluindo questionamentos e sugestões para futuros estudos acerca dos tópicos nesse trabalho abrangidos.