OBSOLESCÊNCIA + ÁREA TECNOLÓGICA
2.4.2 Interpretação contratual
2.4.2.3 Ambiente de Demanda
A dimensão da TCT relacionada ao ambiente de demanda é a incerteza. Como anteriormente exposto, trata-se de incerteza primária, relativa às contingências externas as quais o ambiente no qual a transação universidade-empresa é realizada.
a) ambiente regulatório
Um dos conjuntos de condições pertinentes ao ambiente de demanda verificados junto aos TTOs refere-se a questões regulatórias de inovação (de base técnica, de propriedade e financiamento). Uma das visões que define o conceito de regulação é como um “instrumento do Estado, cujo uso representa uma ação externa ao sistema econômico” (CAMILO JUNIOR, 2018, p. 6), um “controle contínuo e focado exercido por uma agência pública sobre atividades que são valorizadas por uma comunidade” (SELZNICK, 1985, p. 363, apud CAMILO JUNIOR, 2018).
Esse conceito de regulação tem como características: a) uma natureza contínua, de modo que não basta a aprovação de leis e demais atos heterogêneos, mas fazem-se necessários conhecimento detalhado e envolvimento íntimo com a atividade regulada; b)
possui um caráter político, tendo em vista que qualquer atividade valorizada pela comunidade pode ser regulada; c) natureza estatal, pois é operacionalizada por agências públicas ou por delegação a agente privado (CAMILO JUNIOR, 2018, p. 7-8).
Em relação à regulação de base técnica (e.g. saúde humana, biodiversidade, sanitário etc.), verificou-se que esta não é uma condição relevante para o estabelecimento – ou não – de contratos TIT. As universidades Respondentes declararam que lidam com estas questões, mas as mesmas são barreiras superáveis na maioria dos casos. Não obstante, 28% (vinte e oito por cento) declararam que questões regulatórias chegaram a influenciar negativamente nos contratos.
De uma maneira geral, em um primeiro momento, as questões regulatórias aumentam os custos de transação, por inserirem incertezas no ambiente de demanda. No entanto, dada sua natureza contínua, é esperado que sua operacionalização venha a diminuir os custos com o passar do tempo, dado que passa a inserir uma nova segurança e estabilidade no ambiente, diminuindo a incerteza. É o que explica que estas não sejam barreiras impeditivas à TIT.
Por outro lado, se a política regulatória inserida no ambiente não se estabiliza com o tempo, permanecendo como uma fonte de incerteza, é possível que os custos transacionais tornem-se tão elevados que acabem por constituir uma barreira intransponível.
Em relação ao Escritório Nacional de Patentes, responsável pela regulação da propriedade da inovação, os Respondentes entendem que ele não é um elemento que tenha influência nos custos de transação, independentemente do tempo para a concessão do pedido de patente. Não obstante, esta constatação pode ser apenas uma parte da questão.
Considerando-se a Equação 1, tem-se que os custos de transação referentes à negociação e à elaboração de minutas x não é afetado pelo Escritório Nacional de Patentes. No entanto, deve-se dar particular atenção ao segundo termo da equação, referente à probabilidade de litígio entre as partes e seus consequentes custos.
O estabelecimento de litígio judicial envolvendo DPIs é possível após sua concessão pelo Escritório Nacional de Patente; anteriormente, é possível o estabelecimento de disputas de caráter administrativo. Dentro desta argumentação, pode-se inferir que quanto maior o tempo que o Escritório Nacional de Patentes ocupar para examinar e conceder tais direitos, maiores serão os custos envolvidos em eventual disputa judicial que venha a ser estabelecida. Deve-se considerar que, quanto maior o lapso temporal entre o
estabelecimento do contrato e o estabelecimento do litígio, maiores os ressarcimentos necessários para reparação de eventuais danos aos DPIs. Então, entende-se que para os contratantes é indiferente – em um primeiro momento – o tempo médio de exame e concessão de patentes; no entanto, em um momento ex post, as partes poderão vir a sentir o aumento dos custos no caso de eventual litígio.
Deve-se considerar que os custos transacionais para a sociedade também se elevam neste caso. Um maior tempo para o exame dos DPIs leva a uma maior incerteza no ambiente de demanda, o que virá a ser refletido ex post. Aliado a isso, deve-se também considerar que haverá aumento nos custos do judiciário para a resolução de eventual litígio, já que o lapso temporal levará à formação de uma disputa de maior complexidade.
Assim, identifica-se que, não obstante as universidades entenderem que a atuação do Escritório Nacional de Patentes não é uma condição relevante para o estabelecimento de contratações TIT, ex post haverá um aumento na incerteza e consequentemente nos custos de transação.
b) sistema jurídico e resolução de disputas
Foi possível inferir dos resultados que o sistema jurídico, dentro do qual foi implementado o sistema nacional de inovação do país sede, não é uma condição relevante para o estabelecimento de TIT. Universidades localizadas em países com sistemas legais totalmente diversos são capazes de estabelecer esse tipo de contratação – sendo ainda que os resultados numéricos não indicaram que um determinado sistema jurídico seja mais ou menos promissor que outro para facilitar tais transferências de conhecimento.
Cabem aqui algumas considerações acerca da inserção das universidades nos sistemas nacionais de inovação de seus países sede.
Considera-se que o Bayh-Dole Act norte-americano é o documento legal pioneiro na regulação do tratamento da propriedade intelectual acadêmica publicamente financiada, o que consequentemente facilitou as transações domésticas entre as universidades e as empresas. Uma das consequências organizacionais dessa legislação foi o fortalecimento dos escritórios acadêmicos de transferência de tecnologia naquele país.
Essa institucionalização foi observada em diversos outros países, também ecoando a legislação norte-americana. De acordo com a OECD (ORGANISATION..., 2011), os governos
de diversos países elaboraram uma série de reformas legislativas exatamente no sentido de moldar os DPIs nas organizações públicas de pesquisa – incentivando a criação de TTOs – pela revisão de questões como: a) reforma da legislação de propriedade intelectual, de forma a garantir à academia a titularidade das criações de seus pesquisadores (e.g. Áustria, Dinamarca, França, Alemanha e Noruega); b) alteração da legislação de financiamento público de ciência e tecnologia, garantindo às universidades a titularidade dos DPIs (e.g. Alemanha, Canadá, Reino Unido, Japão e Coreia do Sul); e c) reforma fiscal e/ou de relações empregatícias, de modo a garantir que as universidades possam receber e reter receitas advindas de comercialização dos DPIs (e.g. Reino Unido, Alemanha e Coreia).
No Brasil, foi a Lei de Inovação que regulou de forma clara o tratamento dos DPIs das universidades, sendo que a criação de NITs é um dos seus dispositivos legais, não obstante existirem discussões sobre a influência ou não (CRUZ; SOUZA, 2014) da legislação norte- americana sobre a brasileira. De toda forma, deve-se à Lei de Inovação a inserção da academia de uma forma institucionalizada no Sistema Nacional de Inovação.
Como apontado acima, independentemente do sistema jurídico vigente, os países ajustaram sua legislação de modo a permitir a comercialização de criações acadêmicas, sendo que tais reformas – ao refletir a necessidade de operacionalização de sistemas nacionais de inovação – acabaram por permitir que tal comércio seja também de natureza internacional 19.
No entanto, remetendo novamente à Equação 1, pode-se inferir que as reformas legislativas acima descritas têm influência notadamente nas questões relativas à negociação e elaboração de minutas contratuais x, sendo que os custos transacionais relativos a eventuais litígios não foram analisados.
Gani e Clemes (2016), em estudo sobre a força do sistema jurídico (sistema judiciário fraco, leis ambíguas e medidas coercitivas ineficientes), relativa a comércio exterior e serviços financeiros, reportam que a literatura identificou as seguintes condições de aumentos dos custos de transação relativos a litígios: i) dificuldades para cumprimento de contratos tendem a ser mais severas para transações entre um estrangeiro e um nacional,
19 Nas palavras de Mattei e Pardolesi (1991), ao comentar acerca da contribuição da análise econômica do direito – originária de países que adotam o sistema jurídico da common law – para países que adotam o sistema de codificação (romano-germânico), “economistas falam a mesma linguagem ao redor do mundo, enquanto advogados, divididos por barreiras políticas, encontram-se a maioria do tempo em um paroquialismo cultural.”
em relação a dois nacionais; ii) as cortes têm capacidade limitada de verificação das contingências contratuais devido à ausência de especialização dos magistrados; iii) favoritismo em relação às empresas nacionais.
Aqui as discussões entre o sistema legal e a adoção de diferentes tipos de resolução de disputas começam a se aproximar.
Foi demonstrado anteriormente que os custos financeiros – e também de transação – são crescentes na seguinte ordem quando da adoção de métodos de resolução de disputas: negociação, arbitragem, mediação e litígio judicial. Tendo isso em conta, 95% (noventa e cinco por cento) das universidades adotam a negociação como principal forma de resolução de disputas; arbitragem e mediação também são adotadas. A adoção de disputas judiciais ocorre em 26% (vinte e seis por cento) das Universidades. Com isso, 74% (setenta e quatro por cento) das resoluções de disputas dão-se fora do sistema judicial dos países (em princípio), o que diminui significativamente os custos de transação, particularmente os referentes às custas e erros judiciais (segundo termo do segundo membro da Equação 1).
Outras medidas adotadas pelas Universidades para diminuição dos custos de transação referem-se à legislação, idioma e território adotados para resolução de disputas: 85% (oitenta e cinco por cento) das Respondentes afirmaram que buscam sempre adotar a legislação, o idioma e o território nacionais das universidades. Somente em casos de específicos é que se adotam legislação, idioma e território da empresa contratante – sendo que antes desta opção, algumas preferem adotar território neutro. Esta constatação vai ao encontro do que foi reportado por Gani e Clemes (2016) em relação à preferência das cortes judiciais em relação aos demandantes (ou demandados) nacionais.