II. 8 – Questões relacionadas com a identidade profissional docente
II.8.3. Modelos de desenvolvimento profissional
Marcelo (2009: 73) afirma que, quando se aborda a temática do desenvolvimento profissional, uma das questões que se coloca está relacionada com os conhecimentos necessários para a docência. O autor distingue:
− O conhecimento para a prática que está relacionado com a aplicação do conhecimento às situações práticas do ensino.
− O conhecimento na prática que é adquirido na ação, ou seja, o conhecimento que se adquire através da experiência e da reflexão sobre essa experiência.
− O conhecimento da prática, que está associado ao modelo de desenvolvimento profissional em que o professor é concebido como um investigador. O autor também refere as categorias que contribuem para o conhecimento didático dos professores, destacando a necessidade de que os professores possuam um conhecimento pedagógico geral, relacionado com o ensino, com os seus princípios gerais, com a aprendizagem e com os alunos, com as técnicas didáticas, planificação de ensino, teorias do desenvolvimento humano, aspetos legais da educação, etc.
Sparks e Loucks-Horsley (1990 citados por Formosinho, 2009) apresentam cinco modelos do desenvolvimento profissional: desenvolvimento profissional autónomo; desenvolvimento baseado no processo de observação/supervisão; desenvolvimento baseado no processo de desenvolvimento e melhoria; desenvolvimento profissional através de cursos de formação; desenvolvimento profissional através da investigação para a ação.
A. Desenvolvimento profissional autónomo
Este modelo assenta na conceção de que os professores são indivíduos capazes de decidirem e organizarem a sua própria formação. Os defensores deste modelo afirmam que os indivíduos estão mais motivados quando são eles próprios a selecionarem os objetivos com base na sua autoavaliação.
B. Desenvolvimento baseado no processo de observação/supervisão
O modelo assente na observação/supervisão, em que um professor é observado por outro, pode tornar-se, segundo Formosinho (2009), um poderoso modelo de desenvolvimento profissional desde que cumpra os seguintes pressupostos:
1. A reflexão e a análise são os meios centrais para o desenvolvimento profissional. A observação e a supervisão da instrução oferecem ao professor os dados para essa análise e reflexão necessários ao desenvolvimento profissional.
2. A profissão de ensinar é uma atividade solitária, desenrola-se isoladamente no contexto da sala de aula, onde o professor está quase sempre sozinho, de modo que o professor, contrariamente a outras profissões, não beneficia das observações quotidianas informais dos pares. Então, só a criação deliberada de mecanismos de observação formal por outro professor pode promover o feedback e a reflexão que outras profissões têm espontaneamente.
3. A observação e a supervisão podem beneficiar as duas partes envolvidas, não só o professor em observação como também o professor observador.
4. Há mais probabilidades dos professores se continuarem a envolver em processos de melhoria do comportamento, quando observam os resultados positivos dos seus esforços para mudar (ibidem: 241).
Formosinho (2009) acrescenta que, dependendo dos objetivos que se pretendem atingir, o apoio profissional mútuo pode ter um caráter mais técnico ou de ajuda para a integração dos professores mais novos ou ainda de apoio ao desenvolvimento de projetos de investigação-ação em equipa. Marcelo (1999: 163) refere que, apesar dos aspetos positivos que este modelo tem, apresenta também algumas limitações. Na sua opinião “o apoio profissional mútuo não se improvisa nem se impõe. O seu desenvolvimento requer uma justificação (um projeto) e um ambiente de cooperação, democracia e abertura na escola”.
C. Desenvolvimento baseado no processo de desenvolvimento e melhoria
Este modelo inclui as atividades em que os professores desenvolvem ou adaptam um currículo, elaboram um programa ou se envolvem em processos de melhoria da escola e desenrola-se, geralmente, em torno da resolução de problemas concretos. Segundo Marcelo (1999) os adultos aprendem de forma mais eficaz quando têm necessidade de conhecer ou resolver um problema e, quando trabalham em questões relativas ao seu trabalho,
conseguem compreender melhor o que é preciso melhorar. Além disso os professores desenvolvem importantes conhecimentos ou competências quando se envolvem em programas ou projetos de melhoria da escola ou de desenvolvimento do currículo. As vantagens deste modelo estão, por isso, diretamente ligadas ao facto de que tanto a organização como a sua cultura beneficiam com a colaboração dos seus membros.
D. Desenvolvimento profissional através de cursos de formação
Este é o modelo com maior tradição na formação de professores e tem como objetivo envolver os professores na apropriação de conhecimentos ou competências através da orientação de um outro professor que é considerado um perito.
Tal como acontece com os outros modelos, também este apresenta vantagens e desvantagens. Bell (1991, citado por Marcelo, 1999) refere, entre outras, que uma das vantagens deste modelo de desenvolvimento profissional reside no facto de que a partir da participação num curso, e participando individualmente em atividades de formação escolhidas por ele, o professor pode adquirir maior conhecimento ou melhorar as suas competências na área que mais lhe interessa. Como desvantagem, salienta o caráter demasiadamente teórico dos cursos; a pouca flexibilidade no momento de adaptar os conteúdos aos participantes; o caráter individualista das atividades e que, por isso, têm poucas possibilidades de ter impacto na escola e, finalmente, o facto de não ter em conta o conhecimento prático dos professores.
Este modelo, que apresenta algumas caraterísticas semelhantes à do modelo de desenvolvimento profissional baseado no processo de observação/supervisão, distancia-se pelo facto de, neste último, o conteúdo da formação ser mais flexível já que as necessidades que vão sendo observadas no formando estão no centro das atenções, enquanto no modelo baseado em cursos de formação todas as atividades desenvolvidas são previamente definidas e planificadas pelo formador.
E. Desenvolvimento profissional através da investigação para a ação
O modelo de desenvolvimento profissional através da investigação para a ação, também designado como modelo investigativo, surge associado à imagem do professor como investigador. Marcelo (1999) afirma que do ponto de vista da investigação-ação, o professor é entendido como alguém com capacidades para refletir sobre a sua atividade docente, que pode identificar e diagnosticar problemas da sua própria prática e capaz de levar a cabo a reflexão na ação. Por outro lado, um dos elementos básicos no
desenvolvimento deste modelo é o trabalho colaborativo, participativo entre professores e investigadores, pois sem colaboração não há investigação-ação.
Sendo os professores o maior triunfo da escola (Day, 2001), é importante zelar para que aspetos relacionados com regulações e decisões organizacionais não interfiram negativamente na prática e no desenvolvimento profissional dos professores. É neste sentido que Day (2001) se refere a que há fatores externos aos professores que criam obstáculos a um trabalho de colaboração e não favorecem o desenvolvimento profissional e organizacional, daí a importância de incentivos de apoio aos professores por parte das direções das escolas e de outros órgãos de governação.