1. REVISÃO DAS CLASSIFICAÇÕES DA FAMÍLIA PÁNO 12 1 INTRODUÇÃO
1.5 CLASSIFICAÇÕES DE BASE QUANTITATIVA
1.5.3 Amarante Ribeiro (2005)
Lincoln Almir Amarante Ribeiro escreveu, em 2005, um artigo intitulado Uma proposta de classificação interna das línguas da Família Páno, em que busca, por meio de métodos estatísticos, obter uma “classificação interna puramente linguística das línguas Pano” (AMARANTE RIBEIRO, 2005, p. 157). Para tanto, o autor utiliza dados de 34 línguas para formar conjuntos, com base na lista de Swadesh (1950 apud AMARANTE RIBEIRO, op. cit.). Além do limitado número de cognatos que o autor utiliza, também reconhece que o que chama de cognato em seu trabalho “é, na realidade, um ‘cognato aparente’”. No mesmo trecho reconhece ainda que:
[...] estão sendo considerados somente itens que apresentam semelhança fonológica. Assim, não há como, embora se tente evitar esse procedimento, considerar como cognatas verdadeiras, palavras semelhantes por chance, empréstimos, resultados de universais ou de patologias verbais (por exemplo, tabus) entre outros. (AMARANTE RIBEIRO, op. cit., p. 169).
De toda forma, temos que reconhecer que Amarante Ribeiro (op. cit.) também considera em seu trabalho a reconstrução de Shell (1975 [1965]), mas, nesse caso, não explicita os procedimentos analíticos que usa.
Ele baseia seu estudo em métodos análogos aos da classificação em biologia, considerando o táxon da linguística um determinado conjunto de significados, da mesma forma que, em biologia, um conjunto de genes determinaria uma espécie ou táxon. Em consequência, o autor considera um significado específico como o análogo de um alelo de um gene para um biólogo. Sempre que, para um significado, uma língua apresentar um
70
Mason (1950) não classifica a língua Mayorúna como pertencente à família Páno, mas nos parece muito mais uma medida de precaução devido à falta de dados.
71
É importante, entretanto, notar que o subgrupo de Amarante Ribeiro (2005) diverge bastante do proposto por Erikson (1992) e por Valenzuela (2003), uma vez que o autor considera-o como um subgrupo, dentro do grupo IV.
cognato, ela será marcada com 1 e sempre que não apresentar, será marcada com 0 (AMARANTE RIBEIRO, op. cit., p. 170).
Embora o autor se baseie na lista de 100 palavras de Swadesh, chega a um número de 302 “alelos”, o que equivale a uma coluna. Isso se deve ao fato de que um significado pode ter mais de um conjunto de cognatos dentro de uma família, seguindo o método utilizado por ele.
Por exemplo, para as línguas Shanenawa (táxon 1), Yawanawa (táxon 2), Kapanáwa (táxon 3) e Shípibo (táxon 4) o significado ‘canoa’ tem as formas au, au, nunti e nunti, respectivamente. Já para o significado ‘cabeça’, as formas são iguais a mapu em todas as quatro línguas. (AMARANTE RIBEIRO, 2005, p. 160).
Nesse caso, o autor (op. cit.) considera-os como três conjuntos de cognatos, como exemplificado abaixo:
QUADRO 09 – EXEMPLIFICAÇÃO DO MODELO UTILIZADO POR AMARANTE RIBEIRO (2005)
Significado Canoa Cabeça
Cognatos A (;au) B (nunti) C
Shanenawa 1 0 1
Yawanawa 1 0 1
Kapanawa 0 1 1
Shípibo 0 1 1
Após montar sua Matriz, com 302 colunas (referente a cada língua) e 34 colunas (referente a cada grupo de cognatos), o autor aplica alguns métodos estatísticos e probabilísticos para verificar qual das possíveis árvores geradas por seu conjunto de dados seria a que melhor explicaria o seu conjunto de dados. Após aplicação do Método de Verossimilhança e de simulação computacional, Amarante Ribeiro (2005) chegou a uma amostragem efetiva de 1000 árvores, que resultou em uma “árvore de consenso”,72
ou seja, o modelo arbóreo que melhor explica o conjunto de dados (a sua matriz). A partir do modelo arbóreo obtido, ele propõe o seguinte subagrupamento para a família Páno:
72
QUADRO 10 – PROPOSTA DE CLASSIFICAÇÃO INTERNA DA FAMÍLIA PÁNO (AMARANTE RIBEIRO, 2005)
Grupo I Amawaka
Grupo II
Subgrupo II-1 Kashíbo
Nokaman Subgrupo II-2 Shípibo Kapanawa Panobo Grupo III
Subgrupo III-1 Iskonawa
Kaxinawa
Subgrupo III-2
Subgrupo III-2-1 Nukini
Remo Subgrupo III-2-2 Subgrupo III-2-2-1 Kanamari Katukina Marubo Subgrupo III-2-2-2 Mastanawa Tuxinawa Yoranawa Sharanawa Shanenawa Arara Yawanawa Xitonawa Yaminawa
Subgrupo III-2-3 Kaxarari
Poyanawa Grupo IV Subgrupo IV-I Kapishto Matsés Kulina Matis Subgrupo IV-2 Atsawaka Arazaire Yamiaka Subgrupo IV-3 Karipuna Chacobo Pakawara
Uma questão interessante, notada pelo próprio autor, é que há várias semelhanças entre os subgrupos propostos por ele e por outras classificações.
De modo geral, vários subgrupos da classificação exposta na Figura 2 estão presentes em outras classificações. Por exemplo, o Subgrupo IV-3 corresponde àquele chamado por D’Ans (1973) de subgrupo Pano Beniano. O Grupo III é denominado pelo mesmo autor como Pano das Cabeceiras, enquanto que o III-2-2-2 é chamado de Pano Purus. O Subgrupo II-2 é o Pano Ucayalino de d’Ans (1973) e o subgrupo IV-1, o Pano do Norte. O grupo II é o grupo Purus de Valenzuela (2000),73 o subgrupo IV-3 o subgrupo Sul dessa autora. O subgrupo I-2 é o grupo do Ucayali, o subgrupo IV-1 o do Norte, o subgrupo I-1 o OestePreandino e o subgrupo IV-2 o Sudoeste da mesma autora. Os Subgrupos IV-2 e IV-3 formam o Grupo do Chákobo de Loos (1999). O subgrupo II-2-2-2 também se identifica com o subgrupo do Yaminawa de Loos (1999), exceto pela presença do Amawaka e do Kaxinawa. É um tanto inesperada a presença do Poyanawa e do Kaxarari no mesmo subgrupo, embora com somente 66% de presença nas árvores. Essas duas últimas línguas, à parte alguma semelhança no léxico, partilham uma inovação caracterizada pelo processo de transformação da fricativa retroflexa na glotal ( > h) e da álveo-palatal ( > h). Este é, porém, um argumento muito fraco para uma subclassificação, já que se trata de uma mudança fonológica bastante comum nas línguas naturais. Notemos a posição isolada do Amawaka. Nos nossos dados, esta posição não resulta de uma diferença léxica relevante em relação às outras línguas; isso ocorre porque cada uma das outras línguas compartilha com ela um pouco de seu vocabulário básico. Seria como se, em termos de léxico, a língua Amawaka fosse a melhor representante das línguas Pano. Valenzuela (2000) já havia advertido para o fato de que o Amawaka deveria ser tratado separadamente do grupo Purus e d’Ans (1973) a classificou isoladamente. (op. cit., p. 174-175) Ressaltamos que, contrariamente ao que propõe Amarante Ribeiro (2005), não há nos dados observados por nós evidências de mudança * > h ou * > h, em Kaxararí. Observe-se, por exemplo, os dados abaixo, comparados com as protoformas apresentadas em Shell (1975 [1965]):
*tao Kax tau ‘veado’ (LANES, 2005)
*ki Kax ki ‘milho’ (COUTO, 2005; LANES, 2005) *ao Kax /au/ ‘pedra’ (PICKERING, 1962)
*inã Kax inãhi ‘pensar’ (PICKERING, 1962)
*kai Kax kaiwa ‘morcego’ (SOUSA, 2004; COUTO, 2005) *ino Kax ilua74 ‘macaco’ (SOUSA, 2004)
Em suas considerações finais, Amarante Ribeiro observa a “ausência de uma raiz (a árvore não apresenta uma raiz da protolíngua)” (op. cit., p. 177). No entanto, em
73
O trabalho referido por Amarante Ribeiro como Valenzuela (2000), na verdade se refere ao trabalho Valenzuela (2003), Transitivity in Shípibo-Konibo Grammar.
nosso entendimento, a sua proposta teria quatro subgrupos, sendo três deles subdivididos em agrupamentos menores (grupos II, III e IV) e um subgrupo com membro único (grupo I). Acreditamos ser possível apresentar uma raiz para a origem das diversas línguas, uma vez que todas têm origem na mesma protolíngua.
Por fim, resta-nos dizer que a classificação proposta por Amarante Ribeiro não substitui, de forma alguma, o estudo baseado em correspondências nos vários níveis linguísticos, uma vez que “somente uma classificação final, feita com base em aspectos fonológicos e morfossintáticos, poderá resultar em uma classificação definitiva dessas línguas” (AMARANTE RIBEIRO, 2005, p. 177; cf. também McMAHON; McMACHON, 2005).