Contextualização: Vila do Conde até aos fins do século
Foto 4: Almofada da arte dos Bilros, em Vila do Conde
Fonte: o autor – (2008) 2.3 - Comércio em geral
Ligada às várias indústrias supra citadas de Vila do Conde estava ainda a da cordoaria que, por necessidade natural, também ali existia, e cujas reminiscências se vêem ainda hoje na própria toponímia da rua dos cordoeiros, indústrias estas que geraram consequentemente um grande número de mercadores que vieram engrossar o grupo nacional dos Mercadores do Reino e que, não só tinham as suas lojas nas cidades, mas também percorriam feiras e romarias dentro e fora do país, na mira de bons negócios e acerca dos quais testemunha Tavares (1990, Vol. 1, p. 193) nestes termos:
Desde o século XIII encontramos um grupo de extracção popular que se dedicava à prática mercantil no interior do reino, frequentando as feiras, vendendo nas lojas e tendas, existentes nas ruas mais importantes do concelho ou na praça, ou investindo no comércio de grosso trato, interessado no mercado peninsular, no mediterrâneo cristão e islâmico, ou no do norte e centro europeu. A sua origem era Lisboa, sobretudo, mas também Santarém. Juntar-se-lhe-iam mercadores de Évora, de Setúbal, Alcácer do Sal, dos portos de Entre Douro e Minho e do Algarve, ao longo dos séculos XV e XVI.
Os mercadores portugueses cuja maioria pertencia ao grupo étnico judeu porque era este o que tinha maior capacidade de investimento, concorriam com os estrangeiros que
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vinham de vários países da Europa, vendendo e comprando mercadorias não só nacionais, como estrangeiras como se depreende das palavras da mesma autorasegundo a qual o comércio visava a
(…) importação de têxteis, os panos provenientes da
França, Inglaterra, cidades italianas, castelhanas, depois do Séc. XVI, as finas Holandas, as cambraias, os panos da Índia que vendiam nas lojas de retalho que possuíam, em Lisboa, na Rua Nova, em Évora, na praça, etc., ou que exportavam para a Europa ou para terras de mouros (Ibidem).
Com os Descobrimentos, os nossos mercadores alargavam os seus horizontes, enriqueciam e, consequentemente enobreciam, pois que, já nesse tempo, segundo a mesma autora (Idem. p. 194), com a (...) profissão do mercador enobrecia-se e não
desdenhava ser uma das ocupações da nobreza quinhentista e até mesmo da própria família real.
Ser mercador, portanto, nesse tempo, já tinha alcançado uma certa dignidade, deixando de ser ridicularizada. Se é certo que antes era tida como profissão baixa, foi louvada por Garcia de Resende (1470 - 1536), por exemplo, na sua obra, Miscelânea e Variedade de Histórias (1554) p. 354) editada após a sua morte, onde diz que o negociar, antes tido por baixeza, se tornara, no seu tempo, nobreza. Eis as suas palavras originais:
De Índios se nos pegou tratar, e mercadoria dantes non se costumou, por baixeza se avia, em alteza se torno: …
Da mesma forma, o próprio padre António Vieira, segundo Tavares (1990, p. 194), aconselhava vivamente o nosso rei, D. João IV, a tornar-se mercador, a exemplo dos príncipes das Repúblicas Italianas:
V.M. fizesse nobre a mercancia, de maneira que não só não tirasse mas desse positiva nobreza, ficando nobres, todos os homens que fossem mercadores, não só os que se chamam de sobrado, senão também os de vara e côvado; com que muitas pessoas de maior qualidade e cristãos velhos se aplicariam ao exercício mercantil, em grande utilidade do Reino, a exemplo de Veneza, Génova, Florença e outras repúblicas, em que os príncipes são mercadores e elas por isso opulentíssimas.
Podemos, pois, afirmar que, pelo facto de ser mercador de panos, o pai de Manuel de Sá não pode ser tido automaticamente como um homem de poucas posses, nem a sua família como uma família humilde. Antes pelo contrário, o seu pai deveria ser um comerciante de panos de Vila do Conde ou panos de treu e, provavelmente, de outros, o
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que, de certa forma o enobrecia ou, pelo menos, o colocava em lugar de destaque sócio- económico.
As naus e navegantes de Vila do Conde participaram também na aventura das Descobertas. Assim, uma relação feita, em 8 de Dezembro de 1551, refere uma nau de Vila do Conde de entre as que foram aprisionadas pelos Corsários Franceses, nas costas do Brasil (Serrão, 1978, Vol. III, p. 49). Pelos vistos, os Franceses serviram-se, não só dos pilotos portugueses de Vila do Conde, como ainda dos seus conhecimentos cartográficos, utilizando-os nas suas próprias armadas. Diz Serrão que Estêvão Dias e Rosado pilotaram os navios de Dieppe que, em 1527, foram à Índia (Ibidem, p. 182).
Relativamente ao comércio entre Vila do Conde e outros portos europeus é sabido que, quando no século XVI, os estrangeiros puderam beneficiar duma protecção real portuguesa, muitos mercadores alemães, flamengos e ingleses intensificaram o seu comércio com Vila do Conde e com outros portos portugueses, nomeadamente, Caminha e Aveiro, segundo Denucé (1909, p. 310s), Kellembez (1960, pp. 125-1409) e Cotta do Amaral (1965). Vila do Conde mantinha também um comércio bastante intenso com a França, especialmente entre os anos de 1514 a 1543. Por exemplo, em 1522, o número de mercadores portugueses, em Bordéus, era muito grande. Mas, nem sempre o comércio era directo; vinha muitas vezes por intermédio de Rouen e de La Rochelle, como sucedeu no período de 1533 e 1543, quando se descarregou, em Bordéus, pau-brasil, malagueta e açúcar da Madeira. Sabido é também que, em Maio de 1538, a Nau de Santa Maria de Vila do Conde deixou, nessa mesma cidade Francesa, uma carga de 110 tonéis de vinho os quais deveriam seguir para Galway, o que deixa supor um serviço intermediário com a Grã-Bretanha (Serrão, 1978, Vol. III, p. 324).
Segundo o autor do artigo Vila do Conde, publicado na GEPB (1936 - 1960, Vol. 35, p. 488) nos fins do século XV e princípios do século XV (…) Vila do Conde era muito
mais importante que a Póvoa do Varzim e do que Azurara e João de Barros (século XVI) diz que os seus navegantes eram muito espertos na arte de marear e que na Vila se construíam muitas naus e navios com madeira da terra.
Mas, como nem tudo corre sempre bem, essa Vila sentiu-se abalada por certas contendas, havidas entre o Mosteiro de Santa Clara e o Reino, motivadas pelo lamentável facto do Procurador real desconhecer os privilégios desse mesmo mosteiro
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relativos aos territórios e privilégios de isenção sobre as taxas das mercadorias que passavam pelo Rio Ave (que era, então, um rio e porto francos). Esse Procurador quis obrigar as gentes da Vila às mesmas leis de pagamento, metendo a questão em tribunal. Os cálculos, no entanto, saíram-lhe errados, pois perdeu a questão ingloriamente, no ano de 1486 (Idem, p. 479).
Esta importância comercial de Vila do Conde, nos fins do séc. XV e inícios do séc. XVI, viria a ser o detonador de um grande desenvolvimento no sector educacional. Tal importância, porém, parece ter decrescido, pelo menos no que diz respeito ao Mosteiro de Santa Clara, depois que este foi cedido, em 1550, à Coroa Portuguesa em troca de uma tença fixa anual de 250 mil reais dada às freiras, por força de um contrato que foi
confirmado pelo Santo Padre Júlio III por uma bula que ficou na Torre do Tombo (assento feito em 16.01-1554), (Idem, p. 482) e que nós confirmámos existir no Bullarium Romanum (1860, Tomus IV, pp. 476-478).
A partir dos fins do séc. XVI, tanto esta Vila, como a sua região envolvente perderam muito do seu interesse, restando os seus monumentos para atestar dessa glória passada, sendo os principais: em Vila do Conde, a Igreja Matriz (séc. XV-XVI, o Pelourinho (séc. XVI), o Aqueduto (séculos XVII e XVIII) e o Mosteiro de Stª Clara (séc. XIV- XVIIII); e nas redondezas a Cividade de Bagunte (séc. XI-XII) da qual restam apenas as ruínas; a Igrejas do Rio Mau (séc. XII); o Mosteiro do Vairão, embora adulterado (séc. XVII); e ainda a Igreja de Azurara (séc. XVI).
A nível nacional a situação foi-se agravando também. Com a subida ao trono de D. Sebastião, em 1568, após ter atingido a maioridade, a situação portuguesa mudou bastante, devido a várias acontecimentos. Em primeiro lugar, em 1570, as importações
e exportações passaram a ser livres; em segundo lugar passaram a ser reconhecidos três modos de vida (viver como senhor ou amo; ter ofício ou mestyer; negociar o seu ou o alheio); em terceiro lugar publicou-se a Pragmática contra o luxo e Alvarás contra a mendicidade; finalmente, como se ainda não bastassem todas essas mudanças sociais e
económicas, sobreveio o problema da peste que lançou Lisboa no caos (Serrão, Joel 1986, pp. 108-109). De facto, segundo este autor, passaram os portugueses a viver
irrealistamente e para além do que era possível:
Os grandes nobres esforçavam-se por manter pequenas cortes pessoais, consumind0o nisso mais do que tinham. Várias leis
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sumptuárias (isto é, proibições de luxo no vestuário e na maneira de viver) foram publicadas para refrear essa tendência, tentando limitar o uso de tecidos raros, de jóias, de guarnições de ouro e prata, da criadagem (Ibidem).
No ano de 1571 foi publicada uma lei cujo § 23.º se refere às naus que de Aveiro iam à
Terra Nova para pescar bacalhau; aí se determinava que as naus iriam armadas e que as de Aveiro, Viana do Lima e qualquer outra parte do Reino elegeriam entre si, ao tempo que partissem, capitão-mor com o se pode ler em Subsídios para a História de Aveiro de Marques Gomes (2003, p.69-A) [Online] [Consult. 20-12-2003] [Disponível
em http://www.prof2000.pt/users/avcultur/calendaveiro/11Nov_03.htm].
3 - Vida Cultural
3.1 - Os Mosteiros
No que se refere à vida cultural e religiosa, esta vila vai vendo surgir, à sua volta, e ao longo da história, uma série de Mosteiros que irão dar alma a toda a região. Em primeiro lugar, chega à aldeia de Friande, Subtus mons civitatis Bogunte, Arias com alguns companheiros, vindos de Braga para, no ano 1084, fundarem o Mosteiro de São Simão, da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho o qual, por ter sido construído no sítio da Junqueira, passou, mais tarde, a ser conhecido sob o nome de S.
Simão da Junqueira. Para este, em Março de 1181 é transferido por D Afonso Henriques o couto que em 1136 fora dado a Paio Guterres, segundo Ferreira (1923, p.
39 e GEPB (1936 -1960, Vol. 35, p. 474). Nos começos do séc. XII surge o Mosteiro de S. Cristóvão, em Rio Mau, o qual fora precedido pelo Mosteiro de Vairão, como consta de um documento que se refere à doação que lhe tinha sido feita por um certo Pala Pais, em 1104. Esse documento refere o nome do abade e monge da Igreja desse dito mosteiro, como sendo dedicado aos santos S. Cristóvão e S. Silvestre. De todos estes mosteiros, existentes no séc. XII, o que mais se evidenciou foi o de S. Simão, devido às diversas doações que foi recebendo, entre as quais se destacam aquelas que lhe vieram da generosidade de D. Afonso Henriques, em cartas datadas de 25 de Março de 1136, 29 de Março de 1141, 24 de Maio de 1143 e Março de 1181 (Idem, pp. 473-474).
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