2. Olhares interdisciplinares: a busca pela definição de uma ideia
2.7 Algumas reflexões e a necessidade de um ensino interdisciplinar
Os textos analisados para este trabalho insistem em mostrar que a interdisciplinaridade deve ser adotada e incorporada pelo professor e alunos. Nota-se, principalmente nos textos de Ivani Fazendo e Hilton Jupiassu (os nomes brasileiros mais importantes do tema), que os textos são escritos com grande “paixão”. A autora chega, até mesmo, a comentar sobre o caráter ideologizante da interdisciplinaridade (FAZENDA 1998, p. 14). Essa maneira de encarar o tema é perceptível no texto, principalmente pela quantidade de adjetivos positivos utilizados para definir a interdisciplinaridade, em contraposição com qualificações negativas, quando se trata de outras visões educacionais. Um exemplo desse confronto está no quadro comparativo que Fazenda (2000, p.87) apresenta, mostrando aquilo que seria a sala de aula interdisciplinar (ideal) em relação à não interdisciplinar.
Tabela 1: Diferença entre aulas não interdisciplinar e interdisciplinar
Sala de aula não interdisciplinar Sala de aula interdisciplinar
autoridade outorgada autoridade conquistada
obrigação satisfação
arrogância humildade
solidão cooperação
especialização generalidade
homogêneo heterogêneo
reprodução do conhecimento produção de conhecimento
No quadro acima, a sala de aula não interdisciplinar apresenta todas as características negativas de uma sala tradicional, estereotipada, o que não necessariamente corresponde à realidade. Mas, o que chama bastante a atenção é que uma aula disciplinar, não tradicional, com metodologias atuais poderia contemplar a descrição feita para a aula interdisciplinar. Quer dizer, a mesma avaliação pode ser feita hoje, 25 anos depois de escrito o quadro em 1994, apesar de muita coisa ter mudado, inclusive toda uma geração de professores.
Outro ponto interessante nos textos analisados é que a ideia de interdisciplinaridade é praticamente oferecida da maneira que os autores teóricos acreditam que seja a interdisciplinaridade: um conceito aberto, amplo, discutível. Entendemos que o tema não é de fácil compreensão para um leitor acostumado ao aprendizado tradicional, no qual é comum o trabalho com respostas fechadas ou posicionamentos assertivos, quer dizer, um tanto complicado para alguém que não conheça nada do tema. Ao que parece, para compreender o termo já é exigida desde sempre uma atitude, um sentimento interdisciplinar do leitor. Um leitor não sensibilizado previamente com a ideia sairia prejudicado, mesmo que a argumentação apresentada seja atrativa pelo entusiasmo empregado.
Os textos teóricos sobre interdisciplinaridade, presentes nas pesquisas atuais são, também, referência nos materiais analisados neste trabalho; aliás, quase todos são produtos do final do século passado, ou início deste, um tempo anterior a popularização da internet. Isto observado, faz-se necessário que algumas considerações sejam levadas em conta.
Primeiramente, todos os textos teóricos são unânimes na crítica à fragmentação do saber. A era das especialidades foi útil para a modernidade; foram e são necessários especialistas para o aprofundamento do conhecimento, para o desenvolvimento da ciência para chegarmos ao ponto em que chegamos. Jupiassú em seu panorama sobre a história da interdisciplinaridade diz que o programa de ensino desenvolvido pelos antigos sofistas era baseado em uma ideia de cultura geral (enkúklios paideia ou orbis doctrinae, em latim). Não existiam barreiras entre as disciplinas, o que possibilitava articulações entre elas, permitindo uma formação integral do indivíduo. Mas, é importante lembrar que, naquele tempo, o conhecimento do mundo era restrito (em comparação com o conhecimento atual).
Com a Idade Moderna, o mundo mudou. O Renascimento, os Grandes Descobrimentos e outros importantes acontecimentos históricos modificaram o modo de produção do conhecimento. No século XV, os cientistas ainda viam o conhecimento de forma integrada, como exemplo desse tipo de atuação, citamos Leonardo da Vinci (1452-1519) que se dedicou
à matemática, arquitetura, engenharia e às artes plásticas, um rol de conhecimentos abrangentes que seriam impensáveis para uma pessoa nos dias atuais.
Com as mudanças sociais, surgem novas necessidades que se materializam, em especial, nos avanços das tecnologias. Esse novo modo de pensar e fazer ciência faz com que as grandes áreas do conhecimento se transformem em inúmeros campos de estudos bastante específicos; assim também, os estudiosos passam a trabalhar de modo mais isolado, afastando-se uns dos outros. É com o Positivismo de Augusto Comte que se solidifica essa nova visão de mundo e do conhecimento no século XIX. E com ela, surgem as especializações, que ajudam a alavancar e a produzir uma enorme quantidade de conhecimentos para o desenvolvimento científico e tecnológico. Sim, as tecnologias desenvolvidas durante esse período foram tão refinadas que se tornou impossível a produção e o desenvolvimento de novos conhecimentos sem o uso destas. Com o avanço tecnológico nesse período, verifica-se, também, o aumento exponencial da produção e acesso ao conhecimento. Um exemplo simples é a quantidade de livros disponíveis. Imaginemos que em 1745 a Biblioteca do Vaticano, uma das mais importantes do mundo naquela época, abrigava 2.500 volumes (BURKE, 2002, p.176). A Biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade de São Paulo, em 2002 - cerca de 250 anos depois, reunia em seu acervo 3,2 milhões de itens (informações do site da Prefeitura de São Paulo). Em 2013, a maior biblioteca do mundo, localizado em Washington, nos Estados Unidos, tinha em seu acervo 155 milhões de itens5. Se compararmos em números, a internet disponibiliza para qualquer usuário com um celular quase tudo o que ele precisa saber sobre qualquer tema, o que inclui a possibilidade de acesso a cientistas e suas pesquisas.
Atualmente, é impensável a realização de pesquisas de qualquer tipo sem a utilização, por exemplo, de um computador. As máquinas estão cada vez mais potentes e mais rápidas, substituindo cada vez mais o trabalho das pessoas. Sem elas, seriam impossíveis os avanços em todas as áreas do conhecimento, pois o corpo e a mente humana são limitados. Como seria possível viagens espaciais, o conhecimento do próprio corpo e dos seres vivos, e de tantos outros sem a tecnologia concebida pelo homem? Entretanto, existe nessa relação uma contrapartida: o perigo da total dependência da tecnologia, que em muitos casos, supera a inteligência e a capacidade humana em muitos âmbitos na produção do conhecimento. E essa
5 MOIOLI, Julia Qual a maior biblioteca do mundo? Revista Superinteressante. Publicada em 4 de julho de 2013. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-a-maior-biblioteca-do-mundo/> Acesso em: 15 de nov. de 2019.
superdependência faz com que o pêndulo volte para a necessidade de as pessoas relacionarem os conhecimentos dispersos.
Ao mesmo tempo, os problemas e as necessidades tornam-se mais complexos, enquanto as pesquisas – mesmo aquelas que buscam soluções para conhecidos problemas, como a erradicação de doenças, continuam avançando. Muito se aposta na inteligência artificial como uma das respostas para o futuro, mas o que as máquinas ainda não conseguem superar nem substituir é a criatividade humana e a capacidade de relacionar ideias. Basta analisar o uso que se faz da internet: lá encontramos todos os tipos de informação, mas transformá-las em conhecimento é um outro processo, para o qual se exige uma série de habilidades que o computador ainda não possui. Quer dizer, para problemas mais complexos, a tecnologia não consegue (ainda) fazer as relações necessárias. Somente o intercâmbio entre especialistas – daqueles que dominem as tecnologias inclusive - pode alcançar o que a máquina ainda não alcançou, uma experiência de inteligência coletiva. Ou seja, a interdisciplinaridade na pesquisa, por hora, é um caminho no qual se deve seguir avançando, tanto na produção de conhecimento como na solução de problemas. Além disso, a complexidade e especificidade dos problemas e dos estudos em ciências também impedem que uma única pessoa possa conhecer tudo sobre determinado tema.
Se considerarmos a Educação Básica, as escolas que seguem métodos tradicionais não se preocupam com proporcionar aos alunos situações de intercambio; não propõem problemas a serem solucionados por meio de mais de uma perspectiva; não abrem espaço para o inesperado e costumam trabalhar com um currículo que não leva em consideração o interesse dos alunos e/ou problemas reais do cotidiano, em função dos quais os alunos teriam de se mobilizar, utilizando os conhecimentos que obtiveram nas aulas, nas diferentes disciplinas. Emblemático, também, é o problema da prova que pode ser resolvida com respostas prontas, apontando a única certa e descartando as erradas. É importante compreender os conteúdos de cada uma das matérias, mas esse é só o primeiro passo. As partes são importantes, mas não podem ser separadas do todo, pois corre-se o risco de que elas percam o sentido isoladamente.
Uma escola tradicional, que não valorize a interdisciplinaridade, acaba não preparando o aluno para fazer, no futuro, o que ele muito provavelmente terá que fazer: estabelecer relações entre informações. Assim, não ser capaz de estabelecer relações entre conhecimentos refletirá de forma negativa, não somente no campo do trabalho, mas também socialmente. Um cidadão que não consegue perceber complexidade nas questões sociais e que não dá importância ao intercâmbio de informações pode se tornar radical, uma pessoa que não consegue ver a partir
do ponto de vista de outras pessoas. Quando a escola não ensina a relacionar conhecimentos, acaba cumprindo a função semelhante à da internet: simplesmente fornece conteúdo. O passo a mais depende da capacidade de estabelecer conexões e pode ser conquistado por meio de metodologias que leve em conta a interdisciplinaridade.