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CAPÍTULO 3 – Forasteiros fugitivos

3.2. Aliados nas fugas

Bezerra Neto identificou as fugas em grupos como uma das principais características da resistência escrava no período de 1840-1860, na província paraense, senão na própria Amazônia.45 No período posterior, de 1860-1888, todavia, o autor percebeu uma diminuição relativa das fugas em grupos.46 Eduardo Silva também chamou a atenção para a maior incidência de fugas individuais em São Paulo, sobretudo nas ultimas décadas do período escravista.47

Os dados compilados na tabela 17 mostram que, também em Campinas, muitos escravos fugiram sozinhos nesse período. Por outro lado, o número de cativos que fugiram acompanhados também foi bastante grande, representando 46,4% dos fugitivos. E essa

42 Robert Slenes, “The Brazilian internal slave trade…”, op. cit. 43

“Auto de perguntas ao ofendido Joaquim”. Processo Crime. Réu: Paulo, escravo de Alfredo Franco de Andrade, Campinas, 1886. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 259, Documento 006.

44 Como observado no capítulo 2 desta Dissertação, a ida à polícia após crimes enquadrados na lei de 10 de

junho de 1835 esteve muitas vezes relacionada à tentativa de proteção frente ao arbítrio senhorial. Para uma discussão detalhada sobre essa prática, conferir Maria Helena P. T. Machado. Crime e escravidão..., op. cit., p. 70; Ricardo Pirola. Escravos e rebeldes nos tribunais do Império..., op. cit., p. 224-5.

45 José Maia Bezerra Neto. Fugindo, sempre fugindo, op. cit., p. 133. 46

José Maia Bezerra Neto. Fugindo, sempre fugindo, op. cit., p. 193-4.

47 João José Reis e Eduardo Silva. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo,

proporção se inverte quando se trata dos forasteiros: 54,7% deles fugiram em duplas ou grupos maiores, enquanto essa proporção é de 27,3% entre os campineiros.

Tabela 17 – Distribuição dos escravos em fugas coletivas e individuais, segundo a década (Campinas, 1860-1888).

Período

Escravos que fugiram

sozinhos Escravos que fugiram acompanhados

N % N %

Década de 1860 04 57,1 03 42,9

Década de 1870 280 53,2 246 46,8

Década de 1880 43 55,8 34 44,2

Total geral48 327 53,6 283 46,4

A diferença proporcional entre as fugas coletivas de forasteiros e campineiros é um dado bastante relevante, que pode estar relacionado a dois fatores. Primeiro, o fato de que há um número muito maior de publicações comunicando a evasão de forasteiros do que de campineiros, o que por si só já diminui, estatisticamente, a possibilidade de encontrar uma grande proporção de fugas em grupos entre os campineiros. Em segundo lugar, todavia, podemos sugerir que os forasteiros tenham sido prodigiosos em construir redes de solidariedade em torno do desejo de escapulir do domínio senhorial.

O maior grupo de cativos cuja evasão foi anunciada na Gazeta de Campinas conta uma história bastante interessante. Eram 19 cativos que fugiram juntos da Fazenda do Bom Café, em Ouro Fino, Minas Gerais, no cair da noite de 08 de julho de 1877, levando consigo 5 a 6 animais com carga e de montaria.49 De acordo com o administrador da fazenda, os fugitivos queriam ser vendidos em Campinas e, por isso, teriam fugido com destino ao município paulista. O administrador destacou ainda que esses cativos eram muito conhecidos na Fazenda das Dores e arredores. O grupo era formado de pessoas jovens, com idades

48

Nesta tabela foram contabilizados todos os fugitivos que aparecem nos anúncios publicados na Gazeta de Campinas, inclusive os reincidentes, elevando o total de pessoas fugidas para 610.

49 Anúncio de fuga dos escravos Ambrósio, Benedita, Benedito, Bonifácio, Crispim, Eva, Jesuíno, João

Candimba, José, Justina, Luísa, Mariano, Martinho, Paulo, Pedro, Pulquera, Sérgio, Teodoro e Vicência. Gazeta de Campinas, nº 1080, 12 de julho de 1877. Estes escravos não foram contabilizados na tabela 3.7, pois o local da fuga não foi Campinas, mas sim Minas Gerais.

(identificadas) entre 12 e 20 anos. Havia três casais na caravana, um deles levava o filho de 12 anos. Entre eles havia um africano, um baiano, um mineiro e outros 16 crioulos cuja localidade de origem não foi informada no anúncio.

Esta história mostra, como já observou Bezerra Neto, que há um importante nível de planejamento e organização política em planos de evasão como este, “os quais eram alicerçados nos laços de camaradagem enraizados nas experiências vivenciadas na escravidão”.50

Afinal, não devia ser nada fácil se locomover de modo oculto em uma caravana tão grande de pessoas e animais andando pelas estradas e matas de Minas Gerais até Campinas. As diferenças de origem não parecem ter sido nenhum obstáculo para que assim o fizessem.

O conhecimento do administrador a respeito do desejo dos cativos de serem vendidos em Campinas é bastante curioso. É provável que o grupo tenha tentado negociar tal anseio com o senhor antes de intentar a fuga, que então se configurou como alternativa diante do insucesso de um acordo privado com o senhor.

As alianças que os cativos construíam para as fugas poderiam ser não apenas os parceiros de evasão, que se uniam em fugas coletivas, mas também outros escravos da senzala que os ajudavam a se esconder ou lhes forneciam alimentos,51 e também indivíduos libertos ou livres. A bibliografia mostra inclusive outros senhores que escondiam fugitivos ou os contratavam para seu próprio serviço. Dessa forma, os cativos em fuga poderiam de certa forma exercer a liberdade.52

A prática de auxiliar e acoitar os escravos fugitivos se ampliou ao longo do tempo, ainda que os grupos abolicionistas só o tenham assumido a partir de 1887, haja vista sua ilegalidade.53 Maria Helena Machado considera, todavia, que os caifazes – grupo que se tornou famoso por auxiliar as fugas de escravos em São Paulo – teriam começado a agir já em 1883.54

Os chamados acoutadores eram uma pedra no sapato senhorial. O anúncio da fuga do escravo Belizário traz uma narrativa bastante interessante a esse respeito.

50 José Maia Bezerra Neto. Fugindo, sempre fugindo, op. cit., p. 134. 51

Por exemplo, Luís, que estava fugido para evitar castigos e “vinha todas as noites ter com alguns escravos seus companheiros”. O caso será explorado em detalhes posteriormente. Cf.: Processo Crime. Réu: Luís, escravo de Joaquim Teodoro Teixeira, Campinas, 1865. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 212, Documento 014.

52

José Maia Bezerra Neto. Fugindo, sempre fugindo, op. cit., p. 175. Sobre os escravos fugidos que acabavam servindo a outro senhor ver também Silvia Hunold Lara. Campos da Violência: Escravos e Senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 244; Mary C. Karasch. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 407.

53

Maria Helena P. T. Machado. O plano e o pânico: Os movimentos sociais na década da abolição. 2ª Ed. Rev. São Paulo, Edusp, 2010, p. 135.

“Este escravo esteve na véspera da fuga conversando com um sujeito na beira da estrada que vem de Piracicaba ao Rio Claro passando por terras do abaixo assinado. Esse sujeito é vendedor de escravos, ou dá-se como tal, e desconfia-se que tenha induzido o escravo a fugir ou que o tenha acoutado”.55

Belizário era campineiro e o senhor era de Piracicaba. Se a suspeita do senhor era verdadeira, é possível supor que Belizário buscasse no tal vendedor de escravos uma possibilidade de volta ao município de Campinas.

Outro caso curioso em que o senhor anunciante menciona um sedutor de escravos é do escravo José, da firma Viana & Irmãos, em Limeira. Ele teria sido induzido a fugir por “um mulato claro, forro ou livre, mineiro, de nome Martinho Jerônimo, que servia de carreiro e parece ter roubado um burro arreado”.56 A origem de José não é informada no anúncio, mas destaca-se que ele havia sido comprado em Campinas, do negociante João Mourthé, e, por isso, devia ser conhecido na cidade e provavelmente teria se dirigido para lá. Há também a suspeita de que tenha se dirigido para Mogi Mirim ou para São Paulo.

O pequeno Isaías, que fugiu em 1874, quando tinha por volta de 12 anos, também teria tido um sedutor, mas dessa vez um muito especial. Ele teria sido induzido a fugir “pelo próprio pai, morador então em Cambuí, conhecido por aí por João Marceneiro, desaparecendo deste lugar no fim do mesmo ano de 1874”.57

A comunicação com os elementos escravos, libertos e livres da sociedade foi especialmente observada pela historiografia a respeito da sobrevivência das comunidades de fugitivos no período escravista.58

Em Campinas, teve-se notícia de um grande projeto de aquilombamento em 1886, quando a captura do fugitivo José Mourthé resultou numa série de revelações assustadoras para os munícipes.59 Fugido da fazenda do Major João Francisco de Andrade Franco por cinco meses, José se uniu a outros seis quilombolas,60 sendo quatro cativos do mesmo senhor e outros dois cativos de outros dois senhores. Os fugitivos passavam as noites em um antigo

55 Anúncio de fuga do escravo Belizário. Gazeta de Campinas, nº 947, 25 de janeiro de 1877. 56 Anúncio de fuga do escravo José. Gazeta de Campinas, nº 1065, 22 de junho de 1877. 57

Anúncio de fuga do escravo Isaías. Gazeta de Campinas, nº 1012, 19 de abril de 1877.

58 Flávio dos Santos Gomes. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil (séculos XVII-XIX). Tese

(Doutorado em História), Unicamp, Campinas, 1997, p. 02, 11; Mary C. Karasch. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, op. cit., p. 411.

59

Nota-se que o sobrenome do cativo é o mesmo do grande negociante de escravos de Campinas, João Mourthé. Todavia, não foi possível identificar alguma relação que o escravo José tenha tido com ele nas fontes de que dispomos. Processo Crime. Réu: José Mourthé, escravo de João Francisco de Andrade Franco, Campinas, 1886. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 259, Documento 005.

60 A palavra ‘quilombola’ é utilizada no processo, porém não é possível sabermos se saiu de fato da boca do réu

galinheiro nas terras do Major, “que tinha de servir de quilombo a eles até a próxima segunda- feira de hoje a oito dias”.61

Mourthé contou que eles “esperavam se reunir com outros muitos escravos do bairro das Cabras e seguirem para (...) [a] Fazenda de Rafael Luís Pereira da Silva no lugar chamado Coqueiros, sítio de Inocêncio Queirós, onde deviam se internar com grande quilombo”.62 As declarações de José Mourthé foram parar nos jornais e repercutiram causando grande temor no município.63 Dias depois, o escravo Messias, pertencente a João Novaes de Camargo, teve sua perna amputada em razão de tiros de revólver disparados por Augusto Camargo, administrador da fazenda das Palmeiras. O interrogatório tomado ao réu é longo, mas vale a pena transcrevê-lo na íntegra, já que elucida a repercussão causada pelo depoimento de José Mourthé.

“que na sexta-feira da semana em que os jornais desta cidade anunciaram as declarações feitas à polícia pelo quilombola José Mourthé, que acha-se [sic] preso por haver resistido à prisão, teve o interrogado receio de saber que na fazenda que administra acoutavam-se dois quilombos em um galinheiro do pasto, já abandonado e que servira para hospital de bexiguentos, os quais foram vistos ali completamente armados com uma garrucha de dois canos e outra de um, pelos os [sic] escravos da fazenda de nomes Cirilo e Elias, os quais aterrados de ali encontrá-los, correram em gritos a dar parte ao interrogado que logo veio ver e encontrou vestígios como fossem o lugar onde estavam deitados conservava-se ainda quente; dois pedaços de cobertores deixados por eles quilombolas; uma leitoa morta e o virado preparado da cabeça da mesma leitoa. Que desde essa noite a fazenda esteve em sobressalto, pois que a fama desses quilombolas aterrava a todos pelas más façanhas, como é público na Província inteira. Que na qualidade de administrador secundário, pois que o principal encarregado acha-se ausente do Município, ele interrogado não dormia conservando-se sempre vigilante, temendo que esses quilombolas seduzissem os escravos como pretendiam, pela declaração de José Mourthé, e que chegassem até a atentar contra a vida do interrogado, visto como já o fizeram no Domingo ultimo dessa semana na fazenda de Francisco Braga contra os agentes de força pública. Que descobriu às oito horas da noite de domingo, véspera da segunda-feira que constava pelo interrogatório de José Mourthé terem esses quilombos de reunir escravos fugidos na fazenda da Cachoeira, o escravo desta fazenda de nome Messias em outro galinheiro junto aquele, que servia de quilombo aos dois encontrados, mas quando viu esse preto tomara-o por quilombola”.64

61

Mais uma vez não é possível afirmarmos com certeza se a palavra “quilombo” foi utilizada por José. “Auto de perguntas ao réu José Mourthé”. AEL, CSP, ACI, Microf. CSP 259, Doc. 005.

62 “Auto de perguntas ao réu José Mourthé”. AEL, CSP, ACI, Microf. CSP 259, Doc. 005.

63 “Auto de perguntas ao réu Augusto Camargo”. Crime. Réu: Augusto Graciano de Camargo, Campinas, 1886.

AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 258, Documento 011.

64 Processo Crime. Réu: Augusto Graciano de Camargo, Campinas, 1886, “Auto deperguntas ao réu Augusto

Como já afirmou Flávio dos Santos Gomes, ao invés de permanecerem isolados, os grupos de fugitivos procuravam se manter próximos de locais que oferecessem auxílio estratégico, seja no suprimento de gêneros alimentícios ou até mesmo para o estabelecimento de relações socioeconômicas.65 Desse modo, afetaram toda a sociedade envolvente.66 Gomes ainda nos lembra que, em 1886, mesmo ano da captura de Mourthé, também alcançou grande repercussão a existência de uma comunidade de fugitivos supostamente organizada e dirigida por abolicionistas paulistas radicais, o Quilombo do Jabaquara.67

Anos antes, em 1880, foi capturado o fugitivo Bernardino, pertencente a Joaquim Góis.68 Ele estava fugido desde 1879, cometendo diversos delitos, sendo, por isso, indiciado em quatro processos, por crimes de ofensa física, tentativa de homicídio e homicídio.69 Seu interrogatório em juízo também é rico de detalhes a respeito das formas como passou o ano se ocultando, cometendo delitos e se relacionando com diversas pessoas, livres e escravos. Ele era baiano, mas conhecia muito bem a região, mencionando suas idas e vindas entre Indaiatuba e Campinas, o que data de pelo menos seis anos, uma vez que menciona ter comprado nesse tempo uma arma (garrucha) de um cativo de Indaiatuba.

Ele se uniu a outro fugitivo, Joaquim, escravo de Francisco Pompeu do Amaral, que também era baiano e trabalhador de roça, e morava com seu senhor há 20 anos.70 Joaquim também foi capturado e condenado em processo criminal pelo assassinato do administrador da fazenda de seu senhor. Nas declarações que prestou em juízo, Joaquim forneceu mais pistas sobre a área por onde se embrenhou junto com Bernardino, mostrando a capacidade de mobilidade e ocultação dos cativos. Ele contou ter sido capturado por dois indivíduos

“em terras da fazenda de Joaquim de Sampaio Góis, deste termo, onde estava oito dias em um rancho de palha por ele mesmo construído, havendo estado anteriormente durante meses na fazenda vizinha de Vicente de Sampaio Góis, e depois nos últimos três meses em terras da fazenda do Conselheiro Albino, tendo vindo à cidade de tempos a tempos fazer compras de mantimentos”.71

65 Flávio dos Santos Gomes. A hidra e os pântanos, op. cit., p. 16. 66 Flávio dos Santos Gomes. A hidra e os pântanos, op. cit., p. 11. 67

Flávio dos Santos Gomes. A hidra e os pântanos, op. cit., p. 564.

68 Processo Crime. Réu: Bernardino (vulgo Bernardo), escravo de Joaquim de Sampaio Gois, Campinas, 1880.

AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 243, Documento 004.

69

Processos Crime. Réu: Bernardino (vulgo Bernardo), escravo de Joaquim de Sampaio Gois, Campinas, 1880- 1882. AEL, CSP, ACI, Microf. CSP 243, Doc. 004; Microf. 243, Doc. 005; Microf. 244, Doc. 009; Microf. 244, Doc. 010; Microf. 248, Doc. 005.

70 Processo Crime. Réu: Joaquim, escravo de Francisco Pompeu do Amaral, Campinas, 1881. AEL, CSP, ACI,

Microfilme CSP 247, Documento 004. Registros da Meia Sisa de escravos da cidade de Campinas, 1862. CMU, CRC, Livro 33.

Juntos, os fugitivos construíram vários ranchos nas matas da redondeza para servirem de esconderijo. Todavia, quando precisavam de algum gênero alimentício, um dos dois se dirigia “tranquilamente” até à venda da cidade.

Aconteceu que Joaquim fugiu da cadeia e voltou a se esconder em um pequeno rancho nas matas do sítio do Conselheiro Albino José Barbosa de Oliveira.72 No ato de sua captura, ele teria resistido à prisão armado de uma foice e o paisano Sebastião Dias de Almeida findou sua vida com “um tiro de garrucha sobre a testa”.73

Mas este nem sempre foi o final das histórias de fuga. A bibliografia destaca a possibilidade de o fugitivo retornar à propriedade senhorial contando com a intercessão de uma pessoa “poderosa ou influente – um vizinho, senhor rico, padre ou membro de uma irmandade religiosa” para evitar o castigo.74 Como observa Mary C. Karasch, “se essa pessoa, conhecida como padrinho, concordasse em ajudá-lo, ia pessoalmente falar com o dono do escravo, ou pedia por carta seu perdão. Ignorar a intervenção do padrinho e punir o escravo era considerado um insulto”.75

Uma história contada em um processo criminal de 1871 ajuda a entender a importância que o apadrinhamento tinha para a sociedade escravista. O sítio de Francisco Bueno de Lacerda tinha por feitor Amaro Ferreira da Silva, “homem demasiadamente castigador”.76

O baiano José, um dos escravos de Lacerda, após ser castigado pelo feitor por “motivos frívolos”,77

determinou-se a fugir.

Todavia, com a fuga, José não buscava a liberdade, mas sim melhores condições de cativeiro. Ao invés de embrenhar-se na mata como muitos outros fugitivos, José dirigiu-se até a casa do Barão de Atibaia para pedir que ele o comprasse. O Barão disse ao escravo que o compraria e mandou um bilhete ao senhor Lacerda para combinar a transação. O senhor, no entanto, não concordou e mandou que o feitor e um camarada de nome João Lico de Camargo buscassem o fugitivo. José seguiu então com o feitor e o camarada de volta para o sítio do

72

“Depoimento do Oficial de Justiça João Gonçalves Pereira”, 02/05/1881. Processo Crime. Réu: Sebastião Dias de Almeida, Campinas, 1881. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 250, Documento 007.

73 “Depoimento do Oficial de Justiça João Gonçalves Pereira”, 02/05/1881. AEL, CSP, ACI, Microf. CSP 250,

Doc. 007.

74

Mary C. Karasch. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, op. cit., p. 413-414.

75 Mary C. Karasch. A vida dos escravos no Rio de Janeiro, op. cit., p. 413-414.

76 “Perguntas feitas a José, escravo de Francisco Bueno de Lacerda”. Processo Crime. Réus: João Lico de

Camargo e Amaro Ferreira da Silva, Campinas, 1871. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 225, Documento 006.

77 “Perguntas feitas a José, escravo de Francisco Bueno de Lacerda”. AEL, CSP, ACI, Microf. CSP 225, Doc.

senhor sob a promessa de que “fosse sossegado porque iria apadrinhado e não sofreria castigo”.78

Ter um padrinho podia garantir certa segurança ao fugitivo. Isso fica evidente em outro processo de 1864, que oferece dados sobre o fugitivo Jerônimo, campineiro. Depois de ser capturado pelo feitor escravo Benedito e outro escravo, ele seguiu o caminho de volta à fazenda do senhor solto, isto é, sem algemas, “por ter apresentado dois bilhetes de padrinho”.79

No episódio de 1871, todavia, o feitor Amaro Ferreira da Silva e o camarada João Lico de Camargo agrediram José no caminho e o levaram amarrado para o sítio do senhor.

Quando chegou ao destino, o escravo capturado foi levado para um local determinado para curar-se de seus ferimentos. Além de não castigar o fugitivo, o senhor Lacerda dispensou os serviços do feitor Amaro Ferreira da Silva. O desrespeito ao apadrinhamento foi considerado tão grave que um processo criminal foi iniciado com acusação de ofensas físicas praticadas pelo feitor e o camarada em José.

Outro episódio acontecido no mesmo ano de 1871 expõe a importância que o apadrinhamento tinha para os cativos e as possíveis consequências do desrespeito à prática. O caso aconteceu na fazenda de Joaquim Guedes de Godói e terminou com sua morte.80 O escravo Camilo, natural de Santos, assassinou o senhor a golpes de enxada após ser por ele castigado, porém contou em seu depoimento que apenas se adiantou em um projeto que era de toda a senzala. Contou que há vários dias “conversava-se no Sítio em assassinar o seu senhor”,81

combinação na qual também estavam presentes os escravos Gregório, Constantino, José crioulo, Feliciano, Honorato, Jacinto e Leandro.

Quando perguntado sobre quais motivos o levaram a assassinar o seu senhor, respondeu que

“seu senhor era mau; que não lhes dava licença alguma para plantarem, que