CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
22 AMORIM; DIMENSTEIN, 2009, p
5.2 ALGUMAS DIFICULDADES
Alguns impasses são vislumbrados, necessitando ser discutidos, a fim de que se possam construir estratégias para contorno destes. Realizaram-se cinco sinalizações.
A primeira sinalização referiu-se ao contexto atual em que os SRTs se inserem. O Estado neoliberal orienta-se por uma lógica que visa uma economia de recursos. Priorizam-se investimentos nos setores econômicos internacionais, em detrimento de compromissos com setores sociais nacionais. Tal situação provoca uma crise social, reduz-se a qualidade de vida e aumenta a demanda por serviços de saúde que possam aplacar o mal estar existente.
Dessa forma, muitas vezes, conflitos sociais são introjetados e reduzidos a conflitos individuais. Nesse viés, a concepção de saúde pode guardar relação com a de adaptação
social. Tal ajustamento seria necessário, independente do fato dessa sociedade ser concebida como justa ou injusta.
Problemas coletivos de saúde podem ser personificados, ao invés de discutidos de forma ampliada e complexa. Assim, “cada não adaptação a esta sociedade será interpretada em termos de doença, e nós seremos encarregados de dissolver (...) os conflitos sociais”. (BASAGLIA et al., 1994, p. 19)
Ocorre uma medicalização79 do quotidiano, o que tampona a base do conflito. Faz-se importante incluir outros atores na discussão e transformar a queixa em questão.
Faz-se importante trabalhar a comunidade, uma vez que a loucura não é algo extrínseco a ela. Há que se desconstruir paradigmas, estimulando novas relações com o diferente. Para além da resistência cultural da comunidade, mapeou-se também a resistência de gestores. Há dificuldade, inclusive na aproximação com a Atenção Básica, em especial com a Estratégia de Saúde da Família. Cabe enfatizar que
“a efetividade da estratégia de serviços residenciais na mudança do modelo assistencial da psiquiatria pública parece inquestionável. (...) Mas é uma política que ainda precisa vencer a batalha da opinião pública e introduzir-se com mais visibilidade no debate acadêmico do campo da saúde mental” (DELGADO, 2006, p. 30)
Além disso, o financiamento do SUS é inferior ao necessário, o que promove a precarização das condições de trabalho, com sobrecarga, salários reduzidos e vínculos trabalhistas instáveis. Tal situação pode repercutir na saúde do trabalhador, em que se verifica o adoecimento de uma gama de profissionais, que se afasta temporária ou definitivamente de sua função. Isso pode dificultar a construção de vínculo com os moradores, que é vital ao cuidado, e colocar em xeque um modelo de assistência.
Há dissonância entre muitas propostas formuladas na CNSM-I e as práticas gerenciais dos órgãos públicos, o que restringe o processo democrático e a potência da participação popular na construção das políticas publicas.
A segunda sinalização referiu-se ao fato de os serviços de saúde, na prática, ainda encontram dificuldades em vincular-se a outros serviços. O processo de consolidação da
79 A medicalização pode abarcar dois sentidos. O primeiro referiu-se “à apropriação, por parte da medicina, de
tudo aquilo que não é da ordem exclusivamente médica. Ou seja, diz respeito à possibilidade de tornar “médico” aquilo que é da ordem do social ou econômico ou político”. O segundo referiu-se a uma “farmacologização”, na medida em que se utiliza “medicamentos para responder à situação que é entendida como patológica”.
intersetorialidade esbarra no funcionamento fragmentado e padronizado, possuindo pouca margem para reinvenção.
Da mesma maneira que tais questionamentos consolidam-se no campo da saúde, outros setores necessitam incluir a integralidade e a intersetorialidade nas suas pautas de discussão. Isso porque, ao se visar um cuidado ampliado, outros setores e atores serão convocados a interagir. Assim sendo, os demais setores são co-responsáveis. Nesse sentido,
“o campo da saúde mental implica não só o setor saúde, mas também outros campos de política social, colocando a necessidade de uma
integração intersetorial de iniciativas e programas, como na área de
moradia (dispositivos residenciais), trabalho (programas de trabalho protegido, cooperativas, etc), assistência social (como na luta pela conquista do benefício de prestação continuada). Além desses, citar-se- ia “educação (como nos programas de inclusão de crianças portadoras de deficiências e transtornos mentais nas escolas comuns), justiça (mudança das leis e instituições para o infrator portador de transtorno mental) (...) A atuação direta ou aliança com participantes dos conselhos específicos destas áreas também se torna fundamental”. (VASCONCELOS, p. 43, 2001b)
A terceira sinalização referiu-se à formação profissional em saúde, que é fragmentada, descontextualizada e focada em procedimentos técnicos. Precisa-se priorizar uma formação teórica mais articulada com a prática desde o início dos cursos, de forma a apontar que a assistência em saúde se faz a pessoas, e não a corpos doentes, e no interior de um sistema de diretrizes teóricas e gerenciais, que é o SUS. Práticas intersetoriais também poderiam ser acopladas, ao articularem-se projetos e disciplinas entre os diferentes cursos.
A quarta sinalização referiu-se ao fato de que, na prática, a maior parte dos gastos ainda é dirigida aos hospitais. Há que se deslocar a posição privilegiada do hospital no tratamento, inclusive nas crises. Há que se mapear os recursos comunitários e subjetivos, a fim de se apresentar outras estratégias como primeira opção no enfrentamento de conflitos. Por esse motivo, visando a garantir
“a integralidade e a continuidade do cuidado, é necessário estruturar uma rede de atenção comunitária e evitar a centralização das ações no âmbito do hospital psiquiátrico. Quanto mais efetivas forem as referências extra-hospitalares de atenção, menor será a utilização do dispositivo hospitalar, tanto em número absoluto de internações, quanto em tempo médio de permanência”. (FAGUNDES DA SILVA, 2005, p.19)
A quinta sinalização referiu-se ao fato de que o processo de envelhecimento dos moradores dos SRTs foi pouco discutido. Apesar da temática relevante, apenas um estudo focou a questão80.
Coube apontar que, em uma década de existência regulamentada do SRT, uma gama de moradores envelheceu. Assim como a autonomia e a independência podem ser progressivamente ampliadas através do tempo, podem também ser gradativamente restringidas pela velhice, dentre outras problemáticas. Moradores anteriormente independentes e autônomos, ao longo do tempo, podem não ter mais condições de sustentar o estilo de vida que até então vinham tendo.
Neste caso, muda-se o morador ou muda-se a casa ? A primeira estratégia poderia ser a mudança do morador, que poderá ir para uma casa de maior cobertura presencial da equipe. A segunda seria manter o morador na casa, alterando o funcionamento desta, que poderá ter a cobertura presencial da equipe ampliada. Isso implica em questões: Isso é financeiramente viável ? É possível mesclar a contratação de cuidadores por meio público e por meio privado ? Quais seriam os efeitos administrativos disso ? Aumentar a cobertura da casa necessariamente implica em ampliar o cuidado com os demais moradores da casa ? A presença do cuidador na casa, onde residem outros moradores que prescindem de um maior cuidado presencial, pode acomodá-los ? Em caso afirmativo, como se pode fazer essa “separação” ?
Além disso, qual é o limite de intervenção na casa ? O morador pode exigir equipamentos específicos, que são usados em clínicas geriátricas. Isso descaracterizaria o SRT enquanto casa ?
80 Neste estudo, situou-se que a casa, para além de um espaço físico, é simbólica e social também. Discutiu sobre
o processo de desinstitucionalização de clientela idosa, verificando de que forma buscavam reconstruir suas relações com o território onde passaram a residir, enquanto vivenciavam o processo de envelhecimento e recriavam a vida extra-muros. Na ocasião, verificou-se que havia aquisições em distintas esferas da vida dos idosos, tais como constituição de redes sociais, que embora possam inicialmente priorizar os outros moradores e profissionais dos SRTs, abarcavam pessoas do entorno de forma cada vez mais freqüente. Foi possível verificar a presença de laços sociais pautados pela reciprocidade e pela ajuda mútua, o que favoreceu ao suporte dos idosos mais dependentes. Pode ocorrer aumento da circulação pelo território, embora localidades distantes possam indicar a necessidade de auxílio da equipe. É possível ser localizado no cotidiano dos idosos vestígios do período de internação. Outro diferencial referiu-se à questão do tempo. Inseridos na instituição, os pacientes podem apresentar um “lapso do tempo”, que sugeria desarmonia entre o tempo dos relógios e calendários da sociedade e o tempo percebido enquanto dado natural. Em contrapartida, inseridos nos SRTs, os idosos podem gradativamente recuperar a noção de tempo, a partir de sua interação com a sociedade, que pode ser viabilizada pela programação disseminada pelos meios de comunicação facilmente acessíveis na casa, pela divisão de tarefas domésticas anexada na porta da geladeira, pelo calendário de atividades do Clube de Lazer, festas de aniversário, viagens, dentre outros. (SANTA ROSA, 2008, p. 143) A percepção do envelhecimento, assim como para os idosos em geral, foi a de que “a velhice se manifesta no corpo.” (SANTA ROSA, 2005, p. 142). Convivem recordações de bons e maus momentos vivenciados no período de internação. Ainda assim, indicaram preferir morar fora do hospital, podendo descobrir “novas formas de ser e estar no mundo e, por isso, a velhice não é
Tal envelhecimento dos moradores situa-se dentro de um contexto mais amplo, uma vez que a própria população brasileira tem envelhecido. Isso tem favorecido a mudança de exigências de cuidado da maioria dos brasileiros, gerando outros dispositivos de assistência. Nesse sentido, tal pergunta é pertinente, necessitando ser feita também por uma pessoa sem histórico asilar, que precisou alterar o funcionamento de sua própria casa, a fim de evitar deixá-la.
Poder-se-ia questionar: Qual a diferença entre um SRT e uma “clínica doméstica” ? Qual a distinção entre uma casa e uma “enfermaria humanizada” ?
Poder-se-ia diferenciar os dois dispositivos tomando por base o mesmo critério utilizado para distinguir o SRT e o asilo. Nessa perspectiva, a
“qualidade da relação que se estabelece nesse espaço, o que implica em um trabalho de ampliar o tecido social do morador, e o grau de poder que é dado ao sujeito para gerir e tomar decisões sobre esse mesmo espaço – o que não se faz sem enormes dificuldades, uma vez que a tendência inicial desses sujeitos, dados os anos de hospício e algumas das características da própria psicose, é não quererem se responsabilizar sobre nada, não quererem fazer nada”. (CAVALCANTI et al., 2006, p. 85)