CAPÍTULO 3 – A OBRA FINALIZADA: ASPECTOS DO TEMPLO E DEVOÇÕES
3.1 O Frontispício
O frontispício da Capela é seccionado verticalmente por pilastras de pedra e se divide em três eixos, o das torres laterais (levemente recuado), e o central com o frontão. Horizontalmente uma cornija e uma cimalha separam os vãos inferiores das torres e do frontão. A superfície da fachada é caiada e as cornijas, contornos do frontão e chanfros das torres pintados de amarelo. Na seção inferior existe quatro porta-sacadas paralelas, com balaustrada de pedra-sabão, duas imediatamente ladeando o medalhão central e duas no eixo das torres. Abaixo destas, dois olhos-de-boi garantem a entrada de luz às escadas no interior das torres.
O acesso principal à capela se dá por uma portada central de madeira. Suas almofadas, entalhadas com muito requinte, foram pintadas de verde, a composição é emoldurada por ombreiras de quartzito estriadas. Acima desta portada fica o medalhão esculpido em “pedra-talco de coloração marrom clara” (COSTA, 2009, p.160) com a inscrição em latim, relativa à data de lançamento da pedra fundamental (conforme exploramos no capítulo anterior). Nas laterais foram esculpidas volutas, rocalhas e elementos fitomorfos, além de dois querubins, nos lados opostos do medalhão. Acima deste há um escudo dividido em duas partes, do lado esquerdo detalhes das cinco chagas de Cristo, que teriam sido recebidas por São Francisco no monte Alverne, alusivo à ordem à qual pertencia158 esta capela159 do lado direito, as sete torres e cinco escudos, símbolos da Coroa portuguesa. O cordão franciscano contorna-os simbolizando a união entre a Ordem e a Coroa.
Mais acima existe um querubim, de cuja cabeça saem dois braços, outra alusão à ordem franciscana, o da esquerda desnudo e com uma chaga na mão, representação do braço de Jesus Cristo e espelhando este, outro braço sem a chaga e coberto pela manga de um hábito. Acima dos braços nasce uma cruz no centro da qual está a coroa de espinhos de Cristo.
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A Ordem Terceira de São Francisco de Assis se desfez ao longo do século XX. 159
As chagas fazem parte da principal iconografia franciscana pois representam o momento mais importante da vida do santo. São por isso utilizadas tanto nos medalhões, como nas tarjas dos retábulos, arremate do arco-cruzeiro, altar-mor, móveis e livros da Ordem.
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Suas pontas são trilobadas160, detrás dela quatro raios disparam para os lados intermediários entre os braços da cruz (figura 24).
Figura 23 - Medalhão de pedra com inscrições em latim. Fonte: Acervo da autora, 2012.
Esta secção superior à portada concentra toda a composição ornamental da fachada, uma vez que as outras cantarias representam apenas detalhes de finalização dos vãos e pilastras. Tal opção é comumente observado em várias outras capelas da região mineradora e, em especial, nas igrejas matrizes.
As porta-sacadas são quatro, simetricamente divididas no frontispício. Podemos observar na sua balaustrada de pedra a instalação de lâmpadas, provavelmente colocadas na última metade do século XX para melhor iluminação da praça.
Acima, no intervalo entre a cornija e a cimalha, que cortam o edifício horizontalmente, está um óculo vidrado relativamente pequeno em relação à fachada, com formato anguloso e um discreto arremate superior em forma de bico que é contornado pela cornija. O tímpano
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acima é fechado e caiado, apresentando em seu contorno discretas curvas finalizado pelo acrotério que sustenta a cruz de Lorena, cruz característica da ordem franciscana161.
Figura 24 - Cruz de Lorena. Fonte: acervo da autora, 2009.
A cruz com dois braços transversais representaria, no braço superior, a inscrição derrisória de Pilatos, Jesus de Nazaré, rei dos judeus. O braço inferior seria aquele em que se estenderam os braços do Cristo. É a cruz dita “de Lorena” que provém, na realidade, da Grécia onde é comum. (CHEVALIER e GHEERBRANT,1990, p.310)
As torres laterais, simétricas e idênticas possuem base quadrada chanfrada nos cantos e uma janela em cada uma de suas faces. Encimadas por cobertura em formato de sino e pináculo de pedra (Figura 26).
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Em Minas Gerais, todas as capelas da Ordem Terceira de São Francisco de Assis são coroadas com esta cruz de dois braços.
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Figura 25 - Torres e frontão da Capela. Fonte: Acervo da autora, 2013.
O frontispício acompanha o costume arquitetônico da colônia, Oliveira explica que:
Diversamente da América Hispânica, as tradições da arquitetura religiosa luso- brasileira sempre priorizaram a decoração interna, mantendo um relativo despojamento na ornamentação das fachadas, concentrada nos frontões e enquadramento dos vãos, particularmente nas portadas (OLIVEIRA, 1999, p.129).
Infelizmente, o clima úmido e chuvoso da região, a poluição gerada por combustíveis dentre outros fatores, afetam a cal que protege a superfície da capela, resultando nas manchas escuras que vemos por toda a fachada. Tal situação não apenas restringe a apreciação estética do frontispício da capela, como representa um risco para sua estrutura, uma vez que a cal é aplicada justamente para proteger as paredes do edifício. Dentre as variáveis que prejudicam o edifício, a humidade característica da região, especialmente no verão, é um fator bastante considerável. Segundo o Manual de conservação de cantarias elaborado pelo IPHAN/Monumenta o ataque de chuvas:
[...] é prejudicial à cantaria porque o ar contém dióxido de carbono, que, dissolvido em água, forma ácido carbônico. Nessas condições os calcários, as argamassas, a cal, e os mármores podem ser transformados e gradativamente dissolvidos.” (2000, p.21).
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Uma manutenção regular garantiria melhor conservação da capela. Felizmente, em 2012 ela foi fechada e foi elaborado um projeto de restauro, que envolve intervenções além da superfície externa do edifício162.