A história do Cooperativismo no Brasil tem seu embrião nos movimentos sociais que refletem a dialética estabelecida entre o poder dominante e as classes dominadas, na busca pela resolução de conflitos produzidos socialmente.
Nesse estudo busca-se analisar, ainda que brevemente, como seu deu a implantação do cooperativismo agrícola no Brasil, com foco na experiência do Estado de Pernambuco, ressaltando o debate recorrente sobre a questão ideológica que permeia a concepção da prática cooperativista, que de inspiração socialista tende a se metamorfosear para se adequar ao sistema capitalista vigente no país.
A análise toma como base o livro organizado por Loureiro (1987), onde se conceitua a doutrina do cooperativismo enquanto prática associativa, fundamentada na cooperação e ajuda mútua segundo a proposta da doutrina cooperativista concebida por Robert Owen e outros ideólogos do movimento de socialização, contrapondo-a à visão estratégica cooperativista baseada nas experiências européia e norte-americana. Para os europeus e americanos o cooperativismo pode se configurar como um instrumento de mudança social suficientemente forte para assegurar o processo de desenvolvimento das sociedades periféricas nas suas dimensões econômica, social e cultural independentemente das condições estruturais que apresentem.
A crítica que se faz à concepção euro-norteamericana é justamente quanto à sua capacidade de operar as mudanças de caráter transformador e socialmente progressista no sentindo revolucionário, ou se apenas leva à manutenção do sistema capitalista. Essa discussão é rica em significado, favorecendo a leitura e compreensão das experiências desenvolvidas em terras pernambucanas, à luz da teoria e da prática, identificando as motivações subjacentes de cunho ideológico, que metamorfoseando o discurso inspirado no socialismo utópico, coloca-se a serviço do capitalismo, evidenciando na prática, mecanismo de reprodução do sistema.
O cooperativismo surge em meados do século XIX como uma proposta de superação sem traumas das distorções do sistema capitalista, naquilo em que se evidenciou como consequências desastrosas da Revolução Industrial.
Assim se expressa João Elmo Schneider (apud Loureiro, 1987):
O motor dessa transformação gradativa da sociedade não seria a luta de classes, como propunham Marx e seus seguidores, mas o apelo natural à racionalidade da organização cooperativista, que se imporia sobre o laissez
faire capitalista. A cooperação mútua, tomando o lugar da competição e da
ganância pelo lucro e integrando as instâncias da produção, distribuição e consumo de mercadorias, constituiria a base da nova sociedade, mas justa e mais humana, pois não comportaria nem explorados, nem exploradores.
O romantismo dessa proposta sugere a aparente ingenuidade dos seus formuladores, quando se baseando na utopia socialista contida na doutrina de Robert Owen e outros, (refletida nos postulados descritos no comentário supra), subestimaram a capacidade de resistência do capitalismo enquanto sistema hegemônico, que, além de não permitir a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, ainda se apropria da bandeira cooperativista, para rechear o discurso em sua defesa, incorporando-a a dinâmica expansionista do capital, na medida em que o transforma num elemento a mais de complementaridade para o fortalecimento da economia de mercado.
Não obstante essa evidência, sua divulgação continua sendo empreendida pelos organismos internacionais, ao longo das décadas, com o objetivo de sensibilizar os países em desenvolvimento a adotar a estratégia norte-americana e européia que defende o regime de competição e lucro, para promover o desenvolvimento social.
Por meio de exemplos concretos, busca-se verificar até que ponto o cooperativismo agrícola brasileiro reflete o compromisso de transformação social ou encontra-se subordinado ao modelo de acumulação de capital.
Ao longo das décadas de 40 e 70 ocorreu um intenso esforço no sentido da implantação, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, da estratégia cooperativista centrada no modelo norte-americano, apoiada na proposta de transformação global via sistema cooperativista (baseada nos pressupostos dos princípios da doutrina cooperativista
metamorfoseados intencionalmente) que na prática se concretizam em objetivos pontuais, em
nível setorial.
Assim, tanto os organismos internacionais quanto os formuladores das políticas internas do país passaram a apoiar a organização de cooperativas agrícolas. Interessante observar que, durante esse período, os espaços que se destinavam às cooperativas de consumidores foram progressivamente ocupados pelas redes de supermercados, cujo poder de barganha não se comparava aos das cooperativas.
Conforme dados do INCRA, o cooperativismo de consumo, que até 1966 apresentava uma evolução maior do que o cooperativismo de produção entra em declínio apresentando taxas negativas de crescimento superiores as das cooperativas de produção, em que pese estas
últimas também apresentar igual comportamento. Essa situação pode ser comparada em seu grau de defasagem no quadro abaixo:
Quadro nº 1. - Evolução do número de cooperativas de produção e consumo, e taxas relativas de crescimento, Brasil, 1940-1977.
Anos Produção Consumo
Quantidade Taxas de Quantidade Taxas de Crescimento % crescimento % 1940 465 - 146 - 1951 1.408 303 822 463 1960 1.808 28 1.226 49 1966 2.377 31 1.783 45 1971 1.737 - 27 751 - 56 1975 1.543 - 21 614 - 21 1977 1.252 - 18 364 - 40 Fonte: INCRA – Divisão de Cooperativismo, Brasília, DF.
Importante salientar a diferenciação que Loureiro (1981) faz sobre a tipologia das cooperativas quando assim se expressa:
Convém notar que as “cooperativas agrícolas” de que trata este trabalho, enquadram-se dentro do que se costuma chamar de “cooperativismo típico”, não devendo por isso ser confundidas como “cooperativas de produção” no sentido rigoroso do termo. No caso das primeiras, a cooperação entre produtores se dá no plano da prestação der serviços (comercialização, beneficiamento, repasse de crédito, assistência técnica, etc), e assim mesmo por delegação, e não em nível do processo produtivo propriamente dito, como é o caso das “cooperativas de produção”. A manutenção do termo “cooperativas de produção” é por simples fidelidade à tabela original. Trata- se, na verdade, de “cooperativas agrícolas”, na sua quase totalidade.
Com a promulgação da Lei 5.764, de dezembro de 1971, de inspiração empresarial, inicia-se o movimento que ficou conhecido como “renovação das estruturas”, que defendia a sobrevalência da qualidade sobre a quantidade, resultando no grande número de fusão de cooperativas agrícolas isoladas e permitindo a integração vertical de cooperativas, com bases econômicas mais sólidas.
Embora se observe a redução expressiva no número total de cooperativas em operação, verifica-se que o cooperativismo agrícola, notadamente em alguns segmentos em que atua, toma forte impulso, crescendo em importância para a economia em seu conjunto, dado
demonstrado pela evolução da participação do sistema no montante dos recursos creditícios destinados para o setor agrícola, bem como pela sua participação nas exportações nacionais e pela capacidade estática de armazenamento do país. Alguns dados são elucidativos desse comportamento tais como: quanto ao crédito rural, a participação das cooperativas no valor financiado para a agricultura, saltou de 9% para 14% no período compreendido entre 1969 a 1976; sobre a participação das cooperativas nas exportações brasileiras, representadas apenas por produtos básicos tiveram um acréscimo de aproximadamente 44,8% entre 1974 e 1977. Já em 1977, foram responsáveis por 5,1% do total das exportações e 8,8% das vendas ao exterior de produtos básicos (Loureiro, 1981).
Ainda como dado representativo da importância das cooperativas, ressalta-se que, do total da capacidade de estocagem no Brasil, elas detinham mais de um quinto, significando 8,6 milhões de toneladas de um total de 38,5 milhões, com apenas 9,1% das unidades de armazenamento existente no período estudado.
Conforme dados levantados pela pesquisa desenvolvida por João Elmo Schneider (in: Loureiro, 1981) em sua tese de doutorado, o número de produtores associados às cooperativas cresceram na ordem de 21% entre 1973 e 1975, passando de um total de 627.884 a 794.911. Considera o autor que, em quase cem anos de existência do cooperativismo no país, este ainda está longe de se configurar como um instrumento efetivo de desenvolvimento econômico e social, considerando que a prática cooperativista representava em 1977 uma proporção inexpressiva dos estabelecimentos rurais da ordem de 17% e das famílias que vivem no campo totaliza apenas 12% da população brasileira.
Muito mais se poderia falar a respeito do cooperativismo agrícola no Brasil, seja pela análise das dimensões estruturais do desenvolvimento que apontam para as disparidades inter- regionais em sua assimetria, seja pelos os resultados diferenciados demonstrados pelos sub- setores da agricultura comercial e de exportação e a agricultura tradicional voltada para a produção de alimentos e matérias-primas para abastecimento interno, ou da grande diferença sócio-econômica que categoriza os produtores rurais, evidenciando a forte tendência à concentração de renda e da riqueza na sociedade como um todo. Entretanto, por hora, essas considerações fogem ao escopo desse estudo.
Faz-se necessário, porém, atentar para as diferentes formas de expressão das relações que permitem a reprodução e o desenvolvimento do capitalismo, considerando a tendência geral de entender o cooperativismo como um mecanismo de modernização.
Chama a atenção para esse aspecto, José Roberto P. Novaes (in: Loureiro, 1981), quando assim comenta:
(....), a utilização do mesmo vocábulo não indica uma uniformidade de fenômenos. Antigos “barracões de usinas, após determinado período de lutas sociais em Pernambuco, ostentam hoje o nome de Cooperativa dos Trabalhadores, ainda que permaneçam os mecanismos que asseguram a dependência dos operários aos usineiros, seja diretamente – quando a própria empresa realiza a comercialização -, seja indiretamente, através de comerciantes ligados aos donos de usinas. Também os trabalhadores conhecidos como “bóias-frias” merecem a atenção das autoridades que pretendem “protegê-los”, através da criação de cooperativas. Podemos lembrar, ainda, as cooperativas que aparecem em áreas de colonização dirigida, geralmente em projetos de irrigação. Estas congregam obrigatoriamente colonos “previamente selecionados” com vistas a atender uma demanda específica de mercadorias e são, na realidade, dirigidas por técnicos de empresas estatais. Da mesma forma, há outras no Sul do país que, congregando grandes e pequenos proprietários, caracterizam-se primordialmente como um canal de penetração de insumos de grandes empresas nacionais e multinacionais”.
O autor chama a atenção para a importância de se observar o contexto sócio- econômico em que se insere determinada cooperativa, quando da sua análise. Essa advertência demonstra assertividade, tendo em vista os interesses das classes sociais envolvidas que determinam as relações de produção no movimento concreto de acumulação de capital, que não pode ser ignorado quando se pretende estudar o ideário cooperativista.
1.8. De Bóia-Fria a Parceleiro: A Cooperativa Integral de Reforma Agrária: a