CAPÍTULO 2 – Forasteiros criminosos
2.1. Os crimes e os criminosos
Os crimes cometidos por escravos em Campinas ao longo do século XIX foram analisados detidamente por Maria Helena Machado, na obra Crime e Escravidão.1 A historiadora observou que, por meio de atos criminosos, os cativos tentavam impor determinados limites ao sistema disciplinar das fazendas, defendendo certa margem de autonomia e tratamento aceitável no cativeiro:
“(...) os grupos de escravos passavam a reivindicar, mais e mais abertamente, o cumprimento daquilo que se percebia como obrigações senhoriais. Um ritmo de trabalho próprio ao grupo, a injustiça dos castigos, os direitos à folga semanal, a alimentação e o vestuário, o recebimento de estipêndios pelo trabalho realizado a mais e a manutenção de uma economia independente na forma das roças e do pequeno comércio foram, muitas vezes, os argumentos que em seu conjunto justificavam os ataques violentos dos plantéis contra os senhores e seus feitores.”2
Maíra Chinelatto retomou a análise dessa documentação recentemente, em sua Dissertação de Mestrado, intitulada Quando falha o controle: crimes de escravos contra senhores.3 A historiadora analisou comparativamente os crimes de escravos contra senhores ocorridos na primeira e na segunda metade do século XIX (décadas de 1840 e 1870), acompanhando as transformações políticas e legislativas que a instituição escravista sofreu ao longo do século.
Chinelatto observou a predominância de africanos entre os criminosos da primeira metade do século e de crioulos de diversas regiões do Império, na segunda. Verificou, então, que nos dois casos, os cativos tentavam se defender contra os abusos dos senhores e o desrespeito ao que eles consideravam como seus direitos, assim como já observara Machado. No entanto, “de forma geral,” concluiu Chinelatto, “os crimes da década de 1870 ocorreram
1
Maria Helena P. T. Machado. Crime e escravidão: trabalho, luta, resistência nas lavouras paulistas (1830- 1888). São Paulo, Brasiliense, 1987.
2 Maria Helena P. T. Machado. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. 2ª Ed. Rev.
São Paulo: Edusp, 2010, p. 25; ver também Maria Helena P. T. Machado. Crime e escravidão..., op. cit., p. 125- 6.
3 Maíra Chinelatto. Quando falha o controle: crimes de escravos contra senhores. Campinas, 1840/1870.
em propriedades maiores, envolveram mais escravos, os quais combinaram de antemão para cometer o crime”.4
O foco do nosso estudo na experiência do tráfico interno torna pertinente que voltemos a analisar esses crimes, agora com um olhar diferente, isto é, verificando nessas histórias a importância que o fato de ser forasteiro pode ter tido para as atitudes ou discursos dos cativos.
Comecemos com alguns números. Entre os 134 escravos indiciados como réus no período de 1860 a 1886, a proporção dos crioulos não nascidos em Campinas é de 80,2%5 (vide tabela 2), o que demonstra a relevância do tráfico interno para o município e o protagonismo dos indivíduos traficados na criminalidade escrava.
Tabela 2 – Localidade de origem dos crioulos réus em Processos Criminais (Campinas, 1860-1886)
Localidade de origem6 Número de escravos % sobre o total de crioulos com origem informada
Campinas 17 19,8
Província de São Paulo7 09 10,5
Região Sudeste8 13 15,1
Outras regiões 47 54,6
Total de crioulos 86 100
Fontes: Seção Processos Crimes do Interior – Campinas (ACI), Campinas, 1860-1886. Arquivo Edgard
Leuenroth (AEL), Fundo Autos Crimes em São Paulo (CSP); Registros da Meia Sisa de escravos da cidade de Campinas, 1860-1884.Centro de Memória da Unicamp (CMU), Coletoria e Recebedoria de Rendas de Campinas (CRC).9
Na tabela 3 podemos ver como a proporção de réus nascidos em diferentes localidades do Império variou ao longo do tempo. O gráfico 2 ajuda a visualizar melhor essa dinâmica.
4 Maíra Chinelatto. Quando falha o controle..., op. cit., p. 127.
5 Percentual calculado sobre o total de crioulos cujo município ou província de origem puderam ser
identificados.
6
Estamos considerando nesta tabela apenas os cativos crioulos cuja localidade de origem dentro do Brasil foi informada. Não estão descritos, portanto, 20 africanos (18,5% dos dados informados), 2 crioulos para os quais não temos informação da localidade de origem dentro do Império, e 26 réus com origem não identificada.
7
Não inclui os nascidos em Campinas.
8 Não inclui os nascidos na Província de São Paulo.
Tabela 3 – Origem dos escravos crioulos réus em Processos Criminais, por década (Campinas, 1860-1886) Década Número de réus escravos crioulos10 Número de réus escravos campineiros Número de réus escravos forasteiros 1860 22 08 14 1870 50 09 41 1880 14 - 14 Total 86 17 69
Como se vê na tabela 3 e no gráfico 2, a proporção de réus nascidos em Campinas é um pouco maior na década de 1860 – ainda que continue sendo menor que o percentual de forasteiros, e decai nas décadas em que houve maior entrada de cativos do mercado interprovincial no município, chegando a zero na década final da escravidão.
Essa desproporção se mostra ainda mais marcante quando comparamos as características dos cativos de nossa amostra (em autos criminais) com o perfil demográfico da população escrava em Campinas. De acordo com dados colhidos por Robert Slenes em uma amostra para os anos 1872 a 1874, 56,3% da população escrava crioula com origem
10 Incluímos nesta tabela e no gráfico seguinte (2.1) somente os crioulos que tem informação da localidade de
origem dentro do Império (município e/ou província).
36,4% 18% 0% 63,6% 82% 100% 1860 1870 1880 Campineiros Forasteiros
Gráfico 2 – Origem dos crioulos réus em Processos Criminais, por década (Campinas, 1860-1886).
conhecida não havia nascido no município de Campinas,11 proporção bem menor do que a que foi indiciada como réu na segunda metade do século.
Além disso, 54,6% dos réus crioulos vieram de fora da região Sudeste, ou seja, foram submetidos ao tráfico inter-regional, estando bastante distantes de seus locais de origem (tabela 2). Mesmo entre os escravos réus nascidos em Campinas, 41,2% não havia nascido nas escravarias onde se envolveram nos crimes, tendo sido comprados pelos atuais senhores na segunda metade do século (tabela 4). Em geral, 68,1% dos cativos crioulos indiciados como réus no período haviam passado pelo tráfico interno ou comércio local. Desse modo, ao menos a princípio, a relevância dessa experiência para o volume de cativos criminosos no período não pode ser descartada.
Tabela 4 – Origem dos Réus com informação de compra e venda (Campinas, 1860-1886).
Origem Número de escravos réus com
informação de compra e venda % 12
Campineiros 07 41,2
Forasteiros 50 73,5
Ainda comparando os dados de nossa mostra com o perfil demográfico da população escrava de Campinas, podemos observar quem eram esses criminosos e quais diferenças podem ter sido determinadas pela sua origem.
A grande desproporção entre homens e mulheres réus chama atenção independente da origem. Enquanto os dados do censo de 1872 e das matrículas de 1873 e 1887 variam em torno de 56% para os escravos do sexo masculino,13 esse percentual se eleva para 96,3% entre os réus. Ao invés de tentarmos explicar por que as mulheres se envolveram menos em crimes, devemos ponderar que poucas foram as indiciadas. Em sua análise sobre a revolta escrava de 1832 em Campinas Ricardo Pirola observou um esforço dos cativos em proteger as mulheres envolvidas na trama, não citando seus nomes em nenhum dos vários depoimentos que arrolaram uma série de detalhes sobre o planejamento da revolta.14 Como afirmou o historiador, é bastante improvável que as mulheres e filhas dos revoltosos realmente não soubessem dos planos de insurreição.
11
Robert Slenes. The demography and economics of Brazilian slavery.Tese (Doutorado em História), Stanford University, Stanford, 1976, tabela 3-2, p. 133.
12 Percentual calculado sobre o total de cativos réus com essa mesma origem. 13
Robert Slenes. The demography..., tabelas B-2, B-3 e B-7, p. 690-1 e 697.
14 Ricardo F. Pirola. Senzala Insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832).
Em um processo criminal que julgou o homicídio de um feitor em 1868, vemos também um esforço de manter a participação feminina velada. O réu Epifânio afirmou a participação de todos os companheiros que estavam no eito no assassinato do feitor, com “exceção das negras que estavam no eito”15
. As três escravas presentes na cena do crime eram Jacinta, Damásia e Maria das Dores, sendo as duas últimas casadas. Epifânio também contou que a morte do feitor havia sido combinada pelos cativos da fazenda algum tempo antes, o que torna improvável que as mulheres não soubessem e compactuassem com o plano, uma vez que não houve delação e ele foi executado com sucesso.
Ricardo Pirola observou um número significativo de escravos casados entre aqueles que foram indiciados pelo plano de revolta de 1832, com uma proporção de 38% entre os que tiveram o estado conjugal informado no processo crime. Entre aqueles apontados como líderes do levante, a proporção se mostrou ainda maior: 57,1%.16
No caso dos réus da segunda metade do século XIX, observamos que, enquanto 20,3% dos escravos da província de São Paulo estavam casados por ocasião da matrícula de 1873,17 esse percentual sobe para 22,6% no caso dos réus em geral e para 26,7% no caso dos réus nascidos em Campinas (gráfico 318). No entanto, essa proporção é bem menor quando se trata de réus forasteiros: 12,1%. Isso pode significar, em primeiro lugar, que poucos forasteiros tenham tido acesso ao casamento sancionado pela Igreja nesse período; mas essa suposição só pode ser corroborada com uma análise sistemática das certidões de casamento de escravos na segunda metade do século XIX, o que não pudemos fazer neste estudo. No entanto, antes de nos apoiar nessa suposição, devemos considerar que muitos desses forasteiros (41,7%) cometeram crimes nos cinco primeiros anos após sua chegada em Campinas, sendo, então, pouco provável que já tivessem conseguido se unir a uma parceira e ter a permissão do novo senhor para a oficialização da união em tão pouco tempo.19 Além disso, em acordo com as preferências do mercado de escravos, esses forasteiros trazidos à
15 AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 217, Documento 008. Processo Crime. Réus: Manuel, Romualdo e Epifânio,
escravos de Teresa Maria de Jesus Paula, Campinas, 1868. “Auto de perguntas ao réu Epifânio”, p. 7.
“Auto de perguntas ao réu Epifânio”. Processo Crime. Réus: Manuel, Romualdo e Epifânio, escravos de Teresa Maria de Jesus Paula, Campinas, 1868. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 217, Documento 008. p.7.
16
Ricardo Figueiredo Pirola. Senzala Insurgente..., op. cit., p. 107.
17
Robert Slenes. The demography..., tabela B-4, p. 692.
18 Fonte dos dados sobre estado conjugal dos escravos na matrícula de 1873: Robert Slenes, The demography...,
tabela B-4, p. 692.
19
Esta informação, bem como outros dados relacionados ao tempo de moradia dos réus escravos está constante na tabela .
Campinas eram em sua maioria solteiros.20 Vale ressaltar ainda que o índice de casamentos formais (sancionados pela Igreja) nas outras províncias era muito baixo.21
Gráfico 3 – Estado conjugal dos escravos na matrícula de 1873 e em Processos Criminais.
Por outro lado, se a maioria dos forasteiros envolvidos em crimes não tinha relações conjugais formalizadas, é bastante interessante observar as respostas dos cativos réus quando foram perguntados sobre o nome de seus pais. Enquanto 29,4% dos réus nascidos em Campinas mencionaram o nome do pai e/ou mãe, 46,4% dos forasteiros informaram o nome de pelo menos um dos progenitores. Esses dados dão pistas a respeito do convívio familiar, podendo indicar uniões consensuais estáveis nos locais de origem, bem como o impacto do tráfico sobre essas famílias.
As preferências do mercado de escravos também influenciaram o perfil etário dos cativos indiciados nos processos criminais que temos em mãos: enquanto 78,6% dos cativos com origem em Campinas estavam em idade plenamente produtiva, isto é, tinham entre 15 e 39 anos, esse percentual sobe para 90,8% quando se trata dos réus forasteiros.22 É preciso levar em consideração que esses dados são amostrais, ou seja, essas idades correspondem apenas aos cativos que foram indiciados por algum crime entre 1860 e 1886. Assim,
20
José F. Motta. Escravos daqui, dali e de mais além. São Paulo: Alameda Editorial/FAPESP, 2012, p. 67ss.
21 Robert Slenes, The demography..., tabela B-4, p. 692.
22 Percentuais calculados sobre o total de informações disponíveis sobre a idade dos réus.
76,2% 73,3% 86,2% 58,3% 20,3% 26,7% 12,1% 41,7% 3,5% 0,0% 1,7% 0,0% Todos os escravos da Província de São Paulo (matrícula de 1873)
Réus campineiros Réus forasteiros Vítimas Solteiros Casados Viúvos
ponderamos que os forasteiros estavam causando grande prejuízo aos senhores, uma vez que sua prisão ou as sequelas dos castigos recebidos como sentença por esses crimes atrapalhavam o bom andamento das produções nas fazendas.
Por outro lado, a menor idade do escravo réu poderia ser um fator amenizador da pena, o que era benéfico para o cafeicultor que não desejava ter seu cativo na prisão por muito tempo. Esse subterfúgio foi utilizado, por exemplo, em 1868, no julgamento do réu Epifânio que, acusado de ser o principal responsável pelo assassinato do feitor Malaquias na fazenda de sua senhora, dona Teresa Maria de Jesus Paula, teve a idade menor de 21 anos alegada pela defesa como forma de diminuir a severidade da pena prevista.23
Outro fator a influenciar o tamanho do prejuízo sofrido pelo senhor que tinha seu escravo envolvido em um processo criminal era a ocupação, cujas diferenças relativas à origem são bastante interessantes e podem ser observadas na tabela 5. A proporção dos homens adultos (com 15 anos ou mais) nascidos fora de Campinas que estava em ocupações especializadas ou domésticas é de 35,1%. Entre os escravos nascidos em Campinas, 25% dos réus estavam nessas ocupações.
Tabela 5 – Ocupação dos escravos adultos do sexo masculino em Processos Criminais (Campinas, 1860-1886).
Tipo de ocupação
Vítimas24 Réus Réus forasteiros Réus campineiros
N % N % N % N % Atividades especializadas ou domésticas 05 50% 25 32,5% 20 35,1% 03 25% Lavoura 05 50% 52 67,5% 37 64,9% 09 75% Total 10 100 77 100 57 100 12 100
A ocupação em uma atividade doméstica ou especializada conferia certos privilégios aos cativos, como maior autonomia e mobilidade espacial, bem como a possibilidade de formação de um pecúlio para compra da liberdade. Além disso, possibilitava ao cativo ter contatos múltiplos com gente da casa grande, com a escravaria em geral e com pessoas livres e/ou libertas.25 Assim, a maior proporção de cativos forasteiros com esse tipo de ocupação traz duas implicações. Primeiro, confirma a presença de cativos oriundos de áreas urbanas de
23
“Sentença do Juiz de Direito”, 25/05/1868. Processo Crime. Réus: Manuel, Romualdo e Epifânio, escravos de Teresa Maria de Jesus Paula, Campinas, 1868. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 217, Documento 008, p. 152. Para um estudo bastante detalhado sobre o uso do argumento da menoridade no julgamento de crimes de escravos, ver: Ricardo Pirola. Escravos e rebeldes nos tribunais do Império: uma história social da lei de 10 de junho de 1835. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2015, p. 125-141.
24 Não diferenciamos o tipo de ocupação das vítimas por origem devido ao baixo número de informações. 25 Ricardo Figueiredo Pirola. Senzala Insurgente..., op. cit., p. 95.
diversas regiões do Império, que, ao serem traficados para as fazendas de Campinas, se viram muitas vezes privados de exercer tais atividades especializadas e delas usufruir os privilégios de antes. É possível verificar casos em que o escravo diz que “sabe ofício de pedreiro, mas era trabalhador de roça”,26
bem como casos em que a qualificação do réu mencionava duas ocupações, como “cozinheiro e trabalhador de roça”27
. Esse pode ter sido um fator agravante das tensões relativas ao sistema disciplinar das fazendas, não reconhecido como razoável pelos cativos, em especial por aqueles que traziam uma experiência de cativeiro anterior muito diferente.
Em segundo lugar, esses dados evidenciam que exercer uma atividade doméstica ou especializada não garantia ao cativo o não envolvimento em conflitos, o que parece ter sido ainda mais marcante quando se tratava de forasteiros.
O envolvimento de um escravo com ocupação especializada em atos criminosos era um fator que tornava ainda maior o prejuízo do senhor, uma vez que estes se veriam privados do serviço daqueles que tinham o valor mais alto. De modo geral, pode-se observar que, pelo menos entre os forasteiros, os cativos com valores mais altos, seja pela faixa etária em que se encontravam ou pelas ocupações que exerciam, eram o que mais se envolviam em “problemas”. Os preços de escravos homens entre 14-28 anos variou em torno de 2:200$000 réis em Campinas ao longo da década de 1870, exatamente no mesmo período em que o número de crimes foi maior.28
Em ambos os casos, todavia, os escravos que trabalhavam nas lavouras foram a maioria dos que se envolveram em atos criminosos após 1860: 64,9% dos homens adultos forasteiros e 75% dos nascidos em Campinas. Além de se aproximar da realidade demográfica do município, esse dado permite confirmar o que já foi dito por Maria Helena Machado sobre a relevância do sistema disciplinar nas fazendas que, ao solapar as margens de autonomia escrava, adicionava calor ao barril de pólvora das relações escravistas nas últimas décadas do século XIX.29
Passemos, agora, a uma análise mais interna dos autos criminais que envolveram esses escravos como réus, procurando divisar as semelhanças e diferenças entre os crimes cometidos por cativos nascidos em Campinas e aqueles em que os forasteiros foram indiciados.
26
“Auto de qualificação de Manuel”. Processo Crime. Réu: Manuel, escravo de João Ferreira da Silva Gordo, Campinas, 1873. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 229, Documento 006.
27 “Auto de qualificação de Emiliano”. Processo Crime. Réus: Anísio, Benedito, João e Emiliano, escravos de
Manuel Inácio de Camargo, Campinas, 1876. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 237, Documento 001.
28 Robert Slenes. The demography..., gráfico 5-1, p. 241.
Um caso bastante interessante pode nos tirar por um momento da frieza dos números e nos apresentar alguns detalhes sobre as expectativas e dificuldades vivenciadas pelos forasteiros em Campinas, não só nas fazendas de café.
O baiano Francisco, que era sapateiro e cozinheiro, trabalhava na cozinha do Hotel do Comércio, onde estava alugado ao proprietário José de Sousa Teixeira. Numa noite, Francisco saiu do Hotel logo após o jantar para ir à venda comprar fumo e beber aguardente, sem comunicar Teixeira. Quando chegou encontrou o locador deveras furioso pela sua saída sem permissão e foi castigado. Em depoimento, o cativo contou então que,
“(...) tendo ele sofrido isto de Teixeira, saltou o muro, e foi ter com seu senhor Antônio Jesuíno de Oliveira Barreto, e lhe deu parte do ocorrido, e seu senhor lhe disse que voltasse para o hotel que ele viria falar com Teixeira, e chegando ele respondente de novo ao hotel Teixeira lhe disse [ilegível] que já lhe tinha dito que não queria que ele saísse de casa sem lhe pedir licença e lançou mão de uma racha de lenha e com ela começou a dar- lhe pancadas, e ele respondente lhe dizia fugindo das pancadas que não lhe batesse [?] a perder, e corria de Teixeira por de trás do fogão, e Teixeira o perseguia e nesta ocasião ele respondente lançando mão de um canivete de mola que consigo tinha, com ele ofendeu a Teixeira”.30
Francisco mostrou em juízo os ferimentos que José de Sousa Teixeira lhe causara com as pancadas na cabeça e no braço, e sua recusa em ser castigado pelo proprietário do Hotel é marcante em todos os pontos do processo. Ao senhor do escravo, Antônio Jesuíno de Oliveira Barreto, foi perguntado pelo advogado do réu se quando alugou Francisco a Teixeira autorizou-o a castigar o escravo, e ele respondeu negativamente, mas que “(...) recomendara a Teixeira que o avisasse logo de qualquer falta que por ventura o Réu praticasse”.31 Logo, Francisco não aceitava os castigos que Teixeira tentava lhe infligir, provavelmente por estar a par da combinação que seu senhor fizera com o locador, tanto que sua reação ao ser castigado pela primeira vez foi ir procurar o próprio senhor.
A negação de Francisco aos castigos aplicados por Teixeira também fica implícita nas informações prestadas pelo escravo Vitalino, que estava na cozinha na hora do conflito e contou que Francisco dissera a Teixeira “pelo amor de Deus, deixe-me trabalhar”.32
A vítima, José de Sousa Teixeira, também disse que, ao tentar repreender o réu por sua saída do Hotel
30
“Auto de perguntas ao escravo Francisco”. Processo Crime. Réu: Francisco, escravo de Antônio Jesuíno de Oliveira Barreto, Campinas, 1873. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 229, Documento 003.
31 “Auto de perguntas ao informante Antônio Jesuíno de Oliveira Barreto”. Processo Crime. Réu: Francisco,
escravo de Antônio Jesuíno de Oliveira Barreto, Campinas, 1873. AEL, CSP, ACI, Microfilme CSP 229, Documento 003.
sem avisar, ele lhe dissera “faz o favor de não me incomodar, pelo amor de Deus, não me