CAPÍTULO 3 – A OBRA FINALIZADA: ASPECTOS DO TEMPLO E DEVOÇÕES
3.3 O Interior
3.3.1 Altares da Nave
A espiritualidade franciscana valorizou, sobremaneira, o homem comum despojado dos conhecimentos doutrinários e dogmáticos, ou seja, o leigo solteiro ou casado. Dentre os santos milagrosos venerados pela Ordem (primeira, segunda e terceira) há aqueles que se destacaram pela caridade e penitência, como: Isabel, Rainha da Hungria (falecida em 1231), São Lúcio e Santa Bona, ou ‘Os Bem Casados’ (falecidos na primeira metade do século XIII), Santa Rosa de Viterbo (falecida em 1256), São Luis, Rei de França (falecido em 1270), Santa Margarida de Cortona (falecida em 1297), São Roque (1300-1327) – que recebeu os estigmas de Cristo em sua coxa esquerda – Santa Isabel, Rainha de Portugal (falecida em 1336) e Santo Ivo Sacerdote (falecido em 1693). (CAMPOS, 2011, p.69)
Dentre os santos citados por Campos, a maioria deles é adotada pela Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Mariana, seja para entronar os retábulos da nave ou andores nas procissões (conforme constatamos na documentação 167 ). Por uma questão de impossibilidade de acesso à maioria dos bens móveis da Ordem Terceira, que foram retirados após o fechamento da capela168 para restauro, apenas analisaremos as esculturas dos retábulos, que são imprescindíveis para uma completa compreensão dos mesmos169·.
A maioria das imagens escultóricas encontradas na Capela da Ordem Terceira foi doada pelos irmãos terceiros nos primeiros anos após a criação da ordem, conforme pode ser constatado nos documentos em anexo170.
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O termo casas é utilizado vastamente na documentação, fazendo referência a “peça ou parte do edifício, aposento” (BLUTEAU, 1712-28, v.2, p.173).
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Estatutos da VOTSFco e Livro de Termos da VOTSFco (1758-1870). 168
No ano de 2012, todas as imagens da capela foram retiradas e embaladas para armazenamento enquanto durasse o restauro. Elas se encontram sob a guarda do Museu de Arte Sacra de Mariana, junto com a reserva técnica e não estão em exposição.
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Um estudo complemetar sobre o tema se encontra publicado na tese de Maria Regina Emery Quites:
Imagens de Vestir (QUITES, 2007).
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Uma observação preliminar nos permite destacar as escolhas que dizem respeito à localização dos altares laterais. Primeiramente, notamos a predominância do feminino no lado do evangelho (com a colocação de duas santas nos camarins principais) e o masculino, no lado da epístola (aonde se expõem dois santos). Em questão de classificação social, os santos com títulos de majestade (Santa Isabel, Rainha de Portugal e São Luis, Rei de França) ocupam os retábulos mais próximos da capela-mor171, um de cada lado do arco- cruzeiro. Esses altares também têm uma fatura mais sofisticada e dimensões maiores que os outros dois altares da nave. Todos esses detalhes se relacionam diretamente com as intenções da Ordem Terceira e a preferência de devoção escolhida pelos irmãos terceiros, conforme exploraremos mais adiante. A seguir analisaremos as características e elementos dispostos nos quatro retábulos da nave172.
Altar de Santa Rosa de Viterbo
Santa Rosa nasceu em Viterbo poucos anos após a morte de São Francisco de Assis. Diz-se que Nossa Senhora apareceu para ela em momento de enfermidade e a curou da doença que a acometia, motivo pelo qual desde bem jovem sonhava em entrar para a ordem das clarissas. A rosa é um elemento iconográfico relativo à santa faz referência ao seu nome.
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Quanto mais próximo da capela-mor, mais prestigioso é o local dentro da capela. 172
Para compreender a iconografia de cada santo será importante retomar sua história, para isso apresentamos uma breve biografia antes de analisar cada altar.
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Figura 32 - Retábulo de Santa Rosa. Fonte: Acervo da autora, 2012.
Do topo de seu trono Santa Rosa veste um manto marrom com o cordão franciscano amarrado na cintura. Seu corpo é todo coberto, estando visível apenas sua face e mão direita com a qual segura uma cruz coberta de rosas173. Ela mantém uma feição sóbria e seu
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As rosas atualmente são amarelas, mas existem fotografias que mostram rosas vermelhas, evidenciando que o item vai sendo renovado ao longo dos anos.
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rosto está levemente inclinado para a esquerda. A tribuna do trono é pintada de azul claro imitando seda, com alguns agrupamentos de flores azuis, rosas e amarelas.
No camarim à direita da Santa fica uma escultura em madeira de Santo Antônio segurando na mão esquerda o livro sagrado sob o qual descansa o Menino Jesus e na mão direita uma cruz. À esquerda, está uma escultura de São Vicente Ferrer, conhecido como Anjo do apocalipse. A representação é de um jovem imberbe, com a cabeça descoberta de forma que vemos seu cabelo revirar na testa e ao entorno da cabeça. Veste uma longa túnica com capa e capuz, grandes asas azuis saem de suas costas. Ele aponta o dedo indicador da mão direita para o céu e com a outra mão, segura um livro.
A pintura do retábulo é bem clara e leve. Apenas um pouco de dourado contorna as pilastras, dosséis, cartela com o nome da santa e acabamentos.
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Altar de Santa Isabel, Rainha de Portugal
Santa Isabel nasceu em 1274, filha de Pedro II, rei de Aragão. Ainda jovem contraiu matrimônio com o rei D. Dinis de Portugal. Apesar de privilegiada posição social, Isabel sempre se preocupou com os pobres, dedicando sua vida aos mais necessitados, ela também foi responsável pela fundação de conventos e hospitais. Após a morte de seu marido, o rei, Santa Isabel tomou o hábito franciscano e por isso tornou-se uma santa comumente venerada pelos irmãos terceiros.
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A imagem de Santa Isabel é de uma jovem em pé vestida de hábito franciscano que segura um cajado na mão direita. Sua representação é bastante modesta, ela não usa a coroa de rainha que ela foi em vida, nem trajes vistosos ou joias – ela é a personificação do desapego material. No medalhão deste retábulo, porém, está representada a coroa, símbolo de sua majestade.
Nos camarins laterais encontram-se duas santas. À direita está Santa Clara de Assis, que é a mais conhecida santa franciscana. Tendo vivido à época de São Francisco, seguiu seus passos e devotou sua vida à Igreja. Sua imagem está em posição secundária no camarim à direita da santa a quem o altar é dedicado. Pelo fato de ter destinado sua vida inteiramente à Igreja, optando por não se esposar, fica evidente que os membros da Ordem Terceira, que eram leigos com vida matrimonial, escolhessem outra santa com características mais próximas das suas para entronar o retábulo.
Já Santa Rita, que se encontra no camarim à esquerda, foi casada e teve filhos e após a morte de todos recolheu-se ao convento em Cássia, onde por diversos anos viveu com uma ferida do espinho da cruz de Cristo em sua testa. Diz-se que durante um rigoroso inverno, as videiras cultivadas por Santa Rita proveram frutos para a população esfomeada. Sua representação na capela marianense poderia estar evocando os primeiros anos da povoação da região, quando havia de fato escassez de alimentos e bens de primeira necessidade. Neste caso, a santa serviria como um apelo para que tal carestia não voltasse a atormentar a população.
O retábulo faz parte das obras entregues em 1793 por Miguel Teixeira Guimarães quando houve a aceitação da capela. Ataíde trabalharia na pintura e douramento deste retábulo entre os anos de 1795 e 1797. Santa Isabel, também é cultuada nas Capelas franciscanas de Ouro Preto, São João del Rei e Diamantina.
Altar de São Luis, Rei de França
São Luis se tornou monarca ainda muito jovem, por ser um rei muito devoto, de preocupava com a aplicação dos preceitos cristãos em todos os seus domínios. Tão intensa
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era sua fé que chegou a participar das cruzadas para a Terra Santa, numa das quais veio a falecer em 25 de agosto de 1270, data em que se o comemoramos. Sob seu reinado foram edificadas diversas capelas e catedrais góticas. São Luis de França é considerado por esses e outros motivos o modelo de monarca cristão.
Figura 35 - Altar de São Luis, Rei de França. Fonte: Acervo da autora, 2014.
São Luis é representado com uma vistosa capa vermelha, coroa e cetro, elementos relativos à sua posição social. Por baixo da capa, porém, está o hábito franciscano, que nos recorda de sua devoção e fé.
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São Luis é uma figura comum dentre a iconografia franciscana, sendo representado também em retábulos das capelas franciscanas de Diamantina, Ouro Preto e São João del Rei. No camarim à esquerda do santo temos uma representação de São Sebastião. No camarim à direita, São Manoel.
O livro de despesas registra o pagamento da “seda e feitio do vestido de São Luis” 174 o equivalente a 27 oitavas e quatro tostões no ano de 1760, ou seja, desde então a Ordem já possuía a imagem deste santo e estava investindo na sua decoração e ornamentação.
A mesa do altar (figura 37) retangular tem detalhados motivos fitomorfos pintados em dourado, em cima de branco, laranja e azul (infelizmente a tinta está muito desgastada o que dificulta sua apreciação).
Figura 36 - Mesa do Altar de São Luis rei de França. Fonte: Acervo da autora, 2014.
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Altar de São Roque
São Roque, desde muito novo era bastante religioso e voltado a ajudar os outros, inclusive veio a fazer votos na Ordem Terceira franciscana. Após a morte de seus pais, doou todos os bens herdados e como peregrino foi à Roma na época que uma terrível peste assolava a região. Roque serviu de enfermeiro e ajudou a tratar dos mais pobres e doentes. Ajudou a curar muitas pessoas e por onde passava a peste cessava.
Embora fosse resistente à doença, certa vez acordou com uma dor terrível, febre alta e uma ferida na perna esquerda. Rejeitado após esse evento, São Roque se recolhera para viver em isolamento, de onde recebia a visita de um cão que lhe trazia alimento, por esse motivo, o cão e a chaga na coxa esquerda são representações alusivas a esse santo.
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No camarim central está São Roque, em sua típica representação com uma chaga na coxa e o fiel cachorro ao seu lado, a frente está a representação do anjo que teria sido mandando por Deus para interceder em nome de São Roque na cura da epidemia que assolava a região. Nos camarins laterais encontramos, à esquerda São Lázaro e à direita São Libório, santos também ligados à cura. O livro de recibos da Ordem Terceira175 informa que este retábulo foi feito por Francisco Xavier Carneiro.
A respeito da invocação:
Foi relatado que segundo informações dos moradores e devotos por motivos que não se explicam, num dos altares da Igreja de São Francisco de Assis de Mariana ficou um nicho vazio por longo tempo. E não se decidia qual santo ocuparia o nicho, até que uma epidemia de varíola, na época conhecida por bexiga, assolou a região. O povo então invocou a São Roque, protetor contra peste, em especial, doenças da pele como as feridas, prometendo que se cessasse a epidemia, colocariam no nicho vazio uma imagem de São Roque, uma vez, que ele era também franciscano. A epidemia cessou e o bispo da época, juntamente com o Assistente Espiritual dos Irmãos Terceiros de São Francisco encomendou a imagem de São Roque, que veio diretamente da França para Mariana (NEVES, 2013, p.5).
A mesa do altar é retangular e possui poucos detalhes, é pintada de vermelho, laranja e branco com dois conjuntos de flores representados num fundo branco (figura 39).
Figura 38 - Mesa do altar de São Roque. Fonte: Acervo da autora, 2014.
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3.3.2 Elementos em pedra