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Contextualização: Vila do Conde até aos fins do século

Foto 8: Aqueduto de Vila do Conde (séculos 17 e 18)

Fonte: o Autor – (2008)

4.2 – Das Escolas da Aula Palatina às Escolas seguidas por Manuel de Sá

Para melhor situarmos os primeiros estudos de Manuel de Sá, relativamente ao lugar onde os fez, e aos conteúdos que faziam parte do currículo habitual das escolas do seu tempo, procedemos a uma pequena síntese do sistema de ensino, pelo menos até essa época

4.2.1 - Surgimento das Escolas entre gregos e romanos

As escolas tiveram a sua origem em tempos que remontam aos gregos Isócrates (436 –

338 a.C.) e Platão de Atenas (428/27 a.C. - 347 a.C.), que são considerados como os

seus fundadores.

O primeiro, um orador e retórico ateniense, é apresentado pela tradição como tendo sido aluno de Protágoras de Abdera, de Pródico (Πρόδικος) da ilha Ceos (e, sobretudo, de

Manuel de Sá – um diásporo quinhentista português ao serviço da Educação - sua vida -

Górgias de Leontini da Sicília (485 - 375 a. C.), dizendo-se também que foi ouvinte de

Sócrates. Foi adversário da filosofia platónica, que julgava inapta para a formação ética e política do homem grego e, sob o ponto de vista político, foi adversário de Demóstenes, lutando pela união do mundo helénico sob a monarquia de Filipe da Macedónia, contra os persas. Para expandir a sua doutrina, abriu a primeira escola de retórica, em 393 (a. C.), com regras ou objectivos bem delineados e mais práticos do que teóricos, entre as quais se destacam os seguintes:

• Ser capaz de usar uma linguagem e uma voz apropriadas para tratar problemas práticos;

• Possuir uma educação cívica compatível com as necessidades do tempo e em ordem ao serviço do Estado;

• Pôr em prática os ensinamentos, compondo e declamando discursos sobre os mais variados temas;

• Ser capaz de adaptar os temas e a linguagem às variadas situações e ocasiões; • Inculcar a ideia de que a habilidade e a prática são mais importantes do que as

regras ou princípios retóricos (Pietri, s/d, pp. 129-146).

Por sua vez, Platão, tendo sido discípulo de Sócrates, e mestre de Aristóteles, fundou a sua Academia, em 387 a.C. na qual ensinava também retórica e Filosofia, tratando nesta disciplina ética, política, metafísica e teoria do conhecimento como se verifica nos seus dois escritos, conhecidos sob os nomes de Diálogos ou Dialécticas e República, que tiveram grande influência nas gerações greco-romanas que, por sua vez, vieram a influenciar grandemente ou condicionaram todo o ensino latino, pelo menos até Alcuíno de York.

Na verdade, a partir dos sistemas gregos, os Romanos criaram os Ginásios, as escolas de cálculo, de gramática e de direito que vieram a sofrer transformações profundas com a decadência do Império Romano, iniciada nos finais do século II e consumada no ano 476, pelos Bárbaros que, tendo ocupado a Europa se converteram ao Cristianismo e o favoreceram de tal modo que se veio a impor, no campo do ensino. No entanto, nesses tempos remotos, segundo diz Tavares (1990, Vol. 1, p. 133):

Apenas uma minoria frequentava escolas para se instruir e, nesta, a maior parte destinava-se à vida eclesiástica. Daí que não estranhemos que tivesse sido a Igreja a primeira a

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preocupar-se com a cultura dos seus membros. Para isso, nos conventos e junto às sés, surgiram as primeiras escolas que tinham por objectivo fornecer ao futuro monge ou ao futuro clérigo os rudimentos da escrita e da leitura, de modo a poder enveredar pelo estudo da ciência religiosa.

4.2.2 - Surgimento das Escolas na Igreja católica

Na Igreja Católica, foram, então, instituídas Escolas Paroquiais, também chamadas Escolas Presbitérias, a fim de serem preparados clérigos para darem assistência às diversas paróquias que iam surgindo, nas cidades. Levaram este nome, por serem dirigidas pelo presbítero e terem lugar no presbitério, ou Casa paroquial. Há testemunhos de tais escolas já existirem no século II, sendo reservadas normalmente para aos eclesiásticos, como se lê em Riché (s/d, pp. 201-225).

O sistema era muito simples: o sacerdote que tinha a seu cargo a paróquia tinha também a função inerente de, em sua própria casa de residência, preparar os jovens que se predispusessem para o sacerdócio. Mas, à medida que as paróquias cresciam e o número dos jovens educandos aumentava, passou-se das casas privadas às primeiras igrejas nas quais o altar substituiu a tribuna.

Relativamente às matérias ministradas nestas escolas, preponderava o estudo da Sagrada escritura, de modo especial, os salmos bíblicos. No entanto, e uma vez que nas escolas públicas ou civis se ensinava cálculo, gramática e direito, é de supor que, também nestas escolas, se ensinasse alguma coisa destas matérias, dependendo da capacidade e habilitações do pároco mestre.

4.2.3 – Escolas Monacais – Regra de S. Bento

Para ampliar os estudos dessas escolas iniciais surgiu no seio da Igreja, já no século VI e longe dos povoados, a Regra (ou Constituições) de S. Bento que fundou um mosteiro em Múrcia (Espanha) e no Monte Cassino (Itália) (Riché (s/d, pp. 206-208), Regra essa que viria a ser adoptada por muitos outros mosteiros. Segundo esta Regra, além dos três votos – pobreza, castidade e obediência – deveriam praticar a hospitalidade, a caridade e o trabalho manual para a sua subsistência. Mas mais que tudo, deveriam dedicar-se ao estudo e ao ensino. Foi, assim, que os Mosteiros Beneditinos se tornam grandes centros culturais incluindo o célebre scriptorium, onde copiavam, textos antigos escreviam e elaboravam as belíssimas iluminuras que ainda hoje causam admiração. Foi igualmente

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devido a este trabalho que se puderam conservar obras antiquíssimas e raras. Também na Irlanda e Grã-Bretanha surgiram escolas monásticas, já no século V e VI, ficando célebres os mosteiros de Cantuária, Malmesbury, Wearmouth e Yarrow, donde saiu Egberto, futuro bispo de York, que foi, por sua vez, o mestre de Alcuíno (Idem, p. 209).

Nesses mesmos mosteiros surgiram também as Escolas Monásticas, no sistema de internato com o fim de formarem futuros monges, seguindo-se-lhes, mais tarde, escolas externas para a formação de leigos cultos, filhos dos reis e seus servidores. Os programas, inicialmente, eram bastante simples: aprender a ler, escrever, conhecer a Bíblia (quanto possível, de cor e salteada), canto e, um pouco de aritmética ao que, pouco a pouco, se adicionou o ensino do latim, necessário para compreender os textos sacros, da gramática, retórica e dialéctica, com a finalidade de virem, um dia a bem falar e persuadir.

4.2.4 - Escolas estatais, gérmen das escolas do futuro

Em 735 nasceu na Northumbria da Grã-bretanha Alcuíno que, de monge, passou a aluno, e, depois professor, pelo período de 15 anos, na Escola Catedralícia dessa cidade, tornando-se famosa pela sua Biblioteca e ensinamentos. A sua fama como monge e professor era de tal sorte conhecida pela Imperador Carlos Magno, que este, em 728, o chamou para fundar, junto da sua corte e no seu próprio palácio, a Aula Palatina, isto é, o Palácio-Escola de Aix-la Chapelle (a cidade alemã de Aachen ou Aquisgranum, em latim), situada na fronteira da Alemanha, Bélgica e Holanda) a qual deu origem à célebre Escola Palatina.

Foi, igualmente, sob a sua orientação, que, a partir de 787, foram publicados os decretos capitulares para a organização das escolas e dos seus programas. Estes incluíam as sete artes liberais, repartidas no Trivium (três vias constituídas pela Gramática, Retórica e Dialéctica) e no Quadrivium (quatro vias ou caminhos, ou seja: Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), às quais, mais tarde, veio adicionar-se a Medicina (Riché (s/d, pp. 214-215).

4.2.5 - Escolas Episcopais Catedralícias (séculos VII-XI)

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Episcopais que assim se chamaram devido a terem funcionando inicialmente numa dependência contígua ao palácio episcopal com o objectivo primordial de formar o clero secular. Note-se que o termo secular é aplicado, normalmente, aos sacerdotes que tinham contacto directo com à comunidade ou se embrenhavam directamente com o século. Pouco a pouco, estas escolas foram abertas aos leigos instruídos, de modo a puderem preparar-se para ensinarem e defenderem a Igreja no mundo laico. Este modelo de ensino, apanágio da Igreja católica perdurou até ao século XI.

No século XII, o ensino instala-se fortemente nas cidades com as Escolas Catedrais ou Catedralícias que, tendo a sua origem nas escolas episcopais, passaram a alargar o âmbito dos seus estudos. O que estas últimas ganharam em relação às anteriores deve-se muito ao modo como elas passaram a ser vistas e tratadas pela Igreja Romana. Com efeito, no século XI, com o Concilio de Roma (1079) e no século XII com o Concílio de Latrão (1179), estas Escolas puderam contar com benefícios para remunerarem os seus mestres, dando-se, então, um incremento na ciência com o contacto e absorção de novos elementos recebidos das culturas, em contacto: a judaica, a árabe e a persa, redescobrindo-se os autores clássicos, como Aristóteles e Platão.

Entre estas ficaram famosas, segundo GEPB (1936-1960, Vol 33, pp. 443 e 449), as escolas francesas de Chartres, Reims, Auxerre, Laon e as de S. Vítor, St. Germain, Sainte Geneviève do Claustro, em Paris; a belga de Torna, as alemãs de Fulda e Colónia e outras mais, enquanto em Portugal se distinguiram, entre outras, as de Braga, Coimbra, Guimarães, Lisboa e Alcobaça.

Com o crescimento das igrejas, o Bispo (episcopos [ επισκοπος ], vigilante) fixa-se na igreja do centro populacional mais importante da região, ficando as outras igrejas menos importantes a depender directamente dos Presbíteros (do grego presbyteroi [πρεσβιτεροι] - isto é, os Anciãos. Assim, enquanto nas cidades se fundavam Escolas Catedralícias, Monacais, nas vilas ou aldeias surgia o aperfeiçoamento das escolas paroquiais.

4.2.6 - Colegiadas em Portugal

Segundo Machado (1977, Vol. II p. 865), Colegiada vem do latim collegiu - significando acto/estado de ser colega. E, em literatura religiosa, significa normalmente

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uma Corporação ou colégio de sacerdotes, presidida pelo prior com funções e honras de cónegos, não pertencentes à Sé Episcopal, como o define o Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia Das Ciências de Lisboa (Vol. I, p. 182).

As Colegiadas podem ser chamadas seculares, se dependerem directamente do Bispo da Diocese, ou Regulares, quando dependem directamente do Superior de uma Ordem Religiosa. Subdividem-se, ainda, em Catedralícias se estiverem agregadas a uma Catedral, ou meras Colegiadas se pertencerem a uma outra Igreja ou Mosteiro. Quanto à sua dependência, podem ser livres, se dependerem directamente do Bispo ou de patronato, se dependerem de um patrono qualquer, normalmente civil, por exemplo do rei, chamando-se, neste caso, Colegiada de padroado real, segundo opinião de Oliveira (1967, ELBCV, Vol. V, Col. 912).

Assim, estas tiveram origem na necessidade que se sentiu, na Idade Média, de acolher à volta das igrejas catedrais um grande número de clérigos que procuravam seguir uma vida em comum. Seguindo o seu exemplo surgiram outras junto das Igrejas paroquiais ou nos mosteiros que se afastavam um tanto das regras das suas Ordens monásticas iniciais, sendo presididas pelo Prior que teria de ter à sua volta um determinado número de sacerdotes que pudessem leccionar.