1.4. Distúrbios do sono
1.5.4. Alguns mitos sobre as causas da PHDA
Barkley (2002: 90-97) e Lopes (2003: 138-144) referem que ao longo dos tempos foram discutidos vários fatores que possivelmente estariam na origem da perturbação, e que não tiveram qualquer base científica a sustentá- los, tais como: a alimentação, a sobredosagem vitamínica, a deficiência de produção da hormona tiroideia, o desequilíbrio do sistema vestibular; excesso de televisão; e o estilo educativo parental e organização familiar.
Relativamente à ingestão de produtos químicos e aditivos alimentares, alguns estudos concluíram que a PHDA não deriva de nenhum tipo destes fatores, assim como a alteração dos hábitos alimentares, através de uma dieta específica, não era eficiente no tratamento e redução da hiperatividade.
Quanto à sobredosagem vitamínica, esta teoria foi também apontada como uma das possíveis causas que provocavam a perturbação em questão, mas os estudos realizados durante décadas nunca confirmaram esta hipótese.
Noutra linha de pensamento surge a teoria de que uma deficiência na
produção da hormona tiroideia pudesse estar relacionada com a PHDA, visto
alguns sujeitos hiperativos possuírem níveis baixos da hormona referida. Mais uma vez, pesquisas realizadas posteriormente não corroboraram estes resultados, rejeitando, assim, esta ideia e a necessidades de se realizarem exames neste âmbito.
Um médico americano defendeu a ideia que a hiperatividade estaria relacionada com um “desequilíbrio no sistema vestibular”, uma vez que este além de regular o equilíbrio, balanço, sentido da gravidade e movimentos da cabeça, regula igualmente os níveis de energia, pelo que qualquer alteração neste sistema provocaria hiperatividade e impulsividade. Embora o autor afirme que os tratamentos farmacológicos que utilizou obtiveram resultados benéficos num grande número de casos, o certo é que estudos posteriores concluíram seguramente que esta teoria não é consistente.
Uma outra teoria levantou a ideia de que a PHDA seria causada pelo
excesso de televisão. Ora, esta temática tem de facto originado alguns
debates, bem como, a publicação de vários artigos sobre o número de horas que as crianças e adolescentes dedicam à televisão. Diversas opiniões
suscitam a ideia de que o facto de elas estarem horas seguidas em frente ao ecrã surte efeitos nos seus comportamentos, sociabilidade e cognição, podendo despoletar a hiperatividade. Para Barkley (2002: 97) não existe nenhum estudo científico que demonstre que crianças com esta perturbação vêm mais televisão que crianças normais. Havendo efeitos positivos ou negativos da televisão, esses serão distribuídos de forma equitativa tanto por hiperativos como não hiperativos. Desta forma, não existem estudos que evidenciem que a televisão provoca PHDA, e que estas crianças poderão ser mais prejudicadas por verem demasiada televisão.
Segundo Barkley (2002: 95 e 96; Lopes, 2003: 142 e 143), algumas teorias apontam o meio ambiente como o causador da PHDA. Alguns indivíduos afirmam que o comportamento hiperativo resulta do estilo parental e da organização familiar, particularmente, no fraco controlo parental sobre as crianças. Os mesmos acreditam que, possivelmente, uma educação permissiva ou negligente que não disciplina o suficiente e não impõe regras e limites, pode resultar nalgumas características que se confundem com a hiperatividade ou a impulsividade. Contudo, é deveras importante salientar que os comportamentos manifestados por crianças que não possuem uma educação adequada e assertiva, não podem nunca ser confundidos com a impulsividade de uma criança com PHDA, que tem uma origem provavelmente orgânica. Lopes corrobora a ideia de que as crianças impulsivas sem a perturbação geralmente desencadeiam os comportamentos impulsivos, provocatórios e inadequados devido à presença dos pais, podendo apresentar condutas adequadas quando não estão na sua presença. Para Lopes (2003: 142), a evidência científica é inequívoca relativamente a esta questão: por norma os pais das crianças hiperativas-impulsivas têm tendência a serem menos permissivos e mais esforçados do que o normal, transmitindo muitas orientações e impondo mais regras e punições, tornando-se mais monitorizadores.
Uma das melhores provas quanto à irrelevância da educação parental como causadora da PHDA, é fornecida por diversos estudos realizados por Barkley (2002: 95) que revelam que a administração de medicação estimulante nas crianças com a perturbação teve como efeito a melhoria do comportamento relativamente às mães, ao mesmo tempo que as mesmas melhoravam igualmente o seu comportamento face aos filhos. Lopes (2003: 143) reitera o
facto de que esta situação demonstra que “os comportamentos controladores e muitas vezes negativos dos pais constituem uma reação à impulsividade e hiperatividade dos filhos e não uma causa dos mesmos”. Não obstante, certamente que haverá alguns pais de crianças com PHDA que praticam um estilo educativo inconsistente que tende a agravar (não é o mesmo que provocar) o problema dos seus educandos. Contudo, seguramente que a firmeza de monitorização deverá ser maior com estas crianças.
Segundo Barkley (2002: 95), algumas afirmações apontam no sentido de que a desorganização e o caos familiar pode ser a causa da PHDA. Porém, com base em determinadas pesquisas concluiu-se que, efetivamente, a vida caótica e disfuncional de famílias com pais que manifestam problemas psicológicos pode contribuir diretamente para o risco de uma criança apresentar comportamento agressivo e antissocial, contudo não pode ser considerada causadora da perturbação. É provável que existam famílias de crianças hiperativas que são desorganizadas, todavia, apesar de poderem ocorrer em simultâneo os dois acontecimentos não se encontram relacionados. Assim sendo, todas as evidências mencionadas demostram que é altamente improvável que qualquer causa(s) meramente social(ais), como erros educativos, desorganização familiar, desvantagem social, entre outros, possam acarretar o aparecimento da PHDA. Estes fatores podem contribuir para o desenvolvimento de comportamentos agressivos, de oposição ou desafio, mas não têm qualquer implicação ou influência na origem da perturbação.
Por conseguinte, e atendendo às evidências de diversos estudos recentes, tudo indica que a PHDA se deve ao esgotamento de determinados mensageiros químicos na zona frontal do cérebro, sendo que a sua causa principal estará relacionada com a geneticidade (Selikowitz, 2010: 129).
Posto isto, e após conhecermos a evolução conceptual da designação de PHDA, a sua definição, características e problemas associados, bem como as possíveis causas que a originam, importa agora saber como é realizada a avaliação e o diagnóstico. Assim sendo, este assunto será debatido no ponto que se segue.