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Ambiente e Éticas no paradigma da responsabilidade radical

Penso que estamos vivendo, para além do padrão técno-cêntrico e objetificador ainda reinante, a entrada num novo prisma e cosmovisão, o paradigma ecológico, bioético, e dos novos tempos de busca de cultura de paz. Com certeza a história – tal como a natureza natural – muda constan- temente, e não vamos permanecer no atual estado crítico de coisas.

Estar ciente das grandes mudanças histórico-culturais e teóricas de nosso tempo é tarefa urgente da sociedade incluída e organizada – da Edu- cação. Torna-se evidente que a mais importante e atual tarefa socioambien- tal da ciência e das humanidades, dos incluídos e excluídos, são os desafios da Ética, do ethos (nossa morada naqueles quatro sentidos iniciais), a que responsabilidades somos chamados diante dos rumos pretensamente ine- xoráveis da intervenção técnica no capitalismo, presa à visão individualis- ta. É devido às intervenções catastróficas e imprevisíveis da racionalidade instrumental (pensamento meramente técnico), que a tradicional Ética se torna aos poucos “Bioética” (e aí dentro ou junto está o que chamamos “ética ambiental”), em vista dos dilemas humanos, socioambientais, dantes impensáveis. E é bem o tempo que parece começar a auto-analisar-se, a buscar sabedoria.

Por que defender os seres não-humanos? Por que deixar de intervir na essência humana, psicológica e biológica, genética, para transformá-la? Por que não levar a manipulação atômica a todas as suas possibilidades? Por que não desenvolver a indústria com todos os meios do progresso ma- terial ilimitado? Não somos nós deuses na terra a ser dominada? Por acaso a medicina moderna não irá curar todas as doenças?

São perguntas, hoje, obsoletas e ingênuas, além de perigosas e reve- ladoras de um tempo de crença positivista num certo progresso. Não obs- tante, continuam a ecoar em nossos paradigmas teóricos, guiando muito de nossas práticas científicas e modelos de organização social e institucional, onde discursamos e discursamos, mas emaranhados numa teia da acomo- dação. Porém, crescentemente, levanta-se a crítica, as alternativas éticas, filosóficas e institucionais diante da racionalidade técno-científica gerado- ra de um processo de desumanização e de dilapidação do ambiente.

Estamos pois no cerne dos desafios trazidos por um grande e novo paradigma, onde estão: a Ética Aplicada, ou a Filosofia Prática ou Ética Prática, e aí a Ética Ambiental, mormente sinônimos de Bioética. De algu- ma forma, cada uma atua mais ligada a certa área, como saúde e “ecolo- gia”, por exemplo. Contudo, não se pode conceber uma sem a outra e sem as interfaces implicadas. Pois as questões de saúde são ambientais, e as ambientais são de ordem bioética também, até porque tudo envolve econo- mia e justiça, e estas são a outra face da moeda ecológica. E não se pode concebê-las sem o movimento histórico de mudanças neste século e o ad- vento de inquietudes e transformações culturais, sociais e da subjetividade (o sujeito que nós pensamos ser, o drama humano no palco que chamamos dicotomicamente de Natureza).

Ecologia como novo paradigma não é apenas mais uma moda, pois evoca um movimento social e de consciência diante dos “franksteins” tec- nológicos produzidos pela técno-ciência, diante das vinganças somáticas e psíquicas produzidas pela própria tecnologia, diante das intervenções an- trópicas fragmentárias, simplificadoras e unilaterais no ambiente comple- xo e de alta interdependência chamado de Natureza (natural, construída, corporal e humana, visível e invisível), diante da resposta da natureza tor- nada “praga”, doenças, efeito estufa, seca, contaminação, efeitos colaterais (iatrogenia) e uma gama de reações frutos da artificialidade rápida do “pro- gresso”, em seus aspectos surpreendentes. Que novos efeitos esperar ?

A hipótese da bioética e ética ambiental como novo paradigma, o da era ecológica, no sentido que já o mentor do termo bioética (Potter) dava ao termo: “ética da Vida, união do homem com a ecosfera”, evoca o movi- mento do sopro e ânimo (alma) de um tempo, que tem nas mãos o destino da geração atual e futura, tempo que postula: a simbiose ou a barbárie ?! Não se trata apenas de tom “catastrofal”, mas de compreensão profunda do poder retido nas mãos de alguns senhores do destino apoiado por massas fascinadas. A economia de mercado pautada na noção de progresso ma- terial ilimitado e de intervenção humana sem pudores põe-se hoje como este fascínio, propogado como único modo civilizatório, como futurismo

técno-científico, onde todos, por fim, reencontrar-se-ão com seu sentido projetado dentro de um programa de computador que os guiam: a verda- deira “Matrix” disseminada, a nova mente chips que não precisa pensar, protestar ou sofrer por amor.

Neste trem, surge a questão dos Direitos humanos, surge o habitar sustentável na Ética ambiental (“ecologia”), tarefa a que a Educação é car- ro-chefe; surge a afirmação do feminino e da mulher, quiçá outro modo de pensar o civilizar-acolher humano, surgem os movimentos alternativos na medicina, os movimentos sociais, culturais, a arte contemporânea arreben- ta os padrões positivistas, a psicanálise deflora o Desejo e o Inconsciente para além das identidades maquínicas e objetificadas, a humanidade come- ça a gritar: um outro mundo é possível!

Sim, Ética e Bios como novo paradigma nada mais é do que o des- pontar do tempo, de reconhecimento de rumos tortos, interesseiros, dila- pidação do ambiente natural e construído, de ameaça à essência humana pela via cultural, mas também pela via biotecnológica, enfim, pela via da racionalidade instrumental – onde posso ser considerado um número, um código de barras ou genético, ou ser controlado em todos os meus passos e movimentos. Esta, sim, ousou tomar o ser humano por meio e apenas de uso em vez de fim e dignidade sagrada. Não digo que precisaria haver Deus para haver necessidade de ética ou bioética, mas, pelo menos, o reconheci- mento de que o nosso brincar de Deus tem produzido um apartheid social e ambiental sem precedentes, bem como reveses e “franksteins” sentidos por nós a cada dia, em nossa precária saúde, em nossa qualidade de vida.

Ser humano é ousar sim, avançar, progredir, crescer, não obstante, para onde e para quê? Para ser feliz? Tecnologia para ser feliz? Pílulas da felicidade? Quem é feliz, certamente, vive com amor ou sabe amar, e lutar. Por conseguinte, progresso verdadeiro é amar, é amizade, felicidade, so- lidariedade, usufruto da natureza equilibrada, alimentação adequada, vida sem estresse, ser humano respeitado e educado: aceitação do outro (res- ponsabilidade radical – de raiz - diante da alteridade2).

Questões finais

Como nossas instituições sociais, o que chamamos de ambiental, e a Saúde e a urbanidade, tem priorizado tais fins humanos? Que impacto tem em nossa consciência a precariedade exposta nos números das doenças da pobreza, e mais, das grandes doenças-poluições causadas pela riqueza, ou

 A característica de algo ser outro como outro de fato, escapando do meu ego e controles, e por isso mesmo tendo vida própria e direitos.

acumulação dela? Quais os direitos das gerações futuras? Somos máquinas nas mãos de empresários, médicos, engenheiros, biotecnólogos, políticos, ou seres “afetivos-simbólicos” culturais, sistêmicos e vulneráveis? Somos passíveis de melhoramento genético ou é melhor investir mais no progres- so humano-pessoal? Somos controláveis por drogas ou quem sabe precisa- mos mais é amar/ser amado e incluído? Nossos filhos podem ser cobaias? Alguém tem direito a nos fazer de cobaias para novas drogas? Nossos fetos podem ter apenas função de produzir tecidos ou peças? Devemos engolir transgênicos e “montes santos” “goela abaixo”? Qual o impacto econômi- co, ambiental disso tudo?

São apenas algumas questões de responsabilidades concretas do Bios e do Ethos, que evocam não apenas os imensos desafios que nos esperam, mas revelam o “espírito do tempo” da nova luta não-violenta, de uma pos- tura e olhar inadiáveis na humanidade, postura de defesa socioambiental, um paradigma pautado mais na ética do que no lucro, a compreensão do amor como sentido real e promotor da vida, uma verdadeira e integradora (pois é existencial e emocional também) racionalidade “bio-ética”.

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