1. PROTEÇÃO À SAÚDE E AO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO SAUDÁVEL E
1.1. DESCRIÇÃO CONCEITUAL DO DIREITO À SAÚDE E AO MEIO AMBIENTE DO
1.1.3. O meio ambiente do trabalho
Direito Ambiental e o Direito do Trabalho se entrelaçam na medida em que ambos buscam tutelar a qualidade de vida e a saúde do ser humano, mesmo que partindo de um controle de ameaças ao ambiente, ao meio em que vivem os cidadãos, incluindo seu local de trabalho, ambos alcançam a preocupação última de resguardar a existência digna de todos, e de prevenir todo tipo de dano à saúde e à vida dos seres humanos.
O Meio Ambiente do Trabalho, compreendido como o espaço onde o trabalhador permanece enquanto labora, abrange diversos elementos importantes para a proteção da saúde do trabalhador, incluindo as condições físicas e psíquicas de trabalho e as relações pessoais existentes nesse meio.
A definição abarca ainda a relação do homem com o meio (elemento espacial de viés objetivo) e a relação do homem com o homem (elemento social de viés subjetivo), formando uma dinâmica complexa de múltiplos fatores29.
Dessa forma, a proteção ao Meio Ambiente do Trabalho, no contexto mais amplo de defesa do Meio Ambiente, da qualidade e dignidade de vida, justifica-se uma vez que o homem médio passa a maior parte de sua vida produtiva no trabalho, que é o período da plenitude de suas condições físicas e psíquicas, por isso que normalmente o trabalho acaba por determinar o estilo de vida do trabalhador e de sua família30.
27 CAMARGO; MELO. ibid. p. 19.
28 Ibid. p. 18.
29 Ibid. p. 26.
30 CAMARGO; MELO. 2013. p. 29.
Além da compreensão mais ampla do meio ambiente do trabalho em seu aspecto espacial, é importante lembrar que a proteção constitucional do art. 225, caput, se estende da forma mais abrangente possível a todos os cidadãos31.
Portanto, não apenas assegurando um meio ambiente laboral hígido aos trabalhadores com carteira assinada, mas também a qualquer pessoa, homem ou mulher, que desempenha alguma atividade, remunerada ou não, celetista, autônomo, eventual, avulso, terceirizado, estagiário, voluntário, servidor público de qualquer espécie, enfim, todo ser humano que execute atividade profissional em qualquer tipo de ambiente, sob qualquer regime jurídico.
E mais, contribui para o melhor entendimento da extensão do termo a acepção de que, não apenas se inclui na ideia de Ambiente de Trabalho o local físico, mas as relações interpessoais que ocorrem no contexto laboral, assim como a maneira como o serviço é executado, os instrumentos e os procedimentos relativos ao trabalho e a maneira como o trabalhador é tratado pelo empregador, por seus superiores e por seus colegas.
Dessa forma, o conceito de meio ambiente do trabalho deve levar em consideração a pessoa do trabalhador e tudo que o acompanha no contexto laboral em sua jornada32 e que seja determinante para o seu bem-estar físico, psíquico e social.
Meio ambiente do trabalho e proteção à saúde do trabalhador, portanto,
instauram-se sobre um caráter indissociável, uma vez que o respeito ao direito ao meio ambiente do trabalho saudável e equilibrado implica prática defensiva do direito à vida – o mais básico alicerce dos direitos fundamentais da pessoa humana. Sendo assim, inexorável se apruma o direito ao meio ambiente equilibrado, como um direito fundamental – materialmente considerado – ligado ao direito à vida e ao completo bem-estar físico, mental e social do trabalhador. Este busca, na atividade laboral, o acesso aos bens de consumo, necessários para conservar sua vida, pelo que não se pode ignorar a ressonância direta do labor com o processo vital, haja vista que, para ocorrer o exercício do trabalho, o homem não pode perder a saúde, tendo-se em conta que, sem ela, o direito à vida não se sustenta.33
Foi em 1948 que o conceito de saúde estabelecido pela Organização Mundial da Saúde – OMS, deixou de ser apenas a ausência de doenças para representar o estado completo de bem-estar físico, mental e social. Em consonância
31 MELO. Ibid. p. 29.
32 Idem.
33 ALVARENGA, 2017. p. 73.
com esse entendimento, a concepção do meio ambiente do trabalho inclui todos os fatores psicológicos, físicos e sociais que interferem no bem-estar do ser humano.
Além dos dispositivos normativos do ordenamento pátrio, a proteção legal ao Meio Ambiente do Trabalho está lastreada principalmente em normas internacionais criadas pela Organização Internacional do Trabalho – OIT. A OIT é a agência internacional especializada em promoção da Justiça Social e reconhecimento de direitos humanos dos trabalhadores. Criada em 1919, pelo Tratado de Versalhes, funda-se no princípio de que a paz universal e permanente só pode se basear na justiça social e tem como missão promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter acesso a um trabalho decente e produtivo, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade34.
O “trabalho decente”, conceito formalizado pela OIT em 1999, ante os desafios impostos pela globalização econômica, sintetiza a sua missão histórica de promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter um trabalho produtivo e de qualidade, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas, sendo considerado condição fundamental para a superação da pobreza, para a redução das desigualdades sociais, para a garantia da governabilidade democrática e para o desenvolvimento sustentável.35
Seus mais de 400 atos normativos, entre convenções e recomendações, formam o chamado Código Internacional do Trabalho. Esse aparato normativo não se trata exatamente de um Código legislativo tradicional, uma vez que suas normas existem no sistema jurídico nacional de cada um dos Estados-membros à medida em que as convenções vão sendo ratificadas e as recomendações vão sendo submetidas ao poder legislativo para tratar da matéria nos moldes legais que melhor entender36. Portanto, uma das principais atribuições da OIT é promover a universalização da Justiça Social, através do incentivo do maior número de adoções às suas normas trabalhistas pelos sistemas jurídicos de cada país.
Existem muitas convenções da OIT tratando especificamente da proteção à saúde do trabalhador, como por exemplo as de nos 115, 119, 120, 127, 136, 139, 148, 152, 155, 161, 162, 167, 170, 174 e 176, elas trazem normas relativas à proteção da integridade física, saúde e segurança do trabalhador em diversas áreas
34 Retirado do site da OIT. Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/conheca-a-oit/lang--pt/index.htm>. Acesso em: 25/07/2019
35 ALVARENGA, Rúbia Zanotelli de. Direito internacional do trabalho. São Paulo: LTr, 2019. p. 136.
36 SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho. São Paulo: LTr, 2000. 3. ed. p. 181. E-book.
profissionais, como indústria, escritórios, construção e mineração etc. Essas normas também regulamentam a exposição do trabalhador a materiais de maior risco, como agentes radioativos, cancerígenos, materiais pesados e sua manipulação, químicos e o amianto.
Merece destaque especial a Convenção nº 155 (complementada pela Recomendação nº 164, ambas de 1981), conhecida como a Convenção sobre Segurança e Saúde dos Trabalhadores, ela normatiza as conclusões dos estudos, investigações e experiências do Programa Internacional para Melhorar as Condições de Trabalho e Meio Ambiente de Trabalho – PIACT, realizado em sintonia com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA37.
A Convenção sobre Segurança e Saúde dos Trabalhadores, nº 155, foi promulgada pelo Decreto nº 1.254, de setembro de 1994, ela se aplica a todas as áreas da atividade econômica (inclusive a administração pública), e a todos os trabalhadores das áreas de atividade econômica abrangidas (inclusive os funcionários públicos). A Convenção nº 155 estipula que o país que a ratificar deve adotar uma política nacional de prevenção aos acidentes e danos à saúde consequentes do trabalho, relativos ao trabalho ou que se apresentarem durante o trabalho, além da redução ao mínimo das causas dos riscos inerentes ao meio ambiente do trabalho. Essa política nacional deve ser implementada no nível nacional e no nível de empresa, assim exigindo medidas tanto dos governos quanto dos empregadores nos países em que for implementada.
1.2. O MEIO AMBIENTE DO TRABALHO COMO DIREITO HUMANO