8 A economia gaúcha no ano 2000: futurologia no passado
8.1 Alguns traços históricos e o passar do tempo
O que é 01.01.01? Na classificação das áreas do conhecimento humano usadas pelo Ministério da Educação, pode ser álgebra, construção civil, clínica médica, etc. Para nós outros, míseros mortais, pode ser uma data a anotarmos num bilhete, cheque ou algum contrato. É uma data futura, caso prossigamos mantendo um sistema usual de marcar o tempo, que funciona muito bem no meio dos séculos. Será que 1o. jan.01 melhora a comunicação? Quem nos dera que as preocupações relacionadas à chegada do ano 2000 tivessem apenas este caráter. Estão em jogo, de hoje até lá, muitas coisas, das quais se destacaria a reprodução das condições materiais de nossa existência. Como disse Umberto Eco: “Tudo pode ser. Mas só uma coisa é, ou foi, ou está sendo.” Pensando, assim, no que e como as coisas foram ou são é que podemos esclarecer nossos próprios desejos de como elas devem ser.
Há cerca de dez anos, tomava corpo uma nova forma de se “contar” a história econômica do Rio Grande do Sul. Nessa época, jovens economistas e historiadores passaram e enfatizar como fio condutor dos acontecimentos a integração da economia estadual à nacional. As estatísticas econômicas que podem ser usadas para fortalecer ou não essas hipóteses se tornam mais abundantes à medida que o tempo passa. Com efeito, a partir dos anos 1940, dispõe-se de dados macroeconômicos de razoável grau de qualidade descrevendo o comportamento da economia gaúcha. Sua existência acendeu intensa polêmica.
Considerando que a economia brasileira se caracteriza por notável dinamismo, ainda que este às vezes arrefeça seu ritmo ao sabor de flutuações cíclicas, o Rio Grande do Sul pode-se considerar uma região privilegiada por se atrelar ao resfolegar de tal gigante. Caso tomemos como referência o período pós-guerra, podemos identificar quatro fases de articulação econômica entre o país e sua região mais meridional. No primeiro período, que vai de 1947 a 1959, temos os movimentos de recessão, expansão e nova recessão no produto gaúcho, época em que sua taxa de crescimento se encontra sempre acima da taxa do produto brasileiro.
A partir de 1960, a economia brasileira se defronta com nova e forte recessão, que é naturalmente sucedida por um período de notável euforia. Esse período veio mesmo a ser chamado de “milagre brasileiro”, por analogia ao extraordinário crescimento experimentado pelo Japão nos anos 1950 e 1960. Nele, ora a região, ora o país alcançavam taxas de crescimento as mais significativas. A partir de 1973, a economia gaúcha passa a experimentar novo surto de crescimento, em níveis superiores aos do Brasil. Tal situação ocorre até o início dos anos 1980, quando podemos sustentar que se inicia a quarta fase desse período. Em certo sentido, esta é a fase mais importante. É importante não só por ser aquela em que o sistema econômico estadual alcançou seu maior grau de amadurecimento, mas também porque sempre achamos mais importantes os problemas que estamos vivenciando, em detrimento dos já vencidos. Existe, porém, uma terceira razão para considerarmos a fase atual da economia gaúcha como a mais importante. Se não, vejamos.
O período 1950-85 protagonizou mudanças estruturais impor- tantes no sistema produtivo estadual, como, por exemplo, o maior crescimento do setor industrial relativamente ao agrícola, e a consolidação de um setor serviços que passou a ser hegemônico na geração da renda estadual. Ademais, as transformações que ocorre- ram na economia mundial a partir da crise do petróleo de 1973 de- sencadearam um novo surto de desenvolvimento tecnológico relacionado à viabilidade econômica de novas formas de geração de
energia. Também desse período emergiu o desenvolvimento da indústria da informática, da cibernética e da robótica, que transformarão definitivamente a divisão do trabalho dentro da fábrica, e o farão em escala muito maior do que a máquina a vapor o fez há 200 anos.
Sabe-se que o sistema capitalista gera ciclos de negócios caracterizadores de diferentes estruturas econômicas – e disto os economistas têm se convencido com renitente frequência. Então podemos pensar que antes do ano 2000 o Rio Grande do Sul estará vivendo uma quinta fase. Evidentemente, será uma fase de maior ou menor prosperidade, na medida em que a economia brasileira resolver de modo mais ou menos satisfatório os problemas de natureza conjuntural que hoje a afligem: déficit público, déficit nas contas internacionais, inflação e/ou congelamento de preços e desemprego. Existem, ainda, desafios muito mais perenes que também necessitam de respostas definitivas. Kenneth Boulding (1966), ao falar do futuro da humanidade, cataloga três ameaças para que se alcance um nível de prosperidade superior ao que tem caracterizado todo o período civilizatório: a explosão demográfica, a deterioração do meio ambiente e a hecatombe nuclear.
Tudo isto nos aguça a curiosidade no sentido de vislumbrarmos como será um futuro não tão próximo, do qual somente veremos brumosos e incertos eventos, mas tampouco tão longínquo, a ponto de nos eliminar enquanto testemunhas durante o percurso. O ano 2000 é emblemático por tudo isto. É distante, mas não tanto, é enigmático, mas não em demasia. E hoje, como salientamos, é mais fácil especular sobre ele do que há alguns anos. Com efeito, no final dos anos 1960, quando o homem pisava o solo lunar, surgiu nos Estados Unidos um livro chamado de O ano 2000, de autoria de Kahn e Wiener (1968). Entre outras traquinices, sugeria que se fizesse um grande lago na região amazônica, o que recebeu pronta resposta, entre outras, do então futuro ministro Simonsen.
As tentativas desastradas de se especular sobre o futuro, porém, não devem impedir que, com as devidas precauções, exercitemos nossa imaginação com o objetivo de anteciparmos certos eventos.
Com efeito, o desejo de conhecer o futuro é talvez uma das mais antigas características da natureza humana. No pensamento econômico, foi Keynes o primeiro a destacar as questões da incerteza e da falta de informação que caracterizam os tempos por vir.
Procurando vincular ainda mais fortemente as noções de passado e presente às de região e país acima apresentadas, cabe registrarmos que as mais recentes visões interpretativas do Rio Grande do Sul apresentam o mais sulista de todos os estados brasileiros como desempenhando duas funções importantes no concerto produtivo nacional. De um lado, fala-se da função de geração de divisas cambiais para o país. Originando-se principalmente das atividades exportadoras de soja e calçados, essas divisas têm sido aplicadas na aquisição das importações que têm favorecido a modernização do parque industrial de todo o país. De outro lado, as interligações do parque industrial estadual sugerem uma boa dose de especialização da produção gaúcha de bens na geração de insumos para os demais estados. Tal especialização na produção de bens intermediários, na verdade, não se restringe apenas à produção industrial, como o ilustram a produção de animais em pé, a de arroz e a de soja, ao longo da história: trata-se de produzir e de exportar aos demais estados produtos que entram como ingredientes (insumos) em sua produção agrícola, industrial e na própria força de trabalho (alimentação dos trabalhadores).
O que não tem recebido grande ênfase quando se fala da economia gaúcha é o papel que cabe a seu setor serviços. Isto se explica por duas razões: primeiro, é mais fácil entendermos a importância da produção de mercadorias tangíveis, chamadas pelo economista de “bens”, o que acontece apenas nos setores agrícola e industrial. Segundo, o setor serviços com efeito é em boa medida caudatário dos movimentos que acontecem nos setores produtores de bens. Na verdade, o setor serviços, ao longo do tempo, tem aumentado substancialmente seu peso na geração de renda de todos os países capitalistas. Isto nos leva a crer que a “terciarização” da economia gaúcha tem ocorrido de modo não deliberado, endógeno
e, por isto mesmo, mais importante. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade que sentimos de vislumbrar e entender os futuros rumos da evolução da economia estadual, o que pode permitir-nos remover os anteparos que se colocam a uma trajetória mais luzidia.
Redescobrindo o tempo com Keynes, o economista moderno imediatamente passou a se dar conta de que a política econômica é a ponte que liga o passado ao futuro, uma vez que deve ser utilizada para dar o curso desejado a certas variáveis básicas. Deste modo, o planejamento deve ser entendido como a concepção, implementa- ção, avaliação e modificação de uma série de medidas de política econômica que interceptam certas variáveis no presente e lhes dão novo rumo, depositando-as no lugar desejado de um futuro previsí- vel.