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4. Análise de materiais

4.6 As atividades e a interdisciplinaridade

Após a extensa análise, a partir do levantamento das bases teóricas do que se compreende por interdisciplinaridade e a observação dos materiais didáticos, percebe-se que há muito pouco de interdisciplinaridade nas propostas dos livros.

Se retomamos Santomé (1998) quando dizia que a interdisciplinaridade é sobretudo uma prática, os livros fazem poucas propostas de prática e quando as fazem são práticas induzidas, para as quais os alunos só podem ter respostas já esperadas.

O material não deixa espaço para a inserção de propostas de interesse dos alunos e, apenas em alguns momentos, pedem ao aluno para observar sua realidade (caso das observações que fazem em formato de pesquisas, sobre o uso de energia elétrica em suas casas ou da reciclagem do lixo em sua escola, por exemplo).

Os textos expositivos não favorecem um olhar complexo sobre a realidade, e as atividades que os acompanham geralmente são de interpretação da leitura, o que também não faz com que o aluno possa questionar ou aportar experiências. Entender a complexidade dos problemas reais depende da intervenção do professor, mas o material dá poucas sugestões para isso.

As propostas de trabalho em equipe existem, mas em pouquíssimos momentos essas atividades não têm uma resposta esperada ou dependem de uma pesquisa fora dos textos do livro. Em todo material analisado, poucas atividades envolviam pesquisa. A maior parte das pesquisas propostas são dirigidas pelo material, sem abrir espaço para o aluno buscar fontes diversas. Outro problema causado por isso é que em nenhuma das atividades os alunos fazem hipóteses. Quando isso acontece, na verdade a resposta já está no texto e o aluno não tem a oportunidade de refletir com mais profundidade sobre os temas.

Se observarmos o que foi exigido dos livros didáticos pelas diretrizes curriculares, os capítulos (Aprender juntos) e a Unidade (Buriti Mais) são estruturados por eixos integradores, um tema que relaciona os conteúdos escolhidos dos diferentes componentes curriculares. As atividades aparentemente não têm potencialidade de permitir que o aluno seja capaz de ser protagonista de sua aprendizagem. O erro e a reflexão sobre as respostas ou sobre os conteúdos não é explorada nas atividades, como meio de fazer com que o aluno compreenda sua forma de aprender.

Embora os materiais não consigam alcançar o esperado pelos textos teóricos e pelas diretrizes quanto à interdisciplinaridade, eles cumprem com as exigências do edital. Os textos

e atividades priorizam a realidade (muito disso garantido pelas habilidades da BNCC) e se esforçam para relacionar alguns temas à realidade do aluno.

Eles também não justapõem os componentes curriculares. Os livros tratam de maneira harmônica as disciplinas: desenvolvem um tema utilizando os componentes sem marcar separação entre eles. Entretanto somente um capítulo consegue colocar os três componentes juntos.

Nota-se a dificuldade de transpor para um material didático o que é esperado pela interdisciplinaridade. O termo que é tão utilizado, na prática torna-se um jargão pedagógico, uma vez que a sua aplicabilidade, pelo menos quando baseados no uso dos livros didáticos utilizados para essa pesquisa, não auxiliam o professor na difícil tarefa de tornar suas aulas interdisciplinares.

Considerações finais

A questão proposta nesta pesquisa buscou conhecer como o conceito da interdisciplinaridade tem sido compreendido e como vem sendo aplicado em livros didáticos, além de abrir espaço para possibilidade de novas abordagens e usos nesses materiais. Para isso, realizamos, inicialmente, o trabalho de análise e reflexão a partir do entendimento dos principais teóricos sobre o assunto e, em seguida, avaliamos o posicionamento em documentos oficiais, usados como diretrizes da Educação Básica brasileira.

Tendo o conceito sido mapeado, delimitado, seguimos para a análise de duas coleções de livros didáticos de Ensino Fundamental, anos iniciais, aprovadas pelo PNLD 2019. Essas análises tiveram o intuito de observar as estratégias interdisciplinares utilizadas em suas propostas de atividades.

Durante todo o processo de realização deste trabalho foi possível refletir sobre o tema, mas também sobre questões outras que, ao se apresentarem por meio dos livros didáticos escolhidos, mostraram que têm raízes em problemáticas mais profundas.

O estudo sobre o conceito de interdisciplinaridade transcendeu as expectativas iniciais, pois mostrou-se mais amplo, complexo, abrangendo posicionamentos filosóficos e epistemológicos. Contudo, o mais interessante do processo de estudo, foi perceber que a interdisciplinaridade pode e deve ser vista como uma maneira de ver o mundo, de experienciar a Educação e a pesquisa. E, além disso, que esse entendimento implica em mudança de postura profissional e pessoal.

Os textos teóricos trouxeram argumentos em defesa da interdisciplinaridade como proposta válida e oportuna para diversos problemas presentes nos processos de ensino-aprendizagem. Assim, com uma proposta de ensino interdisciplinar, a formação do aluno se tornaria mais reflexiva, criativa e dinâmica, desenvolvendo no estudante o gosto pela pesquisa, a capacidade de relacionar conhecimentos, reconhecer a complexidade do mundo e trabalhar em grupo, entre outras possibilidades interessantes.

Contudo, para melhor compreensão do conceito, é necessário que as pessoas interessadas tenham acesso a um número mínimo de obras de estudiosos e que elas realizem pesquisas sobre o tema, já que percebemos não ser um assunto suficientemente investigado.

Quanto à análise das diretrizes oficiais, notou-se um crescimento da importância dada à interdisciplinaridade ao longo do tempo. Nos PCNs, a interdisciplinaridade era vista como uma abordagem epistemológica do conhecimento bastante abstrata, porém, com a publicação das Diretrizes da Educação Básica, a interdisciplinaridade passa a ser vista como uma abordagem

teórico-metodológica, isto é, passível de aplicação, haja vista que as Diretrizes sugerem um tratamento metodológico do currículo escolar com ênfase na interdisciplinaridade e na contextualização dos temas tratados. Já com a BNCC, o conceito se apresenta intrínseco no texto, sendo entendido como uma maneira de trabalhar nas escolas as habilidades e competências. Ou seja, estas habilidades e competências deveriam levar em conta a interdisciplinaridade. Além disso, a preferência por termos como componente curricular e áreas de conhecimento apontam, também, para uma visão interdisciplinar de ensino.

Apesar de percebermos que, atualmente, o conceito de interdisciplinaridade tem sua importância reconhecida pela e na Educação, notamos que a sua utilização nos livros didáticos ainda é muito tímida. Essa foi a conclusão da análise dos livros didáticos escolhidos – validados como tipo interdisciplinar pelo PNLD e que seguiram as exigências governamentais. Os livros didáticos, embora sigam à risca o Edital de Convocação para o Processo de Inscrição e Avaliação de Obras Didáticas para o PNLD 2019, não se aprofundam no tema da interdisciplinaridade e, por consequência, não se apresentam como apoio didático nem como uma possível nova ferramenta para a mudança no modo de ensinar. Esta era a hipótese inicial, mas que ao se efetivar o aprofundamento da pesquisa foi logo descartada. Apesar de nosso interesse pelo tema e dos esforços contínuos dos estudiosos em Educação e diversos trabalhadores da área, a dificuldade de mudança - neste caso, da aplicação do conceito de interdisciplinaridade - já era reconhecida como um dos problemas que motivaram a realização deste trabalho.

Com a preocupação de contemplar conceitos por meio de textos expositivos e em utilizar atividades tradicionais - que buscam constatar se o aluno é ou não capaz de interpretar os textos -, é visível que os livros analisados não visam à educação para a reflexão nem a preparação de alunos capazes de lidar com a dúvida ou contradição. Por conseguinte, há pouca margem para a ação e os livros acabam não oferecendo ferramentas para que os alunos elaboram o pensamento crítico, de modo a perceber e lidar com a complexidade da realidade. Os livros analisados apresentam o mundo como algo estático; criam a ilusão de uma realidade estável, higienizada e bastante confortável15.

A BNCC pressupõe a interdisciplinaridade como abordagem educacional e o cumprimento desta é um dos tópicos exigidos pelo edital de elaboração dos livros didáticos. Esse fato poderia ser explorado para a preparação de atividades interdisciplinares, mas não

15 Uma das avaliações recebidas pela coleção Buriti Mais, no Guia Digital, resume bem como o material apresenta a realidade para os estudantes: “ainda que respeite a legislação, por vezes, não faz qualquer tipo de crítica social; em outros termos, naturaliza situações quase idealizadas” (BRASIL, 2018, p.70).

aconteceu. Mesmo que as habilidades propostas pelo documento sejam obrigatórias na elaboração dos materiais didáticos - o que poderia restringir a liberdade temática proposta pelos teóricos da interdisciplinaridade -, os livros não proporcionam atividades para que os alunos as desenvolvam, restringem-se a apresentar os objetos de conhecimento das habilidades propostas. Dessa maneira, o material não traz ferramentas para o professor auxiliar o aluno a transformar o conhecimento em habilidade.

Outra questão fundamental e que não parece ser favorecida pelos livros didáticos pesquisados, diz respeito ao processo de aprendizagem. Nos materiais analisados, é possível perceber que o processo de aprendizagem tende a ser fechado, quer dizer, é comum a leitura do texto, seguida da dupla pergunta e resposta, quase sempre fechadas e que não valorizam a criatividade e o erro. As respostas, em geral, já estão dadas, para o aluno que consiga interpretar o texto. Não há abertura para o aluno fazer algo que implique em criar estratégias para a resolução de um problema, ou experimentar situações aproveitando o erro como um passo anterior para o encontro da melhor resposta.

É interessante notar que, em ambos os livros selecionados para a análise, atribui-se um valor especial para os experimentos científicos, mas, no entanto, destes só reconhecem o resultado, uma vez que o passo a passo já está dado. O caminho a ser percorrido em uma pesquisa ou experimento já é conhecido e não há possibilidade de erros nos procedimentos, mesmo sabendo que o erro faz parte do experimento científico. Desse modo, o aluno é poupado da vivência, da experiência.

Os livros analisados assemelham-se muito aos livros das disciplinas únicas, com a diferença que abordam três componentes curriculares, sem esclarecer aos alunos quais estão sendo tratados no texto ou atividade. A proposta dos materiais parece encampar o conceito de pluridisciplinaridade, que propõe a “justaposição de disciplinas mais ou menos próximas dentro de um mesmo setor do conhecimento” (SANTOMÉ, 1998, p.70), promovendo um intercâmbio de informações, sem hierarquia, sem interferência entre elas.

Por tudo o que foi visto no desenvolvimento desta dissertação, pode-se dizer que os livros analisados assimilaram pouco do conceito de interdisciplinaridade. Entretanto, falta resposta para a questão proposta no início desta pesquisa: É possível um livro didático ser interdisciplinar? Pelo que vimos, parece ainda muito difícil. O conceito de interdisciplinaridade apresenta-se em descompasso com o livro tradicional. A interdisciplinaridade prevê um dinamismo que o livro, como suporte, não costuma oferecer, já que o livro possui características limitadoras: dependem de novas edições para serem modificados, diferente da internet, por

exemplo, que aceita atualizações constantes, hiperlinks e expansões. O livro é, também, escrito para milhares de pessoas, sendo assim, é quase impossível contemplar a realidade de todos seus leitores. Além disso o texto de um livro didático tradicionalmente deve trazer conceitos que devem ser aprendidos pelos alunos, ou seja, é o livro que guia o que deve ser aprendido não seu leitor.

Mesmo que considerando as dificuldades apresentadas, nós ainda acreditamos que o livro didático para o Ensino Fundamental possa se aproximar um pouco mais do conceito de interdisciplinaridade. A aproximação poderia vir por meio de estratégias discursivas que favoreçam o diálogo com o leitor, a partir, por exemplo, de propostas de atividades que façam os alunos refletirem sobre seu processo de aprendizagem e sobre a complexidade do mundo. O livro traria mais problemas que respostas. Os materiais poderiam, ainda, sugerir experiências, deixando o aluno livre para criar seus experimentos práticos, sem roteiros, mas em atividades que os alunos tenham que usar sua criatividade para alcançar os objetivos propostos (como feito em alguns laboratórios, chamados espaço maker). Os livros deveriam também sugerir mais pesquisas, trabalhos em grupo e outras atividades, nas quais os alunos tivessem mais protagonismo do que o livro. Sabemos que o trabalho de fazer livros é um processo e que, portanto, a elaboração de livros didáticos do tipo interdisciplinares vai se desenvolver ao longo do tempo.

Enquanto esse material com características mais próximas da interdisciplinaridade ainda não está disponível (pelo menos entre os materiais aprovados pelo PNLD-2019), a adoção de livros didáticos do tipo interdisciplinar, mesmo sem apresentar suficientes atividades que proporcionem a prática da abordagem, pode fomentar no professor o interesse pelo tema, fazendo com que este busque mais informações e reconheça em si a postura interdisciplinar (tão citada por Ivani Fazenda em seus livros). Lajolo (1996, p. 3) diz que o ideal é o professor ter autonomia, para que, em seu dia a dia, ele possa reescrever os livros didáticos escolhidos, “reafirmando-se, neste gesto, sujeito de sua prática pedagógica e um quase coautor do livro”. Mesmo a composição do livro pode ajudar esse professor interessado, pois tendo um número de páginas menor (pois tratam três componentes utilizando praticamente o mesmo número de páginas que um livro de um só componente), mais tempo o docente terá para propor projetos que espelhem os interesses dos estudantes, de modo que estes possam, enfim, construir uma proposta interdisciplinar.

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APÊNDICE A

Descrição das atividades analisadas do livro Aprender juntos

Seção Habilidade BNCC Página Tipo de atividade Observações Abertura C10 170-171 Texto com imagens (aluno descreve as imagens e compara com sua realidade)

Texto + pergunta de opinião

Desenvolvimento 172 mapa+ texto com pergunta que o aluno teria que tirar uma conclusão.

Tem uma preocupação com a alfabetização cartográfica. Quando pede a opinião do aluno, na verdade ele tem que tirar uma conclusão