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Algumas facetas do conservadorismo no Brasil

CAPÍTULO I- DELIMITAÇÕES HISTÓRICAS DO CONSERVADORISMO

2. Algumas facetas do conservadorismo no Brasil

No livro “História do Brasil” (1995), de Boris Fausto, o autor retrata um panorama geral sobre o processo histórico brasileiro e os principais fatos que marcaram a formação da sociedade brasileira. De modo que nos orientamos por esta obra para localizarmos os marcos mais relevantes da história do nosso país e fazermos as conexões necessárias com o pensamento conservador brasileiro.

Por um longo período de tempo, vivemos em um sistema colonial em que as nossas terras e os povos indígenas que aqui habitavam, além dos negros traficados da África, foram explorados por portugueses e, posteriormente, por outros povos europeus como os holandeses, espanhóis e franceses, para que as economias em seus países se desenvolvessem. A expansão marítima dos europeus para continentes longínquos e desconhecidos foi consequência de um momento ímpar na história do capitalismo. Segundo Góes (2011, p. 23), a expansão comercial iniciada no século XV pelos europeus colonizadores tinha por objetivo “abastecer o mercado europeu e impulsionar o desenvolvimento do modo de produção capitalista”, de modo que as demandas comerciais aumentaram expressivamente e o trabalho forçado foi a solução encontrada pelos colonizadores para atendê-las e satisfazer os seus lucros. A expansão do capital comercial e o processo de colonização impulsionados pelos europeus, ao longo dos séculos XV e XVIII, foram etapas necessárias para a ampliação das manufaturas, das grandes indústrias e para a formação de trabalhadores livres nos países dominantes. De acordo com o autor:

O desdobramento do desenvolvimento do capital comercial possibilitou abrochar as condições estruturais para a consolidação do capitalismo verdadeiro, dinamizado com os resultados dos grandes empreendimentos marítimos, a partir da implantação do sistema colonial, isto é, do estabelecimento da colonização de novas terras e à formação de engenhos e fazendas, ocorria na Europa, em particular na Inglaterra, a acumulação primitiva. Neste país, se consolidou a intensificação da acumulação de capital comercial concatenada com a cisão do trabalhador e seus meios de produção, cujo resultado foi a formação do trabalhador livre. Nesta direção, foi o capital comercial, parafraseando Ianni (1988), que possibilitou a formação nas colônias no Novo Mundo, edificando intensa acumulação de capital nos países metropolitanos, sobretudo na Inglaterra. Devido a sua hegemonia comercial, este país pôde impor à Espanha, Portugal e outros países as medidas comerciais a fim de acelerar a

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acumulação primitiva em seu território, visto que sob o manto do mercantilismo os lucros eram exorbitantes.

Mais ainda, o mercantilismo está dentro do processo de acumulação primitiva do capital e, nesta esteira, verificamos a relação entre metrópole (centro de decisão) e colônia (esta subordinada à primeira, mas que ao mesmo tempo é responsável pela dinamização das atividades à metrópole); completa-se, entrementes, ‘a conotação do sentido profundo da colonização: comercial e capitalista, isto é, elemento

constitutivo no processo da formação do capitalismo moderno’ (NOVAIS, 2005, p. 70 apud GÓES, 2011, p. 23-24).

Durante o período da colonização nas terras brasileiras, muitos índios e africanos foram escravizados e mortos. Inicialmente, o Brasil Colônia foi depreciado pela Coroa Portuguesa que tinha por objetivo principal chegar à Índia. Nesse período, o país foi utilizado também como ponto de passagem e descanso pelos espanhóis que exploravam outras terras; e foi ainda disputado pelos franceses. O Brasil colonial e seus habitantes viveram por, aproximadamente, três séculos (desde a chegada dos portugueses no século XVI até meados do século XIX), uma história sangrenta de exploração da sua gente e das suas riquezas (FAUSTO, 1995).

O capital estrangeiro sempre teve um papel de destaque na economia brasileira, desde a determinação de ciclos econômicos como os do açúcar, do algodão, do cacau, entre outros produtos que foram cultivados aqui, pois se diferenciavam dos produtos das metrópoles e, assim, evitavam a concorrência e geravam mais lucros para os mercantilistas; até a criação de um vultoso déficit orçamentário que tornou o Brasil, desde os tempos coloniais, dependente dos empréstimos internacionais (ASSUNÇÃO, 1999). O processo de colonização significou para o nosso país a dependência econômica, mas, além disso, instituiu o racismo e várias práticas discriminatórias contra as pessoas de várias etnias que aqui residiam: os índios, negros e mestiços. Os racismo trazido com os europeus que atribuíam ao povo daqui a qualidade de seres inferiores está muito vivo ainda nos dias de hoje e essa herança do período colonial aprofunda a distância entre os ricos e pobres nesse país.

De acordo com Góes (2011), o racismo teve origem nesse período das grandes navegações marítimas, entre os séculos XV e XVII, quando Portugal e Espanha foram pioneiros nessa empreitada. Foi durante a invasão do então denominado Novo Mundo que as discussões e produções “científicas” sobre civilizados/ incivilizados, seres superiores/seres inferiores, seres com boa alma/ de almas perdidas foram travadas para classificar as diferenças entre os povos europeus e não-europeus, com destaque para os africanos, momento em que foram criados vários mitos e preconceitos acerca deste continente:

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O que se vislumbra, naquele momento, é a verificação se esses povos externos/ não- europeus tinham a qualidade e natureza de seres humanos e seriam capazes de assimilar a religião cristã e de exercer o trabalho almejado pelos colonizadores. Portugal, não teve propriamente essa preocupação, embora havia influência do cristianismo; a preocupação foi dar ânimo à sua economia interna e impulsionar o mercado europeu, assim, a perspectiva foi buscar mercadorias para satisfazer as necessidades daquele momento (GÓES, 2011, p. 20-21).

Durante esse processo de colonização, várias “teorias” foram criadas para justificar o trabalho forçado e as atrocidades cometidas contra os povos colonizados e foram essas argumentações que deram base para a concretização da ideologia do racismo, ideologia que sofreu modificações, mas continua vigorando na atualidade (GÓES, 2011). O racismo é um elemento muito presente na ideologia conservadora e que faz parte da herança do pensamento conservador brasileiro, como veremos a seguir em alguns apontamentos a partir das análises de Oliveira Vianna.

Após a invasão dos europeus na costa brasileira, as terras daqui foram divididas entre os colonizadores, por meio das Capitanias hereditárias12. Estas renderam muitos impostos aos portugueses e também deram origem à instalação de engenhos de açúcar e vastos latifúndios, momento em que um fluxo imenso de africanos chegou ao Brasil e foi escravizado pelos senhores de engenho, conforme explica Fausto (1995). A economia brasileira foi sendo moldada de acordo com as necessidades e os interesses da metrópole portuguesa, após o fracasso do sistema de governo das Capitanias hereditárias, instalou-se o Governo Geral e os seus representantes locais administravam extensos pedaços de terra com o apoio dos jesuítas, circunstância em que o Estado e a Igreja Católica foram se desenhando no Brasil. A colonização no Brasil foi organizada, sobretudo, pelo Estado e pela Igreja Católica:

Ao Estado coube o papel fundamental de garantir a soberania portuguesa sobre a Colônia, dotá-la de uma administração, desenvolver uma política de povoamento, resolver problemas básicos, como o da mão-de-obra, estabelecer o tipo de relacionamento que deveria existir entre Metrópole e Colônia. Essa tarefa pressupunha o reconhecimento da autoridade do Estado por parte dos colonizadores que instalariam no Brasil, seja pela força, seja pela aceitação dessa autoridade, ou por ambas as coisas (FAUSTO, 1995, p. 60).

12 De acordo com Bueno (1999), as Capitanias hereditárias foram uma forma de divisão do Brasil feita pelos colonizadores portugueses na América para que estes dessem início à importação de seu projeto civilizatório (e exploratório) para o continente do Novo Mundo. Este modelo já havia sido testado em ilhas do Atlântico e até mesmo no próprio território português com a invasão dos mouros. Os extensos lotes no Brasil foram repassados para membros da pequena nobreza que fracassaram na sua administração. Por outro lado, este projeto de colonização deixou o seguinte legado: “A estrutura fundiária do futuro do país, a expansão da grande lavoura canavieira, a estrutura social excludente, o tráfico de escravos em larga escala, o massacre dos indígenas: tudo isso se incorporou à história do Brasil após o desembarque dos donatários” (BUENO, 1999, p. 13).

50 Quanto ao papel da Igreja Católica nesse período:

Como tinha em suas mãos a educação das pessoas, o ‘controle das almas’ na vida diária, era um instrumento muito eficaz para veicular a idéia geral de obediência e, em especial, a de obediência ao poder do Estado. Mas o papel da Igreja não se limitava a isso. Ela estava presente na vida e na morte das pessoas, nos episódios decisivos do nascimento, casamento e morte. O ingresso na comunidade, o enquadramento nos padrões de uma vida decente, a partida sem pecado deste ‘vale de lágrimas’ dependiam de atos monopolizados pela Igreja: o batismo, a crisma, o casamento religioso, a confissão e a extrema-unção na hora da morte, o enterro em um cemitério designado pela significativa expressão ‘campo santo’ (FAUSTO, 1995, p. 60).

Enquanto o Estado no Brasil Colônia tratava de cuidar dos interesses econômicos da Coroa Portuguesa; a Igreja Católica, por meio da ação dos jesuítas, ficou responsável por educar as “almas perdidas” para um novo modo de vida e para a obediência ao Estado. Ambas as instituições eram desconhecidas pelos indígenas e estes foram sendo moldados por elas, que tinham a função, entre outras coisas, de controlar a vida naquela sociedade em formação.

Até o século XIX, o Brasil foi governado por um Estado Absolutista. O rei tinha “poderes divinos” para comandar o território, a população e todo o patrimônio nacional. Portanto, a noção de esfera pública não existia, já que tudo e todos estavam subordinados ao poder real. Uma das particularidades do Estado Absolutista no Brasil era que este se dividia entre as ordens da Metrópole portuguesa e as necessidades imediatas dos colonizadores que estavam no país. Contudo, as relações entre Estado e a sociedade eram pouco solidificadas e, ao longo da história, o Estado foi impondo um maior controle sobre a sociedade em geral (FAUSTO, 1995). O autor chama a atenção para uma característica importante nessa relação: a rede de alianças entre famílias das classes dominantes. Este foi um elemento que se destacou na composição da máquina estatal, desde os tempos da monarquia no Brasil. Isto porque os governantes eram escolhidos a partir da lealdade que dedicavam ao rei e também porque muitos desses membros leais à Coroa Portuguesa provinham das elites em formação no país. Quando não eram nomeados “governantes”, os membros dessas famílias recebiam “benefícios” por parte da monarquia. Podemos perceber que a relação de hierarquia entre os vários setores da sociedade brasileira foi muito frequente na nossa história, desde os tempos da Colônia, de modo que os privilégios concedidos pela monarquia no Brasil não se limitavam à fidalguia portuguesa que veio junto com a Corte para o país, mas se estendia também aos demais setores dominantes da sociedade que fincavam raízes aqui para acumular riquezas.

51 Enquanto os escravos africanos passavam a compor a totalidade da mão-de-obra nos engenhos, sofrendo as mais terríveis atrocidades nesse trabalho, os senhores de engenho alcançaram grande poderio econômico, social e político na vida da Colônia formando uma aristocracia aqui. Em meados do século XVIII, países da Europa Ocidental lutavam contra o Antigo Regime e a favor da introdução de novas ideias como o racionalismo, o liberalismo e a democracia, ideias que movimentaram a sociedade e os seus representantes políticos em diversas ações revolucionárias que respondiam à realidade sócio-histórica de cada país, como foi o caso da Guerra da Independência dos Estados Unidos, em 1776, e da Revolução Francesa, em 1789. Todas essas transformações, incluindo os impactos da Revolução Industrial nas relações econômicas do Brasil colônia com a Inglaterra e outros países, redundaram no início de uma crise no sistema colonial do país. Revoltas de caráter regional ocorreram no Brasil colonial, como por exemplo, a Inconfidência Mineira, em 1789, a Conjuração dos Alfaiates, em 1798, e a Revolução de Pernambuco, em 1817, as quais expressavam a mobilização de vários setores da sociedade brasileira em torno de interesses distintos da Metrópole Portugal (FAUSTO, 1995). O autor afirma que:

Longe de constituir um grupo homogêneo, esses setores abrangiam desde grandes proprietários rurais, de um lado, até artesãos ou soldados mal pagos, de outro, passando pelos bacharéis e letrados.

Também não tinham em comum exatamente a mesma ideologia. As ‘idéias francesas’ ou o liberalismo da revolução americana eram suas fontes inspiradoras. Mas os setores dominantes tratavam de limitá-las, sendo, por exemplo, muito prudentes no tocante ao tema da abolição da escravatura, que viria ferir seus interesses. Pelo contrário, para as camadas dominadas a idéia de independência vinha acompanhada de propósitos igualitários de reforma social (FAUSTO, 1995, p. 113-114).

Após vários movimentos insurrecionais pela independência do Brasil, conflitos armados e medidas repressivas por parte da Coroa Portuguesa e do Exército, além dos acontecimentos políticos e econômicos que movimentavam o cenário brasileiro, o país tornou-se “independente” sob a regência de um governo imperial.

O que é importante destacar desse período colonial que marcou o pensamento conservador brasileiro é a ideologia do colonialismo, assim denominada por Sodré (1965). Trata-se do viés racista das análises sobre a formação do povo brasileiro e de subestimação das massas no Brasil que estão presentes nas obras de vários teóricos brasileiros do início do século XX, como por exemplo, no livro “Populações Meridionais do Brasil”, escrito em 1920, por Francisco José de Oliveira Vianna. Figura emblemática da sociologia brasileira, Oliveira

52 Vianna (1883-1951) foi professor, jurista, historiador e sociólogo. As suas obras tiveram grande repercussão entre os intelectuais brasileiros e se destacaram pelas concepções conservadoras sobre a formação da sociedade nacional que estão contidas nelas. Para Sodré (1965), as suas idéias expressam uma ideologia do colonialismo muito influente no Brasil deste período. Na pesquisa sobre a produção bibliográfica de Oliveira Viana, ele constatou que nos levantamentos feitos pelo teórico sobre a formação da sociedade brasileira:

[...] o povo brasileiro, a massa da população, nada representou, e apenas ofereceu condições para que esses aristocratas do interior criassem o Brasil à sua imagem e semelhança. As tentativas para esconder o papel do povo em nossa história são muito mais perigosas e errôneas desde o advento de tais processos justamente porque, de um lado, aparentam erudição e método, e de outro lado, manifestam pelo povo uma simpatia distante, disfarçando a questão social profunda que se alicerça nos contrastes raciais, ou alimentando teses e idéias que parecem, à visão menos atenta, revisionistas e até ‘revolucionárias’. Essa demagogia pretensamente científica está muito longe de ter desaparecido, e a substituição de processos ou ‘métodos’ empregados pelo ensaísta fluminense por outros processos e ‘métodos’, que viriam a destruir os anteriores, não representa mais do que a ânsia em servir e a singular deformação da inteligência a que vamos assistindo, e que passa, em procissão de aplausos e de homenagens, como se, no fim de contas, isso fosse mesmo ciência e fosse mesmo verdade (SODRÉ, 1965, p. 171).

Neste trabalho, nos baseamos no livro “A Ideologia do Colonialismo”, de Nelson Werneck Sodré, de 1965 e na Dissertação de Mestrado de Maria Dolores Prades, intitulada “Ideologia e Política na obra de Oliveira Vianna”, de 1991, para fazermos apontamentos sobre alguns pontos importantes da obra de Oliveira Vianna que evidenciam aspectos conservadores da teoria por ele elaborada.

Em “Populações Meridionais do Brasil”, Oliveira Vianna estudou a história do povo brasileiro dividindo-o entre os sertanejos (que povoaram a região norte do Brasil), os matutos (da região centro-sul) e os gaúchos (da região do extremo-sul). Tal diferenciação se ancorou em três elementos: o meio físico, a raça e as “pressões históricas e sociais” as quais essas diferentes regiões sofreram durante a formação do nosso país. Em sua obra, o sociólogo deu destaque à aristocracia brasileira enquanto uma classe superior constituída por pessoas de espírito culto e nobre que se mostravam superiores até mesmo à nobreza da Metrópole:

Pela elevação dos sentimentos, paulistas ou pernambucanos, mostram-se muito superiores à nobreza da própria metrópole. Não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e de luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura. Ninguém os excede nos primores do bem falar e do bem escrever. Sente-se na sua linguagem ainda aquele raro sabor de vernaculidade, que na Península parecia já haver-se perdido. Pois é aqui, na colônia, segundo Bento Teixeira Pinto, que os filhos de Lisboa vêm aprender aqueles bons

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termos, que já lhes faltavam, e com os quais se fazem, no trato social, polidos e distintos (VIANNA apud SODRÉ, 1965, p. 174).

Sobre isso, Sodré (1965, p. 174) faz o seguinte comentário:

Lindo quadro, realmente- pena que falso e tristemente destoante, sob qualquer ponto de vista, do que se poderia esperar de um mínimo de informação, para não dizer de cultura individual. Quem acreditar em tais descrições tem o direito de deduzir que, no fim de contas, a colonização do Brasil não passou de uma grandíssima orgia.

Oliveira Vianna descrevia a fase inicial da colonização no Brasil como a “reprodução da vida européia dos fins da Idade Média”, em um ambiente descrito como “um recanto da corte européia transplantada para o meio da selvageria americana” (PRADES, 1991, p. 22). Para o escritor, valores da Idade Média como, por exemplo, o cavalheirismo, estavam presentes na época da Colônia no Brasil. Tais valores e características da sociedade colonial nasceram com os atos de desbravamento dos homens que “descobriram” o Brasil; estes eram figuras corajosas e fortes que portavam qualidades nobres. A aristocracia colonial no Brasil se esforçava para superar as qualidades da aristocracia na Metrópole, a qual, segundo Vianna, já não mais preservava valores nobres e puros do espírito lusitano (PRADES, 1991).

A mudança da nobreza colonial do litoral para o interior do Brasil foi explicada por Vianna como uma “opção espiritual” que não estava relacionada somente a interesses econômicos de exploração agrícola, mas a certo sentimento bucólico de viver em contato com a natureza e cultivar uma posição social superior que somente a posse de terras e a vida no latifúndio poderiam proporcionar a esses grupos. O sociólogo explica que certas tradições familiares eram mais difíceis de serem cultivadas nos centros urbanos, o que seria fundamental para a preservação de costumes. As pessoas que não pertenciam a esse grupo aristocrático, para ele, faziam parte de uma “plebe rural” (composta por mestiços) que viviam em condições amorais e maléficas para o desenvolvimento da personalidade humana. Para Vianna, a “plebe rural” era produto de uma “mistura de sangues bárbaros” que o meio rural proporcionava, mas que não chegava a atingir os membros da aristocracia rural pois, nestes, as influências rurais eram positivas por força do próprio sangue. Sobre isso, o autor afirmou que:

Nesse ponto, a organização da família fazendeira se distingue nitidamente da organização da família das classes inferiores, na plebe rural. Nesta, o princípio dominante da sua formação é a mancebia, a ligação transitória, a poliandria difusa- e essa particularidade de organização enfraquece e dissolve o poder do pater-famílias. Daí o ter nossa família plebéia, em contraste com a família fazendeira, uma estrutura

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instabilíssima. Dessa instabilidade, e dessa dissolução da autoridade paterna é que provêm a maior parte das falhas morais do baixo povo dos campos (VIANNA apud SODRÉ, 1965, p. 179).

Deste modo, além do elemento rural que legitimava o poder da aristocracia colonial no Brasil, Vianna cita também a “raça pura” que atribuía superioridade a essa “grande nobreza”. Para o autor, o grupo dos mestiços era dividido entre os mestiços superiores e os mestiços inferiores. Os mestiços superiores se diferenciavam dos demais quando reconheciam a sua raça originária e se submetiam à raça superior, a dos arianos que compunham a aristocracia rural. Portanto, sob esse ponto de vista alimentado por Vianna, os mestiços só conseguiam romper com a sua condição de inferioridade, no momento em que se identificavam com os valores arianos e se subordinavam aos traços culturais e ideológicos das classes superiores (PRADES, 1991). De acordo com a autora, sob esse ponto vista:

[...] é possível depreender que a superação da inferioridade da plebe depende, de um lado, do reconhecimento da superioridade do branco e, de outro, da disposição do mestiço de a ele se identificar. Nesta formulação reside- ao lado da perspectiva

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