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CAPÍTULO 1 – AS FILHAS DO GANHO

1.4 ALGUNS REFERENCIAIS NO CONTEXTO DAS GANHADEIRAS

Quem foram as ganhadeiras? Ao que nos remete esse grupo? Em que conjuntura e circunstâncias elas surgiram? Essas foram algumas das primeiras perguntas que me fiz no

25 No momento em que esta tese estava sendo revisada para ser depositada na biblioteca setorial da Escola de

Música (UFBA) e central, da UFBA, o grupo finalizou a gravação em estúdio de seu primeiro CD, encontrando-se na fase de mixagem final para posterior prensagem.

início da pesquisa. E as respostas foram surgindo à medida que compreendi que os integrantes do grupo acompanhavam a ideia do que era importante e/ou essencial para sua comunidade aprendiz.

O início da trajetória das Ganhadeiras foi pensado, muitas vezes, a partir de como seriam concebidos os modos e as características que se tornariam comuns ao grupo e em torno dos quais todos se desenvolveriam, também sobre o que era representativo naquela microcomunidade para sua comunidade itapuãzeira, entendendo que suas realizações deveriam ser passadas de geração a geração. Essas preocupações retratam o que podemos entender como parte de uma postura diante do fenômeno da educação que, segundo Brandão:

(...) é, como outras, uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação que produzem e praticam, para que elas reproduzam, entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras de trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos, através de trocas sem fim com a natureza entre os homens, trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita, e desde onde ajuda a explicar de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem. (BRANDÃO, 1995, p. 10)

Artisticamente, compreendemos que, de forma lúdica e teatral, o grupo permitiu que conhecêssemos um pouco mais da história que não é só baiana, mas, sim, brasileira, pois a história das ganhadeiras faz parte de uma realidade em várias regiões do país, como atestado por outros relatos (REIS, 1987, 1997; REIS, 2001; ANDRADE apud SOUZA, 1987; ROCHA, 2004; BEGARD, 2004; PINTO, 2009). Dentre eles, citamos ainda Bittencourt (2004, p. 18) que, em sua pesquisa, descreveu sobre a condição da mulher escrava no sistema imperial no Brasil e no Rio Grande do Sul, destacando as condições de sobrevivência, as profissões que couberam a essas mulheres, o relacionamento que se processou a partir dessa convivência e a importância das mulheres negras escravas na construção histórica brasileira.

Quanto às atividades exercidas pelas mulheres escravas, podia-se encontrar: a) escravas de eito; b) escravas de ofício ou de aluguel, dentre as quais – encontrado no Jornal do Comércio (1859-1860) – as escravas de ganho, que ofereciam, diariamente, pelas ruas, os seus serviços ou produtos (BITTENCOURT, 2004, p. 15).

[Elas] Deveriam efetuar o pagamento de uma renda fixa, como parte do estabelecido26. A estas era permitido viverem independentes, longe de seus proprietários, em quartos alugados com seus filhos, pagando o aluguel com seus próprios ganhos, destituindo o senhor de obrigações quanto à sua alimentação e vestuário. (...) Nas cidades, as mulheres escravas podiam ser vistas pelas ruas vendendo de tudo: frutas, verduras, comidas prontas, doces, pão, água, porções [sic] mágicas, flores, cigarros, velas. A produção ocorria em casa de suas senhoras com ou sem a participação delas no fabrico. Essas negras escravas, muitas vezes, extrapolavam ‘as suas funções de vendedoras e desempenhavam outras, como de benzedeiras e líderes religiosas’, práticas estas proibidas no período imperial e inseridas no Código Criminal, Capítulo III, § 264, caracterizadas como crime de estelionato. (BITTENCOURT, 2004, p. 15)

O fato de estarmos tratando de um grupo que nos remete a uma história desconhecida para muitos, inclusive para pessoas da própria comunidade itapuãzeira, trouxe, no arcabouço de suas ideias, a necessidade de informá-las sobre um passado não só importante para os baianos, mas pensado no sentido de sua forte ramificação. Isso se deve ao alcance dos tentáculos culturais da Bahia pela região onde se insere – o Nordeste, bem como para outras regiões, por ser um dos estados mais pesquisados, estudados e visitados em todo Brasil, sendo o mais rico de sua região político-geográfica e com maior exploração do turismo comparativamente. Como toda metrópole, todavia, padece de sérios problemas sociais, como o racismo, a violência, principalmente contra a mulher27, além de problemas, ainda, de

26 Este tipo de acordo, a princípio, era lucrativo, “na medida em que a administração passava a estipular uma

quantia (jornal) que o cativo deveria lhe pagar (diária ou semanalmente), para ter essa liberdade de circulação pelos núcleos urbanos. Os escravos que trabalhavam nestas condições obtinham vantagens, pois assim que pagavam a quantia estipulada pela administração, o restante do dinheiro ficava em sua posse, criando-se com isto uma alternativa para o escravo acumular um pecúlio e adquirir sua carta de liberdade” (SANTOS, 2002, p. 351).

saneamento e infraestrutura. Com cerca de três milhões de habitantes28, a educação ainda é um problema preocupante29 na terra em que se diz que “Baiano não nasce, estreia”, referindo- se a um lugar extremamente profícuo do ponto de vista artístico, principalmente, em relação à música, ao teatro e à dança.

Ao escolher o grupo, o interesse para a pesquisa não esteve adstrito a estudar algo, necessária e representativamente local e típico, uma vez que tal noção é construída, moldada por fatores sociais com forte tendência ao estereótipo, mesmo porque o fato de uma manifestação ser considerada típica ou não, de modo algum, inibiria a análise sobre a multiplicidade de aspectos que a envolvem. Como manifestação cultural, o grupo tem seu valor próprio e cumpre sua função social, e isso é o que o torna digno de ser objeto de um estudo científico. Por volta dos anos 90, acredito que existia a ideia de que a academia via grupos da cultura popular como algo “folclórico”, no sentido talvez pejorativo, ou muitas vezes, como práticas de um “amontoado de coisas pitorescas”, segundo palavras de Carlos Brandão (1995, p. 104), situação que, nos últimos anos, vem se modificando. O que existe, de fato, ainda hoje, é uma preservação de tipos de saberes comunitários por meio de sua transferência.

Tudo o que é importante para a comunidade, e existe como algum tipo de saber, existe também como algum modo de ensinar. Mesmo onde ainda não criaram a escola, ou nos intervalos dos lugares onde ela existe, cada tipo de grupo humano cria e desenvolve situações, recursos e métodos empregados para ensinar. Mesmo os adultos, o saber, a crença e os gestos que os tornarão um dia o modelo de homem e de mulher que o imaginário de cada sociedade – ou mesmo

baianos. (...) O programa visa diminuir a violência, especialmente os homicídios, em toda Bahia. (...) também foi destacada a violência contra a mulher – a Bahia é o estado do Nordeste que mais registra agressão contra a mulher, com 30% dos casos. Em Salvador, são 25 queixas do tipo por dia.” BA: Conquista está entre os 20 municípios com maior índice de homicídios. (NÚCLEO DE NOTÍCIAS, 2011).

28 Consoante o IBGE, a população estimada do Município de Salvador, em 1º de julho de 2008, foi de

aproximadamente 2.948.733 pessoas (SUPERINTENDÊNCIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES, 2012).

29 V. reportagem sobre a situação da Educação na Bahia. Disponível em:

de cada grupo mais específico, dentro dela – idealiza, projeta e procura realizar. (BRANDÃO, 1995, p. 22)

Brandão (1995, p. 106) nos explica que, dentro de grupos sociais, como a “escola de samba”, o “bloco de bairro”, como no caso desta pesquisa, ou seja, grupos da cultura popular, os “subalternos” (em relação à classe dominante, detentores do poder econômico, social e político) criam e recriam a sua própria educação, que não existiria só para difundir o saber, mas para reforçar o resistir, como explicitou Chizzotti:

Sejam lavadoras (sic), sejam domésticas, cuidando da vida, das crianças, do trabalho meramente doméstico, se organizam mostram, nas agremiações de bairro, nas associações religiosas, nos encontros informais, nas participações em reivindicações fundamentais para a sobrevivência da sua família o sentido denso de significado social e político que contém essas práticas. (CHIZZOTTI, 1992, p. 89)

Essa citação nos reporta à concepção de Gramsci sobre os “subalternos” por ele chamados de “intelectuais orgânicos”. Para Golfe (1999, p. 17), o intelectual orgânico é o intelectual marxista, isto é:

aquele que nasce, cresce, movimenta-se dentro das bases; representa as bases e não perde o vínculo de ligação entre ele, o intelectual, e o grupo que representa; compartilha dos problemas enfrentados pela sociedade e tenta interpretá-los, difundindo assim sua ideologia [conhecimento de mundo] para que esta se torne cada vez mais hegemônica.

Segundo Gramsci, “toda relação hegemônica é uma relação pedagógica”. Nessa expressão, Gramsci quer ressaltar o significado particular que o termo “intelectuais” adquiriu em sua obra: “intelectuais são as ‘células vivas’ dentro de um organismo ou organização chamada sociedade” (GOLFE, 1999, p. 17). É muito importante o modo de ação das “células da sociedade” – “não se cansar jamais de repetir os próprios argumentos (variando literariamente a sua forma): a repetição é o meio didático mais eficaz para agir sobre a mentalidade popular” (GRAMSCI, [?], p. 129 apud GOLFE, 1999, p. 20), ao que Golfe

comenta que a repetição era pensada, então, para provocar o surgimento de intelectuais provindos diretamente das massas e, nesse sentido, parece-lhe estar uma das melhores estratégias para um trabalho popular deixado por Gramsci. No seu entender, “a relação intelectual-massa é uma relação pedagógica, de ensino-aprendizagem” (GOLFE, 1999, p. 20).

Esta relação é semelhante a que acontece na sala-de-aula: ‘o professor bom’ nunca se considera formado, acabado, pronto; isto também porque a realidade, o conhecimento está em contínua mudança; a realidade não é estática; ela exige aperfeiçoamento constante. Assim também ocorre com o intelectual no meio da massa: ele nunca deve considerar-se ‘pronto’, perfeito, mas sempre tem algo a mais para aprender do povo e para ensinar-lhe. Ao falar deste ‘meio didático’ Gramsci estava certamente referindo-se à política (partidos políticos). Hoje percebemos a necessidade de planos, estratégias, meios didáticos eficientes nos mais diversos trabalhos. Especialmente a Igreja em seu trabalho pastoral pode aprender muito de Antônio Gramsci; para a eficiência na divulgação dos ideais cristãos. (...) Mesmo na moderna educação fala-se muito em planos, planejamento de ensino, plano de aula, plano de unidade... Tudo isto visando um melhor aproveitamento, um melhor aprendizado, uma melhor formação. (GOLFE, 1999, p. 20-21)

Diante dessas afirmações, entende-se que, ao falar dos intelectuais orgânicos em nossa sociedade e da dimensão pedagógica que contém a relação intelectual-massa, na concepção gramsciana, é difícil desvencilhar o pensamento político do pedagógico (da natureza pedagógica). Todavia, mais importante é lembrar que as articulações, quer sejam pedagógicas, políticas e educativas, estão imbricadas nessa relação, inseridas no “plano de aula”, “planejamento de ensino”, “plano de ação” ou quaisquer dos planos pensados para esta relação intelectual-massa. Além disso, Golfe explica que a ação dos intelectuais no meio das massas “deve ser a tentativa de elevar as consciência (sic): elevando-lhes do senso comum à consciência filosófica. Esta elevação acontece através de um processo de reforma intelectual e moral; esta reforma caminha junto com a economia e a política” (GOLFE, 1999, p. 21).

Em síntese, visto que a questão do “intelectual orgânico” é bastante abrangente e sua conceituação refere-se a um amálgama de relações dentro da sociedade, pontualmente, pode-

se afirmar que o intelectual que emerge dos escritos de Gramsci é “orgânico” (voltado a impulsionar a sociedade inteira, não apenas uma parte), democrático (determinado a superar a relação de poder-dominação) e popular (sintonizado com a cultura e os projetos hegemônicos dos “subalternos”) (SEMERARO, 2006, p. 15).

Assim, por estar se tratando do estudo de um grupo social de conteúdo pedagógico, é importanto entender como acontecem as relações de saberes e como a formação está sintonizada com a cultura de seus intelectuais, cujos planos de base traçam fundamentos democráticos e de transformação social. Tais questões, por conseguinte, foram pensadas e formuladas a partir do substrato existente de veio eminentemente popular.

Segundo Chauí, o termo popular possui vários significados simultâneos, sendo, por isso, multifacetado.

Significa, por exemplo, a capacidade de um intelectual ou de um artista de apresentar ideias, situações, sentimentos, paixões e anseios universais que, por serem universais, o povo reconhece. Significa também a capacidade para captar no saber e na consciência populares instantes de revelação, que alteram a visão de mundo do artista ou do intelectual, os quais, não se colocando em uma atitude paternalista ou de tutores do povo, transformam em obra o conhecimento assim adquiridos. Significa, ainda, a capacidade para transformar situações produzidas pelas condições sociais em temas de crítica social identificável pelo povo. Significa, por fim, a sensibilidade capaz de ‘ligar-se aos sentimentos populares’, exprimi-los artisticamente, não interessando, aqui, qual o valor artístico da obra. Na perspectiva gramsciana, o popular na cultura significa, portanto, a transfiguração expressiva de realidades vividas, conhecidas, reconhecíveis e identificáveis, cuja interpretação pelo intelectual, pelo artista e pelo povo coincidem. Essa transfiguração pode ser realizada tanto pelos intelectuais ‘que se identificam com o povo’ como por aqueles que saem do próprio povo, na qualidade de seus ‘intelectuais orgânicos’. (CHAUÍ, 2006, p. 19-20)

Os intelectuais orgânicos, na visão de Brandão (1995, p. 107), surgem quando alguns setores populares começam a descobrir formas novas de luta e resistência, passando a descobrir, igualmente, formas de “atualizar” o seu saber, de torná-lo orgânico. Todo o

trabalho que sustenta a forma de vida dessas pessoas possui sua complexidade em termos de saberes, tanto quanto é suportado por sistemas próprios de reprodução do saber popular, participante de redes e estruturas pedagógicas, o que Lave e Wenger (1991) chamam de “conhecimento situado” (sobre o que será expandido um pouco mais no capítulo 2). De acordo com Brandão (1995, p. 105), isso está presente na capoeira da Bahia, nas confrarias populares de foliões de Santos Reis, numa quadrilha de pivetes ou numa equipe rústica de construtores de casas. Assim, o grupo escolhido nesta pesquisa também se enquadraria neste perfil, originalmente surgido como parte das dramatizações em um Terno de Reis ou Folia de Reis, manifestação da cultura popular de caráter religioso e que habitualmente se organiza inicialmente por causa de uma graça desejada (TEIXEIRA, 2009, p. 17). Segundo Teixeira (2009, p. 32):

A Folia de Reis é instituída pelo seu canto, e os Reseiros não são capazes de se apresentarem sem ele. O canto conta a história, a vida do menino Jesus e a vida dos Reseiros, o canto apresenta o ser, este significa o Ser Divino e o ser entificado. O aedo30 está nas passagens de felicidade e tristeza dos Reiseiros que eles colocam para fora enquanto cantam seu canto. É pelo canto que os Reiseiros expõem a apresentação de suas verdades. A verdade deles se apresenta como desvelamento. Aquilo que se mostra é a verdade.

E assim, mais uma vez, percebe-se como o lugar dos saberes das Ganhadeiras, como na Folia de Reis, estava inscrito na representatividade de seu canto, marca distintiva de sua manifestação. Talvez isso explique o encantamento que a audição do grupo causava em seus ouvintes, o que me faz retornar ao início deste capítulo, reproduzindo minhas próprias palavras, ao relatar o primeiro contato que tive com aquelas vozes: “‘Somos um corpo só’, diriam elas, uma só voz bradando sons de outrora, remontando a uma época em que as vozes, por vezes, eram sufocadas pelo trabalho; outras vezes, aliviavam a labuta diária”.

30 Aedo. sm (gr aoidós) Cantor ou poeta religioso ou épico da antiga Grécia, principalmente do grupo dos que

Hoje, compreendo que não eram apenas as vozes, as músicas ou a atmosfera que pairava no ambiente per se, mas era a exposição de suas verdades através do canto, através da arte que estava sendo explicitada; sua resistência, sua força e sua veracidade tocaram-me a ponto de me impulsionar a querer entender e pesquisar aquele grupo.

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