4 ANÁLISE DOS DADOS
4.1 ENTREVISTAS INICIAIS
4.1.2 Pergunta 2 - Que representações os professores têm acerca do conceito de inteligibilidade?
Ao ser questionado sobre inteligibilidade, o professor L. coloca: “O quão compreensível é o aluno, o quanto você consegue entender o que ele tenta expressar” (PL, 2016). Vai mais além quando pergunto sobre a relação entre inteligibilidade e correção, e faz uma distinção muito interessante:
Acho que depende muito do nível dos alunos, e depende muito do contexto do exercício, às vezes é uma coisa, principalmente quando é um erro que não tem a ver com o exercício em si, pode acabar mais confundindo do que ajudando, é uma das situações, um erro de vocabulário, alguma coisa que não tem a ver com um tópico gramatical, por exemplo. É uma coisa que vou tentar mostrar pro aluno depois ou até trazer um exercício de erros comuns, algo que dependendo do nível, níveis mais intermediários, ainda consegue ter oportunidades para fazer, esse tipo de material, trazer material extra baseado em erros mais comuns. (PL, 2016).
Ou seja, uma distinção entre “erros” de vocabulário e de gramática, remetendo à divisão feita por Spratt, Pulverness e Williams (2011, p. 194), por exemplo (categorizando-os em erros de pronúncia, léxico ou gramática), e aos estudos mencionados na seção 2.5.2. Fala, ainda, sobre o nível dos alunos e o tipo de exercício, mencionando, ainda, “erros comuns223.”
Sobre a relação entre inteligibilidade e pronúncia, coloca que erros do tipo L1 interference (interferência da língua materna, ver seção 1.2.2) seriam os mais graves, como quando “ele (o aluno) acha que está falando inglês, mas está só colocando um
“ation” numa palavra em português, e a palavra é completamente diferente. Isso é um tipo
222 No original, em inglês: “a question in urgent need of exploration is just what the ‘English’ is that is being taught and learnt in this emergent global era, how it squares with the socio-political and socioeconomic concerns discussed in the profession, and what its relevance is for the subject taught in classrooms all over the world”.
223 Não fica claro se o adjetivo “comum” é utilizado levando em conta sua experiência, ou se se refere à
“erros” comumente observantes em falantes brasileiros de língua inglesa — Cf., por exemplo, a seção para Portuguese speakers em SWAN, M.; SMITH, B. Learner English – A Teacher´s guide to interference and other problems. Cambridge University Press, 2001.
de erro um pouco mais grave, que faço questão de chamar atenção o quanto antes224.”
(PL, 2016).
Menciona também estratégias que utiliza para incentivar o aluno e de negociação de sentido:
Eu tento sempre deixar o aluno ir o mais longe possível, e às vezes os alunos tendem a querer desistir muito rápido, especialmente quando eles não sabem alguma palavra e a minha ideia em sala é justamente incentivar, não vou dizer forçar, mas incentivar o aluno a tentar, seja parafraseando, seja dando um tempo para o aluno conseguir reformular o que precisa dizer, até o aluno conseguir expressar o que ele está pensando, às vezes a gente até consegue entender o que o aluno quer dizer antes de terminar, mas é dando essa oportunidade do aluno falar de outra forma, reformular, que aí eu vou interferir, no caso, corrigindo ou dando a palavra que ele esqueceu antes, acho que é essa forma que costumo agir, por mais tentador que seja para a gente completar o que o aluno está querendo dizer, acaba não sendo muito eficaz para o aprendizado do aluno, tentar fazer o aluno andar com as próprias pernas, é dando esse tipo de espaço e oportunidade que acaba dando resultado. (PL, 2016, grifos nossos).
Questionado mais especificamente sobre estratégias de negociação, menciona novamente a técnica de parafrasear (a qual considera que os alunos não tenham um conhecimento “consciente”), para “o aluno desenvolver a capacidade de se expressar em qualquer situação, independente do fato de lembrar das palavras exatas ou não” (PL, 2016), além de mostrar outros vocabulários, estando de acordo com o postulado por Nelson (2011) na seção 2.5.2.1.
Já o professor F. menciona especificamente (e novamente) contextos de interação:
Quando a gente pensa em termos de ser inteligível, a gente está pensando em termos de significado, o que é algo que é inteligível? Algo que faz sentido para a pessoa em um determinado contexto, isso é ser inteligível, ele é compreensível, entendível, isso é inteligibilidade. (PF, 2016).
Isso vai ao encontro do que afirmou Nelson (ibidem, p. 35) sobre compreensibilidade: “De qualquer forma, podemos certamente concordar que o contexto é muito importante no uso efetivo da língua225.”
224 Notamos que considera “erro” como algo que destoa do padrão pretendido. Em uma visão de translinguismo, por exemplo, essa tentativa de negociar sentidos usando recursos das diversas línguas não é visto como um “erro”, mas como uma estratégia de negociação.
225 No original, em inglês: “In any event, we can certainly agree that context is very important in effective language use.”
O professor F. também menciona, mais brevemente, estratégias para o ensino (mesmo que não as especifique):
Então, a gente pensa no inglês, em outra língua, como que a gente faz para tornar a língua inglesa inteligível para o aluno, determinadas palavras, expressões, verbos, no sentido da gente se utilizar de estratégias para justamente que aquilo faça sentido em relação a outras coisas, ao contexto que está inserido, ou que a gente está vendo no livro, para mim isso é inteligibilidade, aquilo faz sentido, detém um significado em determinado contexto, isso é ser inteligível. (PF, 2016).
Parece ter a consciência de que nem tudo é inteligível sempre, só porque está na língua padrão. Os sentidos precisam ser negociados, e dependem de quem fala com quem, e quem define o que é inteligível ou não. Já mencionei Rajagopalan neste sentido226, e recoloco:
Primeiro, talvez seja a hora de superarmos a tentação de pensar que é a disponibilidade de uma língua em comum que irá garantir a inteligibilidade mútua. Eu afirmo que é precisamente o contrário: é uma vontade ou necessidade de entender um ao outro que torna possível para nós postularmos a existência de uma linguagem comum em primeiro lugar.227 (RAJAGOPALAN, 2010, p. 469).
Ao ser perguntado sobre fatores que afetam a inteligibilidade, citei exemplos de estudos que atribuem esses apenas à pronúncia. Sua resposta foi que “essa internacionalização da língua faz com que a questão da pronúncia seja menos relevante do que tenha sido em outros tempos” (PF, 2016) e que há outros fatores, principalmente em interações em inglês como língua franca, e novamente menciona o contexto:
(…) está vinculado aos alunos não prestarem atenção ao tipo de mensagem, ao tipo de vocabulário, é uma coisa que a gente insiste aqui, quando a gente dá aula e trabalha com vocabulary, grammar, sempre contextualizar grammar em determinada situação, os livros fazem isso. (PF, 2016).
226 Seção 2.5.2.1
227No original, em inglês (citando seu próprio artigo de 2001): “First, it is perhaps time that we overcame the temptation to think that it is the availability of a common language that will guarantee mutual intelligibility. I contend that it is precisely the other way around: it is a willingness or need to understand one another that makes it possible for us to postulate the existence of a common language in the first place.”
4.1.3 Pergunta 3 — Que representações os professores têm sobre correção em sala de aula