Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) foi um filósofo da linguagem russo de extrema importância em diferentes áreas do conhecimento, como linguística, literatura, filosofia, antropologia, sociologia, entre outras. Apesar de escrever e discutir muito du- rante toda a vida, seu reconhecimento só foi possível depois que foi redescoberto por estudiosos russos na década de 1960, pela sua obra Problemas da poética de Dostoiévski e sua tese de doutorado Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, sendo considerado criador de uma nova teoria sobre o romance europeu:
Durante os anos de 1920, ele era uma figura marginal na cena intelectual russa, sem emprego em nenhum instituto ou universidade e conhecido tão-somente por um pequeno grupo de amigos e admiradores. Na primeira metade da década de 30, ficou em exílio político no Cazaquistão. Por um breve interlúdio entre 1936 e 1937, ocupou um posto acadêmico numa faculdade para a formação de professores na Mordóvia, longe dos centros intelectuais russos. Em seguida, durante o pior momento das depurações stalinistas, retirou-se para pequena cidade perto de Moscou, onde permaneceu em todo o transcurso da Segunda Guerra Mundial. Após a conflagração, voltou ao seu cargo na Mordóvia, mantendo-o até aposentar em 1961 (CLARK &
HOLQUIST, 2008, p. 21-2)36.
Bakhtin escreveu sobre o corpo em diferentes momentos do seu pensamento, de- senvolvendo-o conforme os anos. Nos seus primeiros escritos, o corpo é constituído muito mais em uma relação estética, em que o meu corpo é um todo visual de contemplação do outro. Posteriormente, o corpo é desenvolvido em uma relação ética, em que ele constitui a minha posição singular responsiva. Ambas as relações são constituintes de um corpo, de forma que, como eu não vejo o meu todo, eu não percebo o significado de minhas ações.
Em Estética da Criação Verbal, Bakhtin inicia uma discussão a respeito do corpo na atividade estética, examinando “a imagem externa como conjunto de todos os elemen- tos expressivos e falantes do corpo humano” (BAKHTIN, 2011, p. 25). Para ele, a nossa imagem externa não integra o nosso horizonte de visão, mas sim nossa autossensação interna:
Não há dúvida, evidentemente, de que minha imagem externa não integra o horizonte real concreto de minha visão, saldo os casos raros em que eu, como Narciso, contemplo meu reflexo na água ou no
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espelho. Minha imagem externa, isto é, todos os elementos expressivos do meu corpo, sem exceção, é vivenciada de dentro por mim; é apenas sob a forma de extratos, de fragmentos dispersos, que se agitam nas cordas da autossensação interna; minha imagem externa chega ao campo dos meus sentimentos externos; antes de tudo da visão, mas os dados de tais sentimentos não são a última instância nem para decidir se esse corpo é meu; só a nossa autossensação resolve a questão. Ela não confere unidade aos fragmentos da minha expressividade externa e o traduz em sua linguagem interna (BAKHTIN, 2011, p. 26).
Nesse sentido, observa-se que a imagem externa, o corpo, não pode ser percebido pelo meu horizonte real de visão, com exceção de um reflexo que não seria uma percepção real de mim. Ainda segundo Bakhtin (2011, p. 30), “contemplar a mim mesmo no espelho é um caso inteiramente específico de visão da minha imagem externa. [...] vemos o re- flexo da nossa imagem externa mas não a nós mesmos em nossa imagem externa; [...] estamos diante e não dentro do espelho; [...]”. Por isso, só consigo compreender o meu corpo, minha imagem externa, através do meu vivenciamento interno, indo ao encontro de minha expressividade externa traduzida em uma linguagem interna.
Por só conseguir valorar e compreender a minha imagem externa através de uma linguagem interna, Bakhtin afirma que, ao tentar imaginar minha própria imagem externa, tento criar um afastamento da autossensação, mas essa ação é falseada e logo sou ligado ao vivenciamento interior de mim mesmo. Tal fato ocorre porque não tenho um foco volitivo-emocional com a minha imagem externa da mesma forma que tenho com o outro, uma vez que o eu se organiza no interior em categorias de valores diferentes. A forma que sinto e valoro no interior de mim difere da forma que sou visto e valorado.
Para Bakhtin, a imagem externa deve englobar o todo da alma conjuntamente com a minha visão volitivo-emocional e ético-cognitiva do outro sobre mim e de mim sobre o outro. Eu, do meu lugar, não posso perceber a minha própria imagem externa e valorá-la. Ela só pode ser vivenciada pela visão do outro sobre mim. Sobre a minha imagem externa, o outro, do seu lugar, me vê como um elemento do mundo exterior plástico-pictural e único com a sua orientação volitivo-emocional e ético-cognitiva. No entanto, só é possí- vel viver essa fronteira externa a partir da autoconsciência. Assim:
De fato, só no outro indivíduo me é dado experimentar de forma viva, estética (e eticamente), convincente a finitude humana, a materialidade empírica limitada. O outro me é todo dado no mundo exterior a mim como elemento deste, inteiramente limitado em termos especiais; em cada momento dado eu vivencio nitidamente todos os limites dele, abranjo-o por inteiro com o olhar e posso abarcá-lo todo com o tato; vejo a linha que lhe contorna a cabeça sobre o fundo do mundo exterior, e todas as linhas do seu corpo que o limitam no mundo; o outro está
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todo estendido e esgotado no mundo exterior a mim como um objeto entre outros objetos, sem lhe ultrapassar em nada os limites, sem lhe violar a unidade plástico-pictural visível e tátil (BAKHTIN, 2011, p. 34).
Na minha autoconsciência, vivencio o outro de forma diversa do que a mim mesmo. Meu olhar sobre o outro abarca as fronteiras externas do seu corpo limitado ao mundo. Assim, a imagem externa do outro, o seu corpo, faz parte dos objetos entre outros objetos, estando restrito à unidade plástico-pictural visível e tátil. Nesse sentido, “essa forma do eu, na qual vivencio só a mim, difere radicalmente da forma do outro, na qual vivencio todos os outros indivíduos sem exceção” (BAKHTIN, 2011, p. 35). Essa dife- rença de categorias de vivenciamento do eu e do outro é importante tanto para a estética quanto para a ética. Compreendo, assim, que só posso vivenciar o outro, o corpo do outro, de forma que o meu corpo somente o toque, o abrace e o beije, dando um acabamento na existência-aqui-e-agora que são apreendidas por mim .Tais toque, abraço e beijo não po- dem ser direcionados a mim mesmo, não só pela questão física, mas também pela falsi- dade volitivo-emocional dos atos a mim direcionados. Assim, compreendo que, para que haja um vivenciamento ativo do corpo, é necessário um outro com desejo dessa realiza- ção.
Até aqui, está-se falando do “vivenciamento da imagem externa na autoconsciên- cia e em relação a outra pessoa, das fronteiras externas do corpo e da ação física externa” (BAKHTIN, 2011, p. 44). No entanto, é necessário que se debata sobre a questão do corpo como valor, compreendendo que, se o corpo possui uma valoração para as pessoas, esta situa-se em um plano ético e estético. Há, portanto, um afastamento do que se entende por corpo nas ciências naturais37. O que é de extrema importância é o corpo e sua valora- ção em relação ao sujeito em um mundo singular. Assim:
Meu corpo, em seu fundamento, é um corpo interior; o corpo do outro, em seu fundamento, é um corpo exterior. [...]
Posso experimentar o amor do outro por mim, posso desejar ser amado, posso imaginar e prever o amor do outro por mim, mas não posso amar a mim mesmo como se amasse o outro, de forma imediata (BAKHTIN, 2011, p. 44).
Portanto, a questão de não poder sentir-se o próprio corpo como se sente o corpo do outro no nosso está ligada às noções de corpo interior (o meu, em seu fundamento) e
37 “Do enfoque biológico do organismo, do enforque psicofisiológico da relação entre o psicológico e o físico e dos respectivos problemas da filosofia naturalista” (BAKHTIN, 2011, p. 44).