aproveitasse do recurso [...] Quanta dista então a mulher, que se diz sendo civilizada, da fêmea de um animal.! Quanto se mostra esta mais discreta, mais carinhosa, mais prudente, mais sublime, mais mãe! (PINTO, 1859, p. 180/205).
Em 1859, Ferreira Pinto21 era doutor em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro (FMRJ), lente substituto da seção de ciências médicas na mesma faculdade e cavalheiro da Imperial Ordem da Rosa. O ano marca a publicação do seu livro intitulado O médico da primeira infância ou o conselheiro da mulher grávida. Preocupado com a alta taxa de mortalidade infantil no país, o autor ressaltava quatro fatores que se opunham ao crescimento da população por meio natural: em primeiro lugar, as causas relacionadas à falta de higiene, miséria, e maus hábitos como empecilho à concepção; em segundo lugar, a ausência de cuidados durante a gravidez ocasionada por vícios e moléstias, fatores que se opunham ao desenvolvimento do feto no ventre materno; em terceiro lugar, a falta de parteira ou a ignorância das comadres como causa da morte no nascimento; e, por fim, a mortalidade espantosa em decorrência da omissão de cuidados na primeira infância.22
Ao se intitular como conselheiro da mulher grávida, o médico dissertava sobre o reconhecimento da gravidez, as precauções ao longo da gestação, as vestimentas adequadas, os primeiros cuidados com o infante e a mulher parida. Quando em estado de gravidez, a mulher deveria, pois, “[...] renunciar a dança, as carreiras, os saltos, viagens longas ou forçadas, quer a pé quer a cavalo ou em carruagem que não for cômoda” (PINTO, 1859, p. 35). O autor atentava para as cativas ou livres que precisavam trabalhar, e para os inconvenientes que o serviço podia trazer para a saúde da mãe e da criança. O alerta era também dirigido aos senhores de escravos, a fim de que estes acolhessem as escravas grávidas no interior da família, para os afazeres domésticos, caso as senzalas não fossem bem acondicionadas.
O leite materno figura como a grande defesa do médico; este argumentava que a criança recém-nascida devia ser alimentada pela mãe; esta, por ser civilizada, não deveria abandonar a prole, uma vez que nem mesmo os animais o faziam: “Quanta dista então a mulher, que se diz sendo civilizada, da fêmea de um animal?”. Entretanto, o autor ressalvava
21 O trabalho deste médico será retomado no terceiro capítulo da dissertação. 22
23 que, em ausência da mãe, fosse empregado o leite de uma boa ama ou, em último caso, o leite de vaca.
Todavia, a ama de leite se mostra como o ponto problemático da fala de Ferreira Pinto. De acordo com este, as amas em geral eram escravas, em busca de trocas de favores para obter a liberdade. O médico indicava assim a preferência pela ama cujo filho tivesse falecido, pelo fato de esta ter maior abundância de leite, bem como a necessidade do conhecimento de seu histórico de saúde. As críticas do autor centram-se, entretanto, na influência moral que as escravas podiam exercer sobre a criança, pois fonte de péssima educação “[...] são as nossas amas escravas e por isso convém que uma mãe extremosa e diligente não abandone totalmente o seu filho às amas depois, que ele tiver certa idade, ainda mesmo, que ela pareça reunir todos os indispensáveis dotes” (PINTO, 1859, p. 248).
A concepção de maternidade era ressaltada, por Ferreira Pinto e outros pares, como uma aptidão inerente a toda mulher, cuja disposição biológica condicionava ao dever de gerar. Aqui, argumenta-se que as noções de maternidade e moralidade estão, sobretudo, associados a contextos. No século XIX, a ama escrava representava uma interferência no interior do lar; ao longo do século XX, a nutriz mercenária espelhava uma estranha a desempenhar o papel de mãe.
No clássico que desmitifica o amor materno, Elisabeth Badinter (1985)23 busca problematizar a naturalização do sentimento maternal, após uma análise pontual das transformações que ocorreram no interior das famílias ao longo dos séculos, com reflexos diretos na percepção da criança e no papel desempenhado pelas figuras maternas e paternas. A autora chega à seguinte conclusão:
Mesmo que ela pareça cruel, de que o amor materno é apenas um sentimento e, como tal, essencialmente contingente? Esse sentimento pode existir ou não existir; ser e desaparecer. Mostrar-se forte ou frágil. Preferir um filho ou entregar-se a todos. Tudo depende da mãe, de sua história e da História. Não, não há uma lei universal nessa matéria, que escapa ao determinismo natural. O amor materno não é inerente às mulheres. É adicional (BADINTER, 1985, p. 365).
Philippe Ariès (2006), com quem Badinter conversa, em trabalho mais antigo24 defendeu a tese de que a sociedade medieval não considerava a infância como uma etapa
23 Em sua análise sobre o mito do amor materno, Badinter retorna aos primórdios da concepção de família na
Antiguidade Clássica, passando pela Europa feudal e buscando compreender o papel de homens, mulheres e filhos para as diferentes sociedades. A partir do papel representado por cada um, as perspectivas de maternidade vão surgindo. Vale ressaltar que a criação por uma ama de leite fora do lar ‒ a criança enviada para o campo crescendo distante dos pais ‒ poderia ser concebida tanto como uma espécie de abandono quanto como prova de amor em nome de seu bem-estar (BADINTER.1985).
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significativa da vida, em decorrência da intensa mortalidade neste estágio. Assim, a construção da relação mãe-filho e a sua idealização se mostravam vinculada às mudanças demográficas. Além de desnaturalizar a concepção de infância, o autor percebia o sentimento de afetividade como uma edificação do homem moderno. Em trabalho mais recente, Isabel Sá defende a existência de sentimentos pela criança no medievo português, refletindo a sociedade de cada período:
Não existe hoje dúvidas de que as crianças eram alvo de afeto por parte dos pais, sobretudo quando tinha passado os perigos dos primeiros anos de vida, mas nem por isso podemos deixar de notar que existia uma relação entre o número de filhos e os afetos. Numa época de mortalidade infantil elevada, ninguém esperava que os filhos nascidos sobrevivessem até a idade adulta, e encarava-se a morte de alguns deles como facto inevitável (SÁ, 2011, p. 78). Também os registros de nascimentos ganham maior exatidão ao longo do século XVIII; apesar de realizados desde o século XVI pelos párocos, a importância da idade se afirma à medida que religiosos incluem esta referência nos documentos (ARIÈS, 2006, p. 2). Em uma cronologia das representações da infância nas artes, Ariès assinala que, até o século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não se preocupava em representá-la. Quando isso ocorria, a criança figurava como uma espécie de adulto em miniatura. Por volta do século XIII surgiram representações de crianças, mais próximas ao sentimento moderno. Todavia, somente a partir dos Trezentos nota-se uma ampliação e diversificação da representação da infância sagrada. A criança como parte central dos quadros surgiu apenas nos Seiscentos, por meio da retratação de pequenos príncipes, filhos de nobres ou de burgueses; a motivação foi a descoberta da imortalidade da alma dos infantes (ARIÈS, 2006, p. 22).
Isabel Sá dialoga com as discussões de Áries, ao defender a influência das temporalidades na percepção da criança. Tendo em vista a Idade Média portuguesa, e em comparação com o restante da Europa, a morte durante o parto ou ao longo dos primeiros anos de vida foi uma constante. Assim como a criação fora do lar paterno, fosse pela morte prematura da mãe ou para que a criança tivesse seus primeiros anos próximos à ama de leite. As mães eram assistidas por parteiras; somente as mulheres mais pobres, que não dispunham de amparo familiar, eram levadas para o hospital (SÁ, 2011, p. 76) ‒ considerado abrigo da pobreza, de andarilhos e velhos. A fim de evitar a morte sem a garantia da vida eterna, parteiras e comadres recebiam instrução para o batismo de emergência, livrando a criança do limbo em caso de falecimento (SÁ, 2011, p. 77).
Se no século XVI encontra-se a perspectiva de que “só as crianças nascidas nas camadas populares eram amamentadas pelas mães biológicas” (SÁ, 2011, p.79), os conselhos
25 médicos25 dirigidos às mulheres de elite, ao longo do século XVIII, reforçam a tese do não aleitamento. Observa-se, em fins do XIX, uma brusca alteração desse quadro: com a maior participação da mulher no mundo do trabalho e a necessidade de laborar para sustentar a prole, aqueles hábitos de não amamentação, restritos às mulheres de elite, se tornaram prática usual entre as camadas populares.
A preocupação com a infância, a utilização de uma nutriz e as implicações decorrentes de seu uso não são uma novidade do século XIX, estavam em debate muito antes deste período. Poder-se-ia retornar ao Império Romano (MARCÍLIO, 1998) para falar sobre a alimentação infantil; contudo, acredita-se que não é necessário para a análise tamanho regresso historiográfico. Este trabalho concentra-se em Brasil – Portugal, tendo em vista a influência da antiga metrópole portuguesa nas práticas e na consolidação da cultura que se coloca em prática no Brasil.