3.1 DISCURSO DE ÓDIO: DESIGNAÇÕES POSSÍVEIS EM MEU FEED
3.1.4 Discurso de ódio como ódio contra a Esquerda
Em SD’s anteriores, eu cheguei a mencionar um elemento político que se somava ao racismo (R2) e ao machismo (M2). A sequência de SD que apresento a seguir tem em comum o fato de terem sido identificados, por usuários-sujeitos do Facebook, como discurso de ódio, estando relacionadas a determinadas práticas que foram produzidas contra “personagens” lidos como de Esquerda ou a ela associados ou com ela confundidos.
Bobbio (2011), em um livro chamado “Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política”, localiza a Revolução Francesa como conjuntura em que se formalizou o uso das palavras Direita e Esquerda, pelo menos, como ele destaca, no que diz respeito à política interna. Ele destaca que a visão diádica da política ter adotado os termos esquerda e direita trata-se de uma questão “acidental” – no sentido de que poderiam ser outros, os termos –, mas que essa metáfora espacial cumpre a função de “dar um nome, de dois séculos aos dias de hoje, à persistente, e persistente porque essencial, composição dicotômica do universo político. O nome pode mudar. Mas a estrutura essencial e originariamente dicotômica do universo político permanece” (BOBBIO, 2011, p. 83).
Em sua discussão, Bobbio (2011) reflete sobre uma série de investidas que têm em comum a tentativa de desqualificar essa díade, que argumentam sobre sua “inoportunidade”, sua “imperfeição” e seu “anacronismo”151. A despeito de toda contestação a que a díade é
151 De acordo com Bobbio ([1994] 2011) em relação às críticas que destacam a inoportunidade da divisão
Esquerda-Direita, o que se diz é que “é inútil continuar a dividir o universo político com base no critério das ideologias contrapostas, se não existem mais ideologias”. Acerca da imperfeição da díade, as críticas consistem em afirmar que “é insuficiente dividir o campo político em dois polos, uma vez constatado que existe também um terceiro polo, não importa se intermediário ou superior”. No que diz respeito ao anacronismo, as críticas destacam que, hoje, “entraram, na cena política, programas, problemas,
exposta, “as expressões ‘direita’ e ‘esquerda’ continuam a ter pleno curso na linguagem política. Todos os que as empregam não dão nenhuma impressão de usar palavras irrefletidas, pois se [des]entendem muito bem entre si” (BOBBIO, 2011, p. 79) (acréscimo meu).
A expressão “parlamentares de Esquerda” ou “parlamentares de Direita”, ou “governo de Direita” e “governo de Esquerda” não parece ter perdido sentido; não há dúvida (?), é o que ele diz, em classificar, trazendo para nós, Michel Temer como de Direita, e Dilma como de Esquerda. A variação que existe é axiológica, isto é, o que varia, segundo Bobbio (2011), é o valor ou sentido que se (re)produz quando, de um ou de outro lugar, se fala em Esquerda e Direita. A variação axiológica, porém, não significa a impertinência da díade; ao contrário, mostra a sua produtividade e também a disputa em curso pela significação, pelo direito à significação, que é o que caracteriza o político (ORLANDI, 2007a; 2012).
Aparece, na discussão de Bobbio (2011), a perspectiva que eu chamo de discursiva, de que os termos “Esquerda” e “Direita” não são absolutos, substantivos ou ontológicos. Eles “representam uma determinada topologia política que nada tem a ver com ontologia política [...]. Em outros termos, direita e esquerda não são palavras que designam conteúdos fixados de uma vez para sempre” (BOBBIO, 2011, p. 107-108).
Embora toda palavra pensada discursivamente varie conforme a inscrição nos movimentos de uma FD, existem sentidos que parecem mais regulares, mais ou menos dominantes, isso porque as relações são desiguais e isso se manifesta também discursivamente. Aliás, essa, parece-me, é a leitura que deve ser feita da “dominância” quando se formula o interdiscurso como complexo de FD com dominante (PÊCHEUX, [1975] 2009). É com essa perspectiva de dominância que estou lendo a tese de Bobbio (2011), de que o critério crucial da distinção entre Esquerda e Direita – o que define a perspectiva do autor de que a díade se sustenta e se justifica ainda hoje – é a relação com a (des)igualdade. Ou, nos termos dele, “a distinção entre esquerda e direta refere-se ao diverso juízo positivo ou negativo sobre o ideal da igualdade” (BOBBIO, 2011, p. 123):
De um lado, estão aqueles que consideram que os homens são mais iguais que desiguais, do outro, aqueles que consideram que são mais desiguais que iguais [...]. O igualitário [de Esquerda] parte da convicção de que a maior parte das desigualdades que o indignam, e que gostaria de fazer desaparecer, são sociais e, enquanto tal, elimináveis; o inigualitário [de Direita], ao contrário, parte de convicção oposta, de que as desigualdades são naturais e, enquanto tal, inelimináveis (BOBBIO, 2011, p. 121). (acréscimos meus).
movimentos que não existiam quando a díade nasceu e desempenhou o seu papel” (BOBBIO, [1994] 2011, p. 61).
A manutenção da desigualdade é o que também justifica ou mesmo torna durável uma minoria, de modo que ser de Esquerda, no sentido de Bobbio (2011), é tomar partido pelas minorias. Eu apresento essa discussão de Bobbio (2011) não exatamente para fazê-la funcionar teoricamente neste tópico, mas por outros dois motivos: para me apoiar em alguém que teorize sobre a validade atual da díade – como afirma o autor, “a díade sobrevive” (p. 79) –, uma vez que me aproprio dela e a faço funcionar neste texto; e para que haja uma orientação da leitura do que eu chamei de discurso ódio contra a Esquerda.
Estou associando à Direita sentidos de conservadorismo ou reacionarismo, e o faço a partir de Miguel (2018), em “A reemergência da direita brasileira”, que, problematizando o funcionamento da Direita no Brasil – na verdade, ele sugere que se pense em “direitas” – pensa em três eixos que caracterizariam a extrema direita brasileira. O primeiro eixo, o libertarianismo, que pressiona o Estado a reduzir suas ações reguladoras; o segundo, o fundamentalismo, ou, mais exatamente, o fundamentalismo religioso que propõe a univocidade dos sentidos sobre assuntos que são polêmicos, como, por exemplo, a discussão sobre o aborto; e o terceiro eixo, do anticomunismo deslizado para antipetismo.
Como será visto, diferentes formulações sobre grupos também distintos foram agrupadas nesse mesmo tópico. É o tópico mais extenso, inclusive, e não sem motivo, já que as CP dominantes no período em que realizei as coletas dão destaque ao ódio político, ou, como sugere a obra organizada por Gallego (2018), “O ódio como política”. O elemento organizador foi o que eu chamei de Esquerda, de discurso de ódio contra a Esquerda, de modo que me pareceu necessário explicitar como e a partir de quem estou entendendo o que é a Esquerda.
Figura 15 – SD: E1152
152 No exame de qualificação, a profa Dra Freda Indursky sugeriu que eu discutisse a noção de texto,
mostrando a sua natureza no espaço virtual, e, mais especificamente, no Facebook. Na oportunidade, ela se referia especificamente a uma possibilidade que é também tecnicamente possível nesse espaço, que é a justaposição de textos, mas como que resultando em um só texto. Da qualificação para esta versão de defesa, algumas SD foram excluídas; nessas exclusões, algumas outras SD que “pediam” que eu tratasse dessa justaposição como modalidade também saíram do corpus, permanecendo apenas algumas, a exemplo desta à qual vinculo esta nota. Embora eu tenha decidido não desenvolver essa discussão neste texto, considero necessária esta nota que indica algumas impressões minhas sobre esse “tipo” de texto. Como se percebe inclusive ao longo das SD que tenho apresentado para análise, a justaposição não é o único modo de apresentação de textos no Facebook, mas é uma possibilidade. É o efeito que considero, hoje, pertinente chamar de “patchwork” (colagem de retalhos), e que não tem a preocupação de apagar as costuras, como que dissimulando a natureza de colagem (o que seria mais “aglutinar” que “justapor”). As costuras são mantidas, mas ainda assim funcionam como uma só “peça”. No caso dessa SD, o que o usuário-sujeito apresenta como texto ao qual a sua postagem se refere é a justaposição de três prints, que são “retalhos”. O “retalho” da postagem do Correio Braziliense é posto em relação de justaposição com mais dois outros “retalhos”, de comentários à postagem, pelo menos é o que o texto “unificado” nos leva a supor. Desses três retalhos, resulta um efeito-texto, que é essa unidade costurada “criada” nos gestos de corte e costura de algum usuário-sujeito. Eu ainda destacaria, como sugestão de caminhos para pensar essa disposição textual por justaposição, que o “patchwork” criado não é um “patchwork” qualquer, sendo possível pensar em gestos de leitura que produziram essa unidade. No caso do “patchwork” que a postagem em E1 explora, mostra-se um gesto que pretende destacar um tipo de reação ao estado de doença da ex-primeira-dama Marisa Letícia; a justaposição dos “retalhos” selecionados (printados inclusive em horários diferentes) sugere a recorrência dessas reações que o usuário-sujeito em E1 chama de discurso de ódio. Ao contrário desse efeito que massifica as reações, um outro “patchwork” poderia mostrar, por exemplo, a escassez do discurso de ódio, costurando outros prints, que, por exemplo, demonstrassem uma massiva solidariedade à ex-primeira-dama. Nesse tipo de texto, essas costuras aparentes são vestígios que podem ser explorados pelo analista como pistas da “manipulação” a que o texto apresentado foi exposto, como que os “andaimes” aparentes da construção textual.
Em E1, o usuário-sujeito lamenta-se em relação ao texto formado da costura de três
prints, pelos quais se destaca o estado de saúde da ex-primeira-dama, Marisa Letícia, e o riso
que seu estado acabou produzindo em alguns usuário-sujeitos; vitupérios de que, ainda internada após o AVC, ela foi vítima. Em E1, esses comentários e postagens que desdenhavam da situação, ou riam das postagens que desejavam a sua melhora, foram designados/interpretados pelo usuário-sujeito como discurso de ódio.
É uma regra moral respeitar o luto do outro, não se comprazer com a dor do outro (“respeitar o momento de dor do próximo”), ainda mais quando se trata de um enfermo. É, em termos que serão explorados no capítulo seguinte, uma questão de “piedade animal” (ARENDT, [1963] 1999). Aprendemos a ter piedade, mesmo que à distância, dos acometidos por doenças. Nossa piedade costuma ser proporcional à gravidade da doença. Em E1, essa “regra” e esse “aprendizado” são desconsiderados quando o “doente” é mulher do ex-presidente Lula, ou melhor, quando o sentido dominante nessa leitura é de Lula como adversário número 1 do Brasil, ou melhor, de um certo modo de ler o Brasil. Nesse sentido, o ódio a Lula153, que é o mais simbólico personagem lido como de Esquerda no Brasil de hoje, desliza para alcançar sua esposa, e não importa se enferma ou não. Assim, o ódio parece ser, na SD, mais forte que a compaixão que aprendemos (?) a ter.
Pensando em CP para que isso que o usuário-sujeito designou/interpretou como discurso de ódio se manifeste, entendo que, para que se chegue a festejar a morte de alguém ou o estado grave, isto é, para que isso seja formulável e, mais que isso, publicável no Face, é necessária uma operação de distanciamento em relação e esse outro, forjado na e à distância, mas também uma certa relação com o espaço, de ausência de leis, elementos que, entendidos como constituintes de um processo discursivo, “sopram” para longe a humanidade do sujeito a ser atacado, sendo, por isso mesmo, um alvo que não desperta remorso naquele que, no caso, o vilipendia. É necessário que o sujeito atacado se torne, por um funcionamento imaginário- ideológico, um indesejado, algo não-humano, porque é a essa distância que se pode atacar sem que haja risco de “respingo” na “humanidade” do sujeito que ataca.
Carnal (2017), em “O ódio nosso de cada dia”, faz referência à afirmação de Sérgio Buarque de Holanda, quando (d)escreve que o brasileiro é cordial. Embora a leitura mais regular
153 No sentido discutido por Rancière (2014) em “Ódio à democracia”, é possível dizer que o ódio a Lula, e mesmo
um ódio à Esquerda, já que Lula é, até então, o “garoto propaganda” da Esquerda brasileira, é, de uma certa forma, uma manifestação do ódio ao regime democrático. Odeia-se tanto o modelo que permite que qualquer um governe, quanto o indivíduo, sendo “um qualquer” sem títulos – não representante da elite, ex-metalúrgico, líder grevista etc. – que se torna sujeito enquanto governante.
dessa afirmação, de acordo com Carnal (2017), seja confundir “cordial” com “amoroso” ou “passivo”, a interpretação autorizada e, inclusive, defendida por Sérgio Buarque de Holanda, é que o brasileiro é cordial, porque age conforme a emoção, não conforme a razão. Essa passionalidade é que é, consoante Carnal (2017), o equivalente à cordialidade.
Há uma evidência de nossa “cordialidade”, que se manifesta na crença da evidência do que significa ser cordial. Essa ideia massificada de que o brasileiro é “boa praça”, “boa gente”, “amistoso”, “amoroso”, “generoso” aponta para um ritual ideológico que tem como característica justamente criar a evidência dos sentidos, criar um “todos sabemos como são/somos os brasileiros”, o que acaba criando e/ou alimentando condições para que não lidemos bem com as passagens de nossa história que negam a nossa “amorosidade”. Um corpus como esse, com o qual eu trabalho, ilustra fraturas nesse ritual responsável pela equivalência entre “cordialidade” e “amorosidade, e falo em fratura, e não em total desmonte, porque ainda se mostra um brasileiro movido por paixões, mas não necessariamente por paixões das quais nos orgulharíamos, embora mesmo o orgulho deva ser pensado em relação a certos jogos imaginários, como voltarei a dizer.
A partir da leitura de Carnal (2017), posso dizer que, quando se ama Lula (ama-se uma imagem de Lula), trata-se de cordialidade; mas trata-se de cordialidade também quando se odeia Lula (também uma imagem, uma interpretação de Lula). Trazendo essa discussão para esta tese, usuários-sujeitos mostram sua cordialidade ofendendo a esposa de Lula – sim, a esposa, porque é essa associação a uma certa imagem de Lula que a despersonaliza, mas a disponibiliza como categoria que justifica o ódio – mesmo quando internada em estado grave. Cordial não por ser cortês, mas pela paixão, entre as quais o ódio, que, no texto costurado destacado pelo usuário- sujeito autor de E1, é dominante.
Em E2, o usuário-sujeito compartilha uma postagem primeira, que se referia a um episódio quando, supostamente, um filho de Lula (como no caso de dona Marisa, a associação a uma certa imagem de Lula é que “provoca” a ação) teria sido expulso de um restaurante em Angra-RJ. A legenda da primeira postagem à qual a segunda se refere chama a expulsão de “Revolta popular”. Já a postagem segunda, “assinada” pelo usuário-sujeito autor de E2, chama o ocorrido de discurso de ódio.
Figura 16 – SD: E2
É interessante aproveitar essa postagem para reforçar a perspectiva de que não há fatos que não reclamem sentidos, isto é, de que “não há sentido sem interpretação” (ORLANDI, 2002, p. 45), de que somos instados – sem possibilidade de recusa, porque a recusa já é uma realização no simbólico – a simbolizar. A postagem me ajuda a flagrar dois movimentos de interpretação legitimados por diferentes posições: na que vê a expulsão como revolta popular, existe um tom de legitimidade; na segunda, a total ilegitimidade do discurso de ódio, funcionando, o discurso de ódio, no caso, como um excesso, um abuso da liberdade de expressão, na perspectiva de que a liberdade de expressão tende a ser compreendida, no Brasil, como limitada (FREITAS; CASTRO, 2013), que é também a minha compreensão.
Quem interpreta o “caso” como revolta popular – no caso, o usuário-sujeito que teve a sua publicação republicada pelo usuário-sujeito autor de E2 – não o interpreta como discurso de ódio, sendo possíveis e/mas excludentes, as interpretações, e isso nos diz, para não perder a oportunidade, sobre o funcionamento de posições possíveis em FD’s antagônicas. De uma posição determinada em um processo, diz-se “revolta popular”; de uma outra posição, em relação a outra FD que se relaciona à primeira por divergência, diz-se “discurso de ódio”.
Em E2, essa postagem de um post anterior parece interessante também, porque ilustra o funcionamento da conversação em rede, que, como destaca Recuero (2012a), cria audiências invisíveis, que começam a participar da interlocução sem que que essa interferência tenha sido prevista ou mesmo desejada pelos usuários-sujeitos que iniciaram a interlocução. Podemos observar como sentidos diferentes se “encontram”, e como esse encontro produz efeitos
diferentes, que, num espectro, poderia variar da confirmação do sentido até mesmo a sua negação.
Em E3, o usuário-sujeito republica uma postagem da página “Pensador anônimo”, que se referia a um episódio trágico, quando Guilherme, estudante da Universidade Federal de Goiás, foi assassinado pelo pai, porque, segundo algumas narrativas, queria participar das ocupações de escolas e universidades ocorridas no segundo semestre de 2016.
Figura 17 – SD: E3
Ocupações e greves tendem a ser lidas como práticas de Esquerda – senão a mais, uma das mais memoráveis greves, a “greve dos trabalhadores da ABC”, em 1979, foi liderada por Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos – , e talvez, nesses casos, seja dominante a associação entre Esquerda e a classe trabalhadora (ou, mais exatamente, a classe que “deveria” trabalhar, mas que “prefere” a paralização e a greve).
O texto ao qual o usuário-sujeito autor de E3 se refere é composto pela “costura” da imagem do jovem assassinado, à esquerda, e, à direita, com prints de alguns comentários de outros quatro usuários-sujeitos, e que foram considerados, pelo usuário-sujeito que os retoma em E3, como “#discursodeódio”: 1) “Triste é ver um filho não respeitar o pai!!! Eu tbm não aceitaria ver meu filho dilapidando o que não é dele, destruindo o patrimônio público!!”; 2) Menos um esquerdista destruidor de patrimônio público. Quem for contra minha opinião, vai tomar no cu, fique com sua opinião que eu fico com a minha. BOLSONARO 2018”; 3) “Podia
botar pra fora de casa... aí teria que arrumar emprego e se sustentar. Duvido que ia ter tempo. Fora que ninguém sabe o que REALMENTE aconteceu”; 4) Parabéns a esse pai... educou o máximo que pôde, não teve jeito: o filho queria ir pro outro lado do muro. Então, saiu deste plano...”.
Os comentários printados, organizados e republicados na postagem que eu chamei de E3, apresentam diferentes elementos que legitimam o assassinato, interpretado/designado como discurso de ódio pelo gesto de interpretação do usuário-sujeito autor de E3. O primeiro usuário- sujeito põe-se no lugar do pai, identificando-se com ele (“Eu tbm não aceitaria”). Pelo foco que dá à desobediência do filho e à pressuposta depredação do patrimônio público – que foi uma leitura constante dos movimentos de ocupação, entre outros, a fim de mobilizar a opinião pública numa inclinação contrária ao movimento –, depredar o patrimônio público é mais grave que o assassinato de um filho; a prática do primeiro pode justificar o segundo, num apagamento “conveniente” ou “cínico” da desproporcionalidade. O segundo associa o jovem à Esquerda (esquerdista), e a Esquerda à destruição de patrimônio, criando um efeito de sinonímia, a evidência de que a Esquerda produz o caos. A virulência ainda se mostra no período seguinte, quando manda “tomar no cu” quem pensa contra ele, afirmando, por fim, seu nada surpreendente apoio a Bolsonaro para presidente nas eleições que ainda iriam ocorrer em 2018. O terceiro usuário-sujeito parece discordar da desproporcionalidade da atitude do pai, quando sugere que o filho deveria ter sido posto para fora de casa, porque, assim, teria que se sustentar e, ocupando-se, não teria tempo para a ocupação. Nesta, os manifestantes, numa retomada a memórias de todo movimento grevista e afim, são sinonimizados a vagabundos. No final, afirma que ninguém sabe o que realmente aconteceu, abrindo espaço para o revisionismo, para alguma versão que justifique o assassinato. O quarto parabeniza o “esforço” do pai que teria educado o filho com tudo que tinha à disposição, mas que falhou. Nessa discursivização, ocorre uma polarização entre aqueles que estão de um lado do muro e os que estão do outro, divisão imaginário-ideológica que é ingrediente para que o ódio se produza e se mantenha. O pai teria feito o possível para que o filho não transgredisse o limite, mas ele transgrediu. A conjunção conclusiva (então: “o filho queria ir pro outro lado do muro. Então, saiu deste plano...” ) cria um efeito de desencadeamento lógico, naturalizando a morte, ou fazendo dela o fim sensato, ou previsível.
O que o usuário-sujeito, autor de E3, interpreta/designa como discurso de ódio são manifestações diferentes, mas que, em comum, apresentam-se como leituras legitimadoras do filicídio quando o filho ocupa (lido como “depreda”) ou pretende ocupar (“depredar”) instituições de ensino, essas práticas “de Esquerda”.
Em E4, o usuário-sujeito designa/interpreta, via hashtag externa, como #discursoDeÓdio o que está descrito em uma postagem que retoma uma anterior, publicada pela página “Jornal o Badernista - A missão”, que se refere a um episódio em que uma médica teria negado atendimento a uma criança motivada pela posição política dos pais do paciente,