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Uma visão reducionista, entretanto, não contribui para a construção do conceito de trabalho sustentável livre de amarras e de condicionantes que o impeça de atingir a perspectiva libertadora.

O trabalho que liberta, e não o que aprisiona, não pode ser concebido sem o suporte de alguns conceitos. Por exemplo, o próprio conceito de liberdade, que para o senso comum se apresenta como uma possibilidade ilimitada do ser humano, de satisfazer a sua vontade plena. Essa conotação de liberdade absoluta não passa de ingenuidade como bem expressa Coelho (2008):

É necessário antes de tudo partir dos pressupostos de que: não há liberdade absoluta; a liberdade deve, como a necessidade, ter um objeto; ela só é possível para um ser determinado e, portanto, limitado; e finalmente, deixar de lado qualquer tipo de liberdade transcendental no sentido metafísico, compreendendo que a transcendência que fala Marx é específica.

O autor complementa sua análise recorrendo à Mészáros (1981):

... a verdadeira questão é a liberdade humana, não um princípio abstrato chamado “liberdade”. E como o caráter específico de tudo é ao mesmo tempo tanto a ‘essência’ (poder, potencial, função) daquela determinada coisa como o seu limite, assim se verá que a liberdade humana não é a transcendência das limitações (caráter específico) da natureza humana, mas uma coincidência com elas.

Aprofundando as considerações de Mészáros (1981), sobre a questão da liberdade humana, chega-se às indagações do autor sobre a influência das formas de propriedade da liberdade que para ele, se resumem em três perguntas essenciais: 1ª. o quanto o homem está livre da necessidade natural; 2ª. o quanto está livre da poderosa interferência de outros homens; 3ª. e o quanto pode exercitar os seus próprios poderes”.

Responder a essas indagações do autor não é tarefa fácil. Primeiro porque não se pode pensar na liberdade do homem fora da natureza, uma vez que ele próprio é parte indissociável dela. Por outro lado, como ser social, também está condicionado às interferências de outros seres, na mesma medida em que ele é também um agente influenciador, ou seja, sofre as mediações do meio social enquanto media também suas relações. Por fim, fornecer uma

resposta para a questão do exercício do próprio poder, implica antes de tudo estabelecer o entendimento a respeito do que seja “liberdade para exercer seus próprios poderes”. Esta resposta não pode ser dada sem o concurso de alguns pensadores:

Para Locke (1991) a relação é “mediada pela propriedade do homem sobre si”. Para Mészáros (1981) diz respeito ao poder de objetivar-se por meio do trabalho, exercido como atividade livre, e tornar-se um ser universal, livre. E Marx (2004) complementa argumentando que isto só se torna possível, quando o homem relaciona-se consigo mesmo entendendo-se como “um ser universal, e por isso livre”. Para tanto tem que se considerar necessariamente com parte do gênero humano e este gênero como uma categoria de seres livres.

Estabelecidas essas considerações como premissas indispensáveis para a formulação do conceito de trabalho sustentável, retomam-se um dos itens já contemplados nesse estudo sobre o papel da educação na formação do ser humano e sua determinante influência na sua qualidade de vida.

A confluência dos temas educação e trabalho se explicam nesse estudo, como os pilares essenciais para a construção do conceito de trabalho sustentável. Nesse constructo, Mészáros (2005), referindo-se à concepção marxista da ‘efetiva transcendência da auto- alienação do trabalho’ como uma tarefa inevitavelmente educacional, esclarece:

A esse respeito, dois conceitos principais devem ser postos em primeiro plano: a universalização da educação e a universalização do trabalho

como atividade humana auto-realizadora. De fato, nenhuma das duas é

viável sem a outra. Tampouco é possível pensar na sua estreita inter-relação como um problema para um futuro muito distante. Ele surge “aqui e agora”, e é relevante para todos os níveis e graus de desenvolvimento socioeconômico.

O autor encontra ressonância para a tese da universalização da educação e do trabalho, em alguns pensadores, dentre eles, Paracelso, quando em um modelo para o Fausto de Goethe, tentou universalizar o trabalho e a aprendizagem da seguinte forma:

Embora, no que tange a seu corpo, o homem tenha sido criado por inteiro, ele não foi criado assim no que se refere à sua “arte”. Todas as artes lhe foram dadas, mas não numa forma imediatamente reconhecível; ele deve descobri-las pela aprendizagem. [...] A maneira adequada reside no trabalho e na ação, em fazer e produzir; o homem perverso nada faz, mas fala muito. Não devemos julgar um homem pelas suas palavras, mas pelo seu coração. O coração fala através de palavras apenas quando são confirmadas pelas ações. [...] Ninguém vê o que está nele escondido, mas somente o que o seu trabalho revela. Portanto, o homem deveria trabalhar continuamente para descobrir o que Deus lhe deu. (In: Mészáros, 2005).

Mészáros (2005) complementa:

De fato, Paracelso afirmava que o trabalho devia ser o princípio geral ordenador da sociedade. Ele chegou mesmo ao ponto de defender a expropriação da fortuna dos ricos ociosos, de forma a compeli-los a ter uma vida produtiva. Como podemos ver, a idéia de universalizar o trabalho e a educação, em sua indissociabilidade, é muito antiga em nossa história. É portanto, muito significativo que essa idéia tenha sobrevivido apenas como uma idéia bastante frustrada, dado que sua realização pressupõe necessariamente a igualdade substancial de todos os seres.

Pensar nessa construção como uma realidade dentro do contexto social vigente aparentemente pode ser algo utópico, considerando os postulados que alicerçam a ideologia neoliberal de economia de mercado que necessita de uma sociedade divida em classes para realizar o seu desiderato. Porém, não se pode pensar em trabalho sustentável sem que a perspectiva da sua universalização seja evocada.

A sustentabilidade do trabalho está condicionada a uma visão ampliada do próprio conceito de trabalho que implique em algo maior do que a simples condição de manutenção da sobrevivência, mas que o eleve à condição de auto-realização do ser humano, ao mesmo tempo em que também possa contemplar a satisfação das suas necessidades naturais e de inserção social, mantendo sua integridade física, mental e psicológica.

A profunda ligação entre trabalho e educação propicia a dimensão libertadora tão ansiada pelo homem, que o permite assumir de fato as rédeas do seu destino e valorizar a sua produção não apenas como algo passível de troca e remuneração, mas como uma contribuição para o progresso da humanidade.

Diante do exposto faz-se necessário abordar o trabalho sob os enfoques das disciplinas da Administração e da Ergonomia para, num primeiro momento, perceber em que pressupostos ele se alicerça nas duas visões, e posteriormente, em um estudo comparativo, identificar as diferenças dos enfoques e estabelecer suas convergências como fundamentação teórica para a pesquisa de campo a ser realizada. Assim tudo se inicia com a visão taylorista da organização do trabalho.