CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
22 AMORIM; DIMENSTEIN, 2009, p
4.6 EIXO 6 – IDENTIDADE PROFISSIONAL
4.6.1 – As categorias profissionais e o cuidado:
Uma primeira reflexão buscou detalhar a especificidade de cada profissão no trabalho no SRT. Indicou-se, portanto, certa importância em construir e esmiuçar a identidade profissional própria de cada categoria. (PEREIRA; BORENSTEIN, 2004. CARRAPATO et al., 2009. MELO, 2009.)
Visando aprofundar a contribuição que as distintas categorias profissionais poderiam oferecer, alguns trabalhos buscaram indicar a especificidade de suas práticas. Dentre as profissões elencadas, pontuaram-se a de enfermagem, a do serviço social e a da terapia ocupacional. Tais estudos situavam-se em contextos distintos. Detalharam-se as experiências de SC e SP.
No município de São José, em SC, discutiu-se sobre a assistência no SRT da região57. Para além das condições físicas, materiais e sociais do SRT, situou-se a necessidade de utilizar um referencial teórico que pudesse embasar o cuidado, o que garantiria a humanização
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Coube contextualizar que o complexo hospitalar público designado como Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (antigo Hospital Colônia Sant’Ana) passou a delinear projetos de reabilitação psicossocial e inserção social, conforme a Reforma Psiquiátrica incitava. Dentre eles, citou-se a criação de um SRT em 1990, que acolhia 9 moradores em região próxima ao hospital. O projeto de moradia fixa era vinculado ao Centro de Convivência Sant’Ana, que era pertencente ao hospital. A equipe técnica integrava o corpo clínico do hospital, sendo composta por uma enfermeira, um psicólogo e um assistente social, que realizavam acompanhamento semanal.
deste. Dessa forma, prescindiam de um referencial teórico acadêmico tradicional, que se pautava em práticas prescritivas e deterministas. O referencial teórico de Rosemarie Rizzo Parse, designado enquanto “Tornar-se humano”, subsidiou
“a prática de enfermagem, de modo que as moradoras fossem efetivamente cuidadas e que pudessem caminhar para atingir um completo bem-estar, conseguindo ir além, transcendendo as suas dificuldades. (...) A teoria de Parse está fundamentada em uma prática de Enfermagem inovadora, segundo a qual cabe à enfermeira, através da presença verdadeira, esclarecer significados nas situações do cotidiano das clientes, compartilhando com elas pensamentos e sentimentos; é um “estar com”, e não um fazer pelas pessoas”. (PEREIRA; BORENSTEIN, 2004, p. 528)
Visou-se à qualidade de vida dos moradores. Entretanto, tal qualidade não se baseava em parâmetros pré-definidos. Assim, “a qualidade de vida não é o que as pessoas de fora da experiência vivida pensam que é, mas o que a pessoa vivendo a vida refere ser”. (PEREIRA; BORENSTEIN, 2004, p. 528-529)
Situou-se que o movimento das moradoras no enfrentamento das dificuldades geralmente é lentificado e, geralmente, necessita de apoio do profissional. Dessa forma,
“a enfermeira, por meio de seu conhecimento e de sua presença verdadeira, pode constituir e iluminar os significados das experiências vividas por elas e, através do processo reflexivo e da interpretação dessas experiências, motivá-las para enfrentar e superar os limites que se apresentam”. (PEREIRA; BORENSTEIN, 2004, p. 531)
No município de Bauru, em SP, o SRT foi implantado em 2005. Em 2009, foi realizada pesquisa com 34 moradores e 5 profissionais do SRT, visando a vislumbrar qual seria o papel do assistente social no processo de emancipação dos moradores do dispositivo.
Integrante da equipe multidisciplinar, o assistente social se destacava, pois sua formação profissional já contempla a realização de ações articuladas, o que oportunizava a troca de conhecimentos. Ele buscava “desenvolver a construção da identidade do paciente enquanto cidadão e sujeito de direitos”, que é “o primeiro passo na luta pela emancipação”. Nesse contexto, o trabalho desse profissional era feito na vida cotidiana de cada morador, acompanhando a atividade da vida diária e da vida prática. (CARRAPATO et al., 2009, p. 4) Verificou-se que o profissional dessa categoria profissional era reconhecido e valorizado por moradores e trabalhadores do SRT.
Uma segunda reflexão apontou uma identidade profissional mais diluída, porosa, mesclada, com contornos pouco nítidos. Para esmiuçar tal entendimento, coube retornar à Grécia antiga. (SANZANA et al., 2006. HONORATO; PINHEIRO, 2007. HONORATO; PINHEIRO, 2008. SANTOS JR; SILVEIRA, 2009. CAMPOS, 2010.)
Em sua origem, a política estava referida a polis, que remetia à cidade. Nesta, os homens dialogavam, negociavam, julgavam, avaliavam e definiam as temáticas que envolviam o bem comum, o que abarcava as várias dimensões da vida. Através da convivência, tinha-se acesso à diversidade.
Da mesma forma, as práticas dos profissionais dos SRTs poderiam almejar “estimular a reflexão e a capacidade de pensar dos usuários, como estratégia para a reinserção social dos mesmos”. Para tanto, os profissionais poderiam visar práticas que sustentassem um estranhamento e uma problematização diante do que se apresentasse como natural e óbvio. Assim, era necessária uma prática que valorizasse o encontro entre o trabalhador e o morador. O profissional necessitava ocupar uma posição de não saber, desconsiderando os seus conceitos prévios, a fim de que estes não silenciassem o morador. (HONORATO; PINHEIRO, 2007, p. 169) Por esse viés, “a atividade política é esse exercício de negociações, de argumentações e debates, que constituem o espaço público”. (HONORATO; PINHEIRO, 2008, p. 374) Assim sendo,
“o trabalho em saúde mental, formulado segundo os princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira, se constitui como uma ação inclusiva, e se coloca para além de qualquer especificidade técnica do profissional envolvido. Trata-se de uma tarefa descrita explicitamente como social”. (HONORATO; PINHEIRO, 2008, p. 362)
Por esse viés, busca-se situar a importância da “reintegração social através do trabalho de acompanhamento terapêutico”, do “acompanhamento das casas”, da “mobilização de recursos comunitários”, da “autonomia para atividades domésticas e pessoais”, da “reintegração social por meio de programas de alfabetização”, da “inserção no trabalho e a geração de renda” e do “processo clínico-político do trabalho no território”. (SANZANA et al., 2006, p. 174-175)
No que tange ao trabalho na comunidade, se por um lado as trocas sociais são potencializadas, por outro existem tensões que sinalizam que a qualidade das relações estabelecidas nem sempre são de acolhimento. Afinal, a exclusão ainda permeia a concepção que a sociedade tem acerca da chamada doença mental.
Apostou-se em um cuidado marcado pela presença, através de um trabalho artesanal. Por esse viés, os moradores “que tiveram suas vidas achatadas (...) pela permanência asilar (...) deixam de apenas responder à instituição das normas impostas, podendo também criar outras, negociá-las no cotidiano” (SANZANA et al., 2006, p. 172)
No acompanhamento das casas, procura-se elaborar
“projetos terapêuticos que não sigam normas previamente estipuladas ou modelos rígidos do que é habitar uma casa. Ao contrário, realizamos movimentos de valorização das singularidades dos moradores, dos acontecimentos circunstanciais, bem como de suas expectativas, anseios e desejos. Em outras palavras, nós nos propomos a estar junto com os moradores, acompanhando suas trajetórias e suas tessituras existenciais”. (SANZANA et al., 2006, p. 174-175)
No trabalho no SRT, o cuidado pode operar de forma menos tecnicista. Estimula-se que o morador busque encontrar a solução para as próprias dificuldades. Assim,
“o cuidado na moradia se dá de modo mais humanizado, valorizando a singularidade dos moradores, seus valores e crenças, tentando (re)estabelecer as relações sociais dos indivíduos e estimulá-los para a prática do autocuidado. (...) Esse modo de atenção vem alcançando uma (re)cidadanização e valorização da vida dos sofredores psíquicos”. (SANTOS JR; SILVEIRA, 2009, p. 788)
Assim sendo, não se deveria definir um papel profissional específico para atuar no dispositivo. Não haveria, portanto, uma identidade profissional determinada para atuação no SRT. O papel do trabalhador seria integrar-se no “cotidiano dos moradores não como terapeutas ou assistencialistas, mas como figuras facilitadoras, catalisadores do processo de socialização dos moradores no momento em que estabeleciam novos vínculos territoriais”. (CAMPOS, 2010, p. 147)
Propôs-se uma reflexão: como “lutar contra a institucionalização criada pela vida manicomial, sem criar uma nova doença: a institucionalização pela vida em dispositivos residenciais” ? (SANZANA et al., 2006, p. 174-175) Visando responder tal questão, sinalizam que o acompanhamento no SRT é diariamente desafiante, já que o cuidado pode subjugar e aprisionar os moradores. Realiza-se um trabalho que necessita ser simultaneamente cauteloso e audacioso. Isso porque
“o fio da navalha em que caminhamos é o fio paradoxal obrigatoriamente presente na clínica dos dispositivos residenciais terapêuticos. Liberdade x opressão, imposição x escolha, controle x acompanhamento, criatividade x repetição. Não somos nem um, nem outro; andamos no x, no meio, com o cuidado de quem não conhece o caminho, (...) construindo (...) a intervenção a partir do entendimento das relações e dos jogos de força que estão em ação”. (SANZANA et al., 2006, p. 170)
Neste sentido, faz-se importante refletir sobre as práticas, já que mesmo em um SRT é possível estabelecer “regras de funcionamento alheias aos moradores das casas, fazendo deles, mais uma vez, meros coadjuvantes das determinações de suas vidas”. (SANZANA et al., 2006, p. 170-171) Deve-se apreender que “são as singularidades de cada usuário que devem definir as ênfases do trabalho, construindo a clínica e a intervenção a partir do entendimento das relações e dos jogos de força que atuam em um determinado momento, naquela casa e para cada morador”. (SANZANA et al., 2006, p. 171)
Embasando-se nas contribuições de Gramsci, enfatizou-se que
“a função do intelectual como educador, persuasor permanente, formador para o processo de construção da hegemonia. Isto nos permite caracterizar o trabalho do profissional de saúde mental como prática política, práxis que tem a transformação social como objetivo. Tomamos então a proposta de mudança para uma nova forma hegemônica de pensar o louco como tarefa da Reforma Psiquiátrica brasileira”. (HONORATO; PINHEIRO, 2008, p. 363)
4.6.2 – O cuidador:
Dentre as várias categorias profissionais envolvidas no cuidado aos moradores dos SRTs, destacou-se a do cuidador. Tal categoria de trabalho possui fronteiras difusas, por vezes ambíguas, uma vez que o cuidador é um profissional, mas possui um saber leigo. As relações entre o saber acadêmico e o popular, tradicionalmente hierarquizadas e opostas, são colocadas em xeque pelo trabalho desse ator.
No que tange ao trabalho do cuidador, realizaram-se estudos que buscaram contemplar as suas narrativas, bem como o trabalho desenvolvido com ele. (PALOMBINI et al., 2010. CAMPOS, 2007. NETO; AVELLAR, 2009. SPRIOLI, 2010.) Buscando-se dar voz a esses trabalhadores, alguns estudos buscaram realizar pesquisas de campo, que incluíam a observação participante e entrevistas. Dentre os temas, citaram-se: a caracterização dos cuidadores, a conceituação dos SRTs e o cuidado nesse dispositivo.
Verificou-se que os cuidadores poderiam ter origens e formações bastante diversas, tendo alguns sido trabalhadores de longa data de manicômio, não verificando inclusive diferenças significativas no trabalho entre este dispositivo e o SRT. Outros, no entanto, não haviam tido experiência prévia no campo da saúde mental e pouca ou nenhuma noção sobre o dispositivo residencial. A visão sobre o cuidado também poderia diferir, com alguns se orientando pela lógica da infantilização dos moradores, enquanto outros buscavam ampliar a autonomia destes. Assim sendo, não era possível classificar os cuidadores como uma categoria homogênea. Em grande parte das experiências, os cuidadores tinham pouca familiaridade com a proposta da desinstitucionalização, não tendo realizado nenhum curso ou capacitação.
Considerando a natureza delicada do trabalho dos cuidadores, destacou-se que é essencial propiciar o acesso a informações sobre as transformações da atenção em saúde mental. Dessa maneira, busca-se reduzir o risco de reproduzir maneiras mais sutis de clausura, já que o cuidador também necessita questionar a ideologia manicomial, que atravessa discursos e práticas assistenciais. Assim sendo, para além de buscar entender a assistência prestada pelo cuidador, necessita-se colocar em pauta o nível de atenção disponibilizado a este mesmo trabalhador. (NETO; AVELLAR, 2009)
Alguns estudos mapearam estratégias construídas para potencializar o trabalho dos cuidadores. Dentre as várias estratégias utilizadas na qualificação da formação dos cuidadores, citaram-se: oficina de escrita, roda de conversa, supervisão, capacitação e eventos científicos.
A primeira estratégia referiu-se à oficina de escrita. Realizou-se a criação de um espaço que favorecesse a construção de narrativas escritas que abordassem o cotidiano do trabalho em SRTs. Tal espaço possuía duas funções. Por um lado, visava-se registrar e “trazer a público as cenas até então inéditas do cotidiano da relação entre os trabalhadores dos residenciais e seus moradores”. (PALOMBINI et al., 2010, p. 254) Isso permitia realizar um registro histórico de um momento específico da Reforma Psiquiátrica, que presentificava a transição do modelo assistencial através da passagem de usuários e trabalhadores do manicômio para a casa na comunidade. Por outro lado, sinalizava-se que
“o exercício (...) da escrita e a sua leitura compartilhada é produtor de transformações das práticas (...), favorecendo a invenção de novos modos de relação onde o cuidado possa ser pensado numa perspectiva outra que a da tutela herdada das práticas do internamento”. (PALOMBINI et al., 2010, p. 254)
Assim, buscou-se escrever sobre as experiências que envolviam o cuidado com os moradores, trazendo à tona a maneira como os trabalhadores se relacionavam com eles. Para além do cuidado com os moradores, a oficina constituiu-se como um dispositivo de cuidado com os trabalhadores dos SRTs, sejam eles cuidadores, sejam eles acompanhantes terapêuticos.
A segunda estratégia referiu-se à roda de conversa. Esse dispositivo apresentava-se como oportunidade de criar encontros coletivos, visando compartilhar e reviver acontecimentos ocorridos no cotidiano das casas. Entretanto, tais “encontros não se ocupavam de especializar o trabalhador, nem mesmo de um lugar de supervisão coletiva”. (LEITE et al., 2010a, p. 4)
A terceira estratégia referiu-se à supervisão e/ou à reunião de equipe. (FIGUEIREDO, FRARE, 2008. FIGUEIREDO et al., 2008. CAMARA, 2010. ESTRELLA, 2010. SPRIOLI, 2010.) O trabalho do cuidador opera no co-gerenciamento diário da casa, mas também no acompanhamento dos moradores no território. Entretanto,
“na prática, infinitas possibilidades acontecem: intervenções em crise, acolhimento ao que está impossível ao morador suportar, atos diante de invasões de um Outro não barrado, além da sustentação cotidiana da (...) clínica essencial ao SRT, cujo norte é a mediação necessária ao trabalho de construção pelo morador da possibilidade de morar na casa e na cidade”. (ESTRELLA, 2010, p. 87)
A presença dos cuidadores nos SRTs varia, podendo contemplar plantonistas, diaristas ou até mesmo trabalhadores que realizam visitas pontuais, visando ao manejo de uma crise ou agenciando a assistência de uma intercorrência clínica. Além disso, cada cuidador tem a sua maneira de trabalhar, uma vez que possui as suas peculiaridades. Isso acarreta nas distintas formas de intervir e na construção de diferentes soluções. Apesar dessa diferença, “o trabalho dos cuidadores em um mesmo SRT (...) acontece em equipe, com direção clínica única, decidida coletivamente”. (ESTRELLA, 2010, p. 87-88)
Relata-se o paradoxo decorrente do fato do cuidador leigo auxiliar na sustentação do cotidiano de uma casa que já é parcamente sustentada pelos próprios moradores dela. No que tange à supervisão dos cuidadores, algum saber, não especializado, pode ser tecido, de forma a contemplar o estilo de cada trabalhador e a direção do trabalho construída pela equipe. Assim, “além de garantir uma direção clínica única, a supervisão abre espaço de fala orientada sobre angústias, impasses, surpresas, sempre existentes para todo mundo”. (ESTRELLA, 2010, p. 89) O espaço contempla uma gama de temáticas, inclusive as que
poderiam ser consideradas burocráticas, o que pode ser desconstruído durante a supervisão. Situa-se
“a supervisão clínica como parte da definição do trabalho dos cuidadores, sem o qual este ficaria amputado. (...) Este dispositivo é aqui considerado como mais uma das razões que ilustra e, ao mesmo tempo, legitima a entrada de uma dimensão de serviço terapêutico em uma casa”. (ESTRELLA, 2010, p. 90).
A partir disso, afirmou-se que “a supervisão (...) objetivaria construir um saber justamente a partir do caráter leigo dos cuidadores, que ‘se viram’ muito bem neste trabalho”. (ESTRELLA, 2010, p. 99). Assim, para além da importância de cursos de formação do cuidador, há um saber que se aprende na relação singular com o próprio morador.
No que tange à reunião de equipe, enquanto lugar de transmissão, possui quatro funções. A primeira referiu-se a ser o “lugar onde se fala do morador”, não enquanto objeto, mas como sujeito que indica, através de sua fala ou de suas ações, a direção que o trabalho poderá ser norteado. A segunda referiu-se à sustentação do não-saber da equipe, o que favorece que o morador seja escutado. A terceira referiu-se ao “lugar de legitimação, onde se considera o que qualquer membro da equipe tenha a dizer”. A quarta referiu-se ao lugar que favorece a elaboração de um saber, que não é estanque. (FIGUEIREDO et al., 2008, p. 4)
A quarta estratégia referiu-se ao curso de capacitação. Descreveu-se a montagem de um curso de capacitação para cuidadores que trabalhavam em SRTs do município de Salvador, na Bahia58. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 108)
A maior parte dos cuidadores não possuía formação técnica na área da saúde. Além disso, a equipe do CAPS, aos quais os SRTs estavam vinculados, percebeu a insegurança dos cuidadores e seus freqüentes questionamentos quanto à forma de manejar as situações do cotidiano na casa. Sendo o SRT uma inovação em saúde mental, era importante criar outras formas de cuidar. Tal cuidado, por um lado, teria que se distinguir da lógica asilar; por outro, precisaria ir além do auxílio no gerenciamento doméstico, mas buscar responder às necessidades dos moradores e ampliar a autonomia destes.
A partir disso, decantou-se a importância de não só cuidar dos moradores, mas dos próprios cuidadores. Criou-se o “Projeto de construção do conhecimento”, que “impulsionou a construção de um processo de escuta e troca de saberes visando (...) instrumentalizar a práxis dos cuidadores, para que neste compartilhamento houvesse crescimento mútuo que
possibilitasse reflexão (...) para atuar no cotidiano das SRTs.” (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 108)
Tendo em vista a subjetividade, buscou-se favorecer as trocas de conhecimentos acadêmico e popular. Dessa forma, possibilitava-se ressignificar o cuidado, tendo os princípios éticos como respaldo. Para tanto, a base do curso foi a problematização.
Inicialmente, o curso semanal foi dirigido aos cuidadores de dois SRTs, totalizando uma carga horária de 60 horas. Para dinamizar as reflexões, utilizaram-se dinâmicas de grupo, filmes, músicas, textos, dentre outras ferramentas. Profissionais de diferentes especialidades participaram do curso estimulando a reflexão crítica através de rodas dialogadas.
O curso teve três módulos. No primeiro, designado como “Cuidando do corpo”, referiu-se à “Alimentação saudável; Noções de higiene; Princípios e cuidados na administração de medicações orais; Principais medicações psiquiátricas e seus efeitos terapêuticos e colaterais; Noções de primeiros socorros”. Através das discussões, os cuidadores puderam qualificar o cuidado com os moradores e com eles mesmos. A conversa, a negociação e o respeito à individualidade colocaram-se como base para o cuidado com os moradores. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 112)
No segundo, denominado de “Cuidando da mente”, discutiu-se a “História da loucura; Principais transtornos mentais e seus sinais e sintomas”. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 112) Além disso, refletiu-se sobre o papel do CAPS no apoio aos SRTs. Na discussão do que seria a loucura, o grupo construiu uma conceituação. Essa dizia respeito às “pessoas que criam o seu próprio mundo, mudança de comportamento, fugindo do cotidiano que é dito normal baseado na cultura de cada sociedade”. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 115)
No terceiro, classificado como “Cuidando da alma”, refletiu-se sobre o “Processo saúde-doença; Relação terapêutica cuidador/morador; Cuidando do cuidador”. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 112) Discutiu-se sobre o que seria o cuidado, estimulou-se o auto- conhecimento e o fortalecimento do trabalho em equipe. Os cuidadores discutiram “as relações de trabalho, insegurança em perder o emprego, a falta de garantias”. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 116)
Ao término da capacitação, dentre outras pontuações, os cuidadores sinalizaram a importância do curso no que tange à “integração e troca entre eles, contribuição no compartilhamento do trabalho e coleguismo, ensinamentos para a vida profissional e pessoal, valorização enquanto categoria profissional, reconhecimento da necessidade do outro”. (LIMA; CARDOSO, 2010, p. 117)
A quinta estratégia referiu-se à participação em eventos acadêmico-profissionais. Dentre eles, citaram-se os encontros de cuidadores ocorridos no Estado do RJ. O encontro ocorrido no município de Paracambi referiu-se ao I Encontro de Cuidadores em Saúde Mental de Paracambi (VIDAL et al., 2010b). O encontro ocorrido no município do RJ referiu-se ao IV Encontro de Cuidadores em Saúde Mental da Cidade do Rio de Janeiro, que ocorreu associado ao II Encontro de Cuidadores de Idosos59. (RODRIGUES, 2010)
Através do site da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), relatou-se a ocorrência deste último evento. No evento, cujo tema foi “Violência x Cuidado: desafios para a construção da autonomia”, os cuidadores trouxeram as experiências vivenciadas no cotidiano de trabalho. Na apresentação feita pelos próprios cuidadores, “a violência, o preconceito, a indiferença e as más condições de trabalho foram temas recorrentes”. (RODRIGUES, 2010)
Poder-se-ia relatar algumas contribuições feitas por cuidadores atuantes em SRTs.