4 EDUCAÇÃO, NATALIDADE E O VATICÍNIO DA MORTE 72
4.3 EDUCAÇÃO E CONVIVENCIALIDADE 81
Conforme vimos, o sistema escolar na modernidade se caracteriza como um espaço seccionado do mundo dos adultos, construído artificialmente com base em um mundo da criança que demarca a crise do sistema escolar moderno, além de escravizar o homem ao instrumento de seu trabalho. Vigotski, então, propõe a unidade do mundo dos adultos, do trabalho e da educação via educação politécnica como forma de superação dessas mutilações. O esboço da educação politécnica proposto pelo psicólogo soviético pode ser aproximado do conceito de convivencialidade de Illich.
A convivencialidade esteve presente desde a Antiguidade, porém o ser humano aos poucos vem se perdendo, intensificadamente no início da Modernidade. Na Antiguidade, cada ente da natureza era visto como manifestação da vontade de seu deus ou deuses, inclusive o próprio ser humano. Havia, assim, entre homem e natureza, uma relação sagrada, a partir da qual se concebia a convivencialidade. Essa relação diz respeito a um diálogo com tudo que há na natureza para além de sua definição moderna, , já que tratava também da relação entre os homens consigo mesmos, ou seja, da relação entre o homem e o mundo.
A Era Moderna, como vimos anteriormente, tornou hegemônica a lógica de reprodução capitalista e do pensamento racionalista, uma metamorfose nessa relação, na qual agora é o homem que atribui racionalmente valor às coisas. A natureza foi processualmente sendo instrumentalizada e transformada em ferramenta a serviço do
homem, sem espaço para diálogo. A força de trabalho também se transformou em instrumento de dominação de modo nunca visto anteriormente, pois diferente da escravidão ou servidão, o homem é apenas ferramenta. E assim, tanto o corpo físico como também o psicológico e as relações sociais relações dos homens e mulheres são reduzidos a lógica da intrumentalização.
Assim, Illich, partindo de análises sobre a sociedade contemporânea e o papel de instituições – tais como a escola, dentro do campo da educação – na reprodução das estruturas vigentes e na limitação do desenvolvimento da autonomia dos indivíduos, propõe a valorização de instituições convivenciais. Conforme Illich (1973), a empresa moderna na sociedade de massa marca a metamorfose no processo de servidão para o produtor e de intoxicação para o consumidor. A sociedade moderna passa por um processo de homogeneização progressiva de tudo, de desenraizamento cultural e estandardização das relações humanas.
Assim, Illich contrapõe as instituições manipulativas às instituições convivenciais. Enquanto as primeiras são hegemônicas na sociedade, baseadas na organização do processo de produção, e sua finalidade está vinculada ao consumo e reprodução; as instituições convivenciais seriam aquelas voltadas à convivência entre as pessoas e ao desenvolvimento dos indivíduos, que, por sua própria natureza, não precisam criar mecanismos artificiais. As instituições convivenciais se caracterizam por servirem à sociedade e pelo fato de que são utilizadas espontaneamente por todos os membros da sociedade que delas participam voluntariamente. Convivencialidade significa, em última instância, uma inversão na relação do homem com a ferramenta, transformando o caráter despótico desta em um caráter justo. Segundo Illich, a sociedade convivencial é “aquela em que a ferramenta moderna está a serviço da pessoa integrada à coletividade e não a serviço de um corpo de especialista. Convivencial é a sociedade em que o homem controla a ferramenta” (ILLICH 1973, p. 13)”.
Na sociedade convivencial – na qual “será possível articular de forma nova a tríade milenar do homem, da ferramenta, da sociedade.” (idem) – o homem tem mais potencialidade de exercer uma ação mais autônoma e mais criativa, com auxílio de ferramentas menos controláveis pelos outros, pois essas organizações estimulam “uma diversidade de modos de vida, que teriam mais em conta a memória, ou seja, a herança do passado, ou a invenção, isto é, a criação” (Illich, 1973, p. 31). Esse processo de domínio da ferramenta potencializa o preenchimento do mundo com sentido,
possibilitando a emersão de um senso comum. 4.4 CONVIVENCIALIDADE E FAMÍLIA
É importante resgatar que o processo educacional não ocorre apenas no espaço escolar. Outro espaço essencial de convivência da criança no mundo é o espaço familiar. Para Hannah Arendt (2003), pela concepção e pelo nascimento, os pais humanos, além de conceberem a vida de seus filhos, buscam introduzi-los no mundo. Através da educação, os pais assumem essa dupla responsabilidade pela vida e pelo desenvolvimento da criança. Ao mesmo tempo em que a criança tem necessidade de ser protegida no mundo, o mundo tem necessidade de uma proteção que o impeça de ser destruído pela futura geração.
Para a pensadora alemã, a proteção da criança contra o mundo tradicionalmente foi realizada pela família, dentro do seio da vida privada. Conforme Arendt:
No mundo público, comum a todos, as pessoas são levadas em conta, e assim também o trabalho, isto é, o trabalho de nossas mãos com que cada pessoa contribui para com o mundo comum; porém a vida qua vida não interesa aí. O mundo não lhe pode dar atenção, e ela deve ser oculta e protegida do mundo (Ibidem, p.236). A sociedade moderna deslocou todas as atividades que têm relação com a preservação e enriquecimento da vida, da esfera privada para esfera pública. Assim, ao mesmo tempo que buscou emancipar, proteger e libertar as crianças dos padrões de vida abusivos e exploratórios, acabou por retirá-las do mundo dos adultos. Segundo Arendt (2003), é essa mesma destruição do espaço de vida real que ocorre quando se procura enclausurar as próprias crianças em uma espécie de mundo próprio.
A escola aparece, então, como instituição que se interpõe entre o domínio privado do lar e o mundo, deslocando a relação que havia da família e da comunidade como meios entre as crianças e o mundo. Porém, essa transição afeta também a família, que passa pelo mesmo processo de perda da autoridade e da tradição. A proteção do seio familiar é afetada pela exploração da lógica capitalista de produção, na qual a força de trabalho das mulheres é explorada, bem como a de crianças e adolescentes. A instituição familiar passa a ser uma instituição que segue a lógica do espaço público.
Dessa maneira, a família moderna, sem autoridade e tradição e, por vezes, agravada pela condição de miséria e exploração, quando reproduz a lógica do espaço público, perde as condições de exercer sua tradicional função de garantir a proteção da criança, além de seu desenvolvimento. A família e a comunidade, assim como vimos em relação aos educadores, não se responsabilizam nem pelo mundo nem pela proteção
à criança. Nas palavras de Arendt:
[…] a perda geral da autoridade, de fato, não poderia encontrar expressão mais radical do que sia intrusão na esfera pré-política, em que a autoridade parecia ser ditada pela própria natureza e independer de todas as mudanças históricas e condições políticas. O homem moderno, por outro lado, não poderia encontrar nenhuma expressão mais clara para com sua insatisfação com o mundo, para seu desgosto com o estado de coisas, que sua recusa em assumir, em relação as crianças, a responsabilidade por tudo isso. É como se os pais dissessem todos os dias: - Nesse mundo, mesmo nós não estamos a salvo em casa; como se movimentar nele, o que saber, quais habilidades dominar, tudo isso também são mistérios para nós. Vocês devem tentar entender isso do jeito que puderem; em todo caso, vocês não têm o direito de exigir satisfações. Somos inocentes, lavamos as nossas mãos por vocês (Ibidem, p.241).
Embora ainda se discurse ideologicamente em relação à família enquanto espaço protetivo, em oposição ao espaço público como perigoso e violento, os dados mostram uma outra realidade. Conforme Areda (2013):
A cada 5 minutos, uma mulher é agredida no país, a cada 2 horas, uma é assassinada e em 80% dos casos o agressor é o cônjuge ou namorado. Os dados do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes do Ministério da Saúde apontaram que em 2011, 36% da violência sofrida por crianças de 0 a nove anos foi negligência ou abandono e 35% violência sexual. Diferentemente do que se costuma afirmar, a violência está em casa, é predominantemente perpetrada por parentes e pessoas conhecidas da vítima e por homens heterossexuais. Segundo a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, 38,2% dos agressores homofóbicos são da própria família. Há outras violências ainda mais naturalizadas. Podemos citar como no Brasil é comum que familiares como pais, padrastos, tio, irmãos e primos mais velhos obriguem os meninos a terem contato com material pornográfico desde a pré-adolescência ou que mesmo os levem a profissionais do sexo para que sejam “iniciados” sexualmente. Porém há uma diferença fulcral entre o espaço escolar e o espaço familiar: enquanto um revela um mundo artificial voltado para a criança, o outro se insere na convivência do mundo entre adultos e crianças, num espaço de convivencialidade. E aqui reside uma potencialidade educacional que possibilita uma unidade entre educação e mundo, conforme anunciado por Vigotski e Illich: a educação via convivência.