II. 8 – Questões relacionadas com a identidade profissional docente
II. 8.2. Algumas questões acerca do desenvolvimento profissional docente
De acordo com Delors (1996: 16), a rápida evolução dos conhecimentos, da comunicação, da informação, da tecnologia, da economia global mundializada, da massificação escolar e de sociedades multiculturais implicam uma formação permanente capaz de dar resposta às novas exigências impostas à sociedade atual, na medida em que fornece possibilidades de aprendizagem ao longo da vida, condição para o desenvolvimento profissional e, no caso deste estudo, desenvolvimento docente. É tendo por referência esta ideia que, neste ponto do trabalho se apresentam algumas discussões acerca do desenvolvimento profissional e da construção da identidade profissional.
O conceito de desenvolvimento profissional, embora relativamente recente, no âmbito da formação de professores, tem vindo a ganhar importância e atenção. É consensual a ideia de que a formação de professores é um fator angular para a qualidade educacional. A expressão desenvolvimento profissional, como já atrás referimos, traduz a ideia de uma aprendizagem contínua, um processo evolutivo e experiencial que reúne possibilidades para adquirir novos conhecimentos, competências e destrezas para melhorar e tornar mais habilitado, eficaz e competente o desempenho profissional. Nesta perspetiva, o desenvolvimento profissional é algo que implica crescimento incessante e aquisições continuadas. Na continuidade do que em pontos anteriores deste trabalho foi referido, para Marcelo (1999: 137) o termo desenvolvimento profissional para além de ter uma conotação de evolução e continuidade, pressupõe uma abordagem na formação de professores que valorize o seu carácter contextual, organizacional e orientado para a mudança, e que apresenta uma forma de implicação e de resolução de problemas da escola a partir de uma perspetiva que supera o carácter tradicionalmente individualista das atividades de aperfeiçoamento dos professores. Também Formosinho (2009: 226) define desenvolvimento profissional como: “um processo contínuo de melhoria das práticas docentes, centrado no professor, ou num grupo de professores em interação, incluindo momentos formais e não formais, com a preocupação de promover mudanças educativas em benefício dos alunos, das famílias e das comunidades”.
Como atrás já sustentámos, o professor não é um profissional acabado no momento em que termina a formação inicial sendo reconhecido que os conhecimentos e as competências que nesta fase adquiriu são insuficientes para o exercício das funções que terá de enfrentar ao longo da vida profissional. Este entendimento coloca-se ainda com maior relevância numa altura em que o mundo e a sociedade evoluem vertiginosamente e em que à escola e aos professores são exigidos novos papéis e novas funções. A função do professor implica um investimento pessoal ao longo de toda a sua vida profissional. Por outro lado, situações de formação focadas na transmissão de conteúdos para que posteriormente sejam transferidas, pelos professores, para as situações de trabalho têm-se mostrado completamente desadequadas. Como tem sido sustentado, a reflexão crítica e a investigação associada às necessidades e interesses dos professores são fundamentais na transformação das práticas e no desenvolvimento profissional. Nóvoa (1995) refere que é necessário investir na formação que estimula o desenvolvimento profissional do professor através da reflexão sobre problemas da prática e que promovem a busca de soluções contextualizadas e que valorizam os saberes dos profissionais.
É tendo esta perspetiva por referência que Ponte (1996) distingue formação de desenvolvimento profissional, e que é sistematizado no quadro 3.
Quadro 3. Diferenças entre formação e desenvolvimento profissional
FORMAÇÃO PROFISSIONAL DESENVOLVIMENTO
A formação desenvolve-se numa lógica escolar.
O desenvolvimento profissional acontece através de variadas formas e processos.
A formação pressupõe um programa
previamente construído. construído com os formandos. O desenvolvimento profissional é A formação tem como ponto de partida a
carência do professor numa dada área do saber.
O desenvolvimento profissional se faz a partir das experiências e saberes do professor tendo em vista o seu alargamento.
A formação tende a ser compartimentada
O desenvolvimento profissional, ao partir dos problemas do professor, tende a fazer integrar temáticas, tópicos ou questões.
A formação parte geralmente da teoria indo, por vezes, até à prática.
O desenvolvimento profissional faz a interligação, articulação da teoria com a prática.
A formação pela sua natureza formal e de normalização enfatiza os aspetos cognitivos
O desenvolvimento profissional dá atenção aos aspetos cognitivos, mas também, aos aspetos afetivos e relacionais do professor.
Cruzando o que estamos a apresentar com as ideias de Freire (1997: 12), “ quem forma se forma e reforma ao formar- se e quem é formado forma- se e forma ao ser formado”. Por isso, e considerando que as condições de desenvolvimento profissional têm como potencial melhorar a qualidade do trabalho dos professores, as consideramos importantes. Recorrendo uma vez mais a Marcelo (2009), o desenvolvimento profissional docente é um processo que se adquire preferencialmente no local de trabalho docente, na escola, e que influencia as competências profissionais. Esta perspetiva é também reiterada por Villegas- Reimers (2003: 10) que considera que o desenvolvimento profissional é um processo a longo prazo, e produto de diferentes oportunidades e de experiências vividas. No entanto, na perceção destes autores é preciso uma planificação sistemática para provocar o crescimento e o desenvolvimento profissional dos docentes e é diante desta interpretação que traçam algumas caraterísticas inerentes ao desenvolvimento profissional docente, a saber:
• o desenvolvimento profissional deve ter como base o construtivismo na medida em que o docente é um sujeito ativo na aprendizagem mediante as tarefas concretas, avaliação, observação e reflexão;
• o desenvolvimento profissional é um processo a longo prazo, porque o docente aprende ao longo do tempo;
• o desenvolvimento profissional tem lugar em contextos concretos, as experiências para o desenvolvimento docente têm como ponto de partida a escola e as atividades diárias; o professor é considerado como prático reflexivo e possuidor de conhecimentos prévios que no exercício da profissão vai adquirindo conhecimentos novos a partir de uma reflexão acerca da sua experiência. Neste contexto, as atividades de desenvolvimento profissional devem ser aquelas que ajudam os professores a construir novas teorias e novas práticas pedagógicas;
• o desenvolvimento profissional é um processo colaborativo, quer dizer é preciso a interação com os outros profissionais aproveitando as experiências dos outros docentes;
• o desenvolvimento profissional pode adotar diferentes formas em diferentes situações, argumentado que existem vários modelos de desenvolvimento profissional que sejam eficazes e aplicáveis em todas as escolas. Cabe às escolas e aos docentes traçar as suas necessidades, crenças e práticas culturais e, posteriormente, decidirem o modelo de desenvolvimento profissional que melhor se adapta à realidade da escola;
• o desenvolvimento profissional procura promover a mudança junto dos docentes para que estes possam crescer enquanto profissionais e também como pessoas.
Em síntese, o desenvolvimento profissional desempenha um papel central nos processos de mudança capazes de levar à melhoria da profissão docente e à aprendizagem dos alunos e é construído, segundo Marcelo (2009), sobre a identidade profissional, pois é através desta que nos identificamos e como os outros nos identificam, traçando então o que somos e queremos ser.
Recorrendo a Day (2001: 15), um bom ensino exige dos professores reanalisarem e reverem regularmente a forma como se aplicam os princípios de diferenciação, coerência, progressão, continuidade e equilíbrio, não só no “que” e no “como” ensinar, mas também no “porquê”, ao nível dos seus propósitos morais e básicos. Concluiu-se, com essa ideia, que os professores não têm simplesmente de ser profissionais, mas também têm de agir como profissionais. Portanto, os conceitos de desenvolvimento profissional e identidade docente estão interligados, pois o sentido de desenvolvimento profissional dos professores depende das suas vidas pessoais e profissionais e dos contextos escolares nos quais realizam a sua atividade docente.
Com base nestas ideias, reitera-se que a profissão docente exige que os professores se empenhem em um processo de desenvolvimento ao longo de toda a sua carreira atendendo, como afirma Nóvoa (1995), a que a docência é uma atividade que enfrenta constantemente novos contextos e novas situações. É talvez por isso que Maciel et al (2010: 43) afirma que a formação docente é um processo permanente, por toda a vida, e é durante este processo que o profissional vai adquirindo experiência e desenvolvendo-se profissionalmente. É no quadro desta ideia que Day (2001: 16-17) apresenta dez princípios que servem de base para o desenvolvimento profissional e sobre os contextos em que ocorrem:
• Os professores constituem a pedra angular no êxito do processo de ensino/aprendizagem nas escolas. São os mediadores entre a transmissão de conhecimentos, das destrezas e dos valores. É neste sentido que é fundamental promover o seu desenvolvimento profissional para melhorar os padrões do ensino/ aprendizagem e esperar bons resultados dos alunos;
• Ao professor cabe desenvolver nos alunos a vontade para a aprendizagem ao longo de toda a vida. Mas é necessário que os professores também demonstrem o seu compromisso e a sua vontade pela aprendizagem permanente;
• É imprescindível promover o desenvolvimento profissional permanente e contínuo dos professores ao longo de toda a carreira docente para puderem acompanhar as mudanças que ocorrem no mundo e com essas mudanças serem capazes de rever e renovar e atualizar os seus próprios conhecimentos e adaptá-los às novas exigências do mundo atual;
• O professor não deve limitar-se somente à experiência adquirida com o tempo de trabalho como docente, para não restringir o seu desenvolvimento profissional;
• O pensamento e a ação dos professores é o produto da interação entre a sua história de vida, o cenário da sala de aula e da própria escola e os contextos sociais e políticos com que trabalha no seu dia-a-dia;
• O professor na sala de aula trabalha com alunos de diferentes motivações, com diferentes capacidades de aprender e provenientes de diferentes grupos socioculturais. Ao professor é exigido destrezas quer intrapessoais, quer pessoais e um empenhamento pessoal e profissional, a par da capacidade de atender às características individuais;
• A maneira como o currículo é interpretado depende da construção das identidades pessoais e profissionais dos professores. Para tal, o conhecimento do conteúdo e o conhecimento pedagógico não podem estar dissociados das necessidades pessoais e profissionais dos professores e dos seus propósitos morais. Por esta razão o seu desenvolvimento profissional deve contemplar todos estes aspetos;
• Durante o processo de formação, os professores não podem ser passivos. Eles devem ser ativos e participativos. É importante que participem ativamente na tomada de decisões sobre o sentido e os processos da sua própria aprendizagem;
• O êxito do desenvolvimento da escola depende do êxito do desenvolvimento dos professores;
• Planificar e apoiar o desenvolvimento profissional ao longo de toda a carreira é uma responsabilidade conjunta dos professores das escolas e do Governo.
Mostrando sensibilização a esta linha de pensamento, o Governo Angolano, no capítulo V, Artigo 54º (Lei 13/01; Agentes da Educação), afirma que “é assegurado aos agentes de educação o direito à formação permanente com vista à elevação do seu nível profissional, cultural e científico”. O mesmo encontra-se também plasmado nas Linhas Mestras (2005) quando é referido: “há que assegurar uma educação e uma formação de cidadania que, pelos seus valores e suas competências, tenham impacto relevante tanto no seu desenvolvimento pessoal como no desenvolvimento da sua comunidade e do País”. Para dar cumprimento ao que foi dito, o Governo elaborou o documento “A Estratégia para a Melhoria da Educação para o período 2001- 2015” em que, na sua essência, estipula o desenvolvimento de um percurso de formação docente com caráter processual e centrado nas necessidades dos professores, enfatizando-se ainda a preocupação de que as oportunidades sejam estendidas a todos os professores.
De facto, esta medida vai de encontro à posição de Day (2001: 42) quando afirma que todos os professores têm direito ao desenvolvimento profissional e os governos e sistemas de ensino têm de pensar em políticas que permitam que as oportunidades sejam distribuídas equitativamente. Além disso, os programas de desenvolvimento profissional terão maiores benefícios ao “considerar os valores, conhecimentos e destreza dos professores como propósitos morais, e os professores reconhecerem o seu papel ativo enquanto elementos que dão forma ao processo de mudança”. Tal participação cria as condições para o apoio adequado às necessidades individuais de cada professor, assim como as da comunidade profissional em que desenvolvem o seu trabalho. Aderindo a esta ideia, ela será importante para refletir o que está a ocorrer na formação inicial de professores no ISCED do Huambo. A esta ideia, há ainda que acrescentar que, o desenvolvimento dos professores e das escolas será também enriquecido se tiver em consideração as opiniões de outros agentes, nomeadamente as dos alunos, destinatários do processo educativo, e os pais sendo chamados a participar dos processos de tomada de decisão pela compreensão de que podem, segundo Bolívar (2012), criar uma rede de apoio às aprendizagens dos estudantes. É neste pensamento que questionámos os estudantes,
futuros professores, os professores já formados e os formadores para conhecer as suas opiniões sobre a formação inicial de professores que está a ser desenvolvida no ISCED do Huambo.
Na década de noventa, Fried (1995) afirmava que o desenvolvimento profissional dos professores relaciona-se ainda com a manutenção de um sentimento positivo em relação ao trabalho, tanto constituindo-se como um suporte à motivação e ao entusiasmo com o fazer, como intervindo no desenvolvimento das competências exigidas para o exercício profissional. De facto, tais ações podem repercutir-se no âmbito emocional e profissional dos professores pelo que este aspeto é também importante para a análise da situação que irei investigar.