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2.1 DISCURSOS DE ÓDIO: UMA PERSPECTIVA DO DIREITO

2.1.1 Alguns conceitos

De acordo com Waldron (2012), o conceito “discurso de ódio” é muito impreciso. Segundo ele, a referência ao termo ódio pode levar a pensar que o "objeto" é o sentimento de animosidade ou o incômodo que se pode experimentar em relação a grupos minoritários. Se assim fosse, segundo ele, se posicionar contra a legitimidade do discurso de ódio implicaria se apoiar numa perspectiva perfeccionista do ser humano, que não poderia odiar. Ele destaca que, no caso de uma legislação que criminalize o discurso de ódio, não se trata de defender a sensibilidade de uma coletividade.

Quero aproveitar o “sentimento” de que fala Waldron (2012) para mencionar um fato ocorrido no processo seletivo durante a defesa do projeto que, em meio a transformações, resultou nesta tese. Um dos membros da banca afirmou que o “ódio” era um sentimento, e que não sabia muito bem como eu poderia tratá-lo, sendo um sentimento. O sentimento como algo da ordem ontológica, talvez, que dissesse sobre uma pessoalidade que me escaparia. Eu não tive resposta no momento, mas hoje consigo esboçar alguma. Parece-me que pensar no discurso

55 Khaled Junior (2016) entende que a Constituição de 1988 “representou e continua a representar uma

janela de oportunidade significativa para rejeição do nosso legado autoritário de ódio” (p. 91). O que ele chamou de “ódio pela constituição” teria como característica a interpretação de que promoção do bem geral, a erradicação da pobreza, a constituição de uma sociedade livre, tudo isso não passaria de “perfumaria sem qualquer força normativa” (p. 95).

56 Conforme França (2013), um argumento regular utilizado no atravancamento da tramitação diz

respeito exatamente ao ponto em que o PLC colide com o que se interpreta como legítima liberdade de expressão, o que nos mostra que, como tudo, é relativo o tratamento que, no Brasil, se dá a discursos de ódio. É bem ilustrativo desse caso o fato de que uma das designações por meio da qual se nomeou o PLC 122/06 foi “mordaça gay”, isto é, uma mordaça forjada pelos homossexuais para silenciar os demais. Designada assim, se trataria de censura, intolerável para a Democracia

de ódio a partir das lentes fornecidas pela AD implica entender que se trata de uma produção (não exatamente de um sentimento), que, como tal, depende de condições específicas, ainda que se possa pensar na variedade dessas condições.

Mesmo um sentimento, em determinado sentido, é resultado de um processo; isto é, mesmo um sentimento é um efeito. Marcia Tiburi (2016), no prefácio da obra de Khaled Junior (2016), pensando na antonímia amor-ódio, afirma que os dois são “afetos criados”, o que aponta para uma direção contrária à de que amamos ou odiamos conforme a natureza determina. Os dois, amor e ódio, são inventados, segundo ela, por um discurso, seja ele imagético ou verbal. Essa produção, consoante a autora, numa sociedade do espetáculo, ocorre pelos meios de comunicação de massa, trabalhando a manipulação.

Mesmo considerando essa coincidência em relação à gênese do ódio e do discurso de ódio, porque ambos podem ser pensados como resultantes de CP determinadas, o que quero dizer é que uma coisa é o ódio, outra, o discurso de ódio. Não se trata de negar a associação entre o “ódio” e o “discurso de ódio”; este capítulo, inclusive, vai na direção oposta a essa negação. Na cadeia do significante, as duas noções se encontram. Essa designação, “discurso de ódio”, se encontra com “ódio”, e significa também nessa associação. A relação, no entanto, não significa coincidência, identificação ou recobrimento. Por exemplo, não é discurso de ódio toda e qualquer coisa, independente das condições, que eu enuncie num momento de sanha, embora o capítulo seguinte vá mostrar a abundância de “fenômenos” albergados sob a designação discurso de ódio. Quero dizer que acredito não estar encurralado pelo fato do ódio ser um sentimento, quando entendo que o discurso de ódio – que é o meu objeto de reflexão – se trata de algo que irrompe engendrado por um determinado processo com movimentos característicos, isto é, por uma FD que, de algum modo, pode ser descrita, um processo discursivo que (re)produz, na relação com outros, um determinado efeito57. Mesmo o ódio, tal como apresentarei adiante, pode ser pensado como resultante de uma operação, de um processo imaginário, de um processo discursivo.

Retomando a discussão dos teóricos que levantei, ao responder à pergunta "Por que proibir o discurso de ódio", a resposta de Waldron (2012) é que se deve censurá-lo, porque o

57 Sobre a possibilidade de analisar discursivamente um objeto que é também um “sentimento”, refiro-

me ao artigo de Mariani e Lunkes (2013), “A felicidade (necessária) no/do Rio de Janeiro: a produção de imaginários sobre o espaço urbano e sobre o sujeito carioca”. Nesse trabalho, analisando sequências discursivas sobre a felicidade do/no Rio de Janeiro, discutem os movimentos de sentido da “felicidade”. As autoras pensam felicidade em relação à ideologia e ao imaginário, entendendo como da ordem do político, tanto a sua circulação em diferentes domínios do saber, quanto a divisão dos sentidos. Trata-se de um tratamento discursivo de um objeto que poderia ser, assim como o ódio, se pensado fora da proposta analítica, chamado de sentimento.

discurso de ódio produz uma fissura na dignidade dos membros da coletividade que se odeia. Na leitura que Waldron (2012) faz, a dignidade humana, embora uma característica inerente de todo e qualquer ser humano, enquanto status social e legal, deve ser estabelecida, afirmada, mantida e reivindicada. Ele entende que as leis contra o discurso de ódio – ele diz “difamação de uma coletividade” – é um compromisso assumido contra a tentativa de minar a dignidade do outro58.

Considerando que a dignidade do grupo é que é o alvo do discurso de ódio – e aqui está uma definição de discurso, como aquele que ataca a dignidade de um grupo –, Waldron (2012) destaca que insultos e epítetos raciais, por exemplo, não são discurso de ódio. É, segundo ele, discurso de ódio a atividade que agrava o status social dos membros das coletividades-alvo. Conclui que apenas as manifestações que causem, ou com potencial para produzir essa consequência – o agravamento do status social –, é que devem ser chamadas de discurso de ódio.

Duas questões, para mim, se colocam. A primeira é, problematizando o efeito da evidência que, parece-me, funciona na formulação de Waldron, como identificar com precisão que atividades têm aptidão para esse efeito de agravo? E a segunda: quão elástica pode ser a noção de discurso de ódio? Era a essa “plasticidade” da noção que eu me referia quando, há pouco, disse que poderíamos pensar em diferentes CP para o discurso de ódio, ou, mais especificamente, para o que se designa/interpreta como discurso de ódio.

Se, em Waldron (2012), vejo uma tentativa de precisar, dizendo o que não é discurso de ódio, em outros teóricos, vejo o movimento, em certo sentido, contrário, de ampliar a noção a fim de, com ela, albergar fenômenos diversos. No intento de criar uma noção jurídica de discurso de ódio, como se verá adiante, o esforço de Schäfer, Leivas e Santos (2015) é o mais significativo nesse sentido de ampliação, apesar de não conseguir comportar a diversidade de usos possíveis no Facebook, como apresentarei em capítulo seguinte.

Soto (2015) afirma que “discurso de ódio” é utilizado para designar ações antijurídicas ou imorais das mais diversas naturezas. Essa diversidade também justifica a crítica que Schäfer, Leivas e Santos (2015) fazem da definição de Meyer Pflug (2009), para quem o discurso de ódio corresponde à manifestação de “ideias que incitem a discriminação racial, social ou religiosa em determinados grupos, na maioria das vezes, as minorias” (MEYER PFLUG, 2009, p. 97).

58 Ainda neste capítulo, pensarei, no diálogo com outros teóricos, como essa pilhagem da dignidade

humana pode ser pensada no processo de desumanização do outro, e como o imaginário intervém nesse processo.

De acordo com Schäfer, Leivas e Santos (2015), a definição de Meyer Pflug (2009) é muito reduzida, restringindo-se à discriminação racial, social e religiosa. É possível perceber a redução quando se compara com a definição de Brugger (2007), que, segundo afirma, retoma a maioria das definições correntes. Brugger (2007) diz que o discurso de ódio se refere a

palavras que tendem a insultar, intimidar ou assediar pessoas em virtude de sua raça, cor, etnicidade, nacionalidade, sexo ou religião, ou que têm a capacidade de instigar a violência, ódio ou discriminação contra tais pessoas (BRUGGER, 2007, p. 118) (grifos meus).

A definição de Brugger (2007), embora mais ampla, também apresenta poucos “motivos” ou “critérios” para o discurso de ódio: raça, cor, etnicidade, nacionalidade, sexo ou religião. Por exemplo, a política e a sexualidade – ao menos que se queira “cooperar”, no sentido de que “sexo” englobaria mais que só sexo, estendendo-se à sexualidade, à identidade de gênero etc. –, enquanto motivos, ficam excluídas.

Ainda como se pode ler na definição que apresentei, o discurso de ódio, para o autor, refere-se a determinadas palavras capazes de produzir determinadas ações. Essa associação entre discurso de ódio e palavras aponta para uma identidade entre “fala”, enquanto realização linguística da “palavra”, e “discurso”. Estou dizendo isso, entendendo que, embora ele diga “palavras”, é possível esticar, sem violentar a definição do autor, o sentido de “palavras”, e entender por "palavras" outras construções linguísticas mais complexas. Mas, ainda assim, estaríamos no domínio do exclusivamente linguístico, o que pode ser problemático, por exemplo, se acreditarmos que o discurso de ódio pode se produzir a partir de outras materialidades diferentes da linguística, e ainda se, de um viés da AD, entendemos que o discurso não se resume ao linguístico, embora o pressuponha (PÊCHEUX, [1969] 2010).

Essa relação entre discurso de ódio e palavra (e fala) revela algo sobre o lugar de enunciação do autor. Essa identidade entre discurso e fala, que estou pressupondo como funcionando para Brugger (2007), aponta para a distância do olhar do autor em relação a uma perspectiva discursiva, ao modo de Pêcheux, cuja definição de discurso se apoia também na necessidade de diferenciar o discurso que lhe interessa de outros sentidos que aparecem relacionados à palavra discurso; um deles é justamente o estabelecimento da diferença entre discurso e fala59, no sentido apresentado por Saussure ([1916] 2006).

59 Entre o universal – a língua – e o extraindividual – a fala –, que, como uso da língua, “aparece como

um caminho da liberdade humana” (PÊCHEUX, [1969] 2010, p. 70), estaria o discurso, “um nível intermediário entre a singularidade individual e a universalidade” (PÊCHEUX, [1969] 2010, p. 72).

A partir da relação que Brugger (2007) faz entre discurso de ódio e palavra, ocorre-me o cotejamento com uma afirmação de Meyer Plufg (2009). Segundo ela, pensando no princípio de “mais liberdade de expressão”, o discurso de ódio deve ser respondido por outro discurso, que o neutralize ou o refute. Para a autora, o discurso de ódio deveria ser controlado apenas quando ele se apresentar como um dano iminente, porque o que se deve proibir são condutas e não expressões.

Parece-me ser possível dizer que se tende a liberar o discurso de ódio quando se entende que ele é uma expressão (palavra, apenas fala), mas que a tendência é de controle e criminalização quando ele é compreendido como conduta, como atitude, como prática.

Da afirmação de Meyeer Plufg (2009), quero destacar dois aspectos. O primeiro é que essa afirmação tem algo a revelar sobre um modo de entender discurso, como algo que não é material – uma visada materialista está longe –, que não produz perigo (Foucault60 teria algo a lhe dizer). O discurso não passaria de uma expressão. Acredito que, muitas vezes, é para onde apontam diferentes enunciados que afirmam que determinada postura não merece atenção, porque “não passa de discurso”, ou que fulano não tem atitude, “tem apenas discurso”, ou que aquilo não é verdade, "é só discurso”. Discurso como coisinha à toa, como inércia e como falácia. Não se trata disso quando se pensa a partir da AD.

Outro aspecto ocorre-me a partir da ideia de que um discurso de ódio pode ser neutralizado por um outro. Além de se apresentar uma correspondência entre “discurso” e fala, fala pública, uma disputa retórica, se pressupõe que há a possibilidade de “réplica”. O que não ocorreria no caso de discurso de ódio segundo uma característica apresentada por Fiss (2005, apud FREITAS; BORDIGNON, 2012), para quem o discurso de ódio funcionaria desautorizando o agredido, ainda que este tome a palavra, o que aponta para desigualdade de condição; ocorre, portanto, uma exclusão quando, de alguma forma, se nega o direito de dizer, ou quando se valora diferentemente o que se diz.

Retomando a definição de Brugger (2007), Schäfer, Leivas e Santos (2015), lendo-o, entendem que a lista de verbos (insultar, assediar, intimidar, instigar)que o autor apresenta é relevante na própria conceituação de discurso de ódio. São verbos nucleares, segundo a leitura que fazem. O último verbo ganha, para mim, notoriedade em mais de uma definição, como continuaremos vendo.

60 Refiro-me sobretudo à passagem em que Foucault ([1971] 2009) suspeita que a logofilia dissimula

uma lofogobia, e de uma outra, quando ele formula as seguintes perguntas: “Mas o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?” (FOUCAULT, [1971] 2009, p. 08).

Brugger (2007) afirma também que o discurso de ódio é, comumente, realizado contra grupos. Retomando a sua definição, pode-se ler que ele se refere a palavras que insultam, intimidam, assediam "pessoas", já no plural. Mas ele entende que, apesar dessa característica, o discurso de ódio pode ser dirigido também contra uma pessoa, individualmente.

A definição de Brugger (2007) é criticada por Silva et al (2011), porque é considerada pelos autores como restrita, uma vez que restringe os motivos do ódio à raça, cor, etnia, nacionalidade, sexo e religião, como eu já havia antecipado. Uma vez que amplos e diferentes fenômenos podem ser abarcados pela designação discurso de ódio, e é, de alguma forma, também o que apresentarei no capítulo seguinte, os autores apontam para a falha na categoria, argumentando, ainda, que se corre o risco de ser “injusto” ao listar as características que mais seriam graves devido à recorrência suposta, em detrimento de outras. Esse é o risco, acredito que incontornável, de toda categorização.

Apesar da crítica, entendem que a definição de Brugger (2007) funciona bem no sentido de que ela divide o discurso de ódio em dois atos: o insulto e a instigação, que estão nos polos da lista de verbos que mostrei há pouco. Aliás, apesar das críticas, tanto em Brugger (2007) quanto em Meyer Pflug (2009), a incitação da violência é destacada como uma característica marcante do discurso de ódio. A questão da conduta reapareceria aqui, no sentido de que o discurso de ódio, além de ser uma realização linguística, funcionaria como um chamado ao ato, uma convocação.

Silva et al (2011) entendem que o insulto – o primeiro traço descrito a partir da definição de Brugger (2007) – é a agressão à dignidade de determinado grupo, que é agredido por conta da presença de determinado traço, que é partilhado por entre os membros. Eu quero dizer que esse determinado traço pode ser construído e, mais que isso, de certo modo, não pode prescindir de uma construção, porque sob efeito da ideologia, do imaginário; necessariamente, não se trata de uma identificação de uma característica, de um encontro com o “real”. Aliás, como eu voltarei a dizer em um outro momento do texto, de uma visada discursiva, não há uma pura identificação de um "objeto" ou do que quer que seja; toda leitura é interpretação, e isso implica uma certa distorção resultando do distanciamento (da defasagem) incontornável do real, que cria o que chamamos de realidade61.

61 Žižek (1996), em “Como Marx inventou o sintoma”, afirma que “o nível fundamental da ideologia

[...] não é de uma ilusão que mascare o verdadeiro estado de coisas, mas de uma fantasia (inconsciente) que estruture nossa própria realidade” (ŽIŽEK, 1996, p. 316).

Diferente do insulto, que se aplica diretamente sobre a vítima, o segundo traço – o da incitação – se dirige a outros em forma de uma convocação; esses outros são chamados a participar desse discurso como forma de ampliá-lo.

Nesse ponto, os autores falam sobre estratégias de persuasão do discurso de ódio, sobre a utilização de elementos da publicidade para conseguir adeptos: “a criação de estereótipos, a substituição de nomes, a seleção exclusiva de fatos favoráveis ao seu ponto de vista, a criação de ‘inimigos’, o apelo à autoridade e a afirmação e repetição” (BROWN, 1971, apud SILVA et al, 2011, p. 448).

Na continuação, Silva et al (2011, p. 448) ainda dizem que o discurso de ódio tenta aumentar as possibilidades de seu êxito apelando para “argumentos emocionais e aproveitando da ausência de contraposição direta e imediata a tais mensagens” (grifos meus). Quero destacar que eles estão tomando “mensagens” como sinônimo de “discursos”. Para a AD, a diferença é fundamental para a própria construção do discurso como objeto teórico62.

Na definição de Meyer Pflug (2009), o discurso de ódio pode ser manifestado contra um grupo que não seja uma minoria. Embora ela destaque que, majoritariamente, o discurso de ódio é realizado contra as minorias, ela também abre espaço para que se pense numa possibilidade diferente, de retaliação da minoria contra uma maioria opressora63. Essa possibilidade vai de encontro à maioria das demais definições64. No entanto, apesar de minoritária, dialoga mais com o que encontrei nas análises, e que eu vou tratar em termos de “revezamento” ou “reversibilidade”.

62A partir do esquema informacional popularizado por Jakobson (destinador, destinatário, referente,

código, mensagem), Pêcheux ([1969] 2010) entende que, naquela perspectiva, “mensagem” é interpretada como transmissão de informação entre A e B, o que é simplista em relação a como entende o processo discursivo. Por isso, com as ressignificações que isso implica, onde Jakobson falava em mensagem, Pêcheux prefere pensar em “discurso”, definindo-o como “‘efeito de sentidos’ entre os pontos A e B” (PÊCHEUX, [1969] 2010, p. 81).

63 Terei oportunidade, ainda neste capítulo, de discutir “ódio de reação” e “ódio frio”.

64 Por exemplo, segundo Waldron (2012), o discurso de ódio tem como alvo uma minoria; é, o discurso

de ódio, uma atividade que faz com que as minorias tenham mais dificuldade de se integrar na sociedade. A definição de Luna e Santos (2014), como antecipei, também destacam a minoria como alvo do discurso de ódio. Segundo eles, discurso de ódio é “toda manifestação que denigra ou ofenda os membros das minorias tradicionalmente discriminadas, que estão em inferioridade numérica ou em situação de subordinação socioeconômica, política ou cultural” (LUNA; SANTOS, 2014, p. 232). Também Schäfer, Leivas e Santos (2015, p. 147) são categóricos, afirmando que o discurso de ódio, invariavelmente, é direcionado contra grupos não dominantes, isto é, “a sujeitos e grupos em condições de vulnerabilidade”. Eles ainda citam Rios (2008, apud SCHÄFER; LEIVAS; SANTOS, 2015, p. 147) que vai na mesma direção, ao compreender que o discurso de ódio é dirigido contra aqueles que destoam do “sujeito social nada abstrato: masculino, europeu, cristão, heterossexual, burguês e proprietário”. Há muitos (alvos) fora desse “padrão”.

A definição mais extensa de discurso de ódio, pelos itens que lista, é a de Schäfer, Leivas e Santos (2015). Segundo eles, essa é a definição jurídica (normativa) a que se chega com base na “Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação”:

O discurso do ódio consiste na manifestação de ideias intolerantes, preconceituosas e discriminatórias contra indivíduos ou grupos

vulneráveis, com a intenção de ofender-lhes a dignidade e incitar o ódio

em razão dos seguintes critérios: idade, sexo, orientação sexual, identidade e expressão de gênero, idioma, religião, identidade cultural, opinião política ou de outra natureza, origem social, posição socioeconômica, nível educacional, condição de migrante, refugiado, repatriado, apátrida ou deslocado interno, deficiência, característica genética, estado de saúde física ou mental, inclusive infectocontagioso, e condição psíquica incapacitante, ou qualquer outra

condição”65( SCHÄFER; LEIVAS; SANTOS, 2015, p. 149-150) (grifos

meus).

Na definição de Schäfer, Leivas e Santos (2015), reaparecem os dois gestos: a ofensa e a incitação. Quero destacar que se fala da “intenção” de ofender e de incitar o ódio, o que teria consequências para uma definição discursiva, a partir de uma linha que tivesse como pressuposto um desconhecimento de natureza ideológica e psíquica. Mas funciona na definição, já que é jurídica, e que põe em jogo a ideia de culpa e dolo, que valoriza, eu penso, a consciência do indivíduo66.

Na definição normativa de discurso de ódio, Schäfer, Leivas e Santos (2015), como se pode ler, afirmam que o discurso de ódio pode ser deflagrado contra um indivíduo ou contra grupos. Eu também disse antes que, para Brugger (2007), o discurso de ódio pode ser manifestado contra um indivíduo. Essa questão levanta alguma discussão, porque nas definições de discurso de ódio o alvo – se o indivíduo, se o grupo – é flutuante.

Ainda sobre definições, voltando à de Luna e Santos (2015), eles chegam a um tipo de gradação de efeitos dos discursos de ódio: desde o insulto à legitimação de homicídios67.

65 O excerto acima apresenta um superesforço para que não deixe de ser contemplado qualquer caso.