1. REVISÃO DAS CLASSIFICAÇÕES DA FAMÍLIA PÁNO 12 1 INTRODUÇÃO
1.2 TRABALHOS COMPARATIVOS
1.2.2.3 Ampliando a classificação
Apesar de considerar os dados de outras línguas não utilizadas diretamente na reconstrução como de “valor fonético incerto”, Shell (op. cit.) faz algumas observações sobre como essas outras línguas se ajustariam ao seu “sistema isoglóssico”.
O Wariapano é agrupado junto com o Shípibo-Kónibo e o Kapanáwa por considerar que seus fonemas são “paralelos aos do Shípibo-Kónibo em forma, distribuição e desenvolvimento” (SHELL, op. cit., p. 110).35
O Mayorúna, segundo Shell (op. cit.), possuiria um vocabulário cheio de palavras não cognatas com as demais línguas, o qual deveria ser resultado de empréstimo. Ela também observa que o Mayorúna não apresentaria as inovações 1 (*kw > k), 2 (*s > ) e 3 (*s > ). Demonstramos, no capítulo 4 desta tese, que a língua Mayorúna, assim como Matís e Korúbo, mantém kw como reflexo regular de *kw, mas as protoformas *s e *s não são reconstruíveis.
Já as glotais, presentes no sistema fonológico do Mayorúna atual, de acordo com Shell (op. cit.), não são reflexos do protofonema *, e, portanto, a língua teria mudado os antigos reflexos do Protopáno * em conformidade com as inovações 5 ( > V_C), 6
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“Los fonemas del War corren paralelos a los de SC en forma, distribución y desarrollo.” (SHELL, op. cit.)
Cashibo Shipibo-conibo Capanahua Chácobo Amahuaca Cashinahua Marinahua
( > V_V) e 7 ( > #_), o que aproximaria o Mayorúna do subgrupo Shípibo-Kónibo- Kapanáwa-Chákobo. De fato, como veremos no capítulo 2, o Mayorúna possui consoantes oclusivas glotais fonéticas, alofones de k (cf. FLECK, 2003).
Para Shell (op. cit.), o Mayorúna teria perdido a terceira sílaba das palavras trissilábicas reconstruídas por ela, o que o afastaria da língua Chákobo. Entretanto, segundo a análise de Shell (op. cit.), isso poderia ser uma evidência de aproximação do Mayorúna ao Shípibo-Kónibo e ao Kapanáwa. Como discutiremos mais detidamente no capítulo 4, diferentemente de todas as outras línguas da família Páno, as línguas do subgrupo Mayorúna apresentam uma consoante final na forma objetiva das palavras reconstruídas por Shell (op. cit.) como trissilábicas, como em Matís kapd ‘jacaré’, Matís e Mayorúna awad ‘anta’ e Matís e Mayorúna kamon ‘onça’. Quando em posição de sujeito de oração transitiva, essas línguas apresentam formas trissilábicas como em Matís kapdn ‘jacaré’, Matís e Mayorúna awadn ‘anta’ e Matís kamunn ‘onça’. No capítulo 4 desta tese, apresentamos evidências de que a origem e a história do desenvolvimento dessas consoantes e dos demais reflexos considerados por Shell (op. cit.) como terceira sílaba são diferentes do proposto em seu trabalho.
O Mayorúna, segundo a autora, teria retido os reflexos de *w e *b e também alguns termos que seriam comuns ao Kashíbo. Entretanto, os reflexos de *w e *b, em Mayorúna, são diferentes dos reflexos de Kashíbo, apesar de haver alguns pontos convergentes entre as duas línguas, fato este também observado por Zariquiey (2006). Estas semelhanças poderiam ser retenções, o que não justificaria o agrupamento das línguas do subgrupo Mayorúna junto à língua Kashíbo.
Outro fato não observado por Shell (op. cit.) é o de que as línguas do subgrupo Mayorúna apresentam vogais médias e e o, como na língua Kashíbo. Mostraremos, todavia, no capítulo 4, que o desenvolvimento de e e o em Matís, Korúbo e Mayorúna deve ser independente do desenvolvimento em Kashíbo.
O Marúbo é agrupado junto com Kaxinawá, Amawáka e Marináwa, pois, segundo Shell (op. cit.), essas línguas apresentariam as inovações 1 (*kw > k), 2 (*s > ), 3 (*s > ), 4 (*ts > t), 5 ( > V_C), 6 ( > V_V), 7 ( > #_), 8 (w > #_[-ant, - alt]), 9 (w > #_), 10 (w > _i), 11 (w > V_V), 12 ( > w), 13 (CV3 > _~), 14 (sV3 > ) e 15 (-sCV3 > V2). Os dados envolvendo os reflexos *w e * da língua Marúbo, incluídos no capítulo 4, mostram que a língua não apresenta os mesmos reflexos de
Kaxinawá, Marináwa e Amawáka. Ademais, como argumentamos acima, as inovações de 2 a 4 não podem ser consideradas como critério de inovação.
O Poyanáwa, o Kulíno e o Tuchináwa não são agrupados devido à insuficiência de dados. No entanto, Shell (op. cit.) considera que o Tuchináwa apresenta as inovações 1 (*kw > k), 2 (*s > ) e 3 (*s > ).
O Nokoman é considerado como paralelo ao Kashíbo e apresentaria as inovações 8 (w > #_[-ant, -alt]), 9 (w > #_), 10 (w > _i), 11 (w > V_V), 12 ( > w), e, talvez, 5 ( > V_C), 6 ( > V_V), 7 ( > #_), 13 (CV3 > _~), 14 (sV3 > ) e 15 (-sCV3 > V2).
A autora considera que o Iskonáwa apresenta as inovações 1 (*kw > k), 2 (*s > ), 3 (*s > ) e 4 (*ts > t), e que, provavelmente, apresente as inovações 8 (w > #_[-ant, -alt]), 9 (w > #_), 10 (w > _i), 11 (w > V_V), 12 ( > w), 13 (CV3 > _~), 14 (sV3 > ) e 15 (-sCV3 > V2), mas não o inclui em nenhum de seus grupos anteriormente propostos.
As línguas Sul-orientais (Chákobo, Pakawára e Karipúna) e as línguas Sul- ocidentais (Arazaire, Atsawáka e Yamiáka) são consideradas como dois subgrupos separados, apesar de compartilharem as inovações 1 (*kw > k), 2 (*s > ), 3 (*s > ), 4 (*ts > t), 5 ( > V_C), 6 ( > V_V) e 7 ( > #_), e de, provavelmente, não apresentarem as inovações 8 (w > #_[-ant, -alt]), 9 (w > #_), 10 (w > _i), 11 (w > V_V) e 12 ( > w), o que seria comum aos dois subgrupos. Apenas as línguas Sul- orientais (Chákobo, Pakawára e Karipúna) apresentam a inovação s > _t e a “perda da nasalização da vogal”. Shell (op. cit.) considera provável que apenas uma língua Sul- oriental (Karipúna) apresente as inovações 13 (CV3 > _~), 14 (sV3 > ) e 15 (-sCV3 > V2).
1.2.2.4 Síntese
Em resumo, podemos dizer que Shell (op. cit.) considera a existência de: um subgrupo I, em que estariam incluídos Kashíbo e Nokoman; um subgrupo II, em que estariam incluídos Kaxinawá, Amawáka, Marináwa e Marúbo; e um subgrupo III, em que estariam incluídos Shípibo-Kónibo, Kapanáwa e Wariapáno. A língua Chákobo é considerada como pertencente a esse último subgrupo, mas teria sido a primeira a se separar e estaria agrupada junto com Pakawára e Karipúna, em um conjunto menor,
pertencente a esse subgrupo. Um quarto grupo seria constituído pelas línguas Arazaire, Atsawáka e Yamiáka, o qual formaria um grupo separado dos demais. E, por fim, restaria ainda um conjunto de línguas não agrupadas, que seriam o Kulino, o Poyanáwa, o Tuchináwa, o Mayorúna e o Iskonáwa.
Subgrupo I: Kashíbo Nokoman Subgrupo II: Kaxinawá, Amawáka, Marináwa Marúbo Subgrupo III: Subgrupo III-A: Shípibo-Kónibo Kapanáwa Wariapáno
Subgrupo III-b (Sul-oriental) Chákobo Pakawára Karipúna Subgrupo IV (Sul-Ocidental) Arazaire Atsawáka Yamiáka
Línguas não agrupadas: Kulíno
Poyanáwa Tuchináwa Mayorúna Iskonáwa
Outras observações apresentadas por Shell (op. cit.), com base em critérios de mútua inteligibilidade e de análise de vocabulário poderiam ser adicionadas para acrescentar mais línguas à sua classificação. No entanto, como não nos parece que o resultado do subagrupamento com base em inovações compartilhadas seja convergente com suas observações iniciais, preferimos não tentar acrescentar mais línguas a essa classificação.
É importante ressaltar que a classificação de Shell (op. cit.) inclui 20 línguas da família Páno e que, apesar das suas limitações devido principalmente à escassez de dados, é impressionante o trabalho e o cuidado que a autora teve para estabelecer critérios fonológicos, lexicais e semânticos para uma hipótese de constituição interna dessa família.
1.2.3 Soto (1990)
Kimberly Soto (1990) faz uma revisão da comparação de Shell (1975 [1965]), baseando-se nas inovações compartilhadas. Considerando apenas os dados apresentados no trabalho de Shell (op. cit.), Soto (op. cit.), nessa análise, limita-se às mudanças no sistema consonantal das línguas, abordando cada língua individualmente – e não o grupo de línguas, como faz Shell (op. cit.) –, por meio de comparação lexical e de informações sobre inteligibilidade mútua.
Nesse sentido, Soto (op. cit., p. 3) considera que as correspondências que envolvem *ts (10), *t (11), *s (12), *s (13 e 14) e * (31), estabelecidas por Shell (op. cit.), podem não ser correspondências válidas, devido à falta de evidências presentes no conjunto de cognatos. Soto (op. cit.) observa também que as correspondências de 10 a 14 apresentam baixa ocorrência no corpus de Shell (op. cit.) e que existem correspondências não identificadas por Shell (op. cit.). Soto (op. cit.) conclui, enfim, que a hipótese de Shell (op. cit.) para as fricativas pode estar correta, mas fica por ser demonstrada.
Quanto ao fonema *, Soto (op. cit.) afirma que há “argumentos fonéticos plausíveis” que podem levar a considerar um proto *h, que teria se perdido em todos os ambientes em Kashíbo e Marináwa e que teria se mantido em início de palavra nas demais línguas. A autora observa ainda que há evidências de h em meio de palavras em algumas línguas comparadas. Considerando esses dois argumentos, a autora chega à conclusão de
que o “status de h não está claro até o presente e não pode ser considerado como uma inovação compartilhada” (SOTO, op. cit., p. 4).36
Após tecer outras considerações e rever mais correspondências apresentadas em Shell (op. cit.), Soto (op. cit.) resume as inovações compartilhadas da seguinte forma:
TABELA 05 – INOVAÇÕES COMPARTILHADAS PROPOSTAS POR SHELL, SEGUNDO KIMBERLY SOTO (1990, P. 7)
Changes SC Cp Csh Cn A M Ch
1 *kw > k everywhere x x x x x x
2 * > h /#_ x x x x x
3 * merges with *w /#_[i] x x x
4 * merges with *w everywhere x x
5 * > p/ {s, } x x 6 *w > / V_[i] x x x 7 *w > / V_V x x 8 * > / V_C X x x x x x 9 * > / V_V X x x x 10 * > everywhere x x 11 * > w/ [o]_[] X x x 12 *n > / _ V_V X x x 13 *m/nV3 > V2/ _# X X x x x x 14 *m/nV3 > V2/ _# X” X x
As inovações em 1 (*kw > k em todos os ambientes) e em 2 (* > h /#_) não são consideradas por Soto (1990) como evidência para um subagrupamento, e a mudança em 3 ( funde-se com w / _i), em Kashíbo, não é considerada uma inovação relacionada às outras línguas. Soto (op. cit.) considera que as mudanças em 3 (* funde-se com *w /#_[i]) e em 4 (* funde-se com *w em todos os ambientes) são uma inovação compartilhada entre Kaxinawá e Marináwa. A mudança número 5 (* > p/ {s, ) é considerada uma inovação que pode ser utilizada como critério para subagrupamento, e as inovações 6 (*w > / V_[i]) e 7 (*w > / V_V) são consideradas um desenvolvimento compartilhado por
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“[...] the status of ht is unclear at this time, it should not be used as a shared innovation in developing a subgrouping model.” (SOTO, 1990, p. 4)
Kashíbo e Amawáka, mas não tem certeza de que esta mudança seja também compartilhadapelo Kaxinawá ou se ela teria se desenvolvido por difusão. As mudanças de 8 a 10 (* > / V_C, * > / V_V, * > em todos os ambientes) são tratadas em conjunto como etapas diferentes de uma mesma mudança compartilhada. A mudança 11 (* > w/ [o]_[]) é considerada um desenvolvimento compartilhado para as línguas Kapanáwa, Amawáka e Marináwa, mas pode também ser um caso de “empréstimo entre fronteiras lingüísticas” (SOTO, 1990, p. 9). As mudanças 13 (*m/nV3 > V2/ _#) e 14 (*m/nV3 > V2/
_#) também são consideradas uma inovação compartilhada, mas que são de difícil avaliação (SOTO, op. cit.). Após todas essas considerações, Soto (op. cit.) reformula o quadro de inovações com algumas pequenas modificações:
TABELA 06 – INOVAÇÕES COMPARTILHADAS PROPOSTAS POR SOTO (1990, P. 12)
Changes SC Cp Csh Cn A M Ch 1 * merges with *w x x 2 * > p/ {s, } x x 3ª *w > / V_[i] x x x 3b *w > / V_V x x 4ª * > / V_C x x x x x x 4b * > / V_V x x x 4c * > everywhere x x 5 * > w/ [o]_[] x x x 6 *n > / _ V_V x x x 7ª *m/nV3 > V2/ _# x x x x x x 7b *m/nV3 > V2/ _# x x x
Soto (op. cit.) reduz de 14 para apenas 11 as inovações compartilhadas consideradas para a família linguística Páno e essa modificação traz implicações significativas para a organização interna da família. Segundo Soto (op. cit., p. 11), o Kashíbo, que antes era considerado a primeira língua a se desmembrar, passa a fazer parte de um subgrupo da família linguística Páno. O Kapanáwa e o Chákobo podem ser considerados, cada um deles, membros únicos de subgrupos, enquanto o Shípibo-Kónibo, o Kashíbo, o Amawáka, o Marináwa e o Kaxinawá são considerados membros de um só
subgrupo, mas com graus diversos de proximidade entre eles. Dessa forma, o Shípibo- Kónibo seria o mais isolado dentro desse subgrupo, o Kashíbo e o Amawáka seriam bem próximos e o Marináwa e o Kaxinawá seriam mais relacionados entre eles, o que pode ser visto no gráfico seguinte:
FIGURA 03 – MODELO ARBÓREO DE CONSTITUIÇÃO INTERNA DA FAMÍLIA PÁNO, SEGUNDO SOTO (1990)
Apesar de Soto (op. cit.) trazer importantes contribuições para a discussão sobre as inovações a serem consideradas como critério de classificação dentro da família Páno, seu modelo arbóreo de diversificação parece-nos pouco plausível, pois separa línguas que são bastante semelhantes, como Shípibo-Kónibo e Kapanáwa, e agrupa línguas bastante divergentes, como Kashíbo e Amawáka. Por outro lado, parece-nos importante que Marináwa e Kaxinawá apareçam dentro de um mesmo subgrupo tanto na proposta de Soto (op. cit.) quanto na de Shell (op. cit.). Outro fato a se considerar é a divergência quanto ao Kashíbo nos trabalhos das duas autoras, pois aparece como um subgrupo isolado e o mais distante na proposta de Shell (op. cit.) e dentro de um grande subgrupo na proposta de Soto (1990).