PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
AMANDA EUFRÁSIO
TRABALHO COM FAMÍLIAS NA ASSISTÊNCIA SOCIAL: NOVAS
EXPRESSÕES DO CONSERVADORISMO?
MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL
SÃO PAULO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
AMANDA EUFRÁSIO
TRABALHO COM FAMÍLIAS NA ASSISTÊNCIA SOCIAL: NOVAS
EXPRESSÕES DO CONSERVADORISMO?
Mestrado em Serviço Social
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como
exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE
em Serviço Social, sob a orientação da Professora
Doutora Maria Carmelita Yazbek.
BANCA EXAMINADORA
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DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais, Wanderley e Graça, que se esforçaram juntamente comigo durante toda a minha formação acadêmica e profissional, a quem devo muito por todos os ensinamentos que me repassaram.
À minha irmã, Daniela, sem a qual não seria possível chegar até aqui pois foi ela que despertou em mim o interesse pelos estudos e pela busca de conhecimento, a vontade de fazer um curso de graduação e seguir na pós-graduação. Obrigada por todas as orientações, dicas, pela revisão gramatical da dissertação, pelas conversas, pelo tempo disponibilizado, por tudo. Ao Celso, pelo companheirismo e pela paciência comigo. Obrigada por compreender as minhas decisões e permanecer ao meu lado. Também aprendo muito com você.
Aos amigos e amigas, que fizeram parte desta trajetória comigo e me ajudaram a construir este trabalho, o qual foi elaborado “com várias mentes e várias mãos”. Alguns deles são a Renata, Talita, Andréia, Tamires, Vivi, Nei, Thais, Michelli, Keu, Janaína e tantos outros que contribuíram para os momentos de reflexão e descontração ao longo desses dois anos de mestrado.
Não poderia deixar de fazer um agradecimento especial aos meus amigos e amigas do grupo de estudos de Guarulhos: Guinho, Flor, Ana Paula, Rafa, Marli, Renan, Aline, pelos momentos juntos, ao longo desses anos, na tentativa de compreender o mundo. Obrigada Weber pelas conversas, reflexões, indicações de bibliografia, troca de idéias, orientações e dicas que foram fundamentais para a elaboração da presente dissertação.
À orientadora deste trabalho, Maria Carmelita Yazbek, pessoa e profissional admirável que, com muita paciência e atenção, me conduziu neste processo e me encorajou a seguir confiante no que eu estava fazendo.
À todos os professores e professoras da PUC-SP, da graduação e pós-graduação em Serviço Social, que são muito solícitos e atenciosos com as nossas dúvidas e questionamentos, são excelentes docentes que fazem a diferença nesta universidade.
Em especial, gostaria de agradecer as professoras Maria Lúcia Barroco e Maria Lúcia Martinelli que participaram da banca do Exame de Qualificação e me orientaram na definição final do problema de pesquisa, assim como fizeram apontamentos essenciais que tentei seguir na construção da dissertação.
Às professoras Dirce Koga e Vania Neri, por terem aceitado o convite para integrar a banca de defesa.
Aos sujeitos que participaram dessa pesquisa, pela disponibilidade em participar das entrevistas e contribuir para a troca de conhecimentos nesse momento de amadurecimento intelectual, momento único que também me fez aprender muito.
Título: Trabalho com famílias na assistência social: novas expressões do conservadorismo? Autor: Amanda Eufrásio.
RESUMO
A investigação das expressões do conservadorismo no trabalho com famílias executado por assistentes sociais na contemporaneidade constitui o foco da presente pesquisa. Foi com base no pressuposto de que práticas conservadoras se (re) atualizam no âmbito do Serviço Social, que tivemos como objetivo nesta pesquisa apreender modos de ser conservador no exercício da profissão, mais especificamente, no campo da assistência social. Para isso, além da pesquisa bibliográfica realizada sobre a temática, a pesquisa apoiou-se em metodologia qualitativa através da realização de entrevistas individuais semi-estruturadas com cinco assistentes sociais (selecionadas aleatoriamente) que atuam em Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), em quatro municípios da região Alto Tietê, em São Paulo, sendo eles: Santa Isabel, Arujá, Mogi das Cruzes e Guararema. Estes sujeitosforam selecionados de acordo com a dinâmica populacional de seus municípios e o grau de consolidação do trabalho desenvolvido com famílias no âmbito da assistência social. No primeiro capítulo, tratamos dos significados sócio-históricos do conservadorismo e os seus reflexos na profissão de Serviço Social. No segundo capítulo, situamos o contexto em que se desenvolvem as políticas sociais na atualidade e tratamos das principais características da política de assistência social hoje no Brasil. No terceiro capítulo, realizamos a análise dos dados coletados. Como parte dos resultados da pesquisa, destacamos: 1. há mudanças positivas nas formas de compreender quem são as famílias que procuram a assistência social, mas estigmas e preconceitos com relação a essas pessoas ainda se revelam na prática profissional; 2. a leitura que profissionais fazem do público usuário da assistência social e das possibilidades de enfrentamento da
questão social sofre a influência de tendências conservadoras como a despolitização do significado da pobreza; 3. famílias são “disciplinadas” para manter um desempenho “satisfatório” durante a sua participação nos programas de transferência de renda; 4. o trabalho social com famílias através do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) se apresenta como uma tentativa de romper com práticas conservadoras nessa esfera de atuação profissional e alguns (as) profissionais se apropriam das propostas deste serviço para lutar contra as incidências do conservadorismo na profissão; 5. as famílias são educadas para a conquista de autonomia, o que nos revelou aspectos positivos no sentido de desconstruir práticas assistencialistas e propiciar às famílias pobres o acesso à direitos e às políticas e serviços públicos, assim como a reivindicação de sua melhoria. Porém, a pesquisa demonstrou também a tendência de individualizar problemas que são sociais e de responsabilizar, cada vez mais, as famílias por sua condição de pobreza.
Title: Work on families under social assistance – conservatism new expressions? Author:Amanda Eufrásio.
ABSTRACT
The conservatism expressions investigation done on families under social assistance nowadays is what this research is focused on.It was based on the assumption that conservative practices (re) update under Social Service, that we aimed in this research in order to grasp ways of being conservative when executing the profession, more specifically, in the area of social assistanceFor this, besides the literature survey on the topic, the research went on based on qualitative methodology by conducting semi structured interviews with five social workers (randomly selected) who work in Reference Centers for Social Welfare (CRAS), in four cities on the Alto Tiete area, in Sao Paulo, being: Santa Isabel, Aruja, Mogi das Cruzes e Guararema. These people were picked according to the population dynamics of their cities and the consolidation degree of the work with families under social assistancein the first chapter; we go on social-historical meanings of the conservatism and its impact on the profession of Social Work.In the second chapter, we situate the context in which they develop social policies nowadays and we cover the main features of social assistance policy in Brazil today.In the third chapter, we analyze the data collected.As a part of the research results, we figured that: 1. 1 – There are positive changes in ways of understanding who are the families that seek for social assistance, but stigmas and prejudices on these people are still shown in professional execution; 2 - the way professionals look upon the people that make use of the social assistance and the possibilities of facing social is influenced by conservative tendencies as the politicization of the meaning of poverty; 3 – families are “disciplined” to keep a “satisfactory” performance during their participation on the income transfers programs; 4 – The social work with families through the Protection Service and Integral Care of Family (PAIF) is presented as an attempt to break in with conservative practices in this sphere of professional activity and some (as) professionals take ownership of these service proposals to face the effects of the conservatism of the professional; 5 – families are educated to achieve autonomy, which revealed the positive aspects in the sense of deconstruct welfare practices and to give poor families access to their rights and the policies and public services, as well as claiming their improvement.However, the survey also showed a tendency to individualize problems that are social responsibility and, increasingly, families for their poverty condition.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ……… 09
CAPÍTULO I- DELIMITAÇÕES HISTÓRICAS DO CONSERVADORISMO ... 21
1. Desvendando os significados do conservadorismo ... 21
2. Algumas facetas do conservadorismo no Brasil ... 47
3. O conservadorismo e a gênese do Serviço Social no Brasil ... 68
4. Os desdobramentos do conservadorismo na atualidade ... 103
CAPÍTULO II- ASSISTÊNCIA SOCIAL ... 122
1. As políticas sociais na atualidade ... 122
2. A política de assistência social no Brasil ... 144
CAPÍTULO III- ANÁLISE DOS DADOS ... 156
1. Expressões do conservadorismo na atuação profissional de assistentes sociais ... 163
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 210
REFERÊNCIAS ... 222
Apêndice A- Roteiro de entrevista ... 231
9 INTRODUÇÃO
Ser radical é tomar as coisas pela raiz, mas a raiz,
para o homem, é o próprio homem. MARX
O tema “conservadorismo” que escolhemos para tratar nesta dissertação é muito denso e contém um grau de complexidade que exige uma análise profunda e minuciosa dos seus significados. O conservadorismo perpassa as várias esferas da vida humana e pode se expressar por meio de muitas mediações com o ser social, como, por exemplo, a cultura, a política, a ideologia, entre outras. Não é possível tratar desse tema sem falar em ideologia emancipatória e revolucionária, um assunto tão em “desuso” e “ultrapassado” nos meios em que circulamos e, em certa medida, também nos espaços acadêmicos. Portanto, ao ler as páginas seguintes desse trabalho, os leitores e leitoras irão se deparar o tempo todo com essa dicotomia conservar/transformare tantas outras que fazem parte do processo contraditório de afirmação e negação da ideologia conservadora na sociedade capitalista.
Tendo em vista o escopo dessa investigação, no tempo de pesquisa em que ela foi realizada, optou-se por delimitar o objeto de estudo desta dissertação à identificação de expressões do conservadorismono trabalho com famílias no âmbito da política de assistência social.
Com o projeto de pesquisa vinculado à linha de pesquisa “Serviço Social: Identidade, Formação e Prática”, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, voltamo-nos para o estudo do significado sócio-histórico do conservadorismo, as suas novas configurações na atualidade, as suas expressões nas políticas sociais contemporâneas e no Serviço Social brasileiro, bem como efetivamos entrevistas com assistentes sociais que trabalham nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), em quatro municípios selecionados da região Alto Tietê, em São Paulo.
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seja, que deve garantir proteção a todos (as) que dela necessitem e, nesse sentido, o atendimento e a sua organização se dividem em Proteção Social Básica e Proteção Social Especial. Para a realização da presente dissertação, entrevistamos assistentes sociais que executam serviços, programas, projetos, benefícios da Proteção Social Básica nos CRAS (unidades públicas estatais instaladas em territórios de vulnerabilidade social nos vários municípios brasileiros).
De acordo com a pesquisa mais recente sobre o perfil profissional dos assistentes sociais no Brasil, realizada pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e os Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS), no ano de 2005, 78,16% das/dos assistentes sociais brasileiros estavam empregados na esfera pública estatal, contabilizando nesse percentual as instituições municipais, estaduais e federais. Tendo em vista a abrangência do universo dessa pesquisa, selecionamos uma pequena parte desse todo para a coleta e análise dos dados que servirão de base para o desenvolvimento da dissertação e que, portanto, se constitui em cinco sujeitos de pesquisa que atuam nos CRAS dos municípios de Santa Isabel, Arujá, Mogi das Cruzes e Guararema, em São Paulo.
Os sujeitos de pesquisa foram selecionados de acordo com a dinâmica populacional de seus municípios, classificação que consta da PNAS-2004, e que é um importante indicador para a efetivação da política de assistência social: Santa Isabel (município de médio porte com 50.453 habitantes), Arujá (município de médio porte com 74.905 habitantes), Mogi das Cruzes (município de grande porte com 387.779) e Guararema (município de pequeno porte II com 25.844 habitantes)1.
Optamos pelo método qualitativo de pesquisa, o que nos dá possibilidades de uma maior aproximação com o caráter complexo da questão social, o qual, dificilmente, pode ser compreendido apenas pela pesquisa quantitativa por meio da experimentação e análise circunscrita dos dados coletados. Baseando-nos em Martinelli (1999), entendemos que, apesar da importância da pesquisa quantitativa no que se refere ao dimensionamento dos problemas sociais com os quais trabalhamos no Serviço Social e à sua viabilidade para o delineamento de um mapa detalhado da realidade social na qual atuamos, o método quantitativo não nos parece suficiente para apreender “modos de ser conservador” no exercício da profissão de Serviço Socialna assistência social. Conforme a autora explica: “O dado numérico em si nos
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instrumentaliza, mas não nos equipa para trabalhar com o real em movimento, na plenitude que buscamos” (MARTINELLI, 1999, p. 21). Além disso, a pesquisa qualitativa privilegia o contato do pesquisador com os sujeitos de pesquisa e sua experiência cotidiana, movimento fundamental no qual precisamos nos inserir para investigar o problema de pesquisa delimitado, mas principalmente para observarmos a sua dinâmica real e extrairmos dela as determinações fundamentais que a constitui. Conforme se detalhará no que segue, no caso da presente investigação, que delimitou como problema de pesquisa a identificação e análise de expressões do conservadorismo na atuação das/dos assistentes sociais, a realização de entrevistas foi eficiente no sentido de possibilitar um contato mais estreito com os sujeitos de pesquisa.
Dessa maneira, fizemos uso de entrevistas para confirmar ou não o seguinte pressuposto da pesquisa: o trabalho de assistentes sociais nos CRAS evidencia novas expressões do conservadorismo que se refletem no Serviço Social brasileiro. As entrevistas foram parcialmente estruturadas, voltadas para o problema e a hipótese de pesquisa, previamente elaboradas, mas deixando espaço para a flexibilidade, permitindo um contato entre entrevistador e entrevistado que privilegiasse a exploração dos seus saberes, de suas experiências, de seus valores, em conformidade com requisitos da pesquisa qualitativa. Após o registro das entrevistas em áudio, por meio de gravador, transcrevemos fielmente as respostas das profissionais entrevistadas e fizemos a análise dos dados coletados, tendo em vista o nosso referencial teórico. O roteiro de entrevista dessa dissertação foi um misto de perguntas abertas e fechadas, acerca do problema de pesquisa, tendo sido elaborado considerando as diretrizes éticas e a legislação específica de ética na pesquisa, a partir das quais conduzimos as entrevistas e o tratamento dos dados.
Não anexamos a essa dissertação a transcrição das entrevistas concedidas, já que, para a análise, foram feitos os recortes necessários para o seu desenvolvimento. Sendo assim, apresentamos, no corpo do presente texto, os dados que nos permitiram argumentar em defesa das análises e interpretações realizadas. Na transcrição desses dados, o tipo de letra utilizado foi “Times New Roman”, tamanho 10, com as seguintes referências às profissionais entrevistadas: Assistente Social 1, Assistente Social 2, Assistente Social 3, Assistente Social 4
e Assistente Social 5, já que optamos por não identificá-las por seus nomes reais ao longo da pesquisa.
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mesmas possuem vínculo empregatício e são concursadas, quatro delas se graduaram entre os anos de 2008 e 2009, sendo que uma delas concluiu a graduação em Serviço Social em 1984, somente uma das profissionais entrevistadas possui pós-graduação na área de Serviço Social.
A etapa posterior à realização das entrevistas foi de análise dos dados com base nos fundamentos teóricos apreendidos durante a pesquisa bibliográfica e considerando as reflexões sobre os conteúdos das disciplinas cursadas, os debates travados em eventos e outras atividades que acompanharam a trajetória dessa pesquisa. Com os dados da pesquisa em mãos, caminhamos ao encontro das questões em busca de respostas para o nosso problema de pesquisa, caminho difícil que nos exigiu relacionar dados da realidade com as várias produções teóricas que foram referência para o nosso trabalho.
Como metodologia para a realização da pesquisa, esforçamo-nos para colocar em prática princípios da tese marxiana que nos ensinam que a realidade constrói a teoria e não o contrário, por isso, é preciso desvendá-la fazendo as conexões necessárias de maneira desmistificada, de modo que as categorias teóricas da totalidade, historicidade e contradição são fundamentais para o cumprimento dessa função no processo de investigação. Nesse sentido, a nossa concepção de pesquisa se apoiou na ideia de que esta é uma modalidade específica de conhecimento que exige captar da realidade o objeto a ser pesquisado, tal como ele é, para então reproduzi-lo no plano do pensamento buscando compreender as determinações que incidem sobre a sua essência, e retornando a esse mesmo objeto a partir de uma análise crítica e abrangente sobre ele (NETTO, 2011b, p. 21). A teoria para Marx é:
[...] a reprodução ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria, o sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e a dinâmica do objeto que pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto.
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adversários), isso quer dizer que Marx buscou explicar a sociedade burguesa a partir da inter-relação entre as várias esferas da vida.
Para Marx, o trabalho deve ser compreendido como categoria central na vida dos homens e a liberdade como um valor central na sociedade moderna. O teórico apreendeu que o alto grau de desenvolvimento das forças produtivas que se atingira no mundo ocidental, entre os séculos XVIII e XIX, criou possibilidades nunca dantes vivenciadas pelos seres humanos de se reconhecerem como sujeitos na história a partir da consciência de si mesmos e de se tornarem livres na sociedade moderna. Por isso, a teoria social elaborada por ele tem um conteúdo emancipatório e revolucionário, o que gera muitos conflitos e descrédito no meio intelectual, principalmente, entre os setores mais conservadores. Segundo Netto (2011b), são essas razões ideopolíticas (e não subjetivas no significado estrito da palavra), muito mais do que fatores de ordem teórica e filosófica, que criam polêmicas entre cientistas e acadêmicos, políticos e a sociedade em geral, no que diz respeito à confiabilidade desse tipo de teoria.
A obra marxiana não nos oferece um conjunto de regras orientadoras das etapas de elaboração de uma pesquisa científica, mas aponta para a utilização de categorias teóricas como a totalidade, a contradição e a mediação, dentre outras, que foram apreendidas por Marx durante a sua trajetória de construção do conhecimento. Essas categorias nos possibilitam a construção de um caminho teórico-metodológico baseado na dialética, a partir do qual apreendemos o objeto real, negamos a sua aparência até alcançarmos o seu significado essencial. Ao nos introduzir na discussão sobre a questão do método em Marx, Netto (2011b, p. 52-53) explica que esse teórico:
[...] não nos apresentou o que “pensava” sobre o capital, a partir de um sistema de categorias previamente elaboradas e ordenadas conforme operações intelectivas: ele (nos) descobriu a estrutura e a dinâmica reais do capital; não lhe “atribuiu” ou “imputou” uma lógica: extraiu da efetividade do movimento do capital a sua
(própria, imanente) lógica- numa palavra, deu-nos a teoria do capital: a reprodução ideal do seu movimento real.
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objeto de pesquisa (neutralidade confundida com objetividade), no caso das ciências sociais, “[...] o sujeito está implicado no objeto” (NETTO, 2011b, p. 23).
Mészáros (2004), baseado na teoria marxiana, também faz uma análise sobre esse apelo às formas e às técnicas metodológicas “neutras”, nos vários campos da ciência, alertando para o fato de que essa almejada neutralidade ideológica nem sempre garante a objetividade dos trabalhos científicos. Isso porque a ideia de que a formulação de teorias sociais pode ser isenta de valores humanos não passa de uma idealização do real que ele denomina de “mito da neutralidade ideológica”. Martinelli (1999, p. 26) também reforça essa afirmação ao explicar que a pesquisa qualitativa não pode ocultar a sua dimensão política, já que ela mesma se justifica em um determinado projeto de sociedade pelo qual lutamos. Segundo ela: “Não há nenhuma pesquisa qualitativa que se faça à distância de uma opção política”.
No caso da perspectiva crítico-dialética aplicada à pesquisa nas ciências sociais, a objetividade dos dados analisados é garantida pelo recurso à história durante o processo de investigação, pela compreensão da sociedade com base no seu movimento histórico. Isso nos garante a veracidade dos dados, que são reais porque são históricos e que, apesar de estarem em constante mudança, colocam-nos o desafio de desvendar essas transformações. Netto (2011b, p. 23-24) explica que:
[...] da sua análise do movimento do capital, Marx (1968a, p. 712-827) extraiu a lei geral da acumulação capitalista, segundo a qual, no modo de produção capitalista, a produção da riqueza social implica, necessariamente, a reprodução contínua da pobreza (relativa e/ou absoluta); nos últimos 150 anos, o desenvolvimento das formações sociais capitalistas somente tem comprovado a correção de sua análise, com a ‘questão social’ pondo-se e repondo-se, ainda que sob expressões diferenciadas, sem solução de continuidade. E ainda outro exemplo: analisando o mesmo movimento do capital, Marx (1974, 1974a e 1974b) descobriu a impossibilidade de o capitalismo existir sem crises econômicas; também, no último século e meio, a prática social e histórica demonstrou o rigoroso acerto dessa descoberta. Essas e outras projeções plenamente confirmadas sobre o desenvolvimento do capitalismo não se devem a qualquer capacidade ‘profética’ de Marx: devem-se a que sua análise da dinâmica do capital permitiu-lhe extrair de seu objeto ‘a lei econômica do movimento da sociedade moderna’ (Marx, 1968, p. 6)- não uma ‘lei’ no sentido das leis físicas ou das leis sociais durkheimianas ‘fixas e imutáveis’, mas uma tendência histórica determinada, que pode ser travada ou contrarrestada por outras tendências.
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compreensão do objeto de estudo desta pesquisa. Foi com base no movimento dinâmico e histórico da realidade que tentamos apreendê-lo de maneira crítica.
Segundo Kosik (1976), somente é possível investigar a essência dos fenômenos reais quando caminhamos em direção à destruição do mundo da “pseudoconcreticidade”. Segundo o mesmo autor, esse mundo esconde um “duplo sentido” na medida em que a essência do que é real não se revela totalmente. Ao se mostrar, faz isso parcialmente, mas ainda assim, essa essência tem vida e a sua manifestação é o que move a realidade (KOSIK, 1976). Segundo o autor,
No mundo da pseudoconcreticidade o aspecto fenomênico da coisa, em que a coisa se manifesta e se esconde, é considerado como a essência mesma, e a diferença entre o fenômeno e a essência desaparece (KOSIK, 1976, p. 16).
Esse falso mundo da concreticidade apresenta a realidade como se esta não tivesse relação com o seu conteúdo essencial, como se o real e a essência fossem esferas distintas e separadas. Kosik (1976, p. 16) explica que o mundo fenomênico não é:
[...] algo independente e absoluto; os fenômenos se transformam em mundo fenomênico na relação com a essência. O fenômeno não é radicalmente diferente da essência, e a essência não é uma realidade pertencente a uma ordem diversa da do fenômeno. Se assim fosse efetivamente, o fenômeno não se ligaria à essência através de uma relação íntima, não poderia manifestá-la e ao mesmo tempo escondê-la; a sua relação seria reciprocamente externa e indiferente. Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde. Compreender o fenômeno é atingir a essência. Sem o fenômeno, sem a sua manifestação e revelação, a essência seria inatingível.
Partindo desse referencial teórico, para pesquisar com seriedade e profundidade científica um fenômeno concreto que se manifesta em nossa cotidianidade, como é o caso do exercício profissional de assistentes sociais na política de assistência social e as formas sob as quais o pensamento conservador se expressa nessa esfera, devemos considerar que há algo para além dos seus aspectos mais superficiais, que há uma verdade que não se manifesta imediatamente aos nossos olhos, que merece ser especulada com maior dedicação, por isso, o pensamento crítico filosófico marxiano se constitui como referencial teórico do presente trabalho.
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A dialética não atinge o pensamento de fora para dentro, nem de imediato, nem tampouco constitui uma de suas qualidades; o conhecimento é que é a própria dialética em uma das suas formas; o conhecimento é a decomposição do todo. O “conceito” e a “abstração”, em uma concepção dialética, têm o significado de método que decompõe o todo para poder reproduzir espiritualmente a estrutura da coisa, e, portanto, compreender a coisa.
Contudo, a utilização desse referencial teórico na presente dissertação de mestrado ocorreu com algumas limitações, tendo em vista os propósitos e o tempo de realização dessa pesquisa. Essas restrições foram, em alguma medida, superadas com a valiosa orientação da Profa. Dra. Maria Carmelita Yazbek, durante todo o período de construção do trabalho e com as contribuições, igualmente importantes, de Maria Lúcia Barroco e Maria Lúcia Martinelli, que participaram da banca do Exame de Qualificação desta pesquisa e fizeram apontamentos fundamentais para a sua conclusão. Cabe destacar que, quanto ao tempo supracitado de investigação científica, dispusemos de 24 meses para o seu desenvolvimento e conclusão, fato que dificulta a maior apropriação da massa crítica existente.
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Outra motivação para o desenvolvimento dessa pesquisa foi o fato de que, durante o levantamento e consulta à bibliografia inicial da pesquisa, pudemos observar que são poucos os trabalhos na área do Serviço Social que aprofundaram as análises sobre o conservadorismo na prática dos assistentes sociais, a partir dos anos 20002. Consideramos ainda que é uma constante no Serviço Social se falar em conservadorismo, mas que esta é uma categoria que precisa ser mais bem explicitada e compreendida, não apenas a partir de definições teóricas, mas também por meio da explicitação desse modo de ser na realidade. Com base nessa reflexão, constituímos o problema de pesquisa previamente anunciado, que diz respeito à investigação das expressões do conservadorismo no trabalho com famílias na contemporaneidade.
Quanto à importância dessa dissertação, no campo da produção teórica, acreditamos que esse estudo poderá contribuir para as discussões sobre as tendências da prática profissional contemporânea. Esperamos, assim, que esse estudo contribua, fundamentalmente, para as/os assistentes sociais e outros trabalhadores da política de Assistência Social no sentido de propor reflexões críticas sobre a operacionalização do trabalho com famílias na assistência social e as “armadilhas” que podem nos desviar dos objetivos que pretendemos alcançar com o exercício da profissão.
O objetivo geral da pesquisa é investigar formas de expressão do conservadorismo no Serviço Social brasileiro na contemporaneidade, particularmente na prática profissional da assistência social e, mais especificamente, estudar os significados do conservadorismo e suas expressões na atualidade; identificar a presença de tendências conservadoras no trabalho com famílias no campo teórico e prático do Serviço Social brasileiro, ao longo de sua história; estudar as políticas sociais brasileiras, a prática da assistência social no Brasil e os marcos legais que a regulamentam; compreender as determinações sócio-históricas que incidem sobre as concepções teórico-políticas e ideológicas da sociedade e da profissão, que subjazem à atuação dos sujeitos de pesquisa.
O texto que ora se apresenta foi dividido da seguinte forma: o primeiro capítulo se constitui de quatro seções, sendo que, na primeira delas, tratamos do conservadorismo em sua origem “clássica”, com o objetivo de compreender as raízes desse tipo de pensamento, o seu
2 Dos trabalhos que aprofundam essa temática e foram consultados para essa pesquisa, destacamos:
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conteúdo ídeo-político cultural, a sua ênfase no estudo da sociedade e de soluções propostas para o enfrentamento de problemas sociais.
Com essa finalidade, situamos a origem do pensamento conservador, em fins do período feudal e, a partir da revolução burguesa na França e em outros países da Europa ocidental, momento em que a classe dominante daquele período contestou as transformações da era capitalista. Fizemos referência também à Revolução de 1848 e aos movimentos proletários que eclodiram em várias partes do mundo, momento em que trabalhadores se uniram em prol de mudanças e da construção de outro modelo de sociedade. Estudamos ainda algumas transformações sofridas pelo pensamento conservador, com destaque para o período pós-1848, momento em que a tradição progressista nas ciências entrou em decadência, conforme explica Lukács (1968), e com isso o conservadorismo renovou suas forças e alastrou-se por várias áreas do conhecimento no mundo moderno, o que influenciou a compreensão da questão social e as formas de intervenção sobre ela. Cabe ressaltarmos aqui que, ao longo do texto, utilizamos a expressão “questão social” tendo por referência a análise de Yazbek (2001). Para a autora, a questão social se constitui em elemento central para se compreender a relação entre a profissão de Serviço Social e a realidade:
Ao colocar a questão social como referência para a ação profissional, estou colocando a questão da divisão da sociedade em classes, cuja apropriação da riqueza socialmente gerada é extremamente diferenciada. Estou colocando em questão, portanto, a luta pela apropriação da riqueza social. Questão que se reformula e se redefine, mas permanece substantivamente a mesma por se tratar de uma questão estrutural, que não se resolve numa formação econômico social por natureza excludente. Questão que, na contraditória conjuntura atual, com seus impactos devastadores sobre o trabalho, assume novas configurações e expressões entre as quais destacamos: 1- as transformações das relações de trabalho; 2- a perda dos padrões de proteção social dos trabalhadores e dos setores mais vulnerabilizados da sociedade que vêem seus apoios, suas conquistas e direitos ameaçados (YAZBEK, 2001, p. 33-34).
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estrangeira, que algumas proposituras para o enfrentamento da questão social foram elaboradas no Brasil.
A terceira seção do primeiro capítulo trata da gênese do Serviço Social brasileiro, que se deu em um contexto reformista e conservador, como afirmou Iamamoto (2008), de modo que o desenvolvimento da profissão se processou a partir dessa base histórica e, desde meados da década de 1960, vivenciamos um processo de renovação crítica na profissão, em meio a diferentes correntes de pensamento. A tradição marxista influenciou, de maneira bastante significativa, a construção do projeto hegemônico da profissão, do nosso Código de Ética profissional, de legislações específicas na área, além de parte do embasamento teórico-metodológico do Serviço Social. No caso da política de assistência social brasileira, assistentes sociais e outros atores participaram ativamente dos processos que levaram à sua regulamentação, enquanto política pública, por meio da PNAS-2004. Isso tem se dado em um contexto mundial de intensificação da desigualdade social, (des) proteção social e perda progressiva de direitos, cenário propício para a disseminação de ideias e práticas (neo) conservadoras.
Na última parte do capítulo primeiro, abordamos a renovação de velhas características conservadoras no atual estágio de desenvolvimento capitalista que influencia a interpretação e análise de fatos sociais. Ela foi iniciada com considerações sobre o estágio de desenvolvimento capitalista no mundo e no Brasil, a partir da década de 1970, momento em que transformações econômicas, políticas, sociais e culturais de grande impacto redundaram em novas estratégias para o enfrentamento da questão social, até chegarmos aos dias atuais em que vivenciamos – a fase do capitalismo contemporâneo – e tendências ao conservadorismo nas relações entre os sujeitos sociais tornam-se cada vez mais evidentes em várias situações, como, por exemplo, na naturalização e criminalização da questão social.
Desse modo, buscamos demonstrar as várias faces do conservadorismo que foram se constituindo, a partir da era moderna, e se expressaram com força em teorias sociais que influenciam a compreensão da questão social ainda nos dias de hoje, particularmente, no campo profissional de assistentes sociais. Apesar de novas características que essa forma de pensamento foi adquirindo, a sua essência continua a mesma: manter a sociedade como ela está e combater transformações que interfiram em sua estrutura.
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combate à pobreza. No que se refere à política de assistência social no Brasil, traçamos um breve histórico dessa história do nosso país com destaque para a aprovação da PNAS-2004, as mudanças introduzidas por esta nova legislação, principalmente, no que diz respeito aos novos parâmetros para o trabalho com famílias nos CRAS. Iniciamos o capítulo tratando dos significados das políticas sociais na sociedade capitalista, mencionamos as primeiras formas de políticas voltadas para os pobres, os progressos e retrocessos no seu processo de evolução, de modo que destacamos o desenvolvimento de políticas de proteção social, no período do
Welfare State (Estado de Bem Estar Social), em alguns países da Europa ocidental. Por fim, abordamos as principais tendências do contexto mundial que influenciaram a configuração das políticas sociais na atualidade como, por exemplo, o desmonte das políticas de proteção social.
21 CAPÍTULO I- DELIMITAÇÕES HISTÓRICAS DO CONSERVADORISMO
1. Desvendando os significados do conservadorismo
Denominar alguém de conservador pode soar como um insulto ou como o reconhecimento de uma escolha político-ideológica. No primeiro caso, o seu sentido geralmente está relacionado a uma postura retrógrada, antiquada, reacionária diante de fatos e ideias que trazem o novo, podendo assim resultar em posicionamentos de resistência diante das mudanças, inovações e dos progressos somados a contestações quanto à substituição de antigos valores, costumes, tradições. No segundo caso, ser conservador pode significar defender um projeto societário que visa preservar os “bons costumes” e a “moral”, em nome da ordem e do bom funcionamento da sociedade.
Por causa desse entendimento, é muito comum que os termos “conservadorismo” e “tradicionalismo” sejam utilizados como se os seus significados fossem equivalentes. Com base nos estudos realizados para essa pesquisa, compreendemos que o tradicionalismo se diferencia do conservadorismo na medida em que o primeiro relaciona-se, sobretudo, à transmissão de uma determinada cultura visando à sua preservação em tempos históricos diferentes, com o objetivo de valorizar costumes, instituições, rituais, etc. Nesse sentido, o tradicionalismo não é necessariamente conservador. Explica-nos Carvalho (2005) que o tradicionalismo está presente em todas as sociedades, nos diversos tempos históricos, porque nos vinculamos a certas ações e situações que desejamos que tenham continuidade, o que não, necessariamente, restringem-nas ao uso político-ideológico. No caso do conservadorismo, este se caracteriza como uma resposta às mudanças que ameaçam romper com uma dada ordem social estabelecida e um dado status quo. Além disso, conforme veremos a seguir, a gênese do conservadorismo está situada historicamente no período moderno. Já o tradicionalismo, em concordância com o que viemos expondo, pode atravessar gerações sem focar em interesses específicos, podendo perpassar a condução da história.
Na tentativa de apreender o significado do conservadorismo, baseamo-nos na obra de Netto (2011a)3 em que a autora define a primeira forma de conservadorismo como “conservadorismo clássico” e faz uma análise do estudo do conservadorismo por alguns
3 Referimo-nos aqui à Leila Escorsim Netto e sua obra “O conservadorismo clássico- Elementos de
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teóricos da Sociologia. Netto (2011a) defende que o conservadorismo não é natural a todos os seres humanos, não é uma forma de pensamento “a-histórica”, nem uma resposta neutra e imparcial de pessoas que, simplesmente, temem tudo o que é novo e resultado de um processo de transformações gerado pelo movimento histórico do real. Para ela, o pensamento conservador está muito bem delimitado no tempo e na história da cultura ocidental e sua funcionalidade está circunscrita aos interesses da burguesia. A autora afirma que o conservadorismo é
[...] uma expressão cultural (obviamente complexa e diferenciada [...]) particular de um tempo e um espaço sócio-histórico muito precisos: o tempo e o espaço da configuração da sociedade burguesa- configuração que deve ser tomada como uma “rica totalidade de determinações e relações diversas” (Marx, 1982, p. 14) e em que operam movimentos e tensões em todas as esferas e instâncias sociais (NETTO, 2011a, p. 41).
Quanto à delimitação histórica do conservadorismo, grande parte dos pesquisadores dessa temática concorda com a localização do seu surgimento a partir da Revolução Francesa, em 1789. A autora corrobora que o conservadorismo
[...] não é um “estilo de pensamento” intemporal, a-histórico, encontrável em qualquer tempo e em qualquer sociedade. Nem se confunde com quaisquer formas intelectuais e comportamentais que valorizam, sancionam e defendem o existente- formas a que cabe a denominação de tradicionalismo (NETTO, 2011, p. 40).
O excerto citado enquadra-se no panorama geral, retratado pela autora, sobre as profundas transformações ocorridas na Europa Ocidental, entre os séculos XIV e XIX, com destaque para os períodos da Revolução Francesa e Industrial. Antes disso, o sistema feudal em crise já apontava para a ascensão do pensamento conservador enquanto “expressão cultural” (NETTO, 2011a, p. 41), como forma de compreensão do mundo e ação sobre ele.
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pequena parte de sua área para a moradia e para o consumo de subsistência dos camponeses que, em troca disso, cultivavam as terras dos seus senhores feudais, além de prestar outros tantos serviços que lhes eram impostos num “acordo de cavalheirismo e fidelidade”, entre ambas as partes. A condição social dos camponeses era de servidão, isto quer dizer que o trabalho nas terras do senhor era a prioridade e a exigência para a manutenção da sua vida miserável (HUBERMAN, 1967). Conforme nos explica o autor (1967, p. 14-15):
A propriedade do senhor tinha que ser arada primeiro, semeada primeiro e ceifada primeiro. Uma tempestade ameaçava fazer perder a colheita? Então, era a plantação do senhor a primeira que deveria ser salva. Chegava o tempo da colheita, quando a ceifa tinha que ser rapidamente concluída? Então, o camponês deveria deixar seus campos e segar o campo do senhor. Havia qualquer produto posto de lado para ser vendido no pequeno mercado local? Então, deveriam ser o grão e o vinho do senhor os que o camponês conduzia o mercado e vendia- primeiro. Uma estrada ou uma ponte necessitavam reparos? Então, o camponês deveria deixar seu trabalho e atender à nova tarefa. O camponês desejava que seu trigo fosse moído ou suas uvas esmagadas na prensa de lagar? Poderia fazê-lo- mas tratava-se do moinho ou prensa do senhor e exigia-se pagamento para sua utilização. Eram quase ilimitadas as imposições do senhor feudal ao camponês. De acordo com um observador do século XII, o camponês “nunca bebe o produto de suas vinhas, nem prova uma migalha do bom alimento; muito feliz será se puder ter seu pão preto e um pouco de sua manteiga e queijo...”.
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circulação de capital não era o fator mais importante das relações econômicas porque a economia feudal era, em sua essência, auto-suficiente, ou seja, os membros daquela sociedade produziam todos os artigos e produtos necessários à sua sobrevivência, como alimentos, roupas, móveis, dentre outros. As trocas aconteciam, eventualmente, quando não havia matéria-prima suficiente para a produção. Ainda assim, tais trocas não eram realizadas com o intermédio da moeda e, sim, entre produtos de espécies diferentes. No entanto, quando se iniciaram os movimentos das Cruzadas, momento em que a monarquia e a Igreja Católica financiaram grandes expedições marítimas para outros países e continentes, a fim de conquistar novas terras e extrair novas riquezas de outros povos e territórios, o comércio local na Europa ganhou maior importância, na medida em que os comerciantes buscavam atender às necessidades desses viajantes e desbravadores que passavam pelas cidades, assim como às novidades em termos de produtos que eles traziam consigo no retorno de suas viagens (HUBERMAN, 1967).
Dos mercados locais para as grandes feiras de comércio, houve um “salto” significativo de muitas mudanças na vida da sociedade feudal que rumava a outro modelo de organização econômica e social: o capitalismo. O pequeno comércio, típico da Idade Média, passou a se expandir e a inserção do dinheiro nos negócios e nas transações financeiras, realizados nesses espaços, foi uma solução encontrada pelos medievais para facilitar o acesso a produtos, como nos explica Huberman (1967, p. 34):
Havia desvantagens na permuta de gêneros, nos primórdios da Idade Média. Parece simples trocar cinco galões de vinho por um casaco, mas na realidade não era assim tão fácil. Era necessário procurar quem tivesse o produto desejado, e quisesse trocá-lo. Introduza-se porém, o dinheiro como meio de intercâmbio, e o que acontecerá? Dinheiro é aceitável por todos, não importa o que necessitem na ocasião, porque pode ser trocado por qualquer coisa. Quando o dinheiro é largamente empregado, não é necessário carregar cinco galões de vinho pela redondeza, até encontrar alguém que queira vinho e tenha um casaco para trocar. Não; basta vender o vinho por dinheiro e, então, com esse dinheiro comprar um casaco. Embora a transação de troca simples se transformasse com isso numa transação dupla, com a introdução do dinheiro, não obstante poupam-se tempo e energia. Assim, o uso do dinheiro torna o intercâmbio de mercadorias mais fácil e, dessa forma, incentiva o comércio.
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para que, futuramente, se tornassem proprietários de terras também. Os conflitos entre esses dois grupos foram intensos e alguns senhores se viram obrigados a remunerar os seus trabalhadores ou conceder-lhes a liberdade para contratar novos empregados, não mais na condição de servos.
Com base nisso, podemos notar que o desenho e a dinâmica da sociedade medieval vinham sofrendo grandes transformações. Muitos servos deixaram os feudos e foram para as cidades em busca de outras formas de trabalho como, por exemplo, o comércio. Historiadores apontam para a relação entre a expansão do comércio e o progresso das cidades. Foi, nesse contexto, que uma nova classe surgiu: a classe média, que conquistara privilégios e direitos por meio de uma organização crescente entre os seus membros, como foi o caso das corporações de mercadores que, praticamente, monopolizaram toda a atividade comercial de certas regiões e foram ganhando espaços naquela sociedade.
Juntamente com essa nova classe social, surgiam também novas formas de pensar e práticas sociais tais como os empréstimos em dinheiro para investimentos em negócios e o lucro por meio dos juros, atividades anteriormente condenadas pela Igreja Católica, instituição que foi, aos poucos, recuando em seus ensinamentos doutrinários e facilitando a introdução de novos valores e costumes na sociedade que transitava do regime feudal para o sistema capitalista. A peste negra, que devastou países quase inteiros na Europa ocidental, foi um fator que também contribuiu para a decadência do sistema feudal. Isto porque milhões de pessoas morreram e a força de trabalho disponível nos feudos diminuiu drasticamente. Sendo assim, os camponeses podiam exigir preços mais altos por seus serviços prestados aos senhores feudais, fato que só aumentava o tensionamento entre essas duas classes.
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Somando esse conjunto de fatos com o sucesso das expedições marítimas que contrabandearam muitas riquezas de países até então desconhecidos, também com o surgimento de manufaturas e inovações tecnológicas, além de mudanças profundas nas forças produtivas como, por exemplo, o processo de aniquilação dos feudos que criou as bases para o modo de produção capitalista (MARX, 1975), o Estado Absolutista “[...] expressão maior das relações próprias à feudalidade” (NETTO, 2011a, p. 84) foi caminhando para o seu esfacelamento e para a “roubada de cena” de uma nova classe, a burguesia.
Netto (2011a, p. 85) esclarece ainda que:
[...] a tomada do poder político pela burguesia, cujo marco emblemático é 1789, não constitui mais que o desfecho de uma luta de classes plurissecular, que teve no domínio da cultura e das idéias um campo de batalhas decisivo, como o provam a
Reforma protestante e a Ilustração. Foi a hegemonia conquistada pela burguesia no terreno das idéias que lhe permitiu organizar o povo (o conjunto do Terceiro Estado) e liderá-lo na luta que pôs fim ao Antigo Regime.
O Estado burguês ascendeu em substituição ao Antigo Regime, no século XIX, e foram criadas, então, as condições favoráveis para o desenvolvimento do sistema capitalista que já vinha sendo concebido ainda no período feudal.
Contudo, imaginemos os impactos de tantas mudanças estruturais e no plano das ideias e valores na vida desses homens e mulheres da Idade Média, uma sociedade tão marcada pela rigidez e força dos seus costumes. E os embates com o poder hegemônico da Igreja Católica que orientava as pessoas para um modo de vida fixo e imutável regido pelas leis dos proprietários de terras? Muito provavelmente, as resistências a essas transformações se manifestaram em todos os grupos sociais daquele período: os camponeses, os reis, a nobreza feudal, os senhores feudais, os artesãos, entre outros. Contudo, a resistência marcada pelo medo de perder tudo (bens materiais, poder, status, privilégios, etc) surgiu dos estratos mais poderosos da sociedade, que temiam a emancipação dos trabalhadores e/ou a ascensão do povo ao poder. Segundo Nisbet (1987, p. 62), ideias como:
status, coesão, ajustamento, função, norma, ritual, símbolo, são idéias conservadoras não apenas no sentido superficial de que cada uma delas tem como seu referencial um aspecto da sociedade plenamente interessado na manutenção ou na conservação da ordem, mas no importante sentido de que todas essas palavras são partes integrantes da história intelectual do conservadorismo europeu.
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volta da década de 1780, resultado de um processo que se iniciou muito antes do século XVIII. A partir dela, o modo de produção das sociedades humanas e a vida social dos homens sofreram enormes transformações voltadas, sobretudo, para a produção incessante de mercadorias e para o lucro a partir da exploração do trabalho. O agravamento dos problemas sociais foi uma característica marcante do período da Revolução Industrial, na medida em que a miséria se tornava mais evidente e o descontentamento popular, com a degradação da vida humana gerada pelas novas condições de trabalho, acentuava-se. Expressão disso foram os movimentos sociais de trabalhadores da indústria, os movimentos cartistas na Grã-Bretanha e as revoluções sociais que surgiram nesse momento histórico.
No caso particular da Inglaterra, havia um esforço para diminuir os custos da produção de algodão e as classes manufatureiras não hesitavam em comprimir cada vez mais os salários dos trabalhadores. Os empresários capitalistas investiam na construção de ferrovias, o que facilitava o transporte do carvão (principal fonte de energia e combustível nesse período), além da comunicação entre os países europeus e destes com o mundo. Inovações tecnológicas, a partir do século XVIII, foram essenciais para atender a demanda por alimentos que crescia a cada dia por conta do aumento da população urbana nos países europeus. Na direção contrária desse crescimento, a população agrícola diminuía, assim como a mão-de-obra necessária para o cultivo dos alimentos. Nesse sentido, a aplicação de métodos racionais específicos para otimizar a produção agrícola e atender a todos os cidadãos se fazia muito necessária, de modo que tal metodologia foi colocada em prática na Grã-Bretanha. Durante esse processo, os pequenos produtores e os trabalhadores pobres eram incentivados e, muitas vezes, forçados a migrar para o trabalho industrial, fase do capitalismo que Marx (1975) denominou de acumulação primitiva4.
4 Para Marx, há uma acumulação original que não é a acumulação capitalista, trata-se do seu ponto de partida:
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No entanto, após conseguir a mão-de-obra suficiente para o trabalho da indústria, outro desafio estava posto: o de habilitar esses homens à função de operários5. Um dos grandes desafios nessa capacitação era adaptá-los ao novo ritmo de trabalho que era muito diferente das atividades no campo. Para os padrões da época, a industrialização na Grã-Bretanha era um fenômeno impressionante e, ao mesmo tempo assustador, na medida em que as cidades das províncias se transformaram com a presença das indústrias e com o agravamento das condições de vida dos trabalhadores pobres. Contudo, essa revolução industrial culminaria na transformação do mundo dali em diante (HOBSBAWN, 2012).
Enquanto a Grã-Bretanha propagou no mundo ocidental a revolução econômica, a França introduziu ideias, princípios e diretrizes que, até hoje, constituem as bases da política no mundo. O século XVIII foi um palco repleto de revoluções democráticas que reivindicavam, dentre outras coisas, a queda dos regimes monárquicos e seus respectivos sistemas econômicos, a Revolução Francesa caracterizou-se por ter sido um desses movimentos que mais fortemente repercutiu sobre os outros países. Para além da iniciativa de um partido em especial ou de líderes individuais, a Revolução Francesa foi um amplo movimento composto por burgueses, os quais aspiravam por um sistema constitucional que garantisse as liberdades civis e o lucro privado.
Essa proposta transformou-se em uma revolução quando o povo, desesperado com a crise socioeconômica que a França enfrentava, levantou-se contra as regalias da nobreza e os meios de opressão dos grupos então dominantes. O levante popular resultou na destruição dos privilégios feudais (mesmo que apenas oficialmente) e na aprovação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789.
Como era de se prever, a classe média temerosa das consequências sociais dessa insurreição, afastou-se cada vez mais dos ideais revolucionários com tendências ao conservadorismo. Todavia, um segmento da classe média liberal, os jacobinos, dispuseram-se
5 Para isso, a legislação teve papel importante na punição das pessoas que foram expulsas do campo e não
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a continuar com a Revolução Francesa, momento em que esta assumiu sua forma mais radical. Em 1792, a monarquia na França foi derrubada e instalou-se a República em seu lugar, com a contribuição armada dos “sansculottes” (grupo de artesãos, trabalhadores, pequenos proprietários revolucionários) em Paris. O partido girondino, que compunha a maioria dos governantes, na Convenção Nacional da França, foi destituído em 1793 e substituído pela república jacobina. Os revolucionários a enxergaram como “a república do povo” (HOBSBAWN, 2012, p. 120) e os conservadores como a ditadura mais sanguinária de todos os tempos. Uma nova Constituição foi proclamada dando direitos ao povo de votar, de se manifestar publicamente, de ser respaldado pelo Estado em suas necessidades de cidadania:
Foi a primeira Constituição genuinamente democrática proclamada por um Estado moderno. Mais concretamente, os jacobinos aboliram sem indenização todos os direitos feudais remanescentes, aumentaram as oportunidades para o pequeno comprador adquirir as terras confiscadas dos emigrantes e- alguns meses mais tarde- aboliram a escravidão nas colônias francesas, a fim de estimular os negros de São Domingos a lutarem pela República com os ingleses. Estas medidas obtiveram os mais amplos resultados. Na América, ajudaram a criar o primeiro grande líder revolucionário independente, Toussaint-Louverture (HOBSBAWN, 2012, p. 121-122).
Em 1794, partidários da esquerda e da direita foram executados na guilhotina, entre eles, muitos revolucionários da Comuna de Paris. Segundo Hobsbawn (2012), a partir daí, todos os outros regimes na França foram uma tentativa de evitar uma nova república jacobina ou a de restauração do velho regime.
As batalhas travadas entre as classes, no período do século XVIII, particularmente, durante o processo revolucionário francês, enfrentaram os seus maiores desafios no campo das ideias, conforme afirma Netto (2011a). Os representantes da antiga nobreza feudal, sobretudo, protestavam contra uma nova forma de compreender o mundo que partia da centralidade nos homens enquanto agentes construtores e transformadores de tudo o que existia, inclusive das condições sob as quais se estabeleciam as relações humanas em todas as suas esferas.
Ideias que são fruto do Movimento Iluminista6 causaram um choque muito grande nas pessoas e desmistificaram uma noção do mundo que, até então, estava baseada em
6 A partir dos séculos XVII e XVIII, a Europa vive o Movimento Iluminista que confere novo status à razão e à
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princípios religiosos que orientavam o pensamento e os modos de vida. Além disso, o progresso científico, que se materializava através das manufaturas, de invenções tecnológicas e que favoreciam mais e mais o desenvolvimento das indústrias e da urbanização, legitimava e convencia os mais descrentes que “novos mundos” abriam-se diante dos seus olhos.
Dentre as respostas hostis, no campo teórico, dos grupos reacionários às mudanças introduzidas pelas Revoluções Industrial e Francesa, às quais acabamos de nos referir, tomemos como exemplo a obra “Reflections on the Revolution in France”(Reflexões sobre a Revolução em França), escrita pelo filósofo político Edmund Burke, em 1790, na Inglaterra. A sua publicação teve grande influência em vários países da Europa e tornou-se um marco histórico que explicita a ascensão do pensamento conservador, em seu período “clássico”, como trata Netto (2011a).
Esse teórico era contrário às mudanças introduzidas pela Revolução na França, como a democracia e a participação popular nas decisões políticas, os direitos individuais, o racionalismo e, como não poderia deixar de ser, a própria revolução. Nisbet (1987) afirma que os grupos aristocráticos feudais daquele tempo inspiraram-se na obra de Burke e de outros intelectuais da linha conservadora, tais como de Bonald, de Maistre, Lamennais, dentre outros, para defender a autonomia dos povos e das cidades provincianas históricas da Europa Ocidental, com suas culturas, tradições, folclore e dialetos, além de preservar as instituições tradicionais daquela ordem social mas, acima de tudo, com vistas a manter o status econômico, político e social dessa classe (NISBET, 1987).
Na referida obra de Burke (1790), podemos encontrar ataques explícitos ao sistema político democrático na França e a fiel defesa ao regime monárquico que fora destituído pelos revolucionários no século XVIII, a preocupação com os ideais de liberdade se dava em torno dos efeitos indesejáveis que estes poderiam gerar sobre o poder público, os bons costumes e a moral, além disso, o teórico enaltecia os princípios religiosos cristãos e fazia apologia à estrutura desigual de classes. De acordo com o pensamento de Burke, a Assembléia da França não tinha legitimidade para tomar decisões políticas, pois a violência com que sucedeu a sua implantação não justificava a sua existência enquanto autoridade apta a deliberar pela maioria. Para ele, o rei e a rainha não podiam ser questionados em sua autoridade divina, de modo que os homens comuns tinham a obrigação de serem leais a essa forma de regime político. Em seu
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livro, o autor assim expressa a sua revolta contra o desaparecimento do cavalheirismo7 na
sociedade:
Quando estiver extinto das mentes dos homens o velho espírito feudal da Lealdade,
que, ao liberar os reis do medo, liberou, ao mesmo tempo, os reis e seus súditos das precauções contra a tirania, os complôs e assassinatos serão evitados pela morte preventiva e pela confiscação preventiva, e pela aplicação daquela longa lista de máximas sinistras e sanguinárias que formam o código político do poder, o qual não repousa em sua própria honra, nem na honra daqueles que devem obedecê-lo. Os reis serão tiranos pela política quando os súditos se tornarem rebeldes por princípio (BURKE, 1982, p. 102).
Em suas reflexões sobre o governo democrático francês, Burke considera ainda que os riscos de opressão por parte de um grupo majoritário sobre uma minoria de pessoas são mais perigosos do que qualquer sistema da monarquia. Ele faz a seguinte afirmação:
Estou certo, entretanto, que em uma democracia, a maioria dos cidadãos é capaz de exercer, sobre a minoria, a mais cruel das opressões, todas as vezes que ocorram, o que pode ocorrer freqüentemente, grandes divisões. Acredito, também, que essa dominação exercida sobre a minoria, se estenderá sobre um número maior de indivíduos e será conduzida com muito mais severidade do que, de modo geral, poderia ser esperado da dominação de uma só coroa (BURKE, 1982, p. 135-136).
O teórico reconhecia, como direitos fundamentais dos homens, todos aqueles que não chegassem a prejudicar os demais indivíduos e que fossem resultado de suas próprias conquistas de forma justa, mérito pessoal. Para ele,
O Governo é uma invenção da sabedoria humana para atender às necessidades
humanas. Os homens têm o direito a que essas necessidades lhes sejam satisfeitas por meio daquela sabedoria. Conta-se, entre elas, na sociedade civil, a necessidade de que se exerça suficiente constrangimento sobre as paixões. A sociedade exige não apenas que as paixões dos indivíduos sejam dominadas, mas também que, mesmo na massa e no conjunto bem como nos indivíduos, as inclinações dos homens sejam freqüentemente contrariadas, sua vontade controlada, e suas paixões reprimidas. Isso apenas pode ser obtido através de um poder independente dos indivíduos; e, no exercício de suas funções, não sujeitos à vontade e às paixões, as quais, pelo contrário, eles têm o dever de restringir e subjugar. Nesse sentido, os direitos dos homens compreendem tanto suas liberdades quanto as restrições que lhes são impostas. Contudo, como as liberdades e as restrições variam conforme os tempos e as circunstâncias e admitem infinitas modificações, elas não podem ser fixadas mediante o estabelecimento de algum princípio abstrato; e torna-se absolutamente leviano discuti-las tendo por base tal princípio (BURKE, 1982, p. 89).
7 Para Burke, o espírito de cavalheirismo era um “[...] sistema misto de opinião e de sentimento que teve sua
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Destaca-se que a obra citada expressa a materialização dos principais elementos característicos do pensamento conservador, a começar pela negação dos valores democráticos e revolucionários do século XVIII, pois se argumentava que estes ameaçavam a ordem natural das coisas. Isso quer dizer que, por um lado, a substituição do decadente regime feudal por um novo sistema econômico era aceitável para o grupo dos conservadores, na medida em que os anseios projetados no desenvolvimento capitalista prometiam lucro e acumulação de riquezas para estes; por outro lado, o medo que esse futuro incerto lhes causava no âmbito sociocultural, de ideias, valores e modos de vida que, em geral, apontavam para um sentido humano emancipatório (depois de 1830, esse conteúdo irá mudar), causava terror nesses contrarrevolucionários (NETTO, 2011a).
De acordo com Nisbet (1987), os escritos conservadores do século XIX na Europa evidenciam algumas perspectivas comuns: “das massas”, “da alienação”, “do poder”, que apelavam para a necessidade de controlar a população, caracterizada por eles como grupos atomizados e que eram compostos por indivíduos inseguros, frustrados e que necessitavam de uma autoridade centralizada que pudesse orientá-los num quadro de intensas mudanças.
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da segurança individual; da preocupação com a desorganização social relacionada com a moral e da “desarticulação histórica da interdependência legítima das funções e do poder na sociedade” (NISBET, 1987, p. 69); da valorização do sagrado e irracional (insuficiência da racionalidade); da hierarquia e do status; do princípio da legitimidade da autoridade quando proveniente dos costumes e tradições de um povo (NISBET, 1987).
Contudo, Netto (2011a) afirma que o interesse de Robert A. Nisbet (1913-1996) pelo pensamento conservador como objeto de investigação decorre de dois traços particulares da sua obra: a constatação de que há uma “relação genética” entre o conservadorismo e a sociologia e o seu próprio posicionamento também conservador. Nisbet apreciava um modelo de comunidade pluralista que, para ele, “é a construção ideal daqueles pensadores ‘que resistiram ao apelo do Único, do Um [...] e descobriram que não é só a realidade, mas a liberdade, a justiça e a equidade se encontram no pluralismo’” (NISBET, 1982 apud NETTO, 2011a, p. 101). Sobre a obra de Nisbet, também são observados apontamentos que o autor faz sobre semelhanças entre o conservadorismo e o socialismo, na medida em que ambos, segundo ele, se opõem à ordem social estabelecida. Além disso, as proposições gerais conservadoras sobre o homem e a sociedade que foram elencadas por ele retomam a noção de que o pensamento conservador é um estilo de pensamento que se dirige contra as ideias do Iluminismo (NETTO, 2011a).
O “conservadorismo clássico” (NETTO, 2011a) foi então analisado por vários estudiosos, pois influenciou fortemente a política e as teorias sociais desde a sua origem até a contemporaneidade. O pensamento conservador vem se reconfigurando, em diferentes períodos históricos, mas o seu conteúdo essencial de preservação da ordem social dominante e de luta contra qualquer forma de transformação social em favor da classe trabalhadora permanece vivo em nossa sociedade.
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ferrovias, o telégrafo, entre outras, transformavam hábitos e formas de viver, assim como nos conduziam mais intensamente ao universo do capitalismo.
A organização revolucionária do proletariado nesse período foi estimulada por uma realidade que se contrapunha a todo o progresso capitalista: a exacerbação do processo de pauperização dos trabalhadores. O esforço físico e a capacidade laboral exigidos pelos donos das indústrias faziam os trabalhadores adoecerem e, até mesmo, diminuíam consideravelmente as estimativas de vida dessa parcela da população. Além disso, a riqueza gerada na produção industrial, não somente sob a forma de dinheiro e meios de produção, mas também na forma de conhecimentos, ciência, cultura, artes, não alcançavam o proletariado pobre que vivia em condições subumanas de existência, em muitos aspectos, inferiores ao modo de vida feudal.
Engels (2010), ao descrever com detalhes A situação da classe trabalhadora na Inglaterra8, mostra a perversidade das condições em que os trabalhadores pobres sobreviviam. Por meio de sua obra, podemos observar que era quase insuportável resistir aos esforços descomunais do trabalho que a indústria demandava naquela época e ainda se manter vivo no lado mais sombrio desse mundo em evolução, ou seja, o lado daqueles que dedicavam toda a sua vida ao trabalho (ou não trabalho, quando a oferta de emprego não era suficiente a todos que dele necessitavam). O teórico cita uma descrição detalhada dos bairros londrinos feita por um inspetor do governo, J. C. Symons, sobre a situação dos tecelões manuais naquele país, o que nos auxilia a visualizar o nível de pauperização da classe trabalhadora nesse período do capitalismo, durante o século XIX:
Vi aqui e no continente a miséria em alguns dos seus piores aspectos, mas antes de ter visitado os wynds de Glasgow não acreditava que tantos crimes, miséria e doenças pudessem existir em qualquer país civilizado. Nos albergues de categoria inferior dormem, no mesmo chão, dez, doze, e por vezes vinte pessoas dos dois sexos e de todas as idades, numa nudez mais ou menos total. Estes alojamentos estão normalmente tão sujos, úmidos e arruinados que ninguém alojaria, neles, o seu cavalo (ENGELS, 2010, p. 81).
Para o autor, o seguinte problema estava colocado:
[...] o que farão esses milhões de despossuídos que consomem hoje o que ganharam ontem, cujas invenções e trabalho fizeram a grandeza da Inglaterra, que a cada dia se tornaram mais conscientes de sua força e exigem cada vez mais energicamente a participação nas vantagens que proporcionam às instituições sociais?