2.9 A participação do cidadão mediada pelas TIC
2.9.1 Alguns efeitos da TIC na sociedade brasileira
A despeito de toda a conectividade em que a sociedade está inserida, ainda há muitas pessoas que não dispõem de acesso aos meios tecnológicos, principalmente nas regiões mais pobres do mundo, as quais continuarão excluídas da sociedade da informação devido a problemas estruturais de educação formal e da dificuldade no acesso à internet – por falta de infraestrutura energética, de telecomunicações e outras dificuldades enfrentadas nessas regiões (MARCIAL, 2015).
Esta seria uma das facetas decorrentes da exclusão social por trás da intensa utilização das TIC em diversos âmbitos da sociedade, pois como relata Castells (1999, p. 95), “o surgimento do informacionalismo está entremeado de desigualdade e exclusão social crescentes em todo o mundo” e as novas tecnologias da informação e comunicação, contraditoriamente, são responsáveis pelo acúmulo de riqueza e difusão de pobreza.
No que tange ao aspecto relacionado ao mundo do trabalho, segundo Marx (1999), há uma alienação permanente do trabalhador nas relações sociais e de trabalho na sociedade capitalista, marcada pelos conflitos inerentes ao processo de acumulação e de lutas de classes, pois no mundo do trabalho na sociedade capitalista podem surgir conflitos entre o homem e as máquinas, a exemplo dos efeitos ocorridos na sociedade industrial, quando as fábricas passaram a ser o local de trabalho das pessoas, ocasionando conflitos entre os trabalhadores e os detentores dos meios de produção. Esses efeitos do capitalismo geraram a perda da autonomia do trabalhador, dos seus meios de produção e do domínio do processo de trabalho.
A expansão capitalista, definida por meio da produtividade e competitividade com suas forças vitais e inerentes para acumulação provoca alterações significativas na economia, nas relações de empregos e na estrutura ocupacional dentro das organizações, além de colaborar para contínuas reestruturações produtivas com possibilidades de mudanças nas relações sociais e de trabalho (LAUDARES, 2006).
Ademais, conforme aduz Laudares (2006), devido às contradições inerentes à sua própria ideologia, o capitalismo impõe, por meio de contínuas reestruturações, um mercado de trabalho com diminuição do emprego regular, crescente trabalho em tempo parcial, temporário, ou subcontratado, aliado a um crescente investimento em tecnologia e inovações tecnológicas que cada vez mais dispensam a mão de obra menos qualificada e tendem a privilegiar os trabalhadores com formação de alto nível.
Ao lado da superexploração dos trabalhadores, da exclusão social (entendida como o processo pelo qual determinados grupos e indivíduos são impedidos de acesso a condições que lhes garantam um padrão mínimo de existência), da instabilidade dos empregos e do afrouxamento dos mecanismos de proteção social (CASTELLS, 1999), também a automatização intensiva nas indústrias, incluindo o investimento em robótica vêm modificando a natureza do trabalho, colaborando para a perda do emprego de milhares de trabalhadores em todo o mundo e, por outro lado, exigindo que os trabalhadores se qualifiquem mais para se inserir no mundo do trabalho, cada vez mais mediado pela tecnologia.
Em certa medida, esta situação leva a uma necessidade de o trabalhador assumir um número cada vez maior de funções, assumindo a quase integralidade dos processos de trabalho. Entretanto, Marcial (2015) enfatiza que muitas profissões foram extintas, mas novas surgiram e continuarão a surgir, evidentemente, tendo como pano de fundo a questão da necessidade premente de qualificação que os ambientes tecnológicos exigem.
Nisto se insere a educação enquanto fator diferencial para o trabalhador não se tornar descartável em uma sociedade informacional e ser facilmente substituído por máquinas, pensamento também compartilhado por Castells (1999), o qual acrescenta um outro aspecto que é a deterioração das relações de trabalho e de vida de muitos trabalhadores decorrente da adoção intensiva de tecnologia no mundo do trabalho.
Apesar de a tecnologia em si ser um fator positivo para a sociedade, contudo, deve-se evidenciar que somente a aplicação das TIC não são suficientes para alavancar a produtividade e/ou resolver todas as dificuldades organizacionais, não se devendo desprezar a
importância do elemento humano com suas habilidades e características únicas que contribuem para o desenvolvimento organizacional e para a melhoria da sociedade (ANGELONI et al., 2008; DAVENPORT, 1998).
Outra importante questão que envolve as TIC são o fim da privacidade e a prática invasiva de sites, e-mails e outros dispositivos tecnológicos, realizadas nos ataques virtuais em que cibercriminosos se aproveitam da vulnerabilidade dos sistemas informáticos para roubar os dados pessoais das pessoas e se apoderar de dispositivos em troca de dinheiro. Apesar de haver softwares como antivírus que permitem se defender de ataques na rede mundial de computadores ainda é grande o número de ataques virtuais e de vítimas de crackers26 e criminosos virtuais que povoam o ambiente virtual e o tornam um local cada vez
mais perigoso.
A diminuição do círculo social também é apontada por Castells (1999) como um dos possíveis efeitos das TIC, em especial a internet, servindo esta, às vezes, para alienar os indivíduos e isolá-los do convívio social. Todavia, o mesmo autor pondera que a própria internet também pode contribuir para reforçar os laços afetivos de uma comunidade e servir como fonte de aproximação entre os indivíduos.
Como ponto positivo pode-se citar, como efeito das TIC na sociedade brasileira, os custos reduzidos no longo prazo devido à adoção intensiva de soluções tecnológicas que podem propiciar uma economia de recursos financeiros e mais facilidade para os usuários e para as organizações públicas ou privadas.
No que se refere à qualidade no atendimento, o uso inteligente das informações disponíveis nas organizações pode gerar para o usuário mais qualidade no atendimento em diversos setores da sociedade brasileira como educação, saúde etc., contribuindo para o bem- estar da sociedade, conforme evidenciado por Vidal (2011).
Em resumo, o movimento de reforma do Estado levou as instituições públicas, incluindo as universidades brasileiras a adotar sistemas de informação para auxiliar no gerenciamento acadêmico de seus cursos. Ao mesmo tempo, a penetração da internet e das TIC tem contribuído para que a sociedade possa se inserir nos assuntos dos governos e, em alguns casos, interagir com os atores governamentais, objetivando a melhoria da prestação de serviços públicos, apesar de haver ainda a necessidade de mais avanços no que se refere à participação social nos assuntos relacionados à gestão pública.
26 “Peritos em informática que fazem o mau uso de seus conhecimentos, utilizando-o tanto para danificar componentes eletrônicos, como para roubo de dados, sejam pessoais ou não” (ALMEIDA; SANTANA; ARAÚJO, 2011, p. 1593).
3 METODOLOGIA