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4.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO SETOR VITIVINÍCOLA

4.1.1 Contexto do Setor no Rio Grande do Sul

4.1.1.1 Ambiente Competitivo

O mercado vitivinícola do Rio Grande do Sul possui na produção das uvas o seu ponto de partida. Atualmente, a produção é efetuada em aproximadamente quatorze mil propriedades de produtores rurais e a maioria é destinada para o processamento e elaboração de vinhos e derivados nas mais de 600 indústrias e cooperativas vitivinícolas localizadas no estado do RS. De acordo com o Diretor de Relações Institucionais do IBRAVIN, cerca de 25% a 30% do total produzido é comercializado no Rio Grande do Sul, o restante é majoritariamente vendido nos demais estados brasileiros, sendo uma pequena parte destinado à exportação.

A comercialização é realizada prioritariamente por meio do canal varejista que realiza a venda diretamente ao consumidor final em supermercados e lojas especializadas. Posteriormente emerge a figura dos distribuidores que comercializam os produtos por meio de representantes comerciais atendendo demandas regionalizadas. Outro importante canal são as

vendas diretas efetuadas por meio da crescente tendência do enoturismo. O entrevistado E1 apresenta a sua percepção na fala a seguir:

“[...] o enoturismo né, que é um canal importante, principalmente para as pequenas e médias empresas, não quer dizer que não seja para a grande também, porque elas têm atuado bastante nisso, mas principalmente, para as pequenas e médias têm sido um canal de comercialização muito interessante porque elimina intermediários e estabelece ganhos tanto pra quem visita, o consumidor, como para a própria vinícola que vende direto seu produto [...]” (Diretor de Relações Institucionais do IBRAVIN)

No que diz respeito à concorrência, verificou-se que no mercado interno brasileiro o Chile consiste no maior concorrente aos produtos vitivinícolas brasileiros, seguido por Portugal, Itália, Argentina e, por fim, a França, que juntos dividem a preferência do consumidor brasileiro. De acordo com o entrevistado E1 os sucos de uva não possuem concorrência de outros países pois o Brasil destaca-se muito na produção. No caso dos sucos de uva, a concorrência no Brasil se daria com os sucos de outras frutas como laranja e maçã e até mesmo, os refrigerantes.

Já a concorrência em nível internacional é travada junto aos principais players do mundo do vinho – França, Espanha, Itália, Alemanha e Portugal – que juntos dominam cerca de 60% da produção, exportação, importação e do comércio vitivinícola mundial. Acrescentam-se a estes Austrália, Nova Zelândia e Califórnia. No que diz respeito às estratégias concebidas pelas empresas do setor no enfrentamento da concorrência no mercado interno e externo, o Diretor de Relações Institucionais do Instituto Brasileiro do Vinho aponta algumas destas.

O enfoque na qualidade, diversificação e rotulagem dos produtos buscando inovar constantemente, é uma das estratégias. Muito embora o setor seja marcado por questões bastante tradicionais, algumas inovações como o sistema de fechamento screw cap, ou tampa de rosca, substituindo a costumeira rolha já acontecem. Outra estratégia bastante utilizada apontada pelo entrevistado é a utilização das identidades regionais providas por meio das indicações geográficas produtivas como qualificadoras e determinantes de diversas características da produção vitivinícola.

A Embrapa Uva e Vinho expõe detalhes acerca das definições de Indicações Geográficas de Vinhos do Brasil:

“O reconhecimento de Indicações Geográficas (IG) de vinhos brasileiros estabeleceu um novo capítulo da vitivinicultura nacional, valorizando produtos tradicionais de determinados territórios, possibilitando a proteção da região produtora e garantindo aos consumidores vinhos diferenciados, atendendo requisitos específicos de

produção de cada IG. As Indicações Geográficas identificam vinhos originários de uma área geográfica delimitada quando determinada qualidade, reputação ou outra característica são essencialmente atribuídas a essa origem geográfica. No Brasil, existem duas modalidades de Indicações Geográficas: a Indicação de Procedência (IP) e a Denominação de Origem (DO). A IP se aplica às regiões que se tornaram reconhecidas na produção de vinhos. Já na DO, os vinhos apresentam qualidades ou características que se devem essencialmente ao meio geográfico, incluídos os fatores naturais e os fatores humanos.” (Embrapa Uva e Vinho, 2018)

Ademais, a Indicação Geográfica traz como vantagens a organização coletiva dos produtores, o fomento à economia local e a ampliação do renome dos produtos da região, auferindo impactos na competitividade e aumento no potencial das atividades de enoturismo das regiões reconhecidas resultando no aumento das vendas diretas (EMBRAPA, 2018). Por fim, sintetizando, tem-se que a principal estratégia utilizada para o enfrentamento da concorrência no mercado interno, de acordo com o entrevistado E1, é a diversificação dos produtos ofertados, buscando diferenciar-se das demais vitivinícolas por meio de distintas variedades de uvas e lançamento de novos produtos.

Já no mercado externo, a principal estratégia apontada seria destacar o setor vitivinícola brasileiro na produção de espumantes, produto que vem recendo diversas premiações internacionais em importantes eventos do setor ao redor mundo. De acordo com o entrevistado E1, a estratégia ainda se encontra em fase de construção. No depoimento a seguir é explicado como está estruturado atualmente o cenário internacional de produção e comercialização de espumantes:

“[...] porque nos últimos anos a gente tem lá, 30, 35 países que são excelentes produtores de vinhos tintos por exemplo, certo?! Nós temos apenas quatro ou cinco países que são referências na produção de espumantes, então o número de concorrentes é menor e a nossa percepção já de qualidade, de preço é muito boa, melhor do que a dos vinhos, então por isso a estratégia da exportação seria focar muito, também, na venda de espumantes né.” (Diretor de Relações Institucionais do IBRAVIN)

Desta forma, percebe-se que o potencial do setor vitivinícola brasileiro em destacar-se no mercado externo mediante a oferta de um produto – espumante – com alta qualidade e com baixa concorrência em nível mundial é bastante favorável. Na contramão deste aspecto promissor, o entrevistado E1 expõe uma fragilidade estratégia existente na distribuição logística do setor que culmina no comprometimento da competitividade, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. Na percepção do Diretor de Relações Institucionais do IBRAVIN, o setor está ciente da urgência desta demanda classificando-a como um “gargalo muito forte”, mas ainda carece do estabelecimento de estratégias eficientes e realizáveis.

Por fim, de acordo com o mesmo, o setor até investe no desenvolvimento de algumas ações que vislumbram melhorar as questões de distribuição logística, mas não vem observando resultados, muito por conta da “produção econômica e da instabilidade política que o Brasil vive”, de acordo com o entrevistado E1. Segundo ele, outros países vitivinícolas possuem legislações e medidas de apoio bastante claras neste aspecto, o que não é observado no Brasil e dificulta a competição de maneira uniforme com o mercado externo.