• Nenhum resultado encontrado

3     TRABALHO E SOCIEDADE MODERNA 48

3.3   ALIENAÇÃO 56

Conforme as estruturas sociais em que se insere a atividade humana, a práxis pode produzir objetivações que se apresentam aos homens não como obras suas, mas, ao contrário, como algo em que eles não se reconhecem, como algo que lhes é estranho e opressivo. Essa inversão caracteriza o fenômeno histórico23 da alienação, que é própria da sociedade onde têm vigência a divisão social do trabalho e a propriedade privada dos meios de produção fundamentais, ou seja, com base na exploração do homem pelo próprio homem. Com seus fundamentos na organização econômico-social da sociedade, na exploração, a alienação penetra o conjunto de relações sociais. As

23

Segundo Netto e Braz, a alienação é um fenômeno histórico porque, embora se configurando como um fato de grande perdurabilidade, as condições sociais em que ela se processa não são eternas e nem naturais – são condições que podem ser superadas no curso do desenvolvimento histórico (Cf. NETTO & BRAZ, 2009, p.45)

produções humanas, alienadas, deixam de promover a humanização do homem e passam a estimular a cisão entre homem e mundo. O processo de alienação produzida por essas relações foi sistematizado por Mészàros, em quatro aspectos:

O conceito de alienação de Marx tem quatro aspectos principais, que são os seguintes: a) o homem está alienado da natureza; b) está alienado de si mesmo (de sua própria atividade); c) de seu “ser genérico” (de seu ser como membro da espécie humana); d) o homem está alienado do homem (dos outros homens) (MÉSZAROS, 2006, p. 19-20).

O primeiro aspecto da alienação exprime a relação do trabalhador com o produto de seu trabalho, que é ao mesmo tempo sua relação com o mundo sensível exterior, com os objetos da natureza (MÉSZÀROS, 2006). No capitalismo, foi radicalizado o estranhamento do homem ao seu corpo inorgânico, transformado em mercadoria, em propriedade privada (MARX, 2008b). Conforme Mészàros (2006, p. 80), “o indivíduo é confrontado com meros objetos (coisas, mercadorias), uma vez que seu ‘corpo inorgânico’ – ‘natureza trabalhada’ e capacidade produtiva externalizada – foi dele alienado”. Ocorrem aqui mediações de segunda ordem: a mediação da propriedade privada entre o sujeito e seu trabalho (MÉSZÀROS, 2006, p. 78).

O segundo aspecto apresentado é a expressão da relação do trabalhador com sua própria atividade. A alienação não se mostra somente no resultado da produção, no produto, mas também, e principalmente, no próprio ato de produção. O trabalhador não mais se afirma em seu trabalho, mas nega-se nele. (Marx, 2008). Segundo Mészàros (2006), Marx chama essa característica de “autoestranhamento” ou “autoalienação”, pois, se o homem está alheio a seu trabalho, e este é fundamental à sua constituição, podemos explicar “alienação” como a alienação de si mesmo, [...] “dos poderes humanos do homem por meio de sua atividade produtiva” (MÉSZÀROS, 2006, p. 103). Há aqui também uma problematização apresentada pelo autor em relação ao rompimento da mediação entre ser humano, natureza e trabalho, complexificado pelas mediações de segunda ordem: propriedade privada e trabalho assalariado. As mediações que eram de segunda ordem aparecem como de primeira, absolutas, ocasionando a possibilidade de se considerar o trabalho, do ponto de vista da propriedade privada, como um mero “fato material, e não como um “agente humano” (MÈSZAROS, 2006, p.104) e criando-se a percepção do trabalho alienado/assalariado como única forma possível de trabalho, e a propriedade privada como inerente à natureza humana.

O terceiro aspecto da alienação do trabalho está relacionado com a concepção de que o objeto do trabalho é a objetivação da vida da espécie humana. O trabalho alienado

fez do ser genérico algo estranho ao trabalhador. Para Marx (2008b), a alienação se expressa concretamente na vida do trabalhador quando aparece a impossibilidade de se apropriar individualmente das construções do gênero humano. No capitalismo ocorreu a transformação das objetivações humanas em mercadorias, o que impossibilitou o trabalhador de se apropriar de todas as dimensões do gênero humano, a não ser pela mediação do dinheiro, da troca, havendo uma relação de alienação dos trabalhadores com as produções da humanidade.

O quarto elemento da alienação do trabalho, e consequência imediata do homem estar alienado do produto de seu trabalho, de sua atividade vital e de seu ser genérico, “é o estranhamento do homem pelo [próprio] homem” (MARX, 2008b, p. 85). Conforme Marx (2008b, p. 86), “a questão de que o homem está estranhado do seu ser genérico quer dizer que um homem está estranho do outro, assim como cada um deles [está estranhado] da essência humana”. Assim, a alienação do homem não está somente em relação à natureza, mas sim entre o homem e sua própria natureza (MÉSZÀROS, 2006). A alienação, então, se figura como um fenômeno social objetivo que limita o desenvolvimento humano sustentado por meio de relações desiguais de exploração e opressão. Marx (2008b) pontua que, sob relações de dominação, através da mediação da propriedade privada, todos os sentidos humanos passam pelo processo de alienação, “o lugar de todos os sentidos físicos e espirituais passou a ser ocupado [...] pelo simples estranhamento de todos esses sentidos, pelo sentido de ter” (p.108).

Além da problemática já enfocada da alienação relacionada a compreesão sistêmica de seu trabalho, o que mais chama atenção nas relações do tráfico é a alienação relacionada a princípios éticos de sociabilidade. Conforme vimos, o tráfico de crack dissociado do senso comunitário deflagra uma não preocupação com o outro. Assim, a perda de valores familiares (compreendidos como cuidado mútuo e desenvolvimento para liberdade), a não preocupação com a exposição da venda e uso da droga, a não preocupação com o fato das crianças estarem traficando ou portando armas simbolizam uma alienação aos valores éticos comunitários, descritos pelos antigos moradores. A alienação a esse senso comum denota uma impossibilidade da ação política, principio para a liberdade.

3.4 PARA ALÉM DO TRABALHO E DO LABOR: A AÇÃO E O ESPAÇO