De forma geral, Bakhtin (2008, p. 265) afirma que “[o] exagero, o hiperbolismo, a profusão, o excesso são, segundo opinião geral, os sinais característicos mais marcantes do estilo grotesco”. No entanto, considerar que o grotesco é apenas o exagero o reduz a uma única característica (considerada negativa, ainda por cima) quantitativamente grande, mas qualitativamente pequena. Para Bakhtin, o grotesco vai além disso, pois está mais ligado ao apagamento das fronteiras entre o corpo e o mundo: “Na base das imagens grotescas e dos seus limites. As fronteiras entre o corpo e o mundo, e entre os diferentes corpos, traçam-se de maneiras complemente diferente do que nas imagens clássicas e naturalistas” (BAKHTIN, 2008, p. 275).
Em sua teoria, Bakhtin retoma e sublinha diversas vezes que o corpo grotesco é “um corpo em movimento. Ele jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado de construção, de criação e ele mesmo constrói outro corpo; além disso, esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele” (BAKHTIN, 2008, p. 277). Concomitante a essa concepção, tem-se a questão dos traços do rosto humano: apenas a boca e o nariz desempenham um papel na imagem do corpo grotesco, uma vez que a boca é o substituto do falo e a boca uma parte marcante e dominante. Uma boca escancarada corresponde a um abismo devorador do corpo, é aquilo que absorve, é o local de penetração profunda.
Um exemplo dessa relação entre o corpo e o mundo presente em O Silmarillion é uma das formas que Yavanna, a Provedora de Frutos e esposa do Valar Aulë, assume:
Na forma de mulher, ela é alta e se traja de verde; mas às vezes assume outras formas. Há quem a tenha visto em pé como uma árvore sob o firmamento, coroada pelo Sol; e, de todos os seus galhos, derramava-se um orvalho dourado sobre a terra estéril, que se tornava verdejante com o trigo; mas as raízes das árvores estavam nas águas de Ulmo, e os ventos de Manwë falavam nas suas folhas (TOLKIEN, 2009a, p. 18).
Mesmo na forma de mulher, Yavanna destaca-se por ser alta, o que não se espera para a estética de uma mulher no ocidente. Porém, quando esta não está na forma de mulher, ela se apresenta como uma árvore, cheia de galhos, subvertendo uma ordem cor- pórea humana e ligando-se à natureza, ao cosmos. Nesse sentido, Yavanna não só quebra uma ordem corpórea esperada, mas transcende essa ordem. Analisando tais traços da per- sonagem à luz da teoria bakhtiniana, nota-se que o corpo dos Valar pode, de fato, ser entendido como um corpo grotesco, pois se relaciona à natureza e ao seu limiar. Como afirma o teórico:
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Observemos ainda que o corpo grotesco é cósmico e universal, que os elementos aí sublinhados são comuns ao conjunto do cosmos: terra, água, fogo, ar; ele liga-se diretamente ao sol e aos astros, contém os signos do zodíaco, reflete a hierarquia cósmica; esse corpo pode misturar-se a diversos fenômenos da natureza: montanhas, rios, mares, ilhas e continentes, e pode também encher todo o universo (BAKHTIN, 2008, p. 278).
Mesmo os Maiar, que, assim como os Valar, são espíritos que auxiliam no mundo, apesar de menos poderosos, apresentam essa relação de transgressão. Um exemplo na obra de Tolkien (2009a, p. 22) é a personagem Uinen, esposa de Ossë que é vassalo de Ulmo: “Sua esposa é Uinen, a Senhora dos Mares, cuja cabeleira se espalha por todas as águas sob os céus”. Vê-se que seus cabelos se espalham pelas águas, ou seja, que parte de sua forma corpórea se funde com a natureza. Tal fato é possível, uma vez que se com- preende que o grotesco, segundo Bakhtin (2008, p. 278), “ignora a superfície sem falha que fecha e limita o corpo, fazendo dele um fenômeno isolado e acabado”, concebendo o corpo como essa abertura e infinidade corporal.
Quando se fala dos corpos negativamente apreciados na obra O Silmarillion (cor- pos estes considerados como aqueles dos inimigos dentro do universo tolkieniano), ima- gina-se que apenas eles sejam considerados grotescos, uma vez que apresentam caracte- rísticas de dualidade e transformação. No entanto, quando se olha mais atentamente para os povos considerados heróis, cujas características, a priori, remetem a um corpo canô- nico, fechado, belo e de divindade. Segundo Bakhtin (2008, p. 279): “um corpo perfeita- mente pronto, acabado, rigorosamente delimitado, fechado, mostrado do exterior, sem mistura, individual e expressivo”. Na citação, percebe-se que, na verdade, seus corpos possuem também traços de inacabamento, dualidades, ultrapassagem de fronteiras. Por- tanto, eles são tão grotescos quantos os outros.
De modo geral, viu-se que os corpos monstruosos eram assim concebidos em opo- sição ao belo clássico. Contudo, na perspectiva do realismo grotesco, tais corpos estão, na verdade, em constante transformação e ligados ao rebaixamento, à terra e, por isso, à humanidade. Dessa forma, o realismo grotesco apresenta uma percepção positiva do monstruoso. Essa, no entanto, não é a percepção das relações sociais da obra ficcional O Simlmarillion nem da realidade fora dela.
A orientação para baixo é própria de todas as formas da alegria popular e do realismo grotesco. Em baixo, do avesso, de trás para a frente: tal é o movimento que marca todas essas formas. Elas se precipitam todas para baixo, viram-se e colocam-se sobre a cabeça, pondo o alto no lugar de baixo, o traseiro no da frente, tanto no plano do espaço real como no
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da metáfora.
A orientação para baixo é própria das lutas, brigas e golpes: esses reviram, lançam por terra, espezinham. Enterram. Ao mesmo tempo são criadores: ressecam e ceifam [...] (BAKHTIN, 2008, p. 325).
Como se vê, o alto e o baixo não se constituem mais como dicotomias que correspondem a alto-bom e baixo-mal. Surge uma nova ordem das orientações do mundo, em que o baixo se constitui enquanto riqueza e ligado a uma verdadeira humanidade e renascimento, e o alto perde a sua unanimidade como bem absoluto e positividade. O baixo é o local dos embates, das lutas e dos golpes, em que tudo acontece e se transforma:
Esses rebaixamentos não têm um caráter relativo ou de moral abstrata, são pelo contrário topográficos, concretos e perceptíveis; tendem para um centro incondicional e positivo, para um princípio da terra e do corpo, que absorvem e dão à luz. Tudo o que está acabado, quase eterno, limitado e arcaico precipita-se para o “baixo” terrestre e corporal para aí morrer e renascer (BAKHTIN, 2008, p. 325).
Ao começar a discussão a respeito do hemisfério alto e baixo na divisão do mundo de Tolkien, observam-se como os elfos (os mais ligados ao deus) estavam localizados no hemisfério alto, enquanto os vilões (Melkor e suas criaturas, que questionavam o deus) estavam no hemisfério baixo e nas profundezas da terra, local de suas moradas. No entanto, toda a transformação topográfica se dá na Terra-média, nas suas cavernas (com a criação dos anões por Aulë) e nas minas dos anões, no mar com as navegações e seres profundos, na natureza, com as suas florestas e povos que vivem nela, como os elfos e os entes, nas montanhas e em suas chamas, local em que vive os orcs, entre outros. Apesar dos Valar isolar-se no alto, é no baixo, na terra, que a vida acontece. No baixo que se morre e renasce, tanto o corpo quanto a natureza. Assim sendo, a princípio, o monstro parece ser uma categoria que abarca as caracterizações dos corpos nas obras de Tolkien, assim como a topografia do mundo. No entanto, só a partir de um olhar transformador, inacabado e em movimento do corpo grotesco que se pode entender a complexidade das relações sociais e dos corpos que fazem parte da cosmogonia tolkieniana. Como afirma Bakhtin (2008, p. 323), “[a] verdadeira riqueza, a abundância não residem na esfera superior ou mediana, mas unicamente no baixo”.